O triunfo da esquerda

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O triunfo da esquerda

Yuli Tamir     24/3/02

Nos últimos meses, ouvimos repetidamente que a esquerda israelense desapareceu. Em pesquisas de opinião pública, menos de 20% da população judaica se auto-identifica como de esquerda, 17% como de centro e mais de 50% como moderados ou de extrema direita. Dizem-nos estarmos testemunhando um total colapso conceitual. 

Um exame mais profundo da atitude do público mostra que o caso é o oposto: o caminho da esquerda triunfou e a direita ideológica perdeu seu rumo. O coração do novo consenso israelense bate do lado esquerdo. Se definirmos a esquerda política por meio de quatro postulados – disposição para o estabelecimento de um Estado palestino; retirada de partes significativas da Judéia, Samária e Gaza; evacuação de uma grande parte dos assentamentos, e um compromisso em Jerusalém – e se examinarmos o apoio popular a essas idéias, encontraremos que ele atinge entre 60% (aqueles que apóiam um estado palestino e a evacuação de alguns assentamentos) e 35% (aqueles que defendem um compromisso sobre Jerusalém) da população.

A mais surpreendente estatística se refere às posições da direita israelense. Uma pesquisa conduzida pelo Market Watch, cujos resultados foram publicados pelo diário Ma’ariv, mostra que 45% daqueles que se auto-definem como direitistas apóiam o estabelecimento de um Estado palestino e a evacuação de alguns assentamentos.

Não menos surpreendente é o fato de que o direito de retorno de alguns dos refugiados é apoiado por 20% da população e por 9% dos direitistas, e apoio a negociações sob fogo atinge 48% da população e 13% da direita. Esses dados mostram que um dos problemas da esquerda israelense é a quase completa dissolução da direita ideológica.

O consenso israelense de hoje esposa atitudes que o Partido Trabalhista não ousava levar adiante antes de Camp David e que a organização PAZ AGORA hesitava adotar apenas alguns anos atrás. Esta situação deixava o público israelense confuso. Na medida em que os parâmetros para a luta política foram definidos pelos termos: “Grande Israel” vs “compromisso territorial e Estado palestino”, a ordem prevaleceu e o debate pôde ser compreendido por todos. Hoje, quando a idéia do Grande Israel faliu, a diferença entre os focos da direita e da esquerda está em nuances.

Estar na direita é estar abertamente com raiva dos palestinos, acreditar que a verdadeira face de Yasser Arafat’s foi exposta em Camp David, desejar “bater” os palestinos com toda vontade – e apenas então fazer o que a esquerda está propondo. Estar na esquerda é ficar com raiva em intimidade, sustentar que em Camp David ambos os lados fizeram erros fatídicos, manter a visão de que existe com quem dialogar e que uma pressão militar que cause o desmantelamento da Autoridade Palestina trará como conseqüência um ciclo de violência sangrenta que tornará impossível um acordo futuro.

Nessas circunstâncias, a posição da direita está tomando um desenho inédito. Não é nada difícil persuadir uma população, que está levando sua vida entre um funeral e o próximo, de que o outro lado não deseja a paz, que Israel ofereceu o máximo em Camp David e foi rejeitado, e que agora não há escolha, mas apenas manter a opção militar. Um novo consenso social está assim emergindo baseado na premissa de que apenas a força brandida pela direita levaria ao compromisso que está sendo proposto pela esquerda.

Esta é a base do apoio ao primeiro-ministro Ariel Sharon, que se propõe a representar a nova direita, que conduziria a dolorosos compromissos, após um ainda mais doloroso confronto militar. Essa base, porém, se tornou instável por duas razões. Primeiro, Sharon nunca deu motivo a ninguém para acreditar que sua posição sobre retirada dos territórios, desmantelamento de assentamentos e compromissos sobre Jerusalém se conforma aos novos valores universais israelenses. Segundo, a deterioração da situação de segurança põem em dúvida a eficácia militar e política do “golpe doloroso”.

Uma análise das ações de Sharon mostra que, como o apoio dos ministros do  Partido Trabalhista no gabinete e a cobertura que eles podem oferecer, o governo Sharon se distingue na construção em massa e apoio aos assentamentos, recusa total em evacuar os “postos avançados” [outposts] dos colonos, que continuam aparecendo por todo lado, instalando postos de controle que põem em perigo a vida dos soldados que os operam, e atividade militar que não é limitada a prevenção mas inclui também humilhação e que está agoniando Yasser Arafat e todo o povo palestino.

Existe um temor bem fundado de que, quando o plano de fases de Sharon estiver completado, descobriremos que o compromisso político desejado pela maioria da nação não será mais possível. Os assentamentos estarão nos amarrando à “Grande Terra de Israel” e a Autoridade Palestina estará sendo completamente erodida, perdendo controle do terreno e a capacidade de atuar como interlocutor.  Ódio e dor dominarão ambos os povos.

A vasta maioria que acredita que a necessária solução política inclui um estado palestino, retirada da maioria dos territórios, evacuação da maioria dos assentamentos e um compromisso sobre Jerusalém deve ignorar rótulos políticos sem valor e exigir que o primeiro ministro e seu gabinete parem de se esconder atrás de ações militares, revelem seus objetivos políticos e expliquem como o que eles estão fazendo está tornando mais próximos esses objetivos. Se eles se recusarem a isso, a suspeita crescerá  de que o desejo esboçado pelo governo israelense – uma  “limpeza dos territórios ocupados” seguida pela “disposição para dolorosas concessões” – é dirigido a suavizar a oposição popular a uma série da ações militares que terão o propósito de frustrar uma futura mudança política. Se esta suspeição se mostrar correta, esta será uma das mais perigosas manobras políticas de distração da opinião pública na história de Israel – uma atitude capaz de conduzir à destruição de Israel como Estado judeu democrático.

Yuli Tamir foi ministra da educação e uma das fundadoras do PAZ AGORA

[ publicado no Haaretz em 24/3/02- tradução de Moisés Storch para o PAZ AGORA|BR  ]


 

cooperação econômica

Progresso na Cooperação Econômica Israelense-Palestina

Após 3 dias de conversações com a União Européia em Bruxelas, autoridades econômicas israelenses e palestinas formularam propostas para estimular as economias de ambos os lados. As delegações se reuniram num encontro organizado pela Fundação Konrad Adenauer e o IPCRICentro Israelense-Palestino para Pesquisa e Informação (http://www.ipcri.org). O grupo de trabalhos econômicos recomendou que Israel forneça “esquemas estritos mas simples de intercâmbio” para que trabalhadores e homens de negócios palestinos entrem em Israel e assegurem a movimentação de investidores e compradores israelenses no Parque Industrial de Karni na Faixa de Gaza.  Israel também recebeu a solicitação de substituir cerca de 25.000 trabalhadores estrangeiros atualmente empregados na agricultura e construção por palestinos de Gaza, assim como faciliTar o movimento de bens e passageiros licenciados palestinos para Israel, Jordânia e Egito, assim como entre a Faixa de Gaza e a Cisjordânia. As delegações disseram que uma vez cessada a violência, Israel deveria providenciar um imediato esclarecimento e reembolso de taxas e impostos coletados.

Foi a quarta vez que as delegações se encontraram desde outubro. Também na última semana, Israel e seus vizinhos árabes se sentaram à mesma mesa em Toledo, Espanha, para discutir o crescimento do comércio com a União Européia, ao invés do conflito do Oriente Médio. Israel, Autoridade Palestina, Síria, Líbano, Egito e Jordânia enviaram delgações à sessão. A União Européia, onze países mediterrâneos, e a Autoridade Palestina esão unidos no grupo EuroMed, lançado em 1995 para estimular a integração econômica entre as duas regiões. Síria e Líbano boicotaram o encontro de Ministros do Exterior da EuroMed na França em 2000, mas retornaram ao forum no ano passado. (Globes & Jerusalem Post, 20/3/02 & Reuters, 19/3/02)


Zona Industrial de Erez Pode Quebrar 

Empresários israelenses e palestinos e industriais da Zona Industrial de Erez estão preocupados que ela possa “quebrar”. A zona se localiza próximo ao posto de controle de Erez, em território israelense ao lado da Faixa de Gaza, e sob controle israelense. 4.500 palestinos residentes em Gaza estão empregados em indústrias de propriedade israelense e palestina na Zona.

Erez é considerado o único exemplo de sucesso de uma zona industrial conjunta, em contraste com a Zona Industrial Karni, onde o controle conjunto palestino afastou investidores israelenses. O exército israelense fechou Erez por 4 dias recentemente para operações de segurança na área. Depois, uma produção limitada e a entrada de trabalhadores palestinos foi permitida. Erez foi reaberta, mas investidores israelenses temem que medidas similares possam se repetir no futuro. Conseqüentemente, alguns deles estão considerando realocar suas operações no exterior.

O coordenador dos empresários palestinos em Erez, Kamal Abed disse que “As restrições na área estão ameaçando a zona industrial. Mesmo que tenha havido apenas poucos ataques terroristas em Erez desde o início da Intifada, ela nunca foi completamente fechada, exceto por algumas horas. O precedente da última semana fez com que as pessoas começassem a pensar duas vezes antes de investir aqui. Da próxima vez, a Zona poderia ser fechada por um mês.” (Globes, 21/3/02)

 

 [ traduzido pelo PAZ AGORA|BR ]

 


  

ocupação

O Dever do Retorno:     Yigal Sarna   19/3/02

O próximo junho marcará 35 anos de ocupação.  Aquilo que originalmente suposto seria uma visão de redenção bíblica, um empreendimento de retorno às origens da alma judaica, uma messiânica retomada do estabelecimento do estado sionista – de três milhões de judeus povoando os cumes da Judéia e Samária – se tornou uma paródia letal. Muito poucos, milhares ou algumas dezenas de milhares, se mudaram para lá depois de 1967 por força dessa visão.

Outros, muitos deles, foram empurrados para lá, como resultado de uma deliberada falta de moradia e a procura por um imóvel de subúrbio de prestação baixa com vista  para as quatro direções. Muitos “Haredim” foram transportados para as cidades de cume das colinas cujos guardiões lhes construíram, e novos imigrantes foram empurrados para lá por falta de outros meios.

 

Foram para lá e caíram na armadilha. Foi assim que os projetos de habitação sustentados pelo governo foram construídos nos territórios. A reconstrução de um ghetto entre multidões de gentios, um enclave espalhado por território do tamanho de uma cidade média, que abrange trabalhadores do estado e zelotas religiosos armados, os residentes de subúrbios de telhados vermelhos e pastores messiânicos, fabricantes de queijo de cabra e agressores armados.

A maioria absoluta deles é dependente da Israel da Linha Verde, vive de seu orçamento, é protegida por seus filhos. Eles estão preocupados com os insolúveis problemas dos carros a prova de balas, construção de paredes a prova de balas, cercas eletrificadas e portões intransponíveis. Mais difícil de tudo é que sua presença ali impede qualquer chance de acordo ou calma.

Os acordos de Oslo, que eles odeiam, foram alinhavados para atenderem suas necessidades e dimensões, e falharam como resultado. Nos anos em que os acordos foram honrados, suas vidas melhoraram tremendamente, e eles gozaram de tranqüilidade. As estradas de contorno se expandiram, e cortaram o território vizinho em um milhar de parcelas de paisagem até que os simples palestinos se tornaram fartos de sua situação  e de sua liderança corrupta, que os levou àquele acordo que viu apenas uma minoria enriquecer. Com o colapso de Oslo no outono de 2000, o preço da presença dos colonos nos territórios se tornou insuportavelmente alto para ambos, eles e nós. Centenas de israelenses assassinados, vida em constante ansiedade e dezenas de bilhões de shekels em troca do que ?…

A grande contribuição do empreendimento da colonização, assim como a cabra na piada da pequena casa, será a sua remoção. A possibilidade de receber, em troca do retorno dos colonos para suas casas dentro de Israel, a concessão palestina sobre seu direito de retorno  será assinalada a seu crédito nos livros de História e poderá cobrir o preço em sangue e dinheiro que sua presença ali nos tem custado, no coração da terra de nossos vizinhos. Agora não se trata mais do direito de retorno dos colonos, mas sim do ser dever, do dever dos colonos retornarem.”

 [ publicado no Yedioth Ahronoth em 19/3/02- tradução de Moisés Storch para o PAZ AGORA|BR ]

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