David Grossman,
ativista do PAZ AGORA e premiado escritor israelense, lança no Brasil seu livro "Ver: Amor", e fala sobre
identidade judaica e sua esperança na paz, após perder seu filho na guerra
contra o Hizbolá.
O Escritor DAVID GROSSMAN Prega a Paz com
Palestinos
entrevista para
Antonio Gonçalves Filho
O Estado de S.Paulo -
18/05/2007
O escritor israelense David Grossman crê numa
solução pacífica para o conflito entre israelenses e palestinos. E luta pela
defesa desse ideal, comprando brigas dentro e fora de Israel sem abrir mão de
seu discurso, mesmo após perder tragicamente seu filho Uri, sargento do Exército
israelense, aos 21 anos, atingido por um míssil do Hezbollah na madrugada de 12
para 13 de agosto do ano passado, na região leste do Líbano.
Dele a editora Companhia das Letras lança esta
semana "Ver: Amor" (536 págs, R$ 62), publicado há 20 anos em Israel e
considerado pelo crítico Edmund White um exercício literário épico sobre o
Holocausto.
Sobre esse livro perturbador, que conta a
tragédia histórica pelos olhos de um garoto de 9 anos, Grossman falou de
Jerusalém, revelando que escreveu essa história como quem se sente obrigado a
contar aos filhos o que aconteceu a seus antepassados, alertando-os para o risco
da repetição desse erro no futuro.
Ver: Amor
já foi definido como um épico, a novela suprema do Holocausto, justamente pelo
exercício de imaginação de seu narrador, Momik. Ele tenta projetar o puro horror
numa narrativa circular que passa pelo registro realista e surrealista,
enciclopédico e absurdo. O pesadelo do qual saiu a máquina diabólica do nazismo
é reconstruído segundo um esquema narrativo incriminatório do qual não escapa o
próprio narrador, criança na primeira parte e adulto na
segunda.
Nesta entrevista, David Grossman fala de suas
influências literárias, especialmente Heinrich Böll e Clarice Lispector,
reservando um breve comentário sobre a confissão do Nobel Günter Grass de seu
passado nazista. O livro de Grossman foi comparado, na época de seu lançamento,
à obra mais popular do escritor alemão, O Tambor, sobre um menino que se
recusa a crescer numa Alemanha mergulhada nas
trevas.
Grossman prepara há quatro anos um novo livro,
que começou a escrever quando seu filho entrou para o Exército. E revela que
produziu seis poemas, prontos para receber uma versão musical da compositora
americana Tamar Muskal. Grossman concedeu a entrevista abaixo um dia antes do
mais recente episódio de violência na Faixa de Gaza.
Muitos críticos apontaram a dificuldade que
tiveram para ler "Ver: Amor" por sua temática, o Holocausto. Somos inábeis para
lidar com o horror dessa tragédia?
Esse é um confronto difícil. Somos quase como
crianças e, mesmo que tivéssemos a consciência da extensão desse horror, não
saberíamos como lidar com ele. Não é, digamos, um fenômeno compreensível, nem
mesmo numa dimensão metafórica, o que me fez optar por contar essa história em
quatro registros diferentes. Cresci tendo a consciência de que teria algum dia
de transmiti-la a meus filhos e, dividido, pensava em como evitar que eles
soubessem de tanta crueldade. Eles não seriam mais inocentes no momento em que
conhecessem tal história. De qualquer modo, não há como escapar dela vivendo em
Israel, porque a marca indelével do Shoah está presente em nossas vidas. Ele
conduz nossas atitudes, nosso modo de ver o mundo, nossa
política.
Muitos críticos comparam "Ver: Amor" ao
premiado "O Tambor", do Nobel Günter Grass, que há algum tempo revelou ter
pertencido à Juventude Hitlerista. Como o senhor recebeu essa
revelação?
Por vezes somos obrigados a topar com esquinas
escuras dos seres humanos. Foi o caso de Grass. Fiquei me perguntando por que
razão ele não revelou esse segredo antes, por que não se manifestou a esse
respeito, como inventou sua personalidade? É mesmo incômodo esse comportamento
estranho. Em todo o caso, não quero e não posso ser o juiz de Grass. Não me cabe
julgar a adesão de um jovem ao nazismo. Prefiro pensar que ele fez tanto para
entender e reparar esse seu erro que já não depende de minha aprovação ou
reprovação.
O senhor dividiu "Ver: Amor" em quatro
partes, adotando como narrador real Momik, garoto de 9 anos, como se uma
história como essa só pudesse ser contada por um inocente. Por que, num segundo
momento, o senhor resolve abandonar o registro realista e abraça a
metáfora?
Porque a máquina genocida do Shoah tinha algo
de diabolicamente surrealista: câmaras de gás, campos de extermínio,
experiências com o corpo. Tudo isso orquestrado como uma metáfora da maldade
humana e do seu poder infinito de criar mais e mais horrores. Pensei muito em
Clarice Lispector, em sua poderosa imaginação, e concluo que o leitor brasileiro
estará mais habilitado a entender essa segunda parte do livro melhor que os
leitores de outros países. Afinal, a imaginação do genial Bruno, o segundo
narrador, é tão rica quanto foi a de Clarice. Eles dividem a mesma
fantasia.
Em Yellow Wind, publicado há quase 20 anos,
o senhor descreve um retrato simpático do povo palestino. A tragédia que atingiu
seu filho no ano passado, quando ele foi morto por um míssil do Hezbollah,
conseguiu mudar seu ponto de vista sobre a viabilidade da coexistência pacífica
entre judeus e palestinos?
Não. O que aconteceu a meu filho não mudou meu
modo de ver os palestinos. Eles também já sofreram um bocado e, apesar de terem
cometidos muitos erros, há palestinos de boa vontade, que querem a paz. Não
estou falando naturalmente dos suicidas, porque ser um homem-bomba é escolher um
meio inumano de lutar.
Kafka e Heinrich Böll são normalmente
lembrados quando alguém se refere a seus livros. Quais são as marcas dessa
influência que o senhor identifica em sua literatura?
Kafka, naturalmente, é uma referência para
qualquer escritor moderno, mas não identifico traços dele em minha literatura. É
só uma inspiração. Já Böll não foi apenas uma influência. Ele realmente me
ensinou a contar uma história. Kafka teve o mérito de descobrir uma outra
dimensão. Foi uma pessoa que ficou fora da vida para conhecê-la melhor, como se
a visse de uma janela.
Num livro chamado "I Am a Jew", publicado
há dois anos, vários autores judeus tentam entender sua identidade, entre os
quais o senhor, que define ser judeu como o estrangeiro absoluto, condenado à
mais atroz solidão, como se fosse um personagem criado por Beckett. Ainda se
sente assim?
Sinto-me tremendamente ligado à tradição
judaica, apesar de ateu, e a toda essa corrente de escritores que falam de
isolamento e solidão. Já não posso dizer o mesmo de Israel, que não sente
compaixão pelo sofrimento alheio. Muitos israelenses parecem indiferentes à
ocupação. Creio que temos de resgatar essa sensibilidade, essa capacidade de
sentir o outro.
O filósofo Bernard-Henri Lévy definiu ser
judeu como alguém que ama mais a Lei que a terra e o logos tanto quanto o
espírito, a alma. O senhor poderia comentar sua
definição?
Como disse anteriormente, não sou um homem
religioso. Portanto, sou incapaz de falar do amor a Deus. Mesmo falar sobre a
terra me custa, porque queria que Israel fosse um território de paz e não é. A
terra tampouco me diz alguma coisa. É mesmo difícil definir o que significa ser
judeu. Lembro-me de um encontro com o Dalai-Lama, em Nova York, em que ele fez a
mesma pergunta e alguém da platéia, provavelmente um acadêmico, respondeu que
ser judeu era um "exercício de opinião", no que foi imediatamente contestado por
outro. Pode parecer uma piada, mas foi o que aconteceu. Acho que ser judeu é ter
a alma flexível. É ser um eterno outsider.
Uma vez o senhor afirmou que abandonaria
Israel se não acreditasse mais numa solução pacífica para o confronto com os
palestinos. Como estão seus planos?
Não creio que tenham sido essas exatamente as
minhas palavras. Disse que não conseguiria viver num regime que não fosse
democrático e, embora a realidade seja contrária à minha crença, pelo menos
mantemos a memória de uma alternativa de paz. Não, não me vejo morando fora de
Israel. É o único lugar onde não me sinto estrangeiro, o lugar de maior
relevância para um judeu viver integralmente sua linguagem, memória histórica e
herança.
Alguns textos seus têm sido adaptados por
compositores. Recentemente, Yellow Wind recebeu uma versão sinfônica de Tamar
Muskal. O que achou da experiência?
Não estava na estréia, mas recebi o disco e
gostei muito. É uma música forte, reflexiva, emocional. Ela agora está compondo
uma suíte baseada em seis poemas meus.
E o senhor, o que escreve
agora?
Um livro que está em preparo há quatro
anos. Comecei a escrevê-lo quando meu filho foi para o Exército. Agora com o
recrudescimento da violência e do espírito bélico, acho que está na hora de
concluí-lo.
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