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PREFERIR A PAZ AO MONTE DO TEMPLO
[Gershom
Gorenberg
–
17/11/2003 – Jerusalem Report ]
- traduzido para o
PAZ-AGORA/BR
por Sérgio Goldbaum.-
Pode-se pensar que o
Acordo de Genebra
é a fórmula de uma droga psicodélica, e
não um modelo para a paz Israelense-Palestina: Ela
produz reações alucinógenas em seus oponentes. O
Primeiro Ministro Ariel Sharon denominou o acordo
não-oficial, produto de longas negociações entre
pacifistas israelenses e palestinos moderados, de
“uma tentativa (...) de derrubar o governo por meios
não legítimos” – como se Yossi Beilin, o principal
negociador israelense, tivesse cercado a Knesset com
tanques. Ehud Barak chamou-o de “ilusório”, e disse
que o acordo “claramente prejudica os interesses do
Estado de Israel”.A verdadeira ilusão é a de Barak,
que reprimiu seu próprio fracasso como negociador
proclamando que os palestinos são incapazes de fazer
a paz. O acordo claramente prejudica os interesses
de Barak em fazer com que o público veja outros
obtendo um acordo no qual os palestinos desistam do
direito de retorno.
Mas a reação mais bizarra veio de Natan Sharansky,
um membro do gabinete de Sharon, que afirmou em um
artigo opinativo do Haaretz que aquela não era a
“paz pela qual o Povo Judeu rezou por milhares de
anos. O Povo Judeu rezou por Jerusalém”. Deus meu...
Acho que eu estava usando o livro de rezas de alguma
outra religião nesta manhã no shul
[sinagoga], quando li as palavras “Traga paz... para
o Seu Povo Israel”.
O que provocou a fúria de Sharansky é a seção do
acordo proposto de paz que colocaria o Monte do
Templo sob soberania palestina. Embora Sharansky não
mencione, a mesma seção reconhece “o significado
religioso e cultural único do sítio para o Povo
Judeu” e limita a soberania palestina através do
banimento de qualquer construção ou escavação no
Monte sem a aprovação israelense.
Sharansky é sem dúvida um herói da história judaica.
Ironicamente, seu artigo mostra que seu próprio
conhecimento da história judaica é fraco. Mas
pode-se lhe agradecer por ter desviado de argumentos
de segurança que tantas vezes encobrem posições
ideológicas, e ido direto ao ponto: o que importa
mais para Israel – a porção de terra que está sob
seu controle ou a forma como vivemos (ou morremos)
nela?
Uma vez que Sharansky mencionou as preces, vamos
começar por este ponto: a liturgia judaica contém
apelos constantes tanto pela paz quanto pelo retorno
a Sion. A questão é a relação entre elas, e a melhor
indicação é a linha, recitada diariamente, cuja
tradução literal é: “Traga-nos a paz a partir dos
quatro cantos do mundo...”. A meta é a paz, o
retorno é o meio. O ponto não é alguma santidade
intrínseca da terra. Como o filósofo Yeshayahu
Leibowitz indignadamente nos lembra, tratar a terra
como inerentemente sagrada é idolatria.
Em qualquer caso, as preces não trouxeram os judeus
de volta a sua terra, quem o fez foi o movimento
político do Sionismo. Aquele movimento nasceu da
necessidade dos judeus por um refúgio físico e
cultural em face do moderno anti-semitismo e da
assimilação. Sharansky observa, corretamente, que os
primeiros sionistas rejeitaram a criação de um
refúgio fora da Terra de Israel. Mas, após isso,
desenvolveu-se uma divisão entre aqueles que não
queriam aceitar nada menos do que toda a Terra de
Israel – a qual sempre descreveram na inflamada
linguagem erótica do nacionalismo romântico – e
pragmáticos, prontos a criar um estado com uma
maioria judaica em parte daquela Terra.
Em 1937, David Ben-Gurion apelou, sem sucesso, ao
movimento sionista que aceitasse o plano da Comissão
Peel por um estado judaico em uma pequena fatia da
Palestina mandatária, sem Jerusalém. A insatisfação
judaica não foi a única razão para o fracasso do
plano; os árabes também a rejeitaram. Golda Meir,
que se opôs ao compromisso, posteriormente admitiu
que “quando o holocausto veio, pude viver comigo
mesma apenas porque sabia que em 1937 não fui eu
quem, no final, decidiu se haveria ou não um estado
judaico independente”. Um estado truncado poderia
ter salvado incontáveis judeus europeus. Uma década
depois, Ben-Gurion obteve a aceitação da partição.
Tivesse a ONU forçado a decisão de partição,
evitando a Guerra da Independência, teríamos um
estado menor – e evitado a morte de milhares de
judeus em batalhas. Ao final daquela guerra,
Ben-Gurion rejeitou um plano para conquistar toda a
Cisjordânia. Posteriormente, ele explicou ao poeta
Haim Gouri que se agisse daquela maneira "ter-nos-ia
forçado a uma escolha impossível”: colocar em perigo
a maioria judaica do estado, ou usar os métodos de
Deir Yassin – uma referência ao massacre perpetrado
por direitistas – para expulsar os árabes.
A inesperada conquista de 1967 novamente transformou
a partição em uma escolha, mais do que um fato. Se
Barak tivesse conseguido, há três anos, obter um
acordo ao longo das linhas do
Acordo de Genebra,
mais de 800 israelenses e 2000 palestinos mortos em
conflito estariam vivos. Se o governo Sharon
alcançasse aquele acordo hoje, evitaria as próximas
vítimas. Também reduziria a preocupação com a defesa
a uma entre muitas outras preocupações, e as
atenções seriam dedicadas ao debate essencial,
sempre postergado, sobre o que significa criar uma
sociedade judaica soberana.
Sharansky conseguiu levantar um argumento
aparentemente convincente, mas obsoleto. A negação
palestina da conexão entre os judeus e o Monte
implicou, de fato, a negação de nossas raízes
históricas na Terra de Israel; sugeriu que os judeus
eram colonizadores. Mas
o
Acordo de Genebra
explicitamente faz do “reconhecimento do direito do
Povo Judeu a um Estado” a base da paz entre Israel e
Palestina; assegura e preserva as ligações judaicas
com o Monte do Templo e torna todas as mudanças no
sítio sujeitas a um acordo Israelense-Palestino. A
declaração simbólica que faz é a correta: esta é a
nossa terra, mas nós aceitamos menos do que tudo
para que possamos viver em paz.
Religiosamente, quem, de carne e osso, vai
administrar o Monte é menos do que irrelevante para
sua santidade. Um midrash composto há 1800
anos, registrado em Bereshit Rabbah, enfatiza
o ponto: afirma que Caim e Abel concordaram em
dividir o mundo entre eles. Então eles começaram a
discutir quem iria ficar com o lugar em que o Templo
seria construído, e “Caim se levantou contra seu
irmão e o matou”. O fratricídio começou com a ilusão
de que alguém poderia possuir o sagrado. Acrescento
que não foi o secular Yossi Beilin quem assim
concluiu.
Sharansky está certo quando afirma que a escolha
entre paz e o Monte nos força a decidir que valores
são os mais básicos para o nosso estado. Ele está
errado na escolha que deveríamos fazer.
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