Os 5 Anos Perdidos do Processo de Paz - AKIVA ELDAR


Quando a Iniciativa Árabe de Paz foi inicialmente lançada em 2002, foi totalmente ignorada pelo governo Sharon, no auge da repressão da intifada palestina.
 
Na verdade ela significou uma histórica virada na posição de uma maioria das nações árabes que passava a admitir a co-existência pacífica com o Estado de Israel, "entidade" que até então visavam destruir, e com quem se dispunham desde então a negociar.
 
Cinco anos depois, o documento, em vias de ser novamente ratificado por 22 países da Liga Árabe, permanece como base de negociações capazes de levar a uma paz definitiva entre Israel, os palestinos e o mundo árabe em geral.

 
Os Cinco Anos Perdidos do Processo de Paz
 
AKIVA ELDAR - Haaretz 16/03/2007
 
- traduzido por MOISÉS STORCH para o PAZ AGORA/BR -
 

Em 14/01/2002, quando os escalões superiores de Israel, político e militar enviaram o exército, no meio de uma trégua, para assassinar Raed Karmi, o chefe do braço militar da Fatah na região de Tul Karm, o Dr. Mati Steinberg, que era então assessor sobre assuntos palestinos da chefia do serviço de segurança Shin Bet, não apoiou a decisão. Naquela ocasião, também, seu chefe direto Avi Dichter (hoje Ministro da Segurança Interna), não quis saber qual o pensamento do especialista da sua equipe sobre as implicações políticas de atingir outra importante figura palestina.

"Exatamente como temia", recordou nesta semana Steinberg, "o assassinato  de Karmi levou ao naufrágio da trégua que durara desde 16/12/2001. Não apenas o assassinato impulsionou gente da Fatah a realizar ataques suicidas, como disparou o sinal para uma competição entre eles e o Hamas sobre quem conseguiria matar mais judeus. Levou também à "Operação Escudo Defensivo", que empurrou a Iniciativa Árabe de Paz (IAP) para a margem e eliminou, pela primeira vez, a oportunidade de colocar a via diplomática com os palestinos em linha com aquela Iniciativa".

Embora os governantes tenham ignorado as suas recomendações com relação aos assassinatos seletivos, Steinberg não desistiu. Permaneceu no Shin Bet até 2003 e continuou escrevendo suas opiniões. Desde então, tem lecionado na Universidade Hebraica e no Centro Interdisciplinar de Herzlia. Uma das suas gavetas contém uma análise que escreveu em tempo real [à época do lançamento da IAP] sobre a Iniciativa, em março de 2002.

 

A GRANDE MUDANÇA

Nela, Steinberg comparava as novas posições da Liga Árabe com as posições tradicionais de suas resoluções anteriores. Ele observava o que definia como "a grande mudança" - a disposição de acabar o conflito, de estabelecer relações normais de vizinhança entre os países árabes e Israel e a chegar a uma solução acordada para o problema dos refugiados.

O conhecimento de que os países árabes haviam começado a distribuir as diretrizes da Iniciativa em vários foros, sem qualquer conexão a uma reação de Israel, diluiu o resto das suas dúvidas. Steinberg se convenceu de que tinha diante de si um documento de importância histórica. O documento chegou até o escritório do primeiro-ministro da época, Ariel Sharon. "Eles me contactaram por parte da secretaria militar de Sharon e esclareceram o lado factual da resolução da Liga", recorda Steinberg. "Repeti as explicações que havia escrito sobre o documento, e nunca mais ouvi nada deles. Que eu saiba, jamais houve qualquer discussão sobre este assunto".

Alguns dias depois, um jornal israelense publicou o artigo de um então secretário do governo, Gideon Sa'ar (hoje deputado pelo Likud), que "rasgava" a resolução da Liga. Steinberg acha que Sa'ar leu o documento e tentou negar tudo o que parecia ser uma mudança para melhor na postura árabe. "Havia uma síndrome acontecendo aqui de 'se você não quiser olhar, não irá ver'", diz Steinberg, lamentando os cinco anos perdidos que se passaram desde então". "Eu me lembrei, apesar de todas as diferenças, do Mufti Haj Amin Al Husseini, que se opôs ao Livro Branco que lhe oferecia enormes ganhos políticos, e com isto serviu diretamente aos interesses de [David] Ben-Gurion."

Pouco depois, Yasser Arafat anunciou que aceitava a Iniciativa Árabe, e até enviou Mahmoud Abbas (Abu Mazen), o atual presidente da Autoridade Palestina, a Washington para informar os americanos de sua decisão. Ao mesmo tempo, tanques do exército israelense já estavam apertando o cerco sobre a Muqata, complexo governamental da AP em Ramalah.

"Percebi que de uma perspectiva interna, o governo não foi capaz de recuar e  conter sua ação", diz o antigo assessor do Shin Bet, "mas é inconcebível que, no rastro da aceitação da IAP pela AP tenhamos atacado o quartel-general de Jibril Rajoub. Qual foi a mensagem para a população palestina? Que o pragmatismo não vale a pena. Eu disse que sob nenhuma circunstância a central do governo palestino poderia ser destruída. O Irã e o Hamas explorariam o caos, e então viria uma jihad global."

 
SOLUÇÃO NEGOCIADA

Steinberg rejeita os argumentos de pessoas como o professor Shlomo Avineri, no sentido de que a Liga Árabe estaria tentando forçar pré-condições para um acordo com Israel. É difícil para ele entender como pessoas sérias podem argumentar que alguém espera que Israel se retire dos territórios sem a realização de negociações detalhadas sobre fronteiras, arranjos de segurança, locais sagrados, etc... 

Conforme ele, a ausência [na IAP] de uma demanda pela evacuação de assentamentos judeus nos territórios, por exemplo, não é à toa. É claro para os árabes que o caminho para um acordo passa pela mesa de negociações.

Desde março de 2001, Steinberg vem lendo cada palavra escrita em árabe sobre a IAP. Descobriu que a Liga Árabe não está propondo a retirada primeiro e a normalização depois, mas sim a chegada simultânea às duas. "Qualquer um que defenda que a normalização levará a uma retirada não pode negar uma demanda de que a retirada seja uma condição para a normalização".

INTERLOCUTOR PALESTINO

Steinberg não está propondo que o governo do primeiro ministro Ehud Olmert inicie negociações com o governo do primeiro-ministro Ismail Haniyeh com base na IAP. "O acordo de Meca dá a Abu Mazen o poder de procurador para realizar as negociações", diz. "Olmert encontra-se com Abu Mazen de qualquer forma. A questão não é com quem falar, mas sobre o que falar".

Para demonstrar este argumento, Steinberg retira uma citação de observações feitas por Ahmed Yousef, assessor de Haniyeh, na mais recente edição do períodico árabe editado em Londres A Sharq al Awsat. "Mudanças ideológicas podem ser esperadas no pensamento do Hamas, pois estamos preparados para nos referir positivamente à IAP, sob condição de que Israel adira a ela. Algo que ainda não aconteceu", disse Yousef.

Steinberg acredita que a IAP é ainda mais importante hoje do que há cinco anos. "Àquela época, havia principalmente um contexto interno palestino, enquanto hoje este texto é relevante para todo um contexto regional externo. Ele incorpora não apenas uma solução para o problema palestino, mas também reforça o centro árabe sunita. Mais ainda, o apoio regional pode tornar mais fácil para os palestinos encarar concessões que não poderiam digerir sozinhos.

RES.194 = DIREITO DE RETORNO TOTAL?

A Ministra do Exterior Tzipi Livni está demandando que os líderes dos 22 países árabes, que se reunirão ao final do mês em Riyad para re-ratificar a Iniciativa de Paz da Liga Árabe, excluam dela o direito de retorno. Diferentemente do esquema de Clinton (que propõe realizar o direito de retorno dentro do Estado Palestino), a IAP não menciona esta frase, o que assusta Israel. Mas Livni defende que o termo problemático está escondido na frase "com base na Resolução 194 da Assembléia Geral da ONU", na parte final da proposta da Liga Árabe, que insta por chegar a uma "solução justa e acordada para o problema dos refugiados".

Há pouco menos de um ano, quando Livni tentava conquistar simpatias para o pleno de desligamento, ela glorificava numa carta que o presidente dos EUA George W. Bush havia dado para Ariel Sharon sobre a questão dos refugiados, na qual declarava que quando a questão dos refugiados surgisse em negociações, os EUA apoiariam a realização do direito de retorno apenas no Estado Palestino que seria estabelecido nos territórios, e não no território do Estado de Israel. Àquele tempo, a carta foi considerada uma grande conquista de Sharon. O apoio oficial dos Estados Unidos a Israel na questão do direito de retorno tornava de fato acadêmica a discussão da interpretação da Res.194.

A professora Ruth Lapidot, que foi assessora legal do Ministério de Relações Exteriores por muitos anos, não entende por que políticos israelenses estão cerrando dentes para a questão do direito de retorno.  Num estudo que publicou em 2003, pelo Jerusalem Institute for Israel Studies, Lapidot defende que não existe fundamento para o argumento árabe de que a Resolução 194 lhes concede o direito de retorno. Ela explica que a opção de retorno é condicionada aos palestinos que desejam retornar a suas casas interessados em viver em paz com seus vizinhos. Esta condição, observa Lapidot, não foi cumprida desde a erupção da segunda intifada em setembro de 2000.

Lapidot concorda com o professor Geoffrey R. Watson, que foi membro da equipe legal do Departamento de Estado dos EUA, em sua interpretação da frase na Res. 194 que diz: "aos refugiados desejosos de retornar às suas casas e viver em paz com seus vizinhos seria permitido fazê-lo na data mais próxima possível". Os dois especialistas concordam que o uso da palavra "seria" (should), ao invés da palavra "será" (shall), transforma a opção de retorno numa mera recomendação.

Em seu livro "The Oslo Accords: International Law and the Israeli-Palestinian Peace Agreements" (Oxford University Press), Watson observa que mesmo a delegação palestina na Assembléia Geral da ONU argumentou que a frase "seria permitido" não coincide com o direito de retorno. É uma resolução da Assembléia Geral, que diversamente das resoluções do Conselho de Segurança, não é operacional e não estritamente obrigatória.

RETORNO NEGOCIADO

As maiores críticas à versão de Livni afirmando que a IAP assegura o direito de retorno podem ser encontradas entre a liderança do Hamas e os chefes da Al-Qaeda. Numa reação oficial à decisão da Liga Árabe em Beirute, o Hamas declarou, "É necessário condenar por completo a transferência da questão do direito de retorno para a mesa de negociações e a demanda por sua implementação por meio de um entendimento mútuo com Israel". Meio ano atrás, o vice de Khaled Meshal, Musa Abu Marzuq, explicou numa entrevista de jornal que uma das principais razões para a decisão do Hamas em rejeitar as iniciativas diplomáticas que surgiram nos últimos anos, incluindo a Iniciativa Árabe, é que "uma solução que não inclua o retorno de todos os refugiados às suas casas e propriedades é indefensável." Argumentou que a decisão da Liga Árabe põe um fim a esse direito sagrado.

O Dr. Steinberg diz que sua interpretação da Iniciativa Árabe é similar à do Hamas. "A diferença entre nós", diz o especialista do Jerusalem Middle East, "é que uma correção que eles consideram como sendo uma retirada de posições tradicionais concernentes ao retorno e a todo o conflito - eu vejo como uma oportunidade única para remover o obstáculo do direito de retorno do caminho para terminar o conflito inteiro".

(*) AKIVA ELDAR é colunista do jornal Haaretz.

 

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