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OS ACORDOS DE GENEBRA :
APENAS MAIS UM PLANO DE PAZ ?
CONFERÊNCIA DO DR. NAZMI AL-JUBEH
- do Centro para Conservação Arquitetônica -
RIWAQ
- Ramalah -
[ PASSIA - Palestinian Academic Society
for the Study of International Affairs
-
www.passia.org
10/02/2004 – traduzido pelo
PAZ AGORA/BR
]
Os
Acordos de Genebra
chamaram atenção porque ofereceram esperança de uma
nova direção, uma saída do atual caos. O documento
de Genebra representa um compromisso, e não uma
posição palestina em si. Portanto, não é justo
criticar os negociadores por não produzirem um
tratado que se conforme aos objetivos de qualquer
facção específica da nação palestina. É o resultado
de conversações com os israelenses, e
inevitavelmente haverá alguns compromissos. Os
palestinos não conseguirão obter tudo que querem,
tanto quanto os israelenses tiveram que fazer
concessões.
Participantes:
Fatima Abdo, MA studies on Jerusalem; Ibrahim Shaban,
Lecturer An Najah University; Mohammed Nuseibeh,
Islamic Higher Council; Hanlie Booysen, South
African Representative Office to the PA; Khalil
Assali, VOA; Elisabeth Petersen, FES; Sarah
Albrecht, FES; Peter Shafer, FES; Jamal Al-Aref,
Deputy Director of ANERA; Hatem Abdul Qader, PLC
Member; Elias Zananiri, RFI; Ishaq Budeiri, Arab
Studies Society; Andrew Whittaker, British
Consulate; Maha Abusamra, UNRWA; Rafiq Husseini,
Welfare Association; Saman Khoury, Media Advisor;
Christian Stevzing, Heinrich-Boell Foundation; Sari
Hanafi, Director, Shaml; Catherine Nichols, Sabeel;
Nick Kardahji, Hijazi Natshe, Mahdi Abdul Hadi,
PASSIA.

O
palestrante, Dr Nazmi Jubeh, deu uma visão geral dos
Acordos de Genebra
de 2003, as dificuldades encontradas durante
a negociação, e sua visão do papel dos Acordos para
o futuro. A esta narrativa se seguiu uma sessão
animada de perguntas e respostas, durante a qual
muitos participantes levantaram questões sobre os
Acordos.
O
Cenário de Genebra
O
Dr Jubeh iniciou fazendo algumas observações sobre
os
Acordos de Genebra.
Primeiramente ressaltou a sua diferença por
ter atraído tanta atenção da mídia. Isto o faz
distinto de outras propostas recentes. Existe um
vácuo político na Palestina que desde a erupção da
Intifada, se não antes e os Acordos chamaram atenção
porque ofereceram esperança de uma nova direção, uma
saída do atual caos.
O
palestrante sublinhou que o documento de Genebra
representa um compromisso, e não uma posição
palestina em si. Portanto não é justo criticar os
negociadores por não produzirem um tratado que se
conforme aos objetivos de qualquer facção específica
da nação palestina como um todo. É o resultado de
conversações com os israelenses, e inevitavelmente
haverá alguns compromissos. Os palestinos não
conseguirão obter tudo que querem, tanto quanto os
israelenses tiveram que fazer concessões.
Todos tópicos principais no acordo já foram
acordados separadamente em função de discussões no
passado entre a OLP e o governo de Israel, ou entre
representantes das partes e negociadores
não-oficiais do lado israelense. Os negociadores não
quebraram qualquer ponto novo. Sua conquista foi ao
combinar todos esses pontos num único documento.
O
ponto de partida dos Acordos foram as negociações de
Taba em 2001. Elas forneceram a visão e o escopo
para o acordo, e os negociadores preencheram os
detalhes restantes. Muitas vezes foi uma questão de
linguagem. Por exemplo, com respeito ao conflito
sobre o Monte do Templo, Israel estava preparado
para aceitar o "controle" palestino do local, mas
não a "soberania".
O
documento de Moratinos não foi particularmente
significativo. Foi apenas um entre vários papéis
estudados pelos negociadores, no início das
negociações. Em sua opinião este documento em
particular foi meramente uma síntese neutra das
posições que a OLP e Israel atingiram ao final de
Taba, e, portanto, não acrescentou nada de novo.
O
Dr Jubeh listou os seguintes pontos-chave que
serviram como linhas mestras para a negociação:
Ø
Objetivaram uma solução de Dois Estados
Ø
As
fronteiras de 1967 foram a base para as negociações
Ø
Nenhum palestino morador dentro das fronteiras de
'67 ficaria sob a soberania israelense e vice-versa
Ø
Jerusalém como capital de Dois Estados
Ø
Ao
fim das negociações, todos os temas serão
"encerrados", ou seja, terão sido objeto de acordo.
Ø
Cada lado deve reconhecer a validade das
reivindicações feitas pelo outro
Ø
Deve haver um acordo definitivo, o que significa que
nenhuma reivindicação posterior será permitida após
Entre os temas mais difíceis, que consumiu o maior
tempo de negociação, foi primeiramente a questão dos
refugiados. O status de Jerusalém foi bem menos
problemático, especialmente porque os negociadores
vinham de uma perspectiva secular. Sobre refugiados
finalmente se tornou possível desenvolver um
enunciado que ambos os lados puderam aceitar.
A
segunda maior área de atrito foi a demanda
israelense de que os palestinos reconheçam o
"caráter judaico de Israel". Para os negociadores
palestinos esta era uma demanda estranha, com a qual
estavam descontentes, primeiramente porque nenhum
outro país pede a outros para "reconhecer seu
caráter", e em segundo lugar pelas preocupações pela
grande minoria não-judaica de Israel. Qual será o
destino dos árabes que vivem na Galiléia e em outros
lugares, sob esse acordo?
Com
relação a Jerusalém, havia problemas com vista a uma
séria de temas secundários, embora o princípio de
dividir a cidade tenha sido aceito logo de início
como acima mencionado. Por exemplo, os limites
exatos dos assentamentos israelenses localizados
dentro das fronteiras municipais da cidade foram
discutidos. Outros desacordos afloraram sobre o
futuro do bairro de Beit Safafa, da Estrada nº 1 e
do Portão de Jaffa.
Os
detalhes precisos da troca de terras e o destino dos
palestinos presos em Israel foram outra área de
dificuldade. O primeiro caso foi resolvido
reduzindo-se a quantidade de terra a ser trocada a
2,2%. Entretanto os palestinos ficaram descontentes
por não conseguir terra de boa qualidade em troca de
blocos de assentamentos.
Para os prisioneiros, os israelenses queriam manter
alguns dos prisioneiros mesmo após a assinatura de
um acordo de paz. Claramente isto era inaceitável
para a equipe negociadora palestina, que argumentou
que estes eram prisioneiros políticos, detidos
durante uma situação de conflito e, portanto,
deveriam ser libertados quando a paz fosse
declarada. Ao final, os israelenses concordaram que
todos prisioneiros seriam soltos dentro do período
de 30 meses após o acordo.
Todos outros temas foram resolvidos de forma
relativamente rápida, e foram baseados em grande
parte no que já havia sido acordado em conversações
anteriores.
O
Dr Jubeh comentou sobre relatos de que partes do
acordo não foram publicadas. Afirmou que essas
"teorias conspiratórias" eram falsas e que todas as
partes tinham sido publicadas, pelo conhecimento que
tinha como alguém que participara das negociações
desde o início. Ele também disse que os negociadores
estavam atentos ao problema de possíveis más
interpretações (como ocorreu com o acordo de Oslo),
mas frisou que é impossível alcançar clareza total.
O
conferencista então entrou na discussão das
negociações de Taba. Disse que Arafat tinha feito um
erro fundamental naquelas conversações, acreditando
que quando foram rompidas iriam se reiniciar após
algumas semanas ou meses. Mas não foi o que
aconteceu, pois Barak já estava sendo derrotado nas
eleições e tentou usar as conversações para reforçar
seu apoio. De acordo com o Dr. Jubeh muito tempo foi
desperdiçado durante as negociações por manipulações
de Barak.
O
Dr. Jubeh, descreveu os objetivos dos dois lados
durante as negociações do Acordo de Genebra, da
seguinte maneira:
-
Para os israelenses:
Eles estavam procurando um caminho para reconstruir
o abalado campo pacifista e seu papel na sociedade
israelense. Desejavam reciclar sua força política e
construir uma oposição a Sharon. De acordo com o Dr
Jubeh este é um objetivo legítimo e "nós estávamos
contentes em construir uma plataforma para a
esquerda israelense".
Havia também preocupações com as dimensões
geográficas do conflito, ou seja, o crescimento da
população palestina com relação à israelense. Os
israelenses queriam achar um parceiro para chegar a
uma forma aceitável de "separação".
Mais e mais israelenses começaram a enxergar os
custos morais, psicológicos, sociais e econômicos da
Ocupação. Eles estão preocupados com que o tecido
social da sociedade israelense seja permanentemente
danificado pelas ações israelenses nos Territórios
Palestinos Ocupados e estão ansiosos para dar um fim
à Ocupação antes que um estrago permanente seja
feito.
-
Para os palestinos:
Os
palestinos desejavam mostrar que existe um parceiro
para a paz, apesar do que proclamam Barak e Sharon.
Um acordo é possível e o povo palestino está pronto
para negociar.
A
maioria dos palestinos que participaram nas
conversações não estava convencida de que a Intifada
é algo positivo. Estavam preocupados com a
deterioração das condições dos palestinos: todas as
áreas de suas vidas foram prejudicadas. Somados a
erros da liderança, os palestinos estão numa posição
negociadora fraca.
O
Dr Jubeh disse que os palestinos que participaram da
Iniciativa de Genebra
contavam com críticas e afirmou que o apoio que
de fato receberam foi maior que o esperado. Muitas
das críticas foram baseadas numa má leitura dos
Acordos, algumas vezes deliberadamente. Se as
pessoas se inteirarem de fato do texto do acordo
lendo todo seu conteúdo, poderão formar uma opinião
mais objetiva.
Também disse que ele e seus colegas foram
beneficiados por não fazerem parte das estruturas de
poder. As pessoas envolvidas não eram os atores
principais ("nós não somos os Abu's"), e apesar de o
nome de Yasser Abed Rabbo estar associado ao acordo,
ele teve muito pouco a ver com as negociações de
fato. Alguns dos atores-chave na Autoridade
Palestina, embora reivindicando apoio aos
negociadores durante as conversações, agora
começaram a publicamente condenar o acordo por
razões oportunistas.
O Dr Jubeh admitiu que ainda havia muito trabalho
pela frente. O acordo foi vendido no estrangeiro,
mas não na Palestina. Não foi feito esforço
suficiente para envolver a população e ganhar seu
apoio.
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