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[A} solução continua sendo a de dois Estados
para dois povos. É aceita por uma maioria de
palestinos e israelenses, pela comunidade
internacional e consistente com a lei
internacional. Fazer eleições palestinas numa
atmosfera pacífica - onde haja uma parceria
ativa para alcançar um acordo e uma sensação
de esperança, entre o povo palestino, de que
serão capazes de se livrar da ocupação -
poderá fortalecer aqueles que acreditam na
democracia, na reforma e num acordo
politicamente equilibrado.
Estes últimos quatro anos do confronto
palestino-israelense, o período mais violento
e sangrento desde a primeira ocupação
israelense de territórios palestinos, provam
que quanto mais continuar a ocupação, pior
será o sofrimento de ambos os povos.
Não foi coincidência que os confrontos
começaram após as negociações terem parecido
haver fracassado. Apesar de 4 anos de morte e
sofrimento, e a despeito das complexas camadas
históricas e religiosas deste conflito e de
seu impacto regional e internacional, uma
solução política é ainda assim viável. E essa
solução continua sendo a de dois Estados para
dois povos. Esta solução é aceita por uma
maioria de palestinos e israelenses, e também
é apoiada pela comunidade internacional e
consistente com a lei internacional.
Mesmo que nenhum acordo de paz tenha sido
alcançado durante a Cúpula de Camp David em
2000, os palestinos e israelenses estiveram
muito perto de finalizar um acordo durante as
negociações de Taba, pouco depois. Mas fatores
domésticos israelenses, particularmente a
convocação, pelo então primeiro-ministro Ehud
Barak, de eleições antecipadas e a subseqüente
recusa pelo primeiro-ministro Sharon a
negociar, evitou a conclusão a partir do ponto
em que as negociações foram deixadas.
A necessidade de uma solução de dois Estados
como base para qualquer acordo é entendida
claramente pela maioria dos palestinos e
israelenses. A questão é se suas lideranças
poderão vencer as diferenças entre os dois
lados nos temas mais sensíveis. Ultrapassar
esses obstáculos requer em primeiro lugar o
desejo de fazê-lo, algo que o atual governo de
direita de Israel - cujos líderes se opuseram
ao processo de paz de Oslo - não têm.
O atual governo israelense recusa-se a
negociar um acordo definitivo que leve ao
estabelecimento de uma Palestina viável,
lado-a-lado com Israel. A direita israelense
não negocia, ela impõe sua vontade. Isto é
melhor demonstrado pela insistência de Sharon
em se retirar unilateralmente de Gaza sem a
menor coordenação ou negociação com os
palestinos, enquanto continua a construção do
muro na Cisjordânia, expandindo colônias
ilegais israelenses nos territórios ocupados
palestinos e completando o cerco da Jerusalém
Oriental ocupada sob o pretexto de não ter um
parceiro palestino para paz.
Este refrão ilógico de "não existir parceiro
palestino" é usado para justificar políticas
que continuam o conflito, e não o resolvem. A
lógica determina que qualquer parceria de
sucesso requer uma base consistente e um
objetivo comum. Uma parceria baseada na
desigualdade, onde o objetivo de uma parte é
continua sua ocupação sobre a terra da outra,
seguramente fracassará.
Jamais haverá um parceiro palestino que aceita
um acordo que proporcione nada menos que todos
os direitos nacionais do povo palestino..
Sharon ainda não aceitou este fato, e procura
por pressão militar alterar a liderança
democraticamente eleita dos palestinos ou suas
posições. Isto, é claro, ocorre com a
complacência do governo americano.
Esta estratégia de coerção política,
diplomática e mesmo militar para mudar a
liderança palestina, ou para infligir tal
sofrimento no povo palestino que seu desespero
se volte contra seus próprios líderes, não
trará uma mudança de liderança.
A estratégia de Israel poderia levar a um
colapso das estruturas governamentais
palestinas formadas após os acordos de Oslo.
Isto pode bem ser parte do plano de Sharon,
mas certamente nenhuma instituição iria
emergir em sua decorrência que pudesse estar
disposta a aceitar menos do que a atual
liderança palestina já indicou que aceitaria
como parte de um acordo para terminar o
conflito. A estratégia de Israel é uma receita
para continuá-lo.
Antes que qualquer lado conclua apressadamente
que não há parceiro para a paz, ambos devem
entender a base e o propósito da parceria.
Para os palestinos, o objetivo da parceria é
terminar a ocupação dos territórios ocupados
em 1967 (inclusive Jerusalém Oriental),
estabelecer um Estado soberano palestino ao
lado de Israel, e alcançar uma solução justa e
acordada para o destino dos refugiados,
consistente com a lei internacional, a
iniciativa árabe de paz e as posições da OLP.
Estas metas são consistentes com as propostas
de paz que eu e outros representantes
palestinos desenvolvemos com um grupo de
proeminentes israelenses, conhecido como
Iniciativa de
Genebra. Esta iniciativa representa as possibilidades de uma
parceria baseada em igualdade e justiça. A
única coisa que falta é desejo político para
transformá-la de uma iniciativa para um
acordo.
Tal desejo político, porém, não emergirá
espontaneamente. Ele requer que os Estados
Unidos altere fundamentalmente seu papel, da
administração do conflito para sua solução. Em
outras crises internacionais, como na ocupação
iraquiana do Kuwait, limpeza étnica na Bósnia
e Kosovo e apartheid na África do Sul, a
comunidade internacional demonstrou uma clara
disposição e compromisso com a aplicação da
lei e da justiça.
Trazer paz à região e terminar a ocupação
israelense também demandará um compromisso
internacional. Sem ele, o conflito continuará.
Esperar, para trazer a paz, por evoluções
internas nas sociedades israelense e
palestina, é uma estratégia falha.
Muitos depositaram suas esperanças por paz na
reforma [política] da Palestina. O caminho
certo para reformas fundamentais é realizar
eleições abrangentes, legislativas,
presidenciais e municipais, assim como
eleições livres internas em todas as partes
políticas, a começar de meu partido, Fatah, o
maior partido político palestino.
Uma verdadeira reforma vai além do governo, e
se estende também à sociedade civil. Eleições
em sindicatos profissionais, por exemplo,
permitiriam a estes ocupar o papel a que têm
direito.na construção da democracia. Mas é
impossível realizar eleições livres com postos
militares israelenses restringindo o movimento
de eleitores e candidatos, e enquanto o
exército israelense se recusa a sair de
cidades palestinas.
Em 13/09, Israel impediu o registro eleitoral
na Jerusalém Oriental, numa tentativa de
bloquear eleições. Isto prova que Israel não
tem interesse em eleições palestinas, ou num
tipo de reforma que poderia delas emergir.
Conseqüentemente, depende da comunidade
internacional ajudar a criar as condições em
que uma eleição possa se realizar.
Fazer eleições palestinas numa atmosfera
pacífica - onde haja uma parceria ativa para
alcançar um acordo e uma sensação de esperança
entre o povo palestino de que serão capazes de
se livras da ocupação - poderá fortalecer
aqueles que acreditam na democracia, na
reforma e num acordo politicamente
equilibrados.
Mas se houver eleições com os soldados da
ocupação perturbando as ruas, a maioria dos
palestinos não irão às urnas, os grupos
islâmicos terão uma maior chance de sucesso
eleitoral, pois se apóiam no estado de
pobreza, desespero e frustração resultantes da
continuada repressão israelense.
A maioria dos palestinos é mais liberal e
apoiaria um acordo político equilibrado e a
criação de um sistema político democrático.
Mas a atual situação mantém silenciosa a
maioria, prejudicando a política interna
palestina.
A nova geração da Palestina é uma geração que
cresceu só conhecendo a ocupação, sofreu
prisões e torturas por israelenses, e
testemunhou a ocupação nas suas mais brutais
formas e quer não apenas sua liberdade, mas
também um Estado democrático palestino baseado
na separação de poderes, vigência da lei,
pluralismo, proteção de direitos das mulheres
e o desenvolvimento de uma cultura política
que coloque a Palestina entre as democracias
do mundo.
Esta geração quer um Estado que rejeita a
violência, procure a coexistência, que não
seja parte de nenhuma aliança militar e não
permita que sua terra seja usada para ataques
contra seus vizinhos. Esta geração anseia por
um Estado que viva em paz e segurança com o
Estado de Israel e o povo judeu, cujo
histórico sofrimento entendemos. Mas é tempo
de essas vítimas sentirem e reconhecer o
sofrimento das vítimas palestinas.
As visões e crenças que mencionei acima
representam a posição e ideais da nova geração
de palestinos uma geração cujos valores são
melhor refletidos por meu amigo e companheiro,
Marwan Barghouti, que está hoje mantido numa
prisão israelense.
(*) Qaddoura Fares, Ministro de Estado
da Autoridade Palestina, é membro do Comitê
Executivo da Fatah na Cisjordânia, deputado do
Conselho Legislativo Palestino, e um dos
negociadores e signatários palestinos da
Iniciativa de Genebra. Este artigo foi
publicado originalmente pela Forward
[www.forward.com], tradicional publicação de
judeus progressistas em N.York, em 26/09/2004,
antes da reeleição de Bush e do falecimento de
Arafat.
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