Anti-Semitismo na Europa Hoje |p.2|3| - BILA SORJ

 

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Anti-Semitismo na Europa Hoje

BILA SORJ  (*)

Novos Estudos CEBRAP Nº 79 S.Paulo - Nov. 2007

 

Um "novo anti-semitismo"?

A escalada de violência antijudaica nos últimos anos deu origem a um debate complexo e muitas vezes confuso sobre a presença de um "novo" anti-semitismo na Europa27. O anti-semitismo atual seria basicamente definido como oposição à existência do Estado de Israel, um Estado criado como resultado das atividades do movimento sionista entre 1897 e 1948, bem como da decisão das Nações Unidas em 1947. Segundo essa visão, os ataques à existência de Israel seriam manifestações inerentemente anti-semitas, pois recusam aos judeus o direito nacional à autodeterminação, isto é, o direito de decidir sobre sua própria vida comunitária, suas leis e suas regras, suas instituições, seus símbolos e seu destino político28.

Em contraposição, outros consideram o anti-sionismo um discurso político legítimo, sem implicações xenofóbicas. Argumenta-se que, embora a maioria dos anti-semitas autodeclarados de hoje use a retórica anti-sionista, historicamente muitos anti-semitas eram pró-sionistas. De fato, na Alemanha e na Polônia, antes da Segunda Guerra Mundial, muitos políticos anti-semitas apoiavam a emigração ou a expulsão dos judeus para a Palestina como forma de solucionar o "problema judaico". O anti-sionismo também marca presença entre correntes minoritárias de ultra-ortodoxos, em Israel e no exterior, que rejeitam o sionismo porque contrariaria a vontade divina de redenção messiânica; há também judeus seculares e de esquerda em Israel que se opõem à existência de Israel como um estado especificamente judeu e propõem que ele deveria ser substituído por um estado secular no qual judeus e árabes teriam os mesmo direitos; outros ainda consideram que a criação do Estado de Israel não teria sido a melhor solução para as dificuldades que os judeus enfrentavam na diáspora, mas, uma vez que ele existe, não é possível voltar ao status quo anterior29.

Assim, a visão crítica do sionismo não é alheia à própria história interna do judaísmo. Entretanto, ao contrário de vários outros movimentos políticos, religiosos e de governos, particularmente nos países árabes ou muçulmanos, esses grupos recusam a utilização da força para transformar a realidade atual. Em princípio, pode-se dizer que anti-semitismo e anti-sionismo não são sinônimos. Se, para alguns, tratá-los como conceitos equivalentes seria apenas uma estratégia defensiva para inibir as críticas às políticas do Estado de Israel30; para outros, insistir na separação radical entre eles dificultaria a apreensão dos preconceitos antijudaicos que se dissimulam no discurso anti-sionista.

Diante da acirrada disputa sobre a relação entre críticas a Israel e anti-semitismo, o European Monitoring Centre on Racism and Xenophobia31 elaborou uma definição de anti-semitismo de caráter operacional, que permitiria separar o anti-sionismo como um preconceito baseado em visão estereotipada do "judeu" e aquele cujo sentido é baseado em uma causa política que pode não ser, em si mesma, antijudaica. Assim, considera-se anti-semitismo "qualquer ato ou atitude que se baseia na percepção de um sujeito social (individual, grupo, instituição ou país)" como "o (enganoso, corrupto, conspiratório etc.) judeu"32.

Em outras palavras, o anti-semitismo ocorre quando judeus são percebidos e tratados segundo atributos típicos do judeu imaginário, construído por meio de categorias estereotipadas. No que diz respeito a Israel - incluindo-se aí tanto as posições contra a existência do Estado como aquelas que criticam as políticas do governo -, considerou-se que quando é percebido como representante do "judeu", isto é, como representante dos traços construídos pelo anti-semitismo acerca dos judeus, tais manifestações seriam claramente consideradas expressões de anti-semitismo.

No debate público atual as fronteiras entre esses dois planos muitas vezes se confundem, pois a utilização da retórica e de imagens típicas do anti-semitismo clássico para criticar o Estado de Israel é freqüentemente acionada. Passaremos a identificar algumas manifestações retóricas do anti-sionismo que, a meu ver, configuram a confluência entre anti-sionismo e anti-semitismo.

 

ANTI-ISRAEL E ANTI-SEMITISMO

Caso típico de crítica a Israel, que pode ser interpretada como ativadora de preconceitos antijudaicos, expressa-se nas acusações dirigidas à instituição "lobby pró-Israel", em Washington, que exerceria um poder conspiratório e manipulador da política externa norte-americana. O caráter preconceituoso associado a essa instituição, muitas vezes chamada de "lobby judeu", residiria menos no reconhecimento de sua força, o que aliás é publicamente reconhecida pela sua liderança33, e mais nos tipos de acusação a ela imputadas, tais como de "dupla lealdade" de seus ativistas, de "agir contra os interesses americanos" e de "controlar o governo americano". Essas incriminações são, com efeito, apropriadas à retórica anti-semita tradicional que aciona a figura imaginária do "judeu": não importa onde estejam, os judeus formam um Estado dentro do Estado, aprisionando a sociedade no interior da qual vivem. Provavelmente, esse é um dos únicos lobbies norte-americanos cujos críticos, não todos evidentemente, acionam uma linguagem desse tipo. Outros lobbies, apesar de muito criticados, não são alvo da mesma retórica. Como exemplo, a crítica ao dos latinos anticastristas, igualmente ativo e bem-sucedido, não se vale do mesmo tipo de condenação moral, nem mesmo pelos simpatizantes da Revolução Cubana. Interessante notar que a nova construção moral da categoria "lobby pró-Israel" foi acompanhada de uma mudança na percepção a respeito de Israel. Até pouco tempo atrás, Israel era percebido como mero país-fantoche dos interesses dos Estados Unidos no Oriente Médio. Hoje a situação se inverteu. Os Estados Unidos passaram a figurar como mero instrumento dos interesses de Israel.

A retórica do poder manipulador dos judeus aparece também em discursos de algumas lideranças políticas e religiosas de países árabes e muçulmanos e circulam livremente na imprensa de tais países. Exemplo freqüentemente citado de discurso nesta direção foi proferido na 10th Session of the Islamic Summit Conference, em 16 de outubro de 2003, por Mahathir Mohamad, ex-primeiro-ministro da Malásia. Assim se expressou, com um misto de animosidade e admiração pelos judeus, depois de condenar o uso de ataques terroristas por palestinos:

O inimigo provavelmente irá saudar essas propostas e nós concluiremos que os proponentes trabalham para o inimigo. Mas pensem. Estamos enfrentando um inimigo que pensa. Eles sobreviveram 2 mil anos de pogroms não porque revidaram, mas porque pensaram. Eles inventaram o socialismo, o comunismo, os direitos humanos e a democracia para que a perseguição a eles parecesse errada e para que pudessem gozar de direitos iguais aos demais. Com isso, agora ganharam o controle do país mais poderoso, e essa minúscula comunidade tornou-se um poder mundial34.

A retórica de confrontação e condenação política que faz uso de repertório anti-semita é veiculada livremente na imprensa do Oriente Médio, mas também via internet, para o mundo todo. Nesses textos são apresentadas acusações, no velho estilo dos Protocolos dos Sábios de Sião35, nos quais os israelenses são retratados como praticantes de rituais criminosos: "As fatwas [pronunciamento legal de um líder religioso] israelenses apelam abertamente para a matança de crianças palestinas menores de onze anos, inclusive de fetos, com o objetivo de depuração étnica"36. A imagem segundo a qual os judeus se organizariam sob um poder central conspiratório também é comum. Resenha elogiosa de um livro de Fahti-el-Ibyari detalha o funcionamento do poder judaico: "os judeus do mundo são dirigidos por uma organização ultra-secreta chamada 'Kahila', ou cérebro diabólico, composta de trezentos diabos ou representantes de Satã"37. Essa instituição seria responsável pelo assassinato de sábios nucleares egípcios, pela destruição da economia mundial, pelas guerras na Ásia e na África e pelo colapso da União Soviética.

Conquanto seja possível encontrar algumas referências preconceituosas sobre os judeus no Alcorão, como por exemplo serem considerados traidores de Maomé38, a tradição islâmica não transformou os judeus concretamente mencionados no Alcorão no "eterno judeu" ou no "judeu abstrato", à semelhança da versão predominante até pouco tempo atrás no cristianismo. O Alcorão inclusive contém alguns versos que indicam relações amigáveis entre o Profeta e alguns judeus, e na tradição islâmica os judeus são vistos como membros de uma comunidade legítima de crentes em Deus, o "povo do Livro" destinado ao sofrimento. A teologia islâmica, vista desse modo, contrasta com as concepções católicas do judeu abstrato, que carrega para sempre a marca da traição de Jesus. Dessa forma, não é possível afirmar que o anti-semitismo islâmico hoje seja um produto autenticamente islâmico. E, mesmo se o compararmos aos registros preconceituosos em relação aos judeus em boa parte da história cristã, veremos certamente que o islamismo apresenta níveis de tolerância superiores.

Assim, alguns estudiosos interpretam o anti-semitismo islâmico recente como decorrência da criação do Estado de Israel e do permanente conflito entre israelenses e palestinos. Todavia, a utilização de imagens estereotipadas dos judeus para se referir ao conflito do Oriente Médio faz supor que há algo mais em jogo do que somente o sionismo e as políticas de Israel. Como sugere Kramer39, trata-se da influência do anti-semitismo religioso e racial do Ocidente sobre o proselitismo antijudaico do Oriente Médio. Tal influência foi propiciada pela circulação de elites intelectuais islâmicas nas universidades européias, elites que assimilaram a visão preconceituosa e estereotipada dos judeus e a deslocaram para o contexto do Oriente Médio. Transformada em acusação genérica aos judeus, que se estende além do anti-sionismo, os judeus passaram a ocupar o lugar dos conspiradores, semelhante àquele que ocuparam no discurso anti-semita da Europa moderna.

Segundo Wieviorka40, o novo anti-semitismo, baseado em diferentes camadas do antijudaísmo cristão e moderno, não provém daqueles que têm uma prática concreta de relação com os judeus, sejam os árabes de Israel, sejam os palestinos que vivem nos territórios ocupados. Em tais regiões, essas imagens encontram pouco espaço de repercussão. São, sobretudo, os meios de comunicação da Jordânia, da Arábia Saudita, do Líbano e do Egito que fornecem esse fluxo de imagens preconceituosas sobre os judeus. Desse modo, encorajam os leitores a odiar Israel e os judeus em geral, o que permite, segundo o autor, a criação de uma suposta causa árabe e muçulmana comum, cujo objetivo é evitar a crítica interna aos regimes políticos vigentes.

Em meio à retórica antijudaica, é cada vez mais notável a representação dos judeus como metáfora do Ocidente. Isso pode ser ilustrado pela maneira como os judeus e Israel foram envolvidos na chamada "controvérsia das charges de Maomé", que teve início em setembro de 2005. Na impossibilidade de conseguir alguém que ilustrasse a biografia de Maomé escrita por um autor dinamarquês, o jornal Jyllands-Poste publicou charges do Profeta consideradas ofensivas ao islã, especialmente a que mostra Maomé com uma bomba no turbante. Esse incidente repercutiu rapidamente no Ocidente e ensejou um caloroso debate sobre democracia e os limites da liberdade de imprensa.

Em vários países árabes e mulçumanos desencadeou-se uma onda de manifestações de rua violentas, com a ritual queima de bandeiras, inclusive a de Israel, e com apelos ao boicote de produtos dinamarqueses na região. Na seqüência dos protestos, a imprensa de muitos países árabes e muçulmanos resolveu, como retaliação à Europa, publicar caricaturas que aludiam à conspiração judaica para controlar o mundo, que debochavam do Holocausto e apresentavam imagens demoníacas e estereotipadas dos judeus (nariz grande, casaca preta, chapéu de abas largas, corpo disforme etc.), semelhantes àquelas que se tornaram habituais na imprensa anti-semita da Europa moderna.

A despeito de Israel e dos judeus não estarem na origem desse episódio, eles foram envolvidos na disputa. Aqueles que se sentiram insultados alegaram que os judeus estavam por trás do incidente. O presidente do Irã, Ahmadinejad, declarou na ocasião que "aqueles [que insultam o fundador do islã] são reféns dos sionistas. E os povos da Europa e dos Estados Unidos pagaram um alto preço por terem se transformado em reféns dos sionistas"41.

O líder do Hezbollah, Sheikh Hassan Nasrallah, que encabeçou a manifestação de milhares de pessoas no Líbano, alegou que, se as vítimas do insulto fossem judeus, o Ocidente teria agido rapidamente: "É o mundo islâmico menos importante que um punhado de sionistas? Não podemos aceitar isso... Vamos levar a mensagem de Deus não apenas pela nossa voz, mas pelo nosso sangue"42. O que importa reter desse evento é que Israel deixou de ser uma realidade geográfica, política e nacional concreta para se transformar nos "judeus", e esses, por sua vez, em símbolo que condensa as representações negativas acerca da Europa e do Ocidente em geral.

Outro tema que se destaca na nova retórica anti-semita consiste na negação do Holocausto e na associação de Israel aos símbolos nazistas. O Holocausto é, com certeza, o principal evento ao redor do qual a identidade judaica contemporânea se construiu, particularmente na diáspora. A conexão entre o tema do Holocausto e Israel se fortaleceu recentemente como estratégia do governo de Israel para legitimar a existência do Estado em face do crescimento do discurso anti-sionista de seus adversários.

A negação do Holocausto, que se iniciou na Europa com os chamados historiadores "negacionistas", penetrou na consciência de parcelas expressivas do islamismo radical nos últimos anos43. Mais precisamente, em um primeiro momento, mencionava-se o Holocausto não para negá-lo, mas para argumentar que a solução do problema do anti-semitismo europeu não poderia recair sobre o povo palestino. Em seguida, observa-se uma mudança na relação com o Holocausto, cuja existência é negada.

Para os "negacionistas", o Estado de Israel não pode se justificar pelo Holocausto, já que nunca teria existido44. Desta forma, o "negacionismo" europeu foi assimilado pelo radicalismo islâmico como estratégia política na luta contra a existência do Estado de Israel.

Ao mesmo tempo, aparece no espaço público, com certa assiduidade, a construção simbólica de analogias entre Israel e os nazistas. Tais analogias - que certamente contradizem o discurso "negacionista", já que sua força retórica repousa justamente na associação de Israel com o "mal absoluto" - são comunicadas por meio de caricaturas e cartoons, grafites nos muros das cidades européias, em faixas e cartazes exibidos nas manifestações de rua na Palestina e em diversos países árabes e muçulmanos, bem como em passeatas realizadas pelo movimento antiglobalização45.

Nesses diferentes espaços, a estrela-de-davi é igualada à suástica, ou a suástica é sobreposta ao mapa de Israel e ao rosto dos seus governantes. Segundo Markovits46, a utilização dos símbolos nazistas para caracterizar Israel aspira a cumprir três objetivos: o primeiro é deslegitimá-lo, associando-o ao símbolo mais conhecido do "mal absoluto"; o segundo pretende humilhar o povo judeu, igualando-o aos perpetradores do genocídio que quase o eliminou há sessenta anos; o terceiro pretende liberar a Europa da culpa que guarda pela relação histórica tumultuada que manteve com os judeus. E, finalmente, ao imputar aos israelenses e a Israel qualidades demoníacas e inumanas, permite, em conseqüência, legitimar qualquer meio de defesa em face da ameaça que eles representariam.

Conforme sugerem os exemplos acima descritos, o discurso anti-sionista, principalmente aquele irradiado do Oriente Médio, tem assumido uma linguagem que aciona antigos preconceitos e estereótipos típicos da retórica anti-semita da Europa moderna.

 

CONCLUSÕES: REPENSANDO O MULTICULTURALISMO

A combinação peculiar da retórica anti-sionista em circulação no Oriente Médio com o repertório típico de imagens e símbolos do anti-semitismo moderno europeu encontra hoje na Europa um espaço propício de reprodução naqueles setores duplamente condicionados pela identificação que mantêm com as versões mais radicais da causa palestina e pela experiência de exclusão e forte sentimento de injustiça social nas sociedades européias.

A escalada do anti-semitismo na Europa apresenta um sério desafio às expectativas mais otimistas de uma vida pública baseada em "comunidades" e de sua capacidade de promover o bem-estar comum. Com o fim da Guerra Fria e dos regimes autoritários do bloco soviético, a retórica política no Ocidente, centrada no ideário da democracia liberal, de liberdade e direitos individuais, passou a ser percebida como ultrapassada e pouco atraente para mobilizar a participação dos cidadãos na política. Em contrapartida, as "comunidades" com suas práticas e crenças foram redescobertas na sua capacidade de oferecer uma visão mais substantiva do self, tornar a política mais rica e promover um significativo avanço do bem comum47.

Os regimes liberais, por não reconhecerem o que se encontrava fora de sua jurisdição, foram desafiados pela chamada "política das identidades", ou seja, desafiados pelas atividades de grupos e movimentos sociais que reivindicam a representação dos interesses de setores particulares da sociedade. Tais grupos compartilhariam uma experiência comum, real ou percebida, de injustiça social com relação à sociedade mais ampla da qual participam.

A "política da identidade" significa mais que o reconhecimento de identidades desfavorecidas pelos estereótipos e preconceitos dominantes. Implica levar a auto-identificação religiosa, cultural ou étnica para o centro da vida política e institucional. O espaço público, assim redefinido, seria, então, o locus da co-habitação das diferenças e suas correspondentes narrativas. Os seus defensores, em geral, só concebem como hipótese negativa desse modelo a emergência de uma indiferença relativista entre as culturas, de modo que a hipótese de conflito entre "comunidades" em um contexto multicultural é em geral ignorada. Todavia, as "culturas", "etnicidades" e "religiões" não são necessariamente virtuosas e, muito freqüentemente, são apropriadas por lideranças políticas e religiosas que constroem identificações imaginárias, segundo as quais aos indivíduos são designadas categorias fixas e presumivelmente autênticas de pertencimento. Inversamente, a identidade coletiva, como classe de pertencimento, passaria a ser a única a plasmar a qualidade de um verdadeiro indivíduo, isto é, um ser único, singular e indivisível48.

Esse jogo de identidades produz, desse modo, a indiferenciação dos indivíduos: cada ação pessoal é percebida como expressão de uma coletividade. Especificamente, no caso de que estamos tratando, essa construção supõe que ações condenáveis do governo de Israel sejam responsabilidade da entidade "povo judeu", ou que uma charge de um humorista dinamarquês, percebida como ofensiva, incrimina o "Ocidente", que, por sua vez, é simbolizado pelos "judeus". Na mesma chave de interpretação, um ato terrorista é considerado culpa do "islã", ou um ato de agressão de um jovem descendente de imigrantes é um crime cometido por "árabes". Assim, sucessivamente, pessoas são categorizadas em termos da suposta tradição, religião ou cultura que herdaram da sua comunidade de origem.

Klug49, através de um experimento teórico, nos convida para uma reflexão a respeito das vivências imaginárias de um certo rabino idoso que fora retirado do ônibus 73 em Londres pela motorista Mary. Na calçada, o rabino Cohen reflete se foi vítima de anti-semitismo. Em outras palavras, será que ele experimentou a hostilidade básica que se manifesta contra o judeu como o "judeu"? E se o rabino Cohen estivesse fumando no ônibus? Mesmo que a longa barba e o solidéu obviamente o identificassem como judeu, talvez Mary simplesmente o tivesse colocado para fora do ônibus porque ele estava fumando no interior do veículo. Dessa maneira, Mary não lhe teria dispensado um tratamento diferente ao dado a Jane Smith ou a Bhupinda Singh, também retirados do ônibus naquele mesmo dia. Se é assim, a decisão decorreu do fato de ele ser fumante, e não de ser judeu.

E se Mary tivesse retirado o rabino do ônibus por ele cantar uma música religiosa, profundamente importante para ele como judeu, no máximo da sua voz? Será que ela o teria expulsado porque ele cantava ou porque cantava uma música judaica? Teria sido porque cantava como judeu ou porque cantava alto? Foi ele retirado do ônibus por ser judeu ou por ser barulhento? E se Mary foi, de fato, preconceituosa e intolerante na sua atitude com o rabino Cohen? Ela conhece esse tipo de pessoa e decidiu pô-lo ostensivamente para fora do ônibus não porque estava cantando, mas porque, na verdade, ele é um estrangeiro criador de caso que, para começo de conversa, nem deveria estar ali. Basta olhar para o rabino Cohen, com sua aparência oriental, sua longa barba e seu boné esquisito, para confirmar a Mary exatamente o que ele é: um desses mullahs. "Cai fora, Abdul", grita ela enquanto o empurra para a calçada, onde o rabino Cohen reflete, filosoficamente, se não teria sido uma vítima da islamofobia!

Islamofobia, racismo, xenofobia e anti-semitismo guardam a mesma estrutura elementar de classificação, apesar dos diferentes temas selecionados pelos seus respectivos discursos. Nela, as individualidades são dissolvidas em nome do conforto que a divisão totalitária entre o "nós" e o "eles" confere aos habitantes de sociedades em constante mudança. Nesse sentido, a forte demanda por reconhecimento das identidades como meio para a promoção do bem comum não é evidente. E é sobre esse novo paradigma de organização política que a Europa Ocidental se debate atualmente.

 

Recebido para publicação em 30 de março de 2007.

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Print version ISSN 0101-3300 |  doi: 10.1590/S0101-33002007000300005 

 

(*) BILA SORJ é Professora titular de sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É autora de "Identidades judaicas no Brasil contemporâneo" (Imago, 1997), e co-autora, junto com Guila Flint, de "Israel, terra em transe. Democracia ou teocracia?"  (Civilização Brasileira, 2000).

 

 

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