Caminho Equivocado - DAVID GROSSMAN


Enquanto o Hizbolá está comprometido em destruir Israel, a maioria dos palestinos já se reconciliou - talvez sem alegria - com a existência de Israel e a necessidade de dividir a terra que partilham conosco.

 

Se fizer uma paz -  mesmo que parcial - com os palestinos, Israel irá melhorar sua posiçao em duas frentes


 

Caminho Equivocado

 DAVID GROSSMAN (*) - Ynet 26/07/2006

- traduzido por Cláudia Storch e Renée Avigdor para o PAZ AGORA/BR


Quanto mais Israel atola no pântano, em sua briga com o Hizbolá, mais se torna claro que nas últimas décadas, enquanto Israel se esgotava devido ao conflito com os palestinos, a força militar de Israel e sua capacidade de dissuasão se enfraqueceram a um ponto inaceitável.

 

Já foi dito muitas vezes, e não podemos mais ignorar as conseqüências: por décadas Israel vem sacrificando seu sangue e seus recursos no conflito com os palestinos, e esse conflito ocupou as melhores partes dos nossos pensamentos e discussões internas.

Por quase 40 anos, o desenvolvimento de Israel como nação, sociedade e país foi deslocado para um caminho equivocado e estéril, que está levando Israel para um beco sem saída. Uma grande parte do discurso interno tem sido feita em torno da questão da ocupação, ou pelo menos em questões a ela relacionadas.


Outros debates significativos, lidando seriamente com os problemas reais de Israel e com os perigos verdadeiramente  ameaçadores que pairam à nossa frente têm sido deixados de lado.

 

Discutindo o Desligamento

Pare para pensar sobre o quanto que o debate sobre o desligamento de Gaza nos sugou. Quanto dinheiro foi desperdiçado em todo aquele processo, em compensações aos colonos que nem deveriam estar lá, desde o seu início, se os nossos políticos tivessem o mínimo de visão?


Pense sobre o total de horas gastas treinando soldados para expulsar criancinhas  e adolescentes chorosos de modo gentil mas firme, em vez de treiná-los para combater grupos como o Hizbolá.

Eu sou um homem simples. Não tenho fontes de informações especiais além do noticiário da mídia. Mas estou preocupado: o que iremos fazer no dia em que realmente tivermos de lutar, quando enfrentarmos uma ameaça maior e mais complexa do que as que já conhecemos, mas o nosso exército não estiver preparado porque gastou décadas policiando a ocupação?

Pré-ocupado com a Ocupação

O EDI tem estado ocupado, por todos esse anos, em choques com civis palestinos,  assim como com colonos. Todos esses anos, todo o nosso sangue se esvaiu para a ocupação e suas complicações, a ocupação e suas alucinações. A ocupação se tornou o maior projeto nacional, econômico e de identidade que Israel jamais conheceu.

Este último conflito torna um acordo com os palestinos ainda mais urgente: a ocupação precisa acabar, não por que isso será 'bom para os palestinos', mas sim porque só então Israel será capaz de retornar rapidamente à agenda militar e diplomática que um país tão frágil necessita.

Este é o único caminho para que o país tenha energia suficiente, e seja capaz de 'libertar nossas cabeças' o bastante para que nos prepararemos adequadamente para as ameaças existenciais que se encontram adiante.

 

Tempos Difíceis nos Esperam


Não se engane sobre isso: O fim da ocupação não fará com que ninguém no Oriente Médio nos ame. Mesmo depois, Israel restará como um implante estranho na região, na visão da maioria dos países árabes.

Mas um acordo razoável com os palestinos reduzirá as chamas sob a maior parte dos nossos pontos de conflito, permitirá a Israel cicatrizar suas feridas internas, e lembrará aos israelenses sobre pelo que realmente vale a pena lutar.

Infelizmente, Israel terá que chegar a um acordo com o Hamas, pelo menos para um cessar-fogo que dure vários anos. Esta é uma solução parcial e problemática. Mas ainda é melhor do que o status quo atual.

Será de fato tão pouco razoável predizer que se não encontrarmos alguma solução rapidamente, mesmo que seja parcial, para o conflito palestino, poderemos em alguns anos sentir saudades do Hamas de hoje, um grupo com o qual ainda podemos chegar a um acordo, como Ismail Haniyeh já repetiu tantas vezes? 

Agora é o momento para Israel iniciar um novo processo com todos os setores e facções do povo palestino. Nós devemos apresentar propostas sérias que ofereçam aos palestinos desafios e oportunidades reais, e os forcem a decidir se desejam um compromisso para viver conosco em paz, ou se estão dispostos a continuar cativos de um governo fanático e fundamentalista.

 

Diferenças Básicas

 

As ações beligerantes e irresponsáveis do Hizbolá levaram muitos israelenses a considerar as duas frentes, em que Israel está atualmente lutando, como se fossem uma única ameaça existencial. Mas, enquanto o Hizbolá está comprometido em destruir Israel, a maioria dos palestinos já se reconciliou - talvez sem alegria - com a existência de Israel e a necessidade de dividir a terra que partilham conosco.

      
A maior parte dos israelenses e palestinos entendem que seus destinos estão entrelaçados. Ambos têm um claro interesse em chegar a um acordo com compromissos sobre os princípios mais básicos. É claro para ambos que, no final das contas, este conflito não tem solução militar.

 

O brutal esmagamento da Faixa de Gaza se exauriu, e conforme relatos, até as organizações extremistas na Autoridade Palestina estão dispostas a um cessar-fogo.

 

Uma proposta sábia por Israel para começar negociações - mesmo antes do final do atual round de lutas contra o Hizbolá - poderia mostrar aos palestinos e ao mundo que Israel diferencia entre as duas frentes de batalha. E poderia melhorar a posição de Israel nas duas frentes.

 

 

(*) DAVID GROSSMAN é veterano ativista do PAZ AGORA e um dos mais importantes escritores israelenses da atualidade. Foi um dos signatários iniciais da DECLARAÇÃO CONJUNTA ISRAELENSE-PALESTINA.

 


© PAZ AGORA/BR

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