APRESENTAÇÃO
A sociedade israelense esta vivendo um período
de intensa turbulência, travando um
debate interno sobre a sua própria
identidade.
Esse debate se intensificou muito nos últimos 4
anos, principalmente depois da eleição
de Biniamin Netaniahu em 1996. Durante
o governo Netaniahu houve um processo de aumento das forças religiosas no pais, que desde
então vêm ocupando espaços crescentes
na sociedade e na política, e esse
fenômeno tem efeitos concretos no cotidiano dos
israelenses.
Essa tendência continuou apesar da eleição de Ehud Barak
em 1999. Nessa eleição, os partidos
religiosos aumentaram ainda mais a sua força. O partido ultra-ortodoxo
Shas pulou de 10 para 17 cadeiras no
parlamento e se tornou o terceiro
maior partido político, sem o qual nenhum dos grandes partidos pode formar um
governo.
O assassinato de Itzhak Rabin em 1995, por um extremista
religioso de direita, que defendeu seu
crime com um discurso religioso, é mais um fator importante que
abalou a sociedade israelense e levou
muitos laicos a se perguntarem se aqui não está surgindo um fenômeno perigoso, de
fundamentalismo que pode por em risco
o próprio estado de direito em Israel.
Ao abordar a questão de Israel, a mídia
internacional focaliza principalmente
o conflito de Israel com o mundo árabe
e se dá pouquíssimo destaque ao conflito interno que ocorre dentro da sociedade israelense. Esse
conflito interno não é menos
importante do que o externo e não é
desligado do externo, e terá uma influencia decisiva sobre o futuro dessa
sociedade.
Em vista de tudo isso,
resolvemos fazer um livro focalizando o debate que ocorre dentro da sociedade
israelense.
O livro contém 16 entrevistas com intelectuais e
lideres políticos, religiosos e
laicos, de esquerda e de direita e
atuantes em diversas áreas profissionais.
As entrevistas foram feitas em forma de conversas
muitas vezes num ritmo associativo.
Essas conversas foram gravadas,
transcritas, traduzidas e editadas. Na
edição procuramos manter os estilos e
ritmos próprios de cada entrevistado e o resultado é uma coletânea de textos heterogêneos, tanto nas
posições apresentadas como nos mundos
de referência.
Entre nossos entrevistados estão: Avraham Burg - o
presidente do parlamento, os deputados
Yossef Paritzky e Yael Dayan, o
astrofísico Elia Leibowitz, o escritor Haim Beer e o filosofo Moshe Halbertal.
Trazendo a voz dos
próprios protagonistas desse debate esperamos contribuir para a compreensão das grandes questões que
dividem a sociedade israelense hoje em
dia.
Questões como fundamentalismo, racionalismo,
democracia e cidadania, que são
relevantes não só para a sociedade israelense como também para outras
sociedades.
Alem das entrevistas o livro contem uma introdução
escrita pelas autoras, textos
apresentando e contextualizando os entrevistados, um glossário e dois encartes de fotos,
um dos entrevistados e outro de fotos
tiradas nas ruas de Israel, que
ilustram os temas abordados no livro.
O prefacio foi escrito pelo jornalista Clóvis
Rossi e a orelha pelo escritor Moacyr
Scliar.
Guila Flint e Bila Grin Sorj,
2000
ORELHA - Moacyr
Scliar
Uma palavra vem crescendo em importância no
vocabulário de nossos dias: fundamentalismo. E, como se pode constatar pela
simples leitura das manchetes de jornais, a ascensão do fundamentalismo vem
sendo marcada pela polêmica e pelo conflito, muitas vezes sangrento. O que temos
aí, de fato, é a reação contra uma forma de modernidade avassaladora, que
destrói os vínculos que durante milênios deram coesão às sociedades
tradicionais.
Para o público em geral, fundamentalismo está
associado ao Oriente Médio, aos aiatolás, ao véu negro que cobre a silhueta
feminina, à condenação do escritor Salman Rushdie. Israel Terra em Transe
examina outro cenário do fanatismo religioso. Um cenário até certo ponto
surpreendente, como é dito repetidamente nestas páginas, porque o ainda jovem
Estado de Israel foi construído sobre as bases de um movimento laico e com
fortes matizes socialistas.
Além disso, seu inegável progresso foi resultado de
uma organização social avançada que possibilitou o desenvolvimento da pesquisa
científica em níveis comparáveis aos de países avançados. Isto, porém, não deve
escamotear o fato de que, como religião, o judaísmo também tem seus
fundamentalistas. O número destes - em parte pelo crescimento vegetativo e em
parte pela desilusão com a falta de valores na sociedade de consumo - cresce
cada vez mais e já representa uma força política ponderável, capaz, inclusive,
de atos violentos, como o demonstrou o assassinato do premier Yitzhak
Rabin.
É importante, portanto, conhecer o fundamentalismo
religioso judaico, e neste sentido a obra de Guila Flint e Bila Grin Sorj
representa uma notável contribuição. Os entrevistados são figuras exponenciais
(e às vezes controversas, como é o caso de Uri Avnery) em Israel e no judaísmo.
Todos eles se posicionam de maneira clara e incisiva diante da questão que é o
subtítulo da obra: democracia ou teocracia? Que não é, aliás, uma questão
pertinente somente ao Oriente Médio ou a algumas religiões. É um dilema
explosivo que, em maior ou menor grau, nos afeta a todos.
PREFACIO - Clovis
Rossi
Quando o jornal "Folha de S. Paulo" me escalou para
cobrir as eleições israelenses de 1996, minha
primeira providencia foi entrar em uma dessas salas de conversações eletrônicas, no caso uma
só para israelenses.
Expliquei a meus interlocutores virtuais que jornalista
estrangeiro, quando desembarca em um dado
país, limita-se em geral a
conversar com um certo tipo de personalidades: politípicos, autoridades, empresários, acadêmicos, militantes (e, no caso do Oriente Médio,
militares). Eu queria mais que isso.
Pretendia, expliquei, conversar com "gente
comum" para sentir o que pensavam da
eleição.
Não demorou para
chegar a primeira resposta. Era curta e, literalmente, grossa: "Em Israel, não há pessoas
comuns", disse meu interlocutor virtual.
Confesso que minha primeira reação foi de raiva pelo que
parecia falta de educação e pouca disposição
para colaborar. Mas, logo, me convenci de que a resposta,
embora curta, tinha um pouco da
síntese das gentes de
Israel. É de
fato muito difícil haver "pessoas
comuns" em um país com características inéditas no
planeta: a maior concentração de História e religiosidade do mundo cercada por uma das maiores concentrações de força
militar.
Uma das coisas que me fascina em Israel: todas as
grandes religiões
monoteístas, com a sua
pregação pela
paz, terem alguns de seus maiores
símbolos sempre cercados pelos símbolos da guerra.
Essa explosiva mistura já justificaria o título deste livro (Israel -
Terra em Transe). Mas as autoras foram além, muito além, da superfície nesse
mergulho que fazem na terra em transe.
A questão realmente relevante para o futuro de Israel
é menos o conflito com os palestinos e
com a Síria e mais a resolução da
pergunta do título (Democracia ou
Teocracia?). Sei que é ousado, talvez até irresponsável fazer esse tipo de afirmativa, no momento em que tudo o que mundo discute sobre Israel e o Oriente Médio é o
processo de paz com os palestinos e com os
vizinhos.
Mas conflitos, cedo ou tarde, acabam sendo resolvidos,
por bem ou por mal. Por mais que pareçam
insignificantes os avanços havidos no processo de paz desde os acordos de
Oslo, eles são enormes, embora insuficientes
ainda.
E sobrepujam de longe, de muito longe, os avanços
obtidos pela sociedade israelense na
superação do abismo que separa religiosos de
laicos.
Por isso que me atrevo a dizer, talvez contra a
corrente, que, uma vez superado o conflito
com os palestinos e com os vizinhos,
a questão de fundo (democracia
ou teocracia) continuará assombrando Israel.
De alguma maneira, é até mais difícil resolvê-la. É
obviamente mais fácil mobilizar uma sociedade quando se trata de lidar com estranhos do que quando se trata de
enfrentar o próprio irmão.
É igualmente mais fácil, embora cruel,
resolver conflitos militares: Depende das armas de que cada lado dispõe e não há argumento que se sobreponha quando um tanque está diante de um mero
revólver.
Já na batalha entre
religiosos e laicos, as armas são argumentos e argumentos não se medem em calibres, não atingem o corpo, visam a alma - e aí tudo fica muito mais complexo.
Este livro é um
desfile desses argumentos. Ao terminar a sua leitura, não me
cabe dar a vitória a um lado ou a
outro. Mas me permite constatar
definitivamente quanto de razão havia na afirmação
de meu interlocutor virtual de anos
atrás: "Em Israel, não há pessoas comuns".
RESENHA de Julio Nobre
- (revista A Hebraica - Magazine Leituras)
As muitas vozes de Israel - em tempos de guerra e
paz
Terra em transe... Terra em litígio... Transe
religioso... Terra-Eretz,
Israel... Conflitos... Paradoxos... Contradições... Democracia... Teocracia...
Essas questões angustiantes percorrem Israel Terra em Transe - Democracia
ou Teocracia? (em edição da Civilização Brasileira), livro-reportagem
lançado pela jornalista Guila Flint e a socióloga Bila Grin Sorj. O livro
chegou ao mercado em momento de uma crise no Oriente Médio e é leitura
obrigatória para compreender uma das sociedades mais complexas do mundo.
Assistimos a um novo ciclo de violência entre palestinos e israelenses, o
conflito ganhou a adesão de cidadãos israelenses de origem árabe e aspectos de
uma guerra étnica, não apenas religiosa, com reflexos em toda a
Diáspora.
Guila Flint conta que ela e Bila Grin Sorj ficaram
meses às voltas com o título do livro-reportagem sobre a crise de identidade na
sociedade israelense. E sempre vinha à tona a palavra "transe". "Transe no
sentido de angústia, conflito, transe religioso. Era um termo que sempre
aparecia quando buscávamos uma palavra que abrangesse todos os conteúdos que
trazíamos com esse livro. Então, resolvemos tomar emprestada a expressão do
filme de Glauber Rocha", diz Guila ao falar sobre uma de muitas escolhas que
tiveram de fazer ao longo do trabalho. E assim estava concluída a gênese de
Israel Terra em Transe - Democracia ou Teocracia?, com um título que
sintetiza o que ocorre num dos locais mais turbulentos do
planeta.
O processo de elaboração consumiu dois anos de muito
trabalho. Evidentemente para chegar aos dezesseis entrevistados de Israel
Terra em Transe, as autoras falaram com dezenas de pessoas. O objetivo era,
desde o início, retratar o intenso debate na sociedade israelense sobre a
natureza do Estado.
Como conciliar a noção de Estado judeu com o conceito
de democracia? Se o Estado é judeu, qual é o status dos seus cidadãos de
outras religiões? E como a maioria judia e laica de Israel deve reagir diante do
avanço e ingerência dos ultra-ortodoxos nas questões mais banais do cotidiano?
Qual deve ser a natureza do Estado de Israel? Suprimir das carteiras de
identidade a palavra "judeu" e expandir a cidadania plena a todos os seus
cidadãos independente da sua origem? Israel é ou não é um Estado como outro
qualquer?
Todas essas questões percorrem Israel Terra em
Transe do começo ao fim, e variam de abordagem conforme o entrevistado. A
riqueza de opiniões e visões é tal que o livro pode ser lido quase como um
romance, no qual os personagens das mais diversas origens e naturezas dialogam,
discutem, argumentam, defendem suas idéias, atacam oponentes e lançam mão de
todo tipo de figuras de linguagem - metáforas, alegorias ou parábolas - ao expor
sua visão de mundo ou a solução para os problemas que afligem a sociedade
israelense.
As cerca de vinte entrevistas foram realizadas entre
fevereiro e março de 1999, quando o processo de paz entre árabes e israelenses
ainda se achava sob o signo das negociações de Oslo, iniciadas em 1993. Quando
nos debruçamos sobre esse universo meio dostoievskiano, repleto de tantas vozes
antagônicas, cúmplices ou indignadas, percebe-se a emoção desse debate em
Israel. Uma das muitas virtudes do livro é uma certa organicidade, na qual a voz
dos entrevistados é mantida fresca e viva, com suas hesitações, contradições e
até mesmo repetições.
Para Guila Flint, o debate expõe as fissuras internas
da sociedade israelense, extrapola os meios intelectuais, possui uma alta carga
emocional e ganha as ruas (e os muros) do país. Israel Terra em Transe
traz dois encartes de fotos realizadas pela fotógrafa Efrat Tordjman. Um deles,
em preto e branco, retrata as dezesseis personalidades no momento das
entrevistas, com seu gestual, expressões e hábitos - alguns aparecem fumando
talvez compulsivamente, enquanto as mulheres religiosas modernas exibem um
indefectível e puritano chapéu de abas curtas. O segundo encarte mostra fotos
coloridas das ruas de Israel com seus muros pichados, onde judeus laicos e
religiosos disputam uma verdadeira batalha para defender a legitimidade das suas
convicções.
A socióloga e co-autora Bila Grin Sorj vê em Israel Terra em
Transe uma oportunidade para que brasileiros, judeus ou não judeus, tenham
um contato mais íntimo com os conflitos internos da sociedade israelense. Bila
estudou em Israel de 1969 a 1974. Voltou para lá em 1999 com o objetivo de
realizar a série de entrevistas ao lado de Guila e constatou uma poderosa
transformação. Viu um Estado muito dividido e uma sociedade extremamente
fragmentada.
SINFONIA ISRAELENSE
Entre fevereiro e março de 1999, Guila Flint e Bila Grin
Sorj entrevistaram mais de vinte personalidades israelenses, das mais variadas
cores do espectro político. Chegaram até a realizar duas entrevistas no mesmo
dia. Dessas, escolheram as dezesseis personalidades que figuram em
Israel Terra em Transe - Democracia ou
Teocracia? As autoras lamentam não terem conseguido entrevista com nenhuma
liderança do partido ultra-ortodoxo sefaradita Shas.
Algumas conversas aconteceram em hebraico, outras em
inglês. Depois de transcrito, todo o material foi vertido para o inglês e
editado. A tradução para o português é de Yara Nagelschmidt. A ordem de aparição
dos entrevistados obedece a uma extrema coerência. O depoimento de Uri Avnery é
muito esclarecedor e prepara o leitor para entrar no universo dos outros
entrevistados. A complexidade de alegorias criadas pelo escritor Haim Beer
explica sua presença no final do livro: ele faz um duro acerto de contas com seu
passado e suas relações com a religião. Os mais afoitos podem se arriscar,
também, numa leitura transversal e deixar a linearidade para os iniciantes.
Estes, por sua vez, terão o privilégio de poder consultar o glossário organizado
pelas autoras nas últimas páginas e experimentar a aventura de passear pelo
intrincado labirinto de idéias e conflitos do universo
israelense.
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