Avraham Burg – um judeu protestante

Pelo retorno do sionismo religioso ao praticado pelos que participaram da fundação do Estado de Israel

Avraham Burg - "Os dias que virão

Avraham Burg – “Os dias que virão”  – Uma autobiografia que também conta a história do Estado de Israel e preconiza a retomada do lado universalista  e humanista da religião

Livro: “Hinê Yamim Ba’ím” [Os dias que virão]

Autor: Avraham Burg;

Editora: Kinneret Zmora-Bitan Dvir Publishing (hebraico);

285 páginas;  69 shekels

O novo livro de Avraham Burg “Os dias que virão” (tradução livre para o título que acaba de ser publicado em Israel) , combina ideologia, política e autobiografia. Ainda que as posições políticas de Burg sejam bem conhecidas do público israelense, algumas verdades têm que ser repetidas. A aspiração do autor por apresentar uma visão consistente e completa da esquerda em Israel é importante num momento em que a esquerda – em Israel e qualquer outro lugar – está lutando para propor uma alternativa à ordem existente.

Por outro lado, a visão política de dois povos coabitando esta terra é importante num tempo em que a política oficial do governo de Israel é a de preservar indefinidamente  a sombria situação atual.

Burg gostaria de ver um país onde todos os cidadãos tivessem igualdade total de direitos. E dois Estados nos quais dois povos, judeus e árabes, pudessem conquistar a autodeterminação.

Entretanto, contrariamente a devotos da separação, tanto na direita quanto na esquerda, Burg fala em termos de dois Estados vivendo numa confederação. Nesta fórmula, não se permitiria que a fantasia do “nós estamos aqui, eles estão ali” perpetuasse o conflito. Uma verdadeira cooperação entre os dois povos criará as fundações para uma realidade nova.

Burg entrelaça os seus pontos de vista ideológicos com a sua história pessoal. Uma biografia baseada em Jerusalém, “Os Dias que Virão”  se insere numa série de trabalhos, adicionando uma nova peça a Jerusalém enquanto mosaico de comunidades diversas, como as autobiografias dos escritores Amós Oz (“Um Conto de Amor e Escuridão” – traduzido para o português) ou Haim Be’er (“The Pure Element of Time”).

A. Burg, após se afastar da política partidária, escrevia uma coluna semanal no Yediot com a interpretação semanal de trechos da Torá
A. Burg, após se afastar da política partidária, escrevia semanalmente uma coluna no jornal Yediot Achronot, com interpretações de trechos da Torá

Não obstante, Burg – que como eles cresceu no centro de uma Jerusalém provinciana antes de 1967 – filho de Yosef Burg, um dos principais líderes do movimento sionista religioso à época da fundação do Estado, oferece uma experiência singular e uma voz diferenciada no emaranhado de ideologias que cerca Jerusalém.

Esta lista inclui também o interessante “Red Yellow Black” publicado em 2004 por Haim Baram, que também cresceu no centro de Jerusalém, também é filho de um político e igualmente se distanciou da doutrina política em que se criou.

Poderíamos também cruzar o limite municipal e mencionar a excelente autobiografia de um líder e ativista palestino, o professor Sari Nuseibeh, “Once Upon a Country: A Palestinian Life”, que mostra uma história pessoal de amadurecimento que se torna um credo político.

Outro exemplo é a recente memória de Haim Sabato “Beshafrir Hevyon”, sobre um imigrante novo do Egito que foi criado no campo de trânsito de Beit Mazmil (atualmente o bairro de Kiryat Hayovel), em Jerusalém. Sabato, como Burg, cursou o segundo grau na yeshivá (escola rabínica) Netiv Meir, mas a maneira como experienciaram esses anos de formação foram radicalmente diferentes, do que decorreram os caminhos ideologicamente divergentes que cada um deles seguiu. Hoje, Sabato dirige uma yeshivá na Cisjordânia.

Os primeiros capítulos do livro de Burg, que recontam sua adolescência, a vida em família e seu tempo em Netiv Meir estão entre os melhores. São marcados por uma voz pessoal, com a qual é fácil se identificar. Particularmente para leitores que viveram uma linha educacional similar e também se sentiram alienados das vozes dominantes do mundo sionista religioso no século XX.

Neste sentido, a história de Burg é, também, a narrativa de uma geração no movimento sionista-religioso. A diferença é que, enquanto a maior parte de sua geração (ele completou 60 anos em janeiro deste ano) rebelou-se contra o conservadorismo dos pais juntando-se ao movimento messiânico de colonos, Burg rebelou-se contra o pai através de sua atividades no PAZ AGORA (do qual foi um dos fundadores) e da luta para separar a religião do Estado.

Avraham Burg desviou da trilha ideológica do pai. A despeito das observações respeitosas sobre o velho Burg  no livro, é perceptível nas entrelinhas a existência de questões não resolvidas entre pai e filho – desentendimentos inter-geracionais, um amor que nem sempre encontrou o jeito certo de se manifestar e uma raiva do sóbrio conservadorismo paterno, que estava distante dos valores do filho.

Raízes Iluministas

Mas Burg vai além disto: Ele tenta contar sua história pessoal e, através dela, a história de Israel, como um todo. No judaísmo yekke (alemão) do seu pai, o filho descobre um tesouro oculto. O público israelense em boa parte desprezava o judaísmo alemão. Aos olhos dos sionistas seculares originados na Europa Oriental, os judeus alemães eram muitas vezes vistos como um ramo assimilado da nação, enquanto os sionistas-religiosos viam o “estilo yekke” de judaísmo como um reformismo superficial e exaurido.

Burg escolheu locar suas raízes precisamente na Haskalá (Iluminismo) dos judeus alemães. Ele elogia o chamado deles a distinguir entre um judeu em seu domínio privado e um ser humano como qualquer outro no mundo exterior. Enquanto círculos religiosos interpretavam esta separação como expressão da vergonha pelos judeus assimilados de assumir sua judeidade, Burg expõe sua visão de mundo como expressão de um profundo conhecimento da existência de valores universais. E que, neste respeito, a exteriorização das diferenças entre as pessoas não tem importância.

A idéia da religião enquanto opção individual e não como assunto da comunidade ou do reino, é central no liberalismo ocidental. E Burg proclama a existência dessas raízes eloquentemente, quando se descreve com “um judeu protestante”.

Este é um ponto complexo. Pós-colonialistas poderiam argumentar que os valores que ele percebe como universais são imaginários, que de fato são valores europeus e cristãos, e que a verdadeira igualdade deve deixar espaço, também, para a expressão total das identidades particulares no domínio público. E não forçá-los a se limitar ao âmbito privado.

Burg identifica a aspiração pelos valores universais no jovem Estado de Israel. Para ele, a abordagem de David Ben-Gurion, voltada para a construção do Estado, que predominou nos primeiros 19 anos do país, e o estilo ‘yekke’ do sionismo religioso do seu pai, revelaram a crença de que a identidade judia não deveria ofuscar uma identidade humana e os valores universais.

Em seu polemizante livro anterios, Burg critica a instrumentalização do Holocausto por líderes da direita israelense

Em seu polemizante livro anterior, Burg critica a instrumentalização do Holocausto por líderes da direita israelense

Deste ponto de vista, Burg mostra uma dicotomia que caracteriza muitos da esquerda israelense. Estas pessoas querem “salvar” Israel, demarcando 1967 como o divisor de águas, antes do qual Israel era somente um Estado ou, ao menos, um país passível de correções, enquanto após isto tornou-se algo completamente diferente.

Após a Guerra dos Seis Dias, o movimento sionista-religioso desviou bruscamente para a direita e redefiniu seu ethos pioneiro. Em vez dos valores universais coexistindo com a religião e o judaísmo secular, as tendências messiânicas totalitárias tornaram-se o elemento dominante. A abordagem de Burg chama a atenção para as diversas e contraditórias vertentes que existiam no movimento sionista.

Entretanto, para chegar às raízes profundas da questão da identidade israelense, precisamos voltar para períodos mais remotos, para o encontro das comunidades judaicas – no Leste e no Oeste – com a modernidade. Do fermento ideológico na Europa Oriental do início do século XX, às primeiras ondas de imigração para a Palestina e à posterior imigração em massa pra Israel nos anos ’50.

Este livro pode ser visto como a jornada de Burg para se reconciliar com o pai. Ele apresenta seu movimento de afastamento do sionismo-religioso clássico como uma reconexão com as intenções originais do movimento.

Foi o Gush Emunim (“Bloco da Fé”) – movimento pós-Guerra do Yom Kipur que capitaneou os assentamentos nos territórios ocupados – que se distanciou do sionismo-religioso, enquanto Burg estaria continuando no caminho do pai – um judeu alemão que apreciava as conquistas da cultura européia e era fiel aos valores universais, ainda que insistisse na preservação de sua identidade religiosa na forma tradicional.

Esta abordagem, que vê o judaísmo alemão com uma versão de sucesso da identidade judaica, marca também os capítulos seguintes. Burg descreve suas visitas aos Estados Unidos e Europa e articula a sua jornada pessoal em direção a um entendimento melhor com as comunidades da Diáspora.

Ele vê a União Européia como presságio de um mundo novo. E a capacidade da Europa de superar o banho de sangue do passado e forjar uma nova realidade multicultural, como uma fonte cardinal de esperança. O seu pai, escreve, era um europeu multicultural e poderia ter seguido o mesmo caminho, “não fosse por aquela guerra execrável e este país, que sofre de uma metástase da Segunda Guerra Mundial”.

Burg aponta certas observações, feitas a ele por seu pai em seus últimos anos, como um acordo tácito com as opções políticas do filho, tentando construir uma ponte para uma identidade judaica alternativa e negligenciada.

Na atual realidade paralisante de Israel, precisamos de alternativas. Tanto quanto precisamos do ar que respiramos.

 

O autor, Yaad Biran é pós-graduando no Departamento de Língua Ídish da Universidade Hebraica de Jerusalém.
[ publicado no Haaretz em 07|11|2015 e traduzido por Moisés Storch para o PAZ AGORA|BR ]
                                        + AVRAHAM BURG
+ YOSEF BURG
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