|
“
PALESTINOS E ISRAELENSES ESTÃO DISPOSTOS A CRIAR
DOIS ESTADOS.
OCORRE QUE SHARON E ARAFAT SÃO UNS
COVARDES ... ”
-
Excertos de entrevista de AMOS OZ -
|
[
Elena Pita - El Mundo/Iton Gadol - 03/10/04
- traduzida pelo PAZ
AGORA/BR
]
Israel tem que abandonar os territórios
ocupados, e os árabes têm que reconhecer a
existência de Israel e conviver em paz. Creio em
uma solução de dois Estados, Israel e a vizinha
Palestina. É algo muito simples que estou
convencido de que acontecerá; não sei quando, é
só questão de tempo, porque nem os palestinos
nem os judeus temos outro país para onde ir.
Temos que dividir a casa em dois apartamentos e
aprender a viver como vizinhos civilizados.
|
SIONISMO
Parece-me que seu livro também se propõe a desmontar
o estereótipo do sionismo como movimento invasor.
Diz que o povo judeu não foi à Palestina com ânimo
de invadir, mas porque não tinha outro lugar para
onde ir. Mas, por que Palestina?
AO - Porque é o
único país onde historicamente os judeus como povo,
como nação, nos sentimos em casa. Esta pergunta está
errada e te explico porque. Durante os anos 20, os
judeus europeus buscavam um país onde pudessem ir;
meu avô solicitou quatro nacionalidades diferentes
antes de vir aqui, mas o recusavam: judeus demais.
Europa no primeiro terço do século era como o
Titanic: meus pais foram aqueles passageiros jogados
do convés ao oceano antes do naufrágio, enquanto que
o resto dançava dentro do navio. E a tragédia é que
eles foram precisamente os arquitetos da Europa
titânica contribuíram para sua cultura porque a
amavam, eram os únicos europeus junto aos patriotas
espanhóis, búlgaros, noruegueses. Gente cosmopolita,
o que então era um mero pejorativo, como intelectual
ou parasita, palavras que encontramos nos
vocabulários nazista e comunista.
Então, é melhor esquecer?
AO -Não se pode
esquecer, é necessário falar disso para curar a
ferida. Eu ainda tenho a ferida dentro de mim.
Quando meus pais eram jovens, os muros de qualquer
cidade européia tinham pixações que diziam: “Judeus,
vão para a Palestina”. Hoje, esses mesmos muros
gritam: “Judeus, saiam da Palestina”.
Ainda se sentem incômodos no mundo?
AO -Sempre
nos sentimos como uma nação hóspede, mas em Israel
não. Aqui estamos em nosso país.
Ainda temem um novo Holocausto?
AO -De certo modo
sim, o temor de uma catástrofe persiste porque somos
o único país do mundo com inimigos dispostos a
eliminá-lo. Tal é a política oficial do Irã, por
exemplo. Ninguém se propôs a eliminar os espanhóis
pela política de Franco. Entende a diferença? Nisto
reside nossa insegurança.
KIBUTZ
Os
kibutzim ainda têm sentido?
AO -Para mim, sim.
O kibutz é um experimento muito interessante sobre o
socialismo voluntário, que nada tem a ver com a
política e os governos socialistas, e que
prevalecerá sobre o materialismo e a aparência que
hoje constituem a visão da maioria.
DOIS ESTADOS
Já foi dito que “Conquistar a terra alheia, onde
outro povo vive, é sangrento e terrível”. Não é isso
que Israel pratica nos territórios ocupados?
AO -Israel tem que
abandonar os territórios ocupados, e os árabes têm
que reconhecer a existência de Israel e conviver em
paz. Creio em uma solução de dois Estados, Israel e
a vizinha Palestina. É algo muito simples que estou
convencido de que acontecerá, não sei quando, é só
questão de tempo, porque nem os palestinos nem os
judeus temos outro país para onde ir. Temos que
dividir a casa em dois apartamentos e aprender a
viver como vizinhos civilizados.
Na sua opinião, palestinos e israelenses estão
preparados para isso. Quem, então, tem tanto
interesse em manter a luta?
AO
-Temos uns líderes muito pobres. Costumo
dizer que o paciente, ou seja, palestinos e
israelenses, está disposto para a operação, a criar
dois Estados; não lhes alegra a solução, mas a
aceitam. O que ocorre é que os médicos, Sharon e
Arafat, são uns covardes.
Qual é seu partido?
AO - Sou membro do
PAZ
AGORA,
uma coalizão de socialistas, liberais e inclusive
alguns ortodoxos; um amplo espectro que vai da
esquerda ao centro, e que atualmente está respaldado
pela maioria dos israelenses e também por muitos
palestinos que estão a favor da convivência dos dois
Estados.
FANATISMO
Em
certa ocasião o senhor comparou a ultradireita judia
com as facções do Hizbolá e Hamas, e foi duramente
atacado por seus compatriotas. Sente-se seguro
em seu país?
AO -Comparei os
fanáticos judeus e islâmicos. Todos os fanáticos são
similares. Israel é o meu lugar, ainda que não seja
um jardim de rosas. Meu compromisso é lutar pela
opinião pública, tratar de mudar a mentalidade e o
coração de muitos israelenses, porque este é meu
país. Ainda que meu partido não esteja no governo,
este não é o fim do mundo.
A
literatura é um antídoto contra o fanatismo. Por
isso escreve?
AO - Escrevo porque
tenho que fazê-lo, sinto assim, do mesmo jeito que
preciso respirar. Escrever te obriga a imaginar os
sentimentos dos outros e isto, sim, é um bom
antídoto contra o fanatismo.
COPYFREE
:
Reprodução permitida com
os devidos créditos aos
autores, à
fonte,
ao
PAZ
AGORA/BR
-
www.pazagora.org (versão
em português).
Os textos publicados visam subsidiar o diálogo
e
NÃO
representam necessariamente as posições do
Movimento PAZ
AGORA ou dos Amigos Brasileiros do PAZ
AGORA.
Estas são expostas nas seções "QUEM
SOMOS" e "POSIÇÕES"
do site
www.pazagora.org
<<
índice
"BUSH E EUROPA SÃO OS
DOIS LADOS DA MESMA
MOEDA"
[Entrevista
de AMÓS OZ por
Tulio Demicheli - La Nación - Madri, 19/09/04]
-
traduzido pelo
PAZ
AGORA/BR
-
"É uma pena que Israel continue sendo um país
desconhecido entre vocês - afirma Amos Oz - porque a
cultura judaica tem muitos genes espanhóis e a
cultura espanhola conta com muitos genes judeus. Me
parece trágico que o conhecimento se
estabeleça através das manchetes dos periódicos sem
que haja contato cultural nem diálogo entre nossas
sociedades civis. Meu livro não é um estudo sobre o
Estado de Israel, tampouco um tratado de sociologia,
mas uma saga familiar que percorre muitas gerações e
que conta a experiência de um menino que chega a ser
escritor. Espero que os leitores encontrem algumas
chaves universais para compreender melhor quem somos
os judeus, por que estamos em Israel e o que nos
levou até lá."
Amos Oz acaba de apresentar seu último livro e é uma
das vozes mais escutadas no Ocidente quando se trata
de analisar o drama do Médio Oriente.
Ø
Antes da perseguição nazista e do Holocausto, havia judeus
na Palestina? Que direito têm sobre a terra?
AO :
Em Jerusalém existia uma maioria judaica já faz 200
anos. Muita gente desconhece que a metade dos judeus
de Israel foi expulsa dos países de religião
islâmica e que a outra metade, como minha família,
foi expulsa da Europa. Quando meu pai era jovem,
havia pixações nas ruas européias que diziam:
"Judeus, saiam para a Palestina!", e agora, quase 60
anos depois, nas mesmas paredes se lêem outras (as
mesmas) pixações que dizem "Judeus, saiam para a
Palestina!". Se não tivesse sido uma tragédia, diria
ser engraçado.
Ø
Outro aspecto desconhecido da sociedade israelense é sua
grande diversidade. Há um judaísmo reformado e outro
sem reformar. O reformado tem ultra-ortodoxos e o
outro também; inclusive alguns nem sequer reconhecem
o Estado porque não é messiânico. Também há liberais
e não praticantes...
AO :
Na cultura judaica há algo muito óbvio: dois judeus
nunca estão de acordo. Nem mesmo um judeu consegue
estar de acordo consigo mesmo, porque temos a mente
dividida e vivemos uma ambivalência extrema. Jamais
tivemos um papa como o dos cristãos porque, se
alguém se proclamasse sumo pontífice, o resto lhe
diria: "Tu não me conheces e eu não te conheço, mas
meu avô e o seu faziam negócios há muitos anos.
Portanto, cala e me escuta, porque vou te contar o
que Deus quer de nós". É uma civilização
argumentativa. Eu diria inclusive que um seminário
de rua, Eu quis plasmar em "Uma
história de amor e escuridão" esta
grande diversidade e vivacidade da cultura judaica.
Ø
Crê que os intelectuais europeus continuam difundindo os
velhos tópicos da Guerra Fria, a propaganda
anti-norteamericana, e não querem escutar as vozes
que se levantam em Israel em favor da paz?
AO :
Eu diria aos intelectuais europeus que deixassem de
ver o mundo em preto ou branco, porque se
continuarem nos vendo assim, não haverá nenhuma
diferença entre eles e George Bush, exceto serem o
outro lado da mesma moeda. Não há anjos nem
demônios. Estamos em Israel porque não há nenhum
país no mundo ao qual os judeus, como nação, possam
chamar de Pátria. E os palestinos estão na Palestina
pela mesma razão e não tem país, o que também me
parece una tragédia. Isto não é um filme do Oeste
com bons e maus. O fato de não escutar os
partidários da paz de Israel e também da Palestina -
porque ali também existe um importante movimento em
favor da paz, responde a que os europeus muitas
vezes preferem as manchetes mais sensacionalistas. O
derramamento de sangue, os tanques na rua, carros
bombas que explodem, dão fotos mais interessantes
que um congresso pela paz.
Por isso, quase ninguém se dá conta dos esforços que
judeus e palestinos fazemos em Israel pela paz. Mas,
hoje as pesquisas demonstram todas as semanas que a
maioria dos israelenses e dos palestinos apoiamos
uma solução intermediária. Esta maioria existe. Mas,
bem agora, tanto os palestinos como os israelenses
temos dirigentes que são um desastre. Mas as pessoas
estão dispostas, mesmo assim, a chegar a uma
solução.
Ø
Qual sería?
AO :
Dividir esta pequena casinha na qual nos cabe viver
em dois apartamentos, um palestino e outro
israelense, para coexistir como vizinhos
civilizados.
Ø
O senhor viveu ainda criança, conta em seu livro, a
fundação de Israel. O mandato da ONU era criar um
Estado judeu e outro palestino, mas foram os árabes,
e não os judeus, os que declararam a guerra, algo
que na Europa ou não se sabe ou se esquece.
AO :
Cinco países árabes invadiram o Estado de Israel
apenas dez minutos depois de ter sido proclamado. Só
dez minutos depois da meia-noite do 15 de maio de
1948. Mas não vale a pena discutir quem é
o agressor. O que sim importa é que os intelectuais
israelenses e os palestinos nos ponhamos agora mesmo
o avental branco do médico. O importante é, primeiro
estancar a hemorragia, e logo depois curar as
feridas.
Meu livro tem uma importante veia
meta-política porque trata desta tragédia familiar
mas não põe a culpa em ninguém. Eu pertenço a uma
tradição diferente da dos intelectuais europeus de
que você fala. Eles se erigem num alto tribunal que
busca os supostos culpados, os julga e dita a
sentença. Ao deitarem, estão satisfeitos por apoiar
os anjos em sua luta contra o demônio. Eu só busco
soluções para a crise com um espírito de compaixão e
com certa compreensão de ambas posições, tentando
alcançar um compromisso factível. Não uma solução
paradisíaca que faça todo mundo feliz, porque não
existe. Um compromisso, porque ou há compromisso
ou derramamento de sangue. E eu conheço
compromissos: estou a 45 anos casado com a mesma
mulher, portanto sei do que estou falando. Os
fanáticos, tanto da direita como da esquerda, me
parecem pontos de exclamação ambulantes. Os que nos
situamos no campo da paz levamos sempre a pior
parte, porque explodir uma estação de trens em Madri
é mais notícia na TV do que realizar um grande e
trabalhoso congresso pela paz.
Ø
Não é uma dificuldade adicional que a sociedade palestina
não seja democrática, como é a israelense por mais
defeitos que tenha?
AO :
Se fosse fácil, teríamos celebrado nossa lua de mel
faz tempo. A sociedade palestina não tem uma
tradição democrática, mas tem sim um núcleo de
sociedade civil e tem um movimento cada vez mais
forte em favor da paz. O movimento israelense pela
paz tenta colaborar com seu equivalente palestino,
porque se ficarmos de braços cruzados esperando que
o mundo árabe se faça democrático ou que Bush
imponha a democracia com pistolas na psique árabe
teremos que esperar demasiado tempo. Primeiro temos
que chegar a um
modus vivendi com a Palestina e logo
mais a sociedade palestina se desenvolverá mais
rapidamente para uma democracia. Como nas urgências
hospitalares, primeiro se estanca a hemorragia para
depois se curarem as feridas. É uma questão de
prioridades.
Ø
Muitos protagonistas da Guerra dos Seis Dias militam nas
linhas da paz, inclusive altos oficiais do exército
israelense. É verdade?
AO :
Nunca lutei na guerra por prazer, mas se alguém
tentasse matar a mim ou a minha família, voltaria a
lutar. A maioria dos fundadores do movimento pela
paz foram soldados, inclusive generais. E o mesmo
ocorre entre os palestinos. Muitos foram antes
guerrilheiros. Não há soluções paradisíacas, todos
procuramos uma saída pragmática.
COPYFREE
:
Reprodução permitida com
os devidos créditos aos
autores, à
fonte,
ao
PAZ
AGORA/BR
-
www.pazagora.org (versão
em português).
Os textos publicados visam subsidiar o diálogo
e
NÃO
representam necessariamente as posições do
Movimento PAZ
AGORA ou dos Amigos Brasileiros do PAZ
AGORA.
Estas são expostas nas seções "QUEM
SOMOS" e "POSIÇÕES"
do site
www.pazagora.org
<<
índice
pt
>>
|