LIVRO: Israel Terra em Transe : Democracia ou Teocracia? - GUILA FLINT e BILA GRIN SORJ


LIVRO
 
Israel Terra em Transe :
Democracia ou Teocracia?

de Guila Flint e Bila Grin Sorj

Editora Civilização Brasileira, 2000


Lançado, por acaso, nas vésperas da Segunda Intifada, o livro "Israel - Terra em Transe", das brasileiras Guila Flint e Bila Grin Sorj é de uma atualidade e relevância para a compreensão das raízes do conflito do Oriente Médio, da identidade judaica e sionista e dos dilemas e contradições da sociedade israelense, que o tornam de leitura obrigatória para quem se preocupa com um Israel democrático, seguro e em paz com seus vizinhos.
 
Moisés Storch

 
INTRODUÇÃO do livro

Existe o perigo de Israel se transformar em uma teocracia? É possivel conciliar o conceito de estado judaico com o de estado democrático? É possível  separar a religião do estado em Israel? O conflito entre religiosos e seculares pode provocar uma guerra civil? Qual a situação dos cidadãos árabes israelenses no estado judaico? O que significa, hoje em dia, a israelidade?

Viajamos por Israel e conversamos com intelectuais de esquerda e de direita, religiosos e laicos, homens e mulheres, judeus e árabes - lideres politípicos, historiadores, jornalistas, pedagogos, cientistas, escritores, sociólogos, juristas e filósofos - e os convidamos a falar sobre estes assuntos.

Trazemos neste livro um pouco do intenso debate que ocorre hoje em dia na sociedade israelense, um debate que toca não somente em questões específicas de Israel como também em grandes questões debatidas no mundo inteiro, como fundamentalismo, racionalismo, cidadania e democracia.

Guila Flint e Bila Grin Sorj


APRESENTAÇÃO

A sociedade israelense esta vivendo um período de intensa turbulência, travando um debate interno sobre a sua própria identidade.
 
Esse debate se intensificou muito nos últimos 4 anos, principalmente depois da eleição de Biniamin Netaniahu em 1996. Durante o governo Netaniahu houve um processo de aumento das forças religiosas no pais, que desde então vêm ocupando espaços crescentes na sociedade e na política, e esse fenômeno tem efeitos concretos no cotidiano dos israelenses.
Essa tendência continuou apesar da eleição de Ehud Barak em 1999. Nessa eleição, os partidos religiosos aumentaram ainda mais a sua força. O partido ultra-ortodoxo Shas pulou de 10 para 17 cadeiras no parlamento e se tornou o terceiro maior partido político, sem o qual nenhum dos grandes partidos pode formar um governo.
O assassinato de Itzhak Rabin em 1995, por um extremista religioso de direita, que defendeu seu crime com um discurso religioso, é mais um fator importante que abalou a sociedade israelense e levou muitos laicos a se perguntarem se aqui não está surgindo um fenômeno perigoso, de fundamentalismo que pode por em risco o próprio estado de direito em Israel.
Ao abordar a questão de Israel, a mídia internacional focaliza principalmente o conflito de Israel com o mundo árabe e se dá pouquíssimo destaque ao conflito interno que ocorre dentro da sociedade israelense. Esse conflito interno não é menos importante do que o externo e não é desligado do externo, e terá uma influencia decisiva sobre o futuro dessa sociedade.
 
Em vista de tudo isso, resolvemos fazer um livro focalizando o debate que ocorre dentro da sociedade israelense.

O livro contém 16 entrevistas com intelectuais e lideres políticos, religiosos e laicos, de esquerda e de direita e atuantes em diversas áreas profissionais.

As entrevistas foram feitas em forma de conversas muitas vezes num ritmo associativo. Essas conversas foram gravadas, transcritas, traduzidas e editadas. Na edição procuramos manter os estilos e ritmos próprios de cada entrevistado e o resultado é uma coletânea de textos heterogêneos, tanto nas posições apresentadas como nos mundos de referência.

Entre nossos entrevistados estão: Avraham Burg - o presidente do parlamento, os deputados Yossef Paritzky e Yael Dayan, o astrofísico Elia Leibowitz, o escritor Haim Beer e o filosofo Moshe Halbertal.

Trazendo a voz dos próprios protagonistas desse debate esperamos contribuir para a compreensão das grandes questões que dividem a sociedade israelense hoje em dia.

Questões como fundamentalismo, racionalismo, democracia e cidadania, que são relevantes não só para a sociedade israelense como também para outras sociedades.

Alem das entrevistas o livro contem uma introdução escrita pelas autoras, textos apresentando e contextualizando os entrevistados, um glossário e dois encartes de fotos, um dos entrevistados e outro de fotos tiradas nas ruas de Israel, que ilustram os temas abordados no livro.

O prefacio foi escrito pelo jornalista Clóvis Rossi e a orelha pelo escritor Moacyr Scliar.

Guila Flint e Bila Grin Sorj, 2000


ORELHA - Moacyr Scliar

 
Uma palavra vem crescendo em importância no vocabulário de nossos dias: fundamentalismo. E, como se pode constatar pela simples leitura das manchetes de jornais, a ascensão do fundamentalismo vem sendo marcada pela polêmica e pelo conflito, muitas vezes sangrento. O que temos aí, de fato, é a reação contra uma forma de modernidade avassaladora, que destrói os vínculos que durante milênios deram coesão às sociedades tradicionais.

Para o público em geral, fundamentalismo está associado ao Oriente Médio, aos aiatolás, ao véu negro que cobre a silhueta feminina, à condenação do escritor Salman Rushdie. Israel Terra em Transe examina outro cenário do fanatismo religioso. Um cenário até certo ponto surpreendente, como é dito repetidamente nestas páginas, porque o ainda jovem Estado de Israel foi construído sobre as bases de um movimento laico e com fortes matizes socialistas.

Além disso, seu inegável progresso foi resultado de uma organização social avançada que possibilitou o desenvolvimento da pesquisa científica em níveis comparáveis aos de países avançados. Isto, porém, não deve escamotear o fato de que, como religião, o judaísmo também tem seus fundamentalistas. O número destes - em parte pelo crescimento vegetativo e em parte pela desilusão com a falta de valores na sociedade de consumo - cresce cada vez mais e já representa uma força política ponderável, capaz, inclusive, de atos violentos, como o demonstrou o assassinato do premier Yitzhak Rabin.

É importante, portanto, conhecer o fundamentalismo religioso judaico, e neste sentido a obra de Guila Flint e Bila Grin Sorj representa uma notável contribuição. Os entrevistados são figuras exponenciais (e às vezes controversas, como é o caso de Uri Avnery) em Israel e no judaísmo. Todos eles se posicionam de maneira clara e incisiva diante da questão que é o subtítulo da obra: democracia ou teocracia? Que não é, aliás, uma questão pertinente somente ao Oriente Médio ou a algumas religiões. É um dilema explosivo que, em maior ou menor grau, nos afeta a todos. 


PREFACIO - Clovis Rossi

Quando o jornal "Folha de S. Paulo" me escalou para cobrir as eleições israelenses de 1996, minha primeira providencia foi entrar em uma dessas salas de conversações eletrônicas, no caso uma só para israelenses. Expliquei a meus interlocutores virtuais que jornalista estrangeiro, quando desembarca em um dado país, limita-se em geral a conversar com um certo tipo de personalidades: politípicos, autoridades, empresários, acadêmicos, militantes (e, no caso do Oriente Médio, militares). Eu queria mais que isso. Pretendia, expliquei, conversar com "gente comum" para sentir o que pensavam da eleição.
Não demorou para chegar a primeira resposta. Era curta e, literalmente, grossa: "Em Israel, não há pessoas comuns", disse meu interlocutor virtual.
Confesso que minha primeira reação foi de raiva pelo que parecia falta de educação e pouca disposição para colaborar. Mas, logo, me convenci de que a resposta, embora curta, tinha um pouco da  síntese das gentes de Israel. É de fato muito difícil haver "pessoas comuns" em um  país  com características inéditas no planeta: a maior concentração de História e religiosidade do mundo cercada por uma das maiores concentrações de força militar. 
 
Uma das coisas que me fascina em Israel: todas as grandes  religiões monoteístas, com a sua pregação  pela paz, terem alguns de seus maiores símbolos sempre cercados pelos símbolos da guerra.
Essa explosiva mistura já justificaria o título deste livro (Israel - Terra em Transe). Mas as autoras foram além, muito além, da superfície nesse mergulho que fazem na terra em transe.
 
A questão realmente relevante para o futuro de Israel é menos o conflito com os palestinos e com a Síria e mais a resolução da pergunta do título (Democracia ou Teocracia?). Sei que é ousado, talvez até irresponsável fazer esse tipo de afirmativa, no momento em que tudo o que mundo discute sobre Israel e o Oriente Médio é o processo de paz com os palestinos e com os vizinhos.

Mas conflitos, cedo ou tarde, acabam sendo resolvidos, por bem ou por mal. Por mais que pareçam insignificantes os avanços havidos no processo de paz desde os acordos de Oslo, eles são enormes, embora insuficientes ainda.

E sobrepujam de longe, de muito longe, os avanços obtidos pela sociedade israelense na superação do abismo que separa religiosos de laicos.

Por isso que me atrevo a dizer, talvez contra a corrente, que, uma vez superado o conflito com os palestinos e com os vizinhos, a  questão de fundo (democracia ou teocracia) continuará assombrando Israel.

De alguma maneira, é até mais difícil resolvê-la. É obviamente mais fácil mobilizar uma sociedade quando se trata de lidar com estranhos do que quando se trata de enfrentar o próprio irmão. É igualmente mais fácil, embora cruel, resolver conflitos militares: Depende das armas de que cada lado dispõe e não há argumento que se sobreponha quando um tanque está diante de um mero revólver.

na batalha entre religiosos e laicos, as armas são argumentos e argumentos não se medem em calibres, não atingem o corpo, visam a alma - e aí tudo fica muito mais complexo.

Este livro é um desfile desses argumentos. Ao terminar a sua leitura, não me cabe dar a vitória a um lado ou a outro. Mas me permite constatar definitivamente quanto de razão havia na afirmação de meu interlocutor virtual de anos atrás: "Em Israel, não há  pessoas comuns".


RESENHA de Julio Nobre - (revista A Hebraica - Magazine Leituras)

As muitas vozes de Israel - em tempos de guerra e paz

Terra em transe... Terra em litígio... Transe religioso... Terra-Eretz, Israel... Conflitos... Paradoxos... Contradições... Democracia... Teocracia... Essas questões angustiantes percorrem Israel Terra em Transe - Democracia ou Teocracia? (em edição da Civilização Brasileira), livro-reportagem lançado pela jornalista Guila Flint e a socióloga Bila Grin Sorj. O livro chegou ao mercado em momento de uma crise no Oriente Médio e é leitura obrigatória para compreender uma das sociedades mais complexas do mundo. Assistimos a um novo ciclo de violência entre palestinos e israelenses, o conflito ganhou a adesão de cidadãos israelenses de origem árabe e aspectos de uma guerra étnica, não apenas religiosa, com reflexos em toda a Diáspora.

Guila Flint conta que ela e Bila Grin Sorj ficaram meses às voltas com o título do livro-reportagem sobre a crise de identidade na sociedade israelense. E sempre vinha à tona a palavra "transe". "Transe no sentido de angústia, conflito, transe religioso. Era um termo que sempre aparecia quando buscávamos uma palavra que abrangesse todos os conteúdos que trazíamos com esse livro. Então, resolvemos tomar emprestada a expressão do filme de Glauber Rocha", diz Guila ao falar sobre uma de muitas escolhas que tiveram de fazer ao longo do trabalho. E assim estava concluída a gênese de Israel Terra em Transe - Democracia ou Teocracia?, com um título que sintetiza o que ocorre num dos locais mais turbulentos do planeta.

O processo de elaboração consumiu dois anos de muito trabalho. Evidentemente para chegar aos dezesseis entrevistados de Israel Terra em Transe, as autoras falaram com dezenas de pessoas. O objetivo era, desde o início, retratar o intenso debate na sociedade israelense sobre a natureza do Estado.

Como conciliar a noção de Estado judeu com o conceito de democracia? Se o Estado é judeu, qual é o status dos seus cidadãos de outras religiões? E como a maioria judia e laica de Israel deve reagir diante do avanço e ingerência dos ultra-ortodoxos nas questões mais banais do cotidiano? Qual deve ser a natureza do Estado de Israel? Suprimir das carteiras de identidade a palavra "judeu" e expandir a cidadania plena a todos os seus cidadãos independente da sua origem? Israel é ou não é um Estado como outro qualquer?

Todas essas questões percorrem Israel Terra em Transe do começo ao fim, e variam de abordagem conforme o entrevistado. A riqueza de opiniões e visões é tal que o livro pode ser lido quase como um romance, no qual os personagens das mais diversas origens e naturezas dialogam, discutem, argumentam, defendem suas idéias, atacam oponentes e lançam mão de todo tipo de figuras de linguagem - metáforas, alegorias ou parábolas - ao expor sua visão de mundo ou a solução para os problemas que afligem a sociedade israelense.

As cerca de vinte entrevistas foram realizadas entre fevereiro e março de 1999, quando o processo de paz entre árabes e israelenses ainda se achava sob o signo das negociações de Oslo, iniciadas em 1993. Quando nos debruçamos sobre esse universo meio dostoievskiano, repleto de tantas vozes antagônicas, cúmplices ou indignadas, percebe-se a emoção desse debate em Israel. Uma das muitas virtudes do livro é uma certa organicidade, na qual a voz dos entrevistados é mantida fresca e viva, com suas hesitações, contradições e até mesmo repetições.

Para Guila Flint, o debate expõe as fissuras internas da sociedade israelense, extrapola os meios intelectuais, possui uma alta carga emocional e ganha as ruas (e os muros) do país. Israel Terra em Transe traz dois encartes de fotos realizadas pela fotógrafa Efrat Tordjman. Um deles, em preto e branco, retrata as dezesseis personalidades no momento das entrevistas, com seu gestual, expressões e hábitos - alguns aparecem fumando talvez compulsivamente, enquanto as mulheres religiosas modernas exibem um indefectível e puritano chapéu de abas curtas. O segundo encarte mostra fotos coloridas das ruas de Israel com seus muros pichados, onde judeus laicos e religiosos disputam uma verdadeira batalha para defender a legitimidade das suas convicções.

A socióloga e co-autora Bila Grin Sorj vê em Israel Terra em Transe uma oportunidade para que brasileiros, judeus ou não judeus, tenham um contato mais íntimo com os conflitos internos da sociedade israelense. Bila estudou em Israel de 1969 a 1974. Voltou para lá em 1999 com o objetivo de realizar a série de entrevistas ao lado de Guila e constatou uma poderosa transformação. Viu um Estado muito dividido e uma sociedade extremamente fragmentada.


 SINFONIA ISRAELENSE

Entre fevereiro e março de 1999, Guila Flint e Bila Grin Sorj entrevistaram mais de vinte personalidades israelenses, das mais variadas cores do espectro político. Chegaram até a realizar duas entrevistas no mesmo dia. Dessas, escolheram as dezesseis personalidades que figuram em Israel Terra em Transe - Democracia ou Teocracia? As autoras lamentam não terem conseguido entrevista com nenhuma liderança do partido ultra-ortodoxo sefaradita Shas.

Algumas conversas aconteceram em hebraico, outras em inglês. Depois de transcrito, todo o material foi vertido para o inglês e editado. A tradução para o português é de Yara Nagelschmidt. A ordem de aparição dos entrevistados obedece a uma extrema coerência. O depoimento de Uri Avnery é muito esclarecedor e prepara o leitor para entrar no universo dos outros entrevistados. A complexidade de alegorias criadas pelo escritor Haim Beer explica sua presença no final do livro: ele faz um duro acerto de contas com seu passado e suas relações com a religião. Os mais afoitos podem se arriscar, também, numa leitura transversal e deixar a linearidade para os iniciantes. Estes, por sua vez, terão o privilégio de poder consultar o glossário organizado pelas autoras nas últimas páginas e experimentar a aventura de passear pelo intrincado labirinto de idéias e conflitos do universo israelense.

 

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