Falta de Democracia e Eleições Iranianas de 2009 - DINA LIDA KINOSHITA

 

Enquanto os campos da paz israelense e palestino vêm dialogando por uma negociação justa e duradoura - para criar o Estado Palestino ao lado do Estado de Israel - as ações promovidas por Ahmadinejad só têm fortalecido o campo da guerra.


A Falta de Democracia e

as Eleições Iranianas de 2009

 

DINA LIDA KINOSHITA (*) BBPress 22|11|09

 

Há exatas três décadas o povo iraniano saudou a Revolução dos Ayatolás que derrubou o regime despótico do Xá Reza Pahlevi.

 

No entanto, numa região que nunca primou pela democracia, este processo não produziu nenhum avanço no que diz respeito aos preceitos básicos definidores de um regime democrático, respeitador dos Direitos Humanos. Ao contrário, houve um retrocesso.

 

Os três poderes definidos por Montesquieu - a saber, Executivo, Legislativo e Judiciário - constituem uma verdadeira farsa no Irã e quem efetivamente comanda o país de regime teocrático é o Conselho dos Guardiões da Revolução. Este Conselho foi criado por Khomeini para consolidar o seu poder logo após a Revolução, num processo de elaboração de uma nova Constituição aprovada por referendum. Este Conselho dos Guardiões da Revolução, com grande maioria de clérigos islâmicos, tem o controle absoluto dos serviços militares e de segurança bem como o poder de indicar os vários dirigentes executivos e judiciais do governo.  

 

Nos primeiros anos do novo poder instalado, houve uma escalada do autoritarismo e mesmo grupos que apoiaram inicialmente a Revolução Islâmica foram sendo banidos da política. Grupos de Direitos Humanos, também passaram a atuar praticamente na clandestinidade. Khomeini proibiu o uso da palavra "democracia" que cheirava a um ocidentalismo e os jornais foram proibidos de circular.

 

O regime instaurado teve inicialmente um grande apoio popular por ter melhorado os índices econômicos e educacionais dos pobres. A guerra Irã-Iraque teve como resultado uma grande coesão do povo iraniano em torno do seu governo. Este, ambicionando ser uma potência regional de contraposição aos países aliados aos EEUU, buscou um modelo prussiano de desenvolvimento com grandes projetos, entre eles um projeto nuclear, embora sua economia continue fortemente atrelada à exportação de petróleo.

 

Nesses trinta anos, como em todos os países autoritários, surgiram dentro do sistema forças conservadoras e reformistas. Em alguns momentos os reformistas eram mais fortes e tinha-se uma esperança de mudanças paulatinas. Destaque-se que os reformadores também fazem parte de setores consentidos pelo regime.

O Irã de Ahmadinejad

 

A eleição de Mahmoud Ahmadinejad, em 2005, acabou com todas as ilusões. De família pobre, Ahmadinejad conseguiu formar-se engenheiro civil e doutorar-se na Universidade de Ciência e Tecnologia do Irã e, ao mesmo tempo, já era militante de movimentos islâmicos fiéis à Revolução. Fez uma carreira meteórica na política, por ser considerado bom administrador municipal, principalmente pelos mais pobres. Foi prefeito de duas cidades provinciais e, posteriormente em Teerã. Também ganhou reputação e popularidade como linha dura uma vez que é ultranacionalista, ultrareligioso, anti-reformista e anti-ocidental até a medula. Foi guindado à presidência como o primeiro mandatário não clérigo em 24 anos, a fim de obstruir as reformas, ainda que incipientes, iniciadas por Khatami.

 

Durante seu primeiro mandato foi denunciado o aumento das violações de Direitos Humanos contra os curdos. Perseguiu os seguidores de religiões não oficiais, mulheres e grupos GLBT, entre outras minorias.

 

Mas o que causou profunda comoção internacional foram suas declarações que colocam em dúvida as reais dimensões do Holocausto e sua pregação pela extinção do Estado de Israel. Tem financiado vários grupos guerrilheiros islâmicos que vem utilizando métodos terroristas, sobretudo no Oriente Médio, mas, em outras partes do mundo também.

 

Não se pode esquecer do envolvimento, comprovado pela Interpol, do regime iraniano, ainda nos anos 90, no ataque à Embaixada de Israel e à AMIA, em Buenos Aires que causaram dezenas de vítimas fatais. Enquanto o campo da paz israelense e palestino vêm dialogando por uma negociação justa e duradoura, para criar o Estado Palestino ao lado do Estado de Israel, as ações promovidas por Ahmadinejad têm fortalecido o campo da guerra.     

Por outro lado, o atual presidente iraniano tem adquirido um enorme protagonismo no contexto internacional graças a um projeto nuclear contestado por vários países e grupos pacifistas. Ahmadinejad recusou-se por muito tempo a submeter este projeto a inspeções da AIEA. Numa recente tentativa de acordo, ficou acertado que o urânio enriquecido no Irã seria depositado na Rússia mas até agora isto não vem sendo cumprido.

 

No início de 2009 houve eleição presidencial no Irã. Embora tenham se apresentado quase 500 candidatos, o Conselho dos Guardiões vetou praticamente todas as candidaturas, inclusive todas as cerca de 50 femininas. O motivo da recusa foi terem sido consideradas pouco confiáveis para os desígnios do regime. Ao final restaram duas candidaturas expressivas: a de Ahmadinejad - que se apresentou para a reeleição - e a de um reformador, Hossein Mousavi. O presidente ainda tem muitos seguidores no interior do país, entre parte da população mais carente, mais sujeita a políticas populistas e clientelistas.

 

Não obstante a oposição política e entidades de Direitos Humanos terem denunciado centenas de fraudes eleitorais no interior e na capital do país e, apesar do Conselho dos Guardiões da Revolução ter assumido num determinado momento que houvesse fraudes, pouco se fez para apurá-las. A oposição realizou milhares de protestos tentando mostrar as fraudes. Porém o governo, para abafar as suspeitas, sufocou as manifestações com prisões e mortes. Há milhares de pessoas presas por delitos de opinião e a pena de morte atinge centenas.

 

Os correspondentes estrangeiros foram proibidos de acompanhar os acontecimentos e o que foi comunicado foi graças aos novos meios de comunicação, principalmente por intermédio da internet. E foi neste clima que o regime anunciou a vitória de Ahmadinejad com 62% dos votos, ainda no primeiro turno. Mousavi pediu formalmente a anulação do pleito. Mas num país teocrático ninguém lhe deu ouvidos.

E é o Sr. Mahmoud Ahmadinejad, com este currículo anti-humanista que virá ao Brasil nos próximos dias representando um dos regimes mais autoritários e belicistas do planeta.

O Brasil, por sua importância regional e despontando como um dos BRIC`s em âmbito internacional, além de ter presidido a Assembléia Geral da ONU que aprovou a partilha da Palestina em 1947 - passo importante para a criação do Estado de Israel em 1948 - poderia exercer um papel importante de mediador nos conflitos do Oriente Médio.

Mas apesar de continuidades muito fortes na política do Itamaraty, no governo Geisel o Brasil chegou a declarar que "sionismo é racismo". Felizmente este conceito foi abandonado, mas a política do atual governo no que tange a questões externas é muito errática.

Será que Lula terá a capacidade de modificar o pensamento político iraniano que tem raízes profundas na história daquele país? A oportunidade, o Presidente Lula criou.

 

(*) Dina Lida Kinoshita é ativista dos Amigos Brasileiros do PAZ AGORA, Professora Doutora, membro do Conselho da Cátedra UNESCO de Educação para a Paz, Direitos Humano, Democracia e Tolerância, junto ao Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, e secretária de relações internacionias do PPS.

 

 

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