Anti-Semitismo na Europa Hoje (parte 1|3) BILA SORJ


O termo "anti-semitismo" é utilizado nas manifestações de hostilidade contra os judeus desde a Antiguidade. No entanto, como fenômeno histórico, o anti-semitismo é parte integrante das dinâmicas socioculturais e políticas de cada sociedade. Este artigo enfoca particularmente as especificidades que ele assume hoje na Europa Ocidental.

O anti-semitismo contemporâneo não se funda, de maneira geral, em uma concepção específica da condição socioeconômica dos judeus na estrutura das sociedades européias, mas na sua estreita ligação com Israel...

Palavras-chave: anti-semitismo; identidades comunitárias; anti-sionismo.


Anti-Semitismo na Europa Hoje

BILA SORJ  (*)

Novos Estudos CEBRAP Nº 79 S.Paulo - Nov. 2007


 

O termo "anti-semitismo" tem sido usado para designar, de forma genérica, as manifestações de hostilidade contra judeus desde os tempos greco-romanos até os dias de hoje. A longevidade e a persistência desse fenômeno social e a sua designação por meio de um único termo abrangente, "anti-semitismo", têm encorajado explicações de caráter a-histórico que empobrecem ou essencializam o fenômeno e suas interpretações, dificultando o entendimento de seus diferentes significados e formas de expressão em contextos societários específicos.

O conteúdo universal e atemporal do termo "anti-semitismo" é reforçado no interior do judaísmo pela forma a partir da qual a identidade judaica se construiu desde os tempos bíblicos, através de uma narrativa que enfatiza a história de um pequeno povo, o povo de Israel, rodeado de inimigos que procuravam aniquilá-lo. Com a destruição do Segundo Templo pelos romanos no ano 70 d.C., que marca o fim do reino da Judéia e a transformação do povo judeu em um povo diaspórico, a narrativa se consolidou e permaneceu associada ao sentimento de insegurança de uma minoria condenada a constantes perseguições. Tal premissa forneceu aos judeus um sentido de destino comum compartilhado por gerações e fortaleceu os laços de solidariedade intragrupal entre as diversas diásporas.

A inclusão do anti-semitismo na cultura judaica, como uma constante universal1, foi incentivada pelas elaborações teológicas do catolicismo e do islã, que justificaram, sob perspectivas diferentes, o destino trágico dos judeus já que rejeitavam aderir às novas revelações. O resultado foi que o anti-semitismo assumiu, nas várias religiões monoteístas, um estatuto, por assim dizer, teológico, isto é, um sistema de crenças que se auto-representa como eterno e, portanto, localizado fora da história.

Todavia, o anti-semitismo, como qualquer outro fenômeno histórico, é parte integrante das dinâmicas socioculturais e políticas específicas a cada sociedade, de tal forma que seus significados acompanham as transformações sociais e conferem novos sentidos às relações entre os judeus e a sociedade mais ampla. Porém, ao mesmo tempo, como veremos, as novas manifestações de anti-semitismo na Europa freqüentemente recolhem sua forma de expressão da retórica do anti-semitismo clássico. Nesse sentido, procuraremos mostrar as continuidades e descontinuidades do fenômeno do anti-semitismo no mundo contemporâneo, focalizando particularmente as especificidades que ele assume hoje na Europa Ocidental.

 

ANTI-SEMITISMO E MODERNIDADE

Segundo Bauman2, a animosidade em relação aos judeus na modernidade pode ser mais bem compreendida não como um sentimento de hostilidade em face do diferente ou daquilo que não é familiar (heterofobia), mas como um sentimento de desconforto perante aqueles que não se enquadram facilmente na estrutura de um mundo ordenado (proteofobia), que não podem ser claramente classificados nas categorias estabelecidas do "nós" e "eles". Esses seres ambivalentes, que emitem sinais contraditórios de conduta, acabam por expor as fragilidades e as fissuras da aspiração por um modelo ideal de vida social ordeira, previsível e sem riscos.

A ordem na Europa moderna foi construída, segundo esse autor, pelo Estado-nação, e seu poder político se legitimou na produção de uma identidade coletiva que rejeitava costumes regionais, dialetos locais e minorias étnicas. Em uma Europa assim concebida, de nações, Estados e Estados-nações, os judeus eram praticamente o único grupo que não se enquadrava nesse modelo. Não formavam uma minoria étnica própria a cada Estado nacional, uma vez que estavam espalhados por toda a Europa; tampouco eram residentes locais de uma nação vizinha, situação comum na Europa de fronteiras cambiantes daquele momento. Eram, de fato, percebidos como símbolo da incongruência: uma nação não-nacional que lançava uma nódoa na perfeição almejada pelos projetos nacionais. A imagem dos judeus como os "fora de lugar" foi além da questão das fronteiras nacionais e forneceu a chave para as percepções, então correntes, a respeito do lugar social dos judeus nas sociedades européias, inclusive entre as novas elites judaicas secularizadas3. Em 1882, Leo Pinsker, um médico judeu na Rússia e precursor do sionismo, sintetizou as diferentes miragens em circulação na Europa: "para os vivos o judeu é um morto; para os nativos, um estranho e vagabundo; para os pobres e explorados, um milionário; para os patriotas, alguém sem pátria; para todas as classes, um concorrente odioso"4. O anti-semitismo europeu foi então produto de uma luta contra a ambivalência encarnada pelos judeus, que já entraram na modernidade carregando consigo a marca do "eterno judeu", construída pelo cristianismo no afã de diferenciar a nova religião da sua fonte original, ou seja, o judaísmo. Integrados, mas forasteiros; iguais, mas diferentes; admirados, mas assustadores.

 

O ANTI-SEMITISMO CONTEMPORÂNEO NA EUROPA

Nas sociedades européias atuais, caracterizadas por boa parte da bibliografia como pós-modernas, as identidades coletivas criadas pelos Estados nacionais já não apresentam a mesma capacidade normativa de conferir sentido e cristalizar o pertencimento dos indivíduos a uma comunidade de destino. Simultaneamente, surge uma profusão de identidades coletivas baseadas em laços religiosos, étnicos, diaspóricos e de caráter transnacional. Tais desenvolvimentos poderiam, em princípio, sugerir que os preconceitos e as hostilidades contra os judeus estariam desaparecendo, uma vez que a percepção sobre uma possível "dupla lealdade" ao Estado nacional já não constituiria mais a força motriz do anti-semitismo.

Não obstante, a Europa vem assistindo, desde o início do século XXI, a uma onda de manifestações antijudaicas impulsionada pelo conflito entre Israel e os palestinos5. O entendimento desse fenômeno, tratado pelos estudiosos como um "novo anti-semitismo", é muitas vezes afetado pela carga emotiva, ideológica e política que envolve o debate. Duas visões, igualmente extremadas, mostram-se insatisfatórias: aquela que minimiza o fenômeno, atribuindo-lhe caráter meramente episódico e inconseqüente, que decorreria dos confrontos legítimos no contexto do conflito israelo-palestino, e a que superdimensiona o enraizamento do anti-semitismo ao estabelecer relação de simples continuidade com o passado, atualizando a narrativa do "eterno anti-semitismo". Trivializações e excessos à parte, o fato é que nos últimos anos o problema do anti-semitismo entrou no debate público europeu mobilizando governos de diferentes países, organizações internacionais, institutos de pesquisa, organizações não-governamentais, academia e estimulando um amplo debate sobre o que passou a ser conceituado como "novo anti-semitismo".

Podemos identificar na atualidade manifestações antijudaicas em dois registros que, embora distintos, é provável que se alimentam mutuamente. O primeiro diz respeito à utilização dos repertórios clássicos, típicos do anti-semitismo moderno, para se referir em especial a Israel e aos judeus, no contexto do conflito no Oriente Médio. Tais manifestações verbais, que serão precisadas mais adiante, podem ser encontradas nos meios universitários, por vezes na imprensa e na televisão, nos insultos e nas intimidações proferidos por alunos nas escolas, em grafites espalhados nas periferias das grandes cidades européias, nas manifestações dos movimentos antiglobalização e em sermões proferidos em algumas mesquitas do Continente. Provêm, assim, de espaços sociais e políticos notadamente distintos daqueles tributários do anti-semitismo tradicional, como partidos e organizações de extrema-direita, elites tradicionais e segmentos do clero e de camponeses.

O segundo se refere à escalada de atentados violentos contra judeus, ou pessoas assim consideradas, e suas instituições comunitárias. Apesar das dificuldades de registrar dados precisos sobre o volume dessas ocorrências, pela própria natureza dos atos em questão, os dados oficiais indicam um intenso crescimento de sua presença no espaço europeu desde 20006.

Sinagogas foram cobertas de slogans racistas e danificadas com explosivos e bombas incendiárias; cemitérios judeus e memórias do Holocausto foram profanados; escolas judaicas foram pilhadas e incendiadas. O incidente mais grave ocorreu na Turquia em novembro de 2003, país-membro do Conselho da Europa, quando duas sinagogas foram atacadas com bombas, provocando 24 mortes e deixando pelo menos trezentos feridos.

Os exemplos são abundantes7. A França, que abriga a maior comunidade judaica da Europa Ocidental (aproximadamente 500 mil judeus) destacou-se por exibir no período os mais altos níveis de violência. Pelo menos duas sinagogas foram incendiadas em 2003. Em março de 2004, um coquetel molotov foi lançado contra o centro comunitário de Toulon, que abriga duas sinagogas. Escolas judaicas também foram alvo de ataques. Um incêndio criminoso contra uma escola judaica em Gagny, na periferia parisiense, destruiu boa parte do edifício em novembro de 2003. Em outubro de 2003, o rabino Michel Serfaty foi atacado quando chegava com seu filho à sinagoga de Ris-Orangis, uma pequena cidade perto de Paris. Um grupo dentro de um automóvel lançou insultos racistas e ameaças evocando os conflitos do Oriente Médio. Outros ataques foram contidos a tempo pela polícia. Na Bélgica, uma creche comunitária foi pilhada e profanada na cidade de Uccle, em julho de 2003. Um mês antes, um homem tentou explodir um automóvel cheio de garrafas com gás em frente a uma sinagoga em Charleroi; um ano antes, tiros de metralhadora foram disparados contra outra sinagoga na mesma cidade. Na Alemanha, em setembro de 2003, a polícia deteve suspeitos para evitar uma tentativa de atentado à bomba previsto para ocorrer em 9 de novembro, data do aniversário do pogrom conhecido como a "Noite de Cristal", que marcou a perseguição sistemática aos judeu-alemães pelo regime nazista. O atentado estava previsto para acontecer durante a cerimônia de lançamento da pedra fundamental de uma sinagoga no centro de Munique, da qual participariam centenas de judeus e de políticos. Judeus e estabelecimentos judaicos também foram alvo de ataques na Rússia e em outros lugares da antiga União Soviética: uma granada foi lançada contra a sinagoga em Derbent em janeiro de 2004, três coquetéis molotov contra uma sinagoga em Chelyabinsko em fevereiro de 2004, e menos de dois meses depois uma sinagoga em Nizhny Novgorod foi atacada. Tentativas de incêndio foram reportadas em sinagogas de Minsk, na República de Belarus (ex-Bielo-Rússia), em agosto de 2003. A fachada do edifício foi danificada nesta que foi a quinta tentativa de incêndio em dois anos. Registraram-se incidentes semelhantes nos demais países europeus, notadamente na Grã-Bretanha e na Holanda.

Esses dois registros, da retórica e das agressões físicas dirigidas contra os judeus, não configuram um movimento coerente e articulado. Apresentam, contudo, algumas características comuns a partir das quais o anti-semitismo corrente assume uma nova configuração, sobretudo na Europa Ocidental8.

A primeira característica diz respeito ao fato de o anti-semitismo atual, diferentemente do período que antecede a Segunda Guerra Mundial, e em contraste com o dos países do antigo bloco soviético no período pós-guerra, encontrar-se sobretudo na sociedade e não no Estado. Praticamente em todos os países da Europa as autoridades estatais rejeitam explicitamente o anti-semitismo e implementam leis e políticas que visam combatê-lo9.

Com relação ao grau de penetração de idéias anti-semitas na população da Europa, as indicações disponíveis são contraditórias. Não faltam evidências a indicar que os judeus hoje se encontram bem integrados nas sociedades européias e que não enfrentam obstáculos ao desenvolvimento de suas vidas pessoais e comunitárias. Muitos países celebram seus judeus e sua cultura: proliferam museus, antigas sinagogas são restauradas, cursos de iídiche são oferecidos em estabelecimentos de educação para adultos, e música e culinária judaicas adquirem grande popularidade.

Em contrapartida, informações obtidas por meio de pesquisas de opinião destinadas a mensurar o nível de difusão dos preconceitos antijudaicos chegam a conclusões divergentes da apreciação anterior. Pesquisa recente realizada em doze países europeus pela Anti-Defamation League e publicada em 200510 mostra a força de afirmações estereotipadas: "os judeus são mais leais a Israel do que a este país" obteve a concordância de 43% dos entrevistados, "os judeus têm muito poder no mundo dos negócios" contou com a concordância de 30%, "os judeus têm muito poder no mercado financeiro internacional" obteve 32% de concordância e 42% consideraram como provavelmente correta a proposição "os judeus ainda falam muito sobre o que lhes aconteceu no Holocausto".

A segunda característica das recentes manifestações de hostilidade contra os judeus é que hoje não configuram, na maior parte dos casos, um movimento organizado de mobilização política, tal como ocorria no passado. As manifestações são difusas, pouco articuladas e os autores nem sempre se declaram anti-semitas. Essa situação contribui significativamente para tornar o "novo anti-semitismo" um conceito contestado. Critérios que são vistos por alguns como centrais na definição do "novo anti-semitismo" - como, por exemplo, o anti-sionismo - são completamente rejeitados por outros. Tratando-se de um terreno que possui uma excepcional carga normativa e emotiva, abre-se espaço para intensas disputas terminológicas e políticas sobre a tipificação desses eventos, como veremos adiante.

A terceira característica refere-se ao lugar central que o conflito no Oriente Médio assumiu na motivação das manifestações de animosidade contra os judeus11. A mudança da origem da animosidade - antes orientada para a condição estrutural dos judeus na Europa Ocidental e hoje para a condição de diáspora cultural e política de Israel - marca uma significativa diferença com o anti-semitismo moderno12. Como afirma Arendt13, a origem do anti-semitismo moderno decorreu da posição social dos judeus nas sociedades européias do século XVIII e XIX, particularmente da relação que se estabeleceu entre eles e os Estados nacionais em formação. Argumenta que, como os judeus estavam fora da estrutura de classes sociais estabelecidas, dependiam da proteção do Estado nacional, que, por sua vez, necessitava da elite financeira dos judeus para sustentar suas transações comerciais. A dependência recíproca, entre os judeus e o Estado, gerou uma noção exagerada a respeito do poder que os judeus detinham nessas sociedades. Em contraste, o anti-semitismo contemporâneo não se funda, de maneira geral, em uma concepção específica da condição socioeconômica dos judeus na estrutura das sociedades européias, mas na sua estreita ligação com Israel.

A quarta característica diz respeito aos responsáveis pelos atos de violência dirigidos contra os judeus e contra suas instituições comunitárias. Pesquisas revelam que boa parte dos autores de atentados não é militante de extrema-direita, mas "jovens mulçumanos", "pessoas de origem norte-africana" ou "imigrantes", notadamente na França, na Bélgica e na Grã-Bretanha14.

Cabe destacar que, muitas vezes, o recurso a tais categorias amplas para caracterizar pessoas parece sustentar a hipótese da existência de comunidades homogêneas que compartilhariam certas características resultantes do seu contexto étnico ou religioso. A identificação dos autores como membros de "comunidades" pode levar, de modo geral, à atribuição de responsabilidades coletivas a atos individuais, produzindo a "islamofobia", fenômeno correlato ao anti-semitismo. Nesse sentido, é importante que se retenha a perspectiva de que "comunidades" apresentam diferenciações internas, não apenas no que diz respeito à sua inserção na estrutura socioeconômica, mas também na sua adesão a diferentes referências identitárias.

 

ANTI-SEMITISMO: GLOBALIZAÇÃO E IDENTIDADES COMUNITÁRIAS

Duas ordens de razões são freqüentemente apresentadas para explicar a associação entre os atos de animosidade verbal e os de violência física dirigidas aos judeus por indivíduos ligados a essas comunidades que, a meu ver, não são excludentes. A primeira diz respeito à transnacionalização dos conflitos do Oriente Médio. Jovens oriundos das comunidades de imigrantes de países árabes e muçulmanos na Europa teriam um forte sentimento de identificação com o destino dos palestinos. Tal identificação seria particularmente promovida por veículos de comunicação de alguns países árabes captados via satélite em território europeu, por sermões proferidos em algumas mesquitas por líderes radicais islâmicos, por discursos pronunciados por vários governantes de países árabes e muçulmanos. Esses discursos normalmente produzem uma fusão das categorias "judeus", "israelenses", "sionistas", "Estado de Israel", "políticas do governo de Israel", "comunidade judaica" e "religião judaica", transformando cada judeu individualmente - bem como as suas mais variadas instituições comunitárias - em alvo automático da expressão de indignação com a situação do Oriente Médio. Assim, todo judeu é percebido como "representante" das imagens políticas que são elaboradas a respeito de "Israel".

A forte identificação de jovens descendentes de imigrantes oriundos notadamente do Norte da África com os palestinos pode ser entendida com base na emergência do que Olivier Roy15 denominou "islã globalizado". Segundo o autor, o islã vem se afirmando, tanto na sua versão pietista como nas suas formas mais radicais e políticas, como uma ummah (nação) globalizada, desconectada de um território e de uma cultura particular. Uma evidência da nova configuração é o crescente número de jovens descendentes de imigrantes do Norte da África e do mundo árabe que, no Ocidente, definem-se prioritariamente como de identidade muçulmana e não segundo o país ou a cultura de origem de seus pais. O sucesso desse projeto religioso se deve à capacidade de oferecer alguma referência identitária que preencha o vazio deixado pela perda de raízes e da cultura herdada e pela frouxa identificação com a cultura dominante. A nova concepção do islã, segundo o autor, tem na internet um instrumento perfeito para fazer avançar o modelo de comunidade abstrata de crentes, desligados de qualquer cultura específica nacional.

Os judeus na França também mostram claros sinais de que sua identidade está em franca reestruturação. O modelo clássico de integração formulado no período da emancipação dos judeus após a Revolução Francesa, cujo mote era "tudo aos judeus como indivíduos e nada como nação", exibe claros sinais de desgaste16.

Sob vários aspectos, é possível discernir o fortalecimento da identidade judaica de tipo "comunitarista". Indicação eloqüente nesse sentido consiste no quase desaparecimento do termo "israelita" como auto-identificação dos judeus e sua substituição pela designação "judeu". O termo "israelita", que alude a uma confissão a ser praticada na esfera da vida privada, foi adotado pelos judeus assimilados do século XIX, que assim pretendiam evitar o uso do termo "judeu" pelo que carregava de pejorativo. Hoje, a situação se inverteu. Os judeu-franceses passaram a se auto-identificar como "judeus" enquanto o termo "israelita" tornou-se quase pejorativo, justamente por aludir a um judeu envergonhado, que teria reprimido sua identidade em nome da assimilação.

Nas últimas duas décadas, a freqüência de crianças em escolas da comunidade aumentou. Com efeito, os judeus se mostram mais inclinados a participar da vida comunitária17. Ademais, começaram a se afirmar como atores visíveis no espaço público, bem como a expressar sua proximidade com Israel, que passou a ter um importante papel para aqueles judeus que reclamam para si uma identidade "étnica". À semelhança de outras comunidades que reivindicam alguma origem nacional anterior à imigração para as sociedades européias, os judeus também teriam a sua nação originária, Israel. Não é a nação de onde efetivamente imigraram (no caso da França, os judeus são majoritariamente oriundos dos países do Norte da África), mas de uma nação mítica cujos laços são constantemente emulados pelo governo de Israel e por várias lideranças comunitárias, embora nem todos definam em Israel o foco da sua identidade e, menos ainda, mostrem-se inclinados a imigrar para aquele país.

Desse modo, acentua-se o processo de recomposição das identidades de árabes/muçulmanos e de judeus. No primeiro caso, em função do distanciamento de uma herança nacional e da adesão a uma comunidade religiosa transnacional; no segundo, em razão do enfraquecimento da identificação com o modelo republicano e do fortalecimento da identidade comunitária. Ambos os grupos passaram, então, a repercutir de maneira mais intensa os conflitos do Oriente Médio.

A segunda ordem de razões considera que a hostilidade contra os judeus na Europa não pode ser entendida apenas como conseqüência direta da transferência e da apropriação dos problemas políticos do Oriente Médio. Suzan e Dreyfus18 argumentam que a violência é sobretudo a expressão do descontentamento com as dificuldades que parcelas importantes de imigrantes árabes/muçulmanos e seus descendentes têm enfrentado na integração à sociedade francesa, particularmente no sistema educacional e no mercado de trabalho.

Assim, o discurso antiocidental, antiisraelense e antijudeu permitiria a esses jovens expressar sua frustração e lhes daria uma nova filiação identitária. Analogamente, a reação dos judeus à violência se deveria menos ao conflito no Oriente Médio ou ao temor da comunidade mulçumana e mais ao medo do ressurgimento do anti-semitismo na população francesa em geral. Tratados sob essa ótica, os atos de hostilidade contra os judeus adquirem uma dimensão propriamente nacional, na qual estariam em jogo os antagonismos entre minorias e o próprio futuro da sociedade francesa. Mas, se é assim, a pergunta que se segue é: por que os judeus na Europa se tornaram o alvo privilegiado das manifestações de descontentamento de grupos de imigrantes árabes/mulçumanos e seus descendentes na Europa?

Alguns estudiosos adotam a velha noção de "bode expiatório" para explicar a animosidade contra os judeus. Segundo tal interpretação, o anti-semitismo emanaria de uma situação de crise ou de um episódio de frustração social intensa. Durkheim19 já havia proposto essa explicação em 1899, a propósito do caso Dreyfus, escândalo político que dividiu a França por muitos anos, provocado pela falsa condenação por traição de um oficial do Exército de origem judaica. O autor afirma que "quando a sociedade sofre, ela tem necessidade de encontrar alguém a quem imputar seu mal"20. Para esse papel de bode expiatório seriam designados aqueles cuja imagem já carrega algum tipo de juízo negativo da opinião pública. Interpretada por essa chave analítica, Rosenbaum21 considera que as dificuldades de inserção socioeconômica na sociedade mais ampla seriam vividas como frustrações de minorias que se projetam por meio da incriminação dos judeus ("eles controlam os meios de comunicação", "eles têm tudo, nós não temos nada"). Uma vez que a maioria dos judeus descende de imigrantes do Norte da África, a animosidade se agrava pela facilidade de estabelecer comparação com os demais imigrantes da região, alimentando a inveja e a hipersensibilidade perante os destinos sociais dos grupos.

De fato, o processo de integração dos judeus na França foi bem-sucedido e passou a simbolizar um modelo que parece inacessível a outras minorias, especialmente às de origem norte-africana. Em 2002, mais da metade dos domicílios de judeu-franceses situava-se na região parisiense; quase metade dos chefes de família tinha grau universitário, índice superior à média dos franceses22.

Todavia, a explicação a partir da categoria do "bode expiatório", que remete prioritariamente às desigualdades socioeconômicas entre "comunidades" e a processos de ordem psicológica, não atenta para o poder das imagens e representações construídas acerca da relação entre "Israel" e "os palestinos" sobre a formação identitária dos jovens imigrantes ou descendentes de imigrantes dos países árabes/muçulmanos.

Wieviorka23 assinala justamente a importância de levar em conta as duas dimensões do problema: a de "dentro" (condição de exclusão) e a de "fora" (o conflito entre Israel e os palestinos) para explicar a animosidade antijudaica. O autor conseguiu captar, no discurso dos seus entrevistados24, a correspondência mítica que jovens descentes de imigrantes do Norte da África estabelecem entre o mundo definido pelo viés palestino e a situação deles na França. Desse modo, os jovens sublinham

a impotência dos árabes no mundo (e a deles próprios na França), a incapacidade de os árabes e os mulçumanos se ajudarem (o que eles observam que também ocorre entre seus correligionários na França), a inaptidão dos países muçulmanos para socorrer os palestinos e, enfim, a hegemonia de um pequeno país, Israel, sobre o mundo muçulmano (do mesmo modo que o judeu imaginário imporia à França os interesses de uma pequena comunidade minoritária)25.

A construção de uma retórica de vitimização, como observa Chaumont26, marca a maneira pela qual, na atualidade, grupos excluídos se auto-representam e definem suas estratégias políticas para obter acesso privilegiado a recursos materiais e simbólicos. Visto por esse prisma, os conflitos entre minorias podem ser entendidos como uma disputa para ocupar o "campo social da vitimização". Como hipótese, o autor sugere que os excluídos de hoje não dispõem dos mesmos recursos que os explorados de ontem para negociar uma situação mais favorável no sistema, como, por exemplo, a ameaça de paralisação da produção por meio de greve. Na falta de outra moeda de troca, o recurso à posição de vítima passa a ser o único instrumento disponível para validar as reivindicações de grupos minoritários.

No ambiente de concorrência entre vítimas, os judeus e o Holocausto são percebidos como ocupando por muito tempo um amplo espaço e hostilizados pelas "novas vítimas", que os acusam de monopolizar a culpa coletiva local. A disputa pelo lugar de vítima muitas vezes resvala para a banalização do sofrimento do concorrente, quando não para a própria negação do Holocausto, como veremos a seguir.

 

UM NOVO ANTI-SEMITISMO ?

 

PARTE FINAL DO ARTIGO > CLIQUE AQUI

 

Print version ISSN 0101-3300 |  doi: 10.1590/S0101-33002007000300005 

Voltar aos Artigos Voltar ao Site