Ver: Amor

 

“VER: AMOR”
(Segundo relato da viagem a Jerusalém. Leitura só para os fortes)

As emoções e o aprendizado prosseguem. Hoje pela manhã, visitei o Museu do Holocausto (Yad Vashem), guiado pelo inteligente, sensível e generoso historiador e pesquisador sênior da instituição, Avraham Milgram, o “Tito”, organizador dos “Fragmentos de Memórias” escritos pelos veteranos do movimento juvenil sionista-socialista Dror, fundado em 1945.

 

A arquitetura do museu e a disposição do acervo nos conduzem a uma via dolorosa entre as múltiplas violências perpetradas pelo Nazismo contra os judeus europeus (mas também contra homossexuais, comunistas, socialistas, deficientes físicos e ciganos: os documentos lá expostos não deixam dúvidas sobre isso!) desde a ascensão de Hitler, em 1933, até o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945. Não há ser humano que mereça ser assim chamado que não desmorone ante a banalidade do mal ali representada.

O abismo vertiginoso que reflete as fotografias das vítimas fatais do Nazismo suspensas em espiral ascendente, mas também a imagem dos visitantes que se debruçam sobre ele (o abismo do mal pode nos envolver a qualquer momento, seja como suas vítimas, seja como seus perpetradores, caso não fiquemos atentos, o que mostra que o Holocausto não é um problema só dos judeus, mas de toda Humanidade); e a sala de espelhos que multiplica em milhões as luzes de velas, simulando uma constelação de estrelas enquanto ouvimos os nomes das crianças judias mortas em guetos e campos de extermínio foram os momentos mais emocionantes da visita.

Avraham Milgram, crítico corajoso das políticas de Nethanyahu e da direita israelense em relação aos palestinos e seus territórios ocupados por assentamentos de judeus, disse-me, com sua voz doce e professoral, que o povo judeu, vítima de tamanha atrocidade, não tem o direito de ser insensível às violências perpetradas pelo governo de Israel contra os palestinos.

Universidade Hebraica de Jerusalém
Jean Wyllys na Universidade Hebraica de Jerusalém

Quando recebi o convite para palestrar na Universidade Hebraica e cumprir uma programa de atividades em Jerusalém, uma das minhas sugestões foi a de que me encontrasse com o escritor David Grossman, um dos intelectuais judeus cujas obras contribuíram para minha formação. Meus anfitriões o consultaram e ele aceitou prontamente, para minha felicidade. Ensaísta e romancista, Grossman se opõe veementemente à ocupação dos territórios palestinos, à gritante desigualdade entre judeus e árabes no acesso a políticas e equipamentos públicos de saneamento básico, saúde, educação, moradia e segurança e à postura belicosa do governo Nethanyahu em relação às reivindicações árabes.

Nossa conversa durou pouco mais de uma hora, mas foi o suficiente para mostrar que nossas afinidades vão além da literatura. E, sim, eu confessei que seu romance que mais me encantou foi “Ver: amor”. Grossman se disse um “homem dialógico”, que acredita no diálogo – por mais difícil e demorado que este possa ser – como o meio mais eficaz de solucionar conflitos. Segundo ele, pelo diálogo, palestinos e judeus podem escapar da catástrofe pra qual pretendem levá-los a violência e a burrice dos líderes políticos da direita e dos fanáticos religiosos israelenses e palestinos.

Para Grossman, Nethanyahu manipula com desonestidade intelectual o trauma que pesa sobre os judeus e leva a maioria deles à insensibilidade em relação à violência das ocupações dos territórios palestinos. Segundo o escritor, os palestinos estão completamente destruídos depois de várias ocupações (pelo Egito, pela Turquia, pela Jordânia e, por último, por Israel, cujo governo Nethanyahu tem sido particularmente eficaz nessa destruição).

Mas Grossman também repudiou veementemente o terrorismo palestino dirigido a civis israelenses, embora não pense em deixar Israel por conta disso. “Israel é um paliativo para a interminável busca dos judeus pela Terra Prometida, busca que é constituinte de sua identidade cultural”.

LUTANDO PELO FUTURO DE ISRAEL

Amós Oz e David Grossman: Lutando pelo futuro de Israel – PAZ AGORA

Para ele, vale a pena lutar por Israel – não com armas, mas com diálogo e amor, em que palestinos e judeus possam ceder um tanto em nome da justiça social e da paz. Saí dessa conversa ainda mais encantado por Grossman e certo de que a Companhia das Letras, nossa editora, possa nos reunir de novo em outubro próximo no Brasil.

Depois da visita ao museu e antes do encontro com Grossman, encontrei também com representantes do FFIFP, organização que faz parte do BDS (campanha de “boicote” contra Israel). Conversei com eles porque, embora eu seja contra o boicote (como Grossman e Milgram também o são!), queria ouvir seus argumentos. Eu sempre tento atuar com discernimento, ouvindo diversas opiniões e consultando diversas fontes de informação.

Contudo, se a minha disposição era ouvir, a deles era me “ensinar” aquilo que eles achavam que eu não sabia e me mostrar que eu estava sendo “ingênuo” e ouvindo apenas “o outro lado”. Primeiro preconceito: a subestimação. Segundo: todos os representantes da comunidade judaica (tanto brasileiros quanto israelenses) com os quais conversei nesses dias falaram contra a ocupação dos territórios palestinos, contra (e muito críticos do) governo Netanyahu e a favor da solução dos dois estados, inclusive no debate na Universidade Hebraica de Jerusalém. Terceiro preconceito: eles achavam que, por ser homossexual, eu seria influenciado pela “propaganda” de Israel, que eles chamam de “lavagem rosa”, que supostamente busca seduzir lideranças LGBT mostrando que o país tem políticas de igualdade de direitos, para que apoiem seu governo e sejam “contra” os palestinos. Quanta teoria da conspiração e quanto desrespeito a nós, LGBTs!

Eu ouvi e depois falei a minha opinião. E acho que consegui convencê-los, em primeiro lugar, de que parte da esquerda precisa abandonar seu maniqueísmo e sua visão dicotômica do mundo, dividindo-o em “bons” e “maus”, “heróis” e “violões”. A realidade costuma ser muito mais complexa. Há muito mais do que dois lados no conflito israelense-palestino, porque ambos os povos, como qualquer outro, são diversos. E há israelenses e palestinos que querem a paz e a coexistência e outros que conspiram contra elas. Eu falei que a minha atuação política sempre tenta construir pontes e que acredito que não haja solução que negue a existência e os direitos de um desses povos, seja qual for.

A paz e a justiça social deverão ser construídas por ambos. Por isso, a política do boicote a Israel (ou seja, contra o seu povo) é um equívoco: só produz mais ressentimento, fortalece os extremistas de ambos os lados, detona as pontes e impede o diálogo. Se eu tivesse aderido ao BDS, não teria viajado a Jerusalém e não teria podido conversar com ninguém, inclusive com eles! (Aliás, por que não há boicote contra a Síria, cujo governo é responsável por dezenas de milhares de mortes, ou contra a ditadura iraniana, que enforca homossexuais? Será porque não são judeus?).

Concordamos também que parte da esquerda precisa superar sua homofobia. Se outro deputado do PSOL tivesse viajado a Israel, não teria sido subestimado e visto como sensível à “lavagem rosa”. E que conceito horrível! Os direitos conquistados pelos LGBTs israelenses são uma luz numa região dominada pelo fundamentalismo, o totalitarismo, a misoginia e a homofobia, e eu parabenizo esse povo por seus avanços.

Contudo, isso não me impede de ser solidário com outros oprimidos nessa terra, como os palestinos, por exemplo, da mesma forma que muitos judeus israelenses o são. E a solidariedade com os palestinos não deveria impedir a esquerda de denunciar a opressão que (por exemplo) os homossexuais sofrem nos países islâmicos, ou reconhecer as conquistas democráticas em Israel! De fato, eu também gostaria de ir a outros países do Oriente Médio, mas não posso, porque em muitos deles poderia ser enforcado ou preso por ser gay. A esquerda também precisa ver isso (e ver a barbárie do terrorismo e dos regimes teocráticos e as ditaduras da região) e parar de priorizar umas causas em prejuízo de outras e subestimar o sofrimento de tanta gente.

Muitos querem que compremos seu discurso pronto, fechado, cheio de “verdades” inquestionáveis e imperativas. E se não o fizermos, atacam-nos nas redes sociais, ofendem-nos e nos desqualificam, exigindo obediência a suas posições. Eu procuro ver, escutar, dialogar, analisar e discernir.

Amanhã irei visitar Belém e talvez Hebron, na Cisjordânia, e depois viajarei a Tel Aviv. E continuarei, como até agora, com a cabeça aberta, sem preconceitos e imune às pressões e insultos dos que querem me impor suas “verdades perfeitas”.

Haverá novas crônicas.

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