Nós ou Eles - AVRAHAM BURG


O verdadeiro "choque de civilizações" é o que se dá entre membros das civilizações democráticas e os das civilizações teocráticas.

 

 O primeiro grupo aceita a todos como fontes da autoridade, sem discriminações.

 Os outros vêem só a Deus como sua autoridade e confiam na “sua” palavra, na forma apresentada por apóstolos e fanáticos. 

 

Este corte percorre a cristandade, o Islã e também o judaísmo. 


Nós ou Eles

 

AVRAHAM BURG (*) - Haaretz 15/08/2007

 

- traduzido por EDELYN SCHWEIDSON e MOISÉS STORCH para o PAZ AGORA|BR -

 

Um sistema de “equilíbrio sagrado” é o modo que Israel tem de sobreviver e se sentir normal. Se algo acontece à esquerda, é preciso que seja imediatamente neutralizado por um ato à direita – e então todos podem ficar tranqüilos. Estas equações criam uma ilusão de sanidade e salvam a maioria - que busca um centro morno e sem opiniões - de ter que encarar as questões de forma realista.

 

É daí - destes espaços amplos e abertos de um consenso sem valores ou conteúdos - que virá a ruína de Israel. Porque quando tudo é eqüalizado e neutralizado, não é preciso que se tome posição ou que se faça alguma coisa. Assim, não espanta que Israel, com todas as suas equações, não consiga tomar decisões em assuntos de moralidade e Estado.

 

A equação mais recente tem de um lado pessoas que evitam servir o exército (os draft-dodgers) e, do outro, soldados que se recusam a evacuar casas em Hebron (evacuation refuseniks).  Entre uma esquerda ativista da Grande Tel Aviv e aqueles nacionalistas e idealistas, mas “um pouco” extremistas demais, patrióticos demais e religiosos demais.

 

E nós estamos no meio: vivemos fora de Tel Aviv, mas não moramos em Hebron. Queremos paz, mas não estamos preparados para pagar seu preço aos árabes. Em vez de termos sido tomados pela preocupação com os fanáticos e rabinos que penetraram no tecido cívico de Israel como células cancerígenas, criamos uma equação. Ficamos furiosos por uns dois dias, os criticamos, e depois prosseguimos em nosso alegre caminho.  Tudo está equilibrado, graças a Deus...   

  

Depois que as ondas de demagogia e oportunismo da mídia passarem, ficará claro que este aparente equilíbrio é extremamente perigoso, porque nos desobriga de termos de lidar com os elementos que minam a ordem deste país.  Quanto mais ignoramos o câncer do nacionalismo rabínico, mais próximo e mais concreto se torna o perigo mortal.  A equação real é a que liga os refuseniks de Hebron - e sua fundamentação na Torá - e os fundamentalistas do Hamas, do Hezbollah e seus irmãos fanáticos cristãos .

 

O que está acontecendo em Israel é parte de uma tendência mundial.  O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush aceitou com superficialidade aterrorizante a visão de mundo de Samuel Huntington, que disse que as guerras passadas, movidas por interesses econômicos, nacionalismo e território, deram lugar a guerras culturais internacionais. Huntington afirmou que um choque de civilizações está acontecendo diante dos nossos olhos: a cristandade contra o fanatismo islâmico.

 

Esta é uma afirmação terrível, porque simplifica demais o mundo em dois lados: nós somos todos Bushes, e eles são todos Osamas Bin Ladens.  Assim, de um só golpe, todos os turcos muçulmanos democratas, as centenas de milhões de hindus muçulmanos democratas, os árabes de Israel, as centenas de milhares de novos democratas na Palestina; e muitos outros, no mundo inteiro, foram empurrados para o canto, junto com os que são realmente maus.  Enquanto isto, muitas pessoas más foram legitimadas simplesmente por serem cristãs ou judias. 

 

Chegou a hora de uma nova visão de mundo.

 

O choque verdadeiro é o que se dá entre membros das civilizações democráticas e os das civilizações teocráticas. O primeiro grupo aceita a todos como fonte da autoridade governante, sem discriminações. Os outros vêem a Deus, e não aos mortais, como sua autoridade e confiam na “Sua” palavra, via apóstolos e fanáticos.  Este corte percorre a cristandade e o Islã e também está ocorrendo aqui, o judaísmo. 

 

Apesar do molho difuso chamado “unidade de Israel”, não há como se escapar de perguntar se há de fato - ou se deveria haver - algum tipo de unidade entre estas pessoas. Na minha opinião, a resposta é não: eles não são meus irmãos, eles são meus inimigos.

 

Não há diferença teológica entre certos rabinos de Hebron, o antigo líder do Hamas Sheik Ahmed Yassin, e o pregador evangélico que anseia por um Armaguedon no lugar da nossa Meguido. Os que proclamam que “a Lei de Deus vem em primeiro lugar”, não são diferentes uns dos outros, vistam eles uma kipá de rabino, um turbante do Hizbolá ou uma toga do um líder espiritual norte-americano. Todos eles estão engajados numa batalha cruel contra mim. São os inimigos da liberdade e da democracia. São hostis à liberdade, à igualdade e ao status das mulheres.

 

Num mundo como este, precisamos formar novas coalizões. A divisão entre “nós” e os “nossos inimigos” não pode ser traçada meramente por linhas nacionais ou familiares, por genética ou crenças.  O mundo está dividido entre uma coalizão de alguns judeus, alguns cristãos e alguns muçulmanos contra outros membros de suas próprias nações e religiões. Democracia vs Teologia.

 

Esta não é uma discussão “gentil”, mas sim uma guerra: o rabino contra a autoridade, o “judeu” contra o “democrata”. A Halachá e a Sharía [leis religiosas judaica e muçulmana] contra a Lei Civil. A Igreja contra o Estado. Eles não conseguem viver sob o mesmo teto e estão combatendo a guerra mais antiga e mais moderna: Religião vs Estado.

 

E guerra é guerra: a postura legal do rabino que incita é a mesma que a do sheik que incita, porque ambos são igualmente hostis.  Um deles quer me ver morto fisicamente, e o outro quer me ver morto democrática e moralmente. 

 

O exército do Estado democrático, assim como seus sistemas de governo, precisam purificar-se de todos os inimigos plantados pela teocracia.  Não se pode permitir ao “Exército de Deus” que assuma o controle sobre as instituições do poder estatal. O Estado precisa cortar as fontes de suprimento desses elementos subversivos e rescindir os benefícios que lhes concede. 

 

A democracia precisa parar de pedir desculpas e de apenas se defender. Chegou a hora da iniciativa e do ataque. Palavras leves e fórmulas nebulosas não ajudarão em nada. 

 

Na escolha entre eles e nós, eu sou a nosso favor. Pela democracia e contra todos os seus inimigos, tanto os de fora como os de dentro.

 

(*) AVRAHAM BURG foi presidente do parlamento israelense (Knesset) e participou da redação do Acordo de Genebra. Sua mãe nasceu em Hebron em 1921, como sétima geração da família na Cidade dos Patriarcas, e sobreviveu ao massacre que em 1929 eliminou a comunidade judia da cidade, sagrada para judeus e muçulmanos.

 

 

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