Conflito em Gaza Pode Reviver
Processo de Paz no Oriente Médio
MOISÉS STORCH
- entrevista por Camila Souza
Ramos - Revista FÓRUM 09|01|09 -
Após 14 dias de ataques
e de quase 800 mortos na Faixa de Gaza, o conflito parece recrudescer, e
alguns setores da comunidade internacional começam a se movimentar. Nesta
semana a ONU não apenas teve
uma proposta de cesar-fogo rejeitada como teve sua ajuda humanitária atacada por tropas israelenses. Houve
também uma troca de mísseis
entre Líbano e Israel, que
abriu um clima de tensão também na fronteira norte do país. Enquanto alguns
governos, como o da França e do Egito, reúnem-se com lideres israelenses e
palestinos para negociar um cessar-fogo, o da Venezuela expulsou o embaixador
de Israel do país. Manifestações populares começam a surgir em diversos pontos
do mundo pela estabilização da região.
No entanto, a paz pode
estar mais próxima do que se imagina. É a opinião de Moisés Storch, membro do
Paz Agora, movimento de
brasileiros que milita pela paz entre Israel, os palestinos e os países
árabes. Para ele, a entrada de Obama para a presidência dos Estados Unidos,
país que historicamente mediou acordos de paz entre Israel e os palestinos,
traz novas esperanças para a retomada do processo de paz na região, já que ele
“traz uma equipe experiente em negociações com israelenses e
palestinos”.
Além
disso, ele acredita que o momento histórico pode modificar a tradicional
hegemonia dos EUA nas negociações. Para o militante, a crise financeira global
trouxe ao mundo “um reequacionamento do poder” no mundo, trazendo à tona novos
atores políticos que podem entrar para o rol dos países que influenciam nas
negociações pela paz.
Storch também critica a cobertura da imprensa e acredita que ela
seja responsável pela exportação do conflito entre judeus e palestinos para
outros países.
Fórum - Nesta ofensiva que
começou em 27 de dezembro, qual é a real motivação do governo israelense para
deflagrar agora um ataque a Gaza? Existe algum interesse visando às eleições de
fevereiro? A vitória de Obama tem algo a ver com a ofensiva?
Moisés Storch -
Em meados de dezembro, após um cessar-fogo de seis meses, o Hamas intensificou o
disparo aleatório de mísseis Qassam contra localidades no sul de Israel. As
condições de vida da população local, que tinha menos que um minuto para
encontrar um refúgio a cada alerta sonoro, foram se tornando insustentáveis. O
governo israelense foi sendo cobrado por tomar medidas defensivas. A ação
militar não foi fruto do clima eleitoral.
No meu ver, a vitória de Obama nada tem
a ver com a ofensiva. Entretanto, este conflito deverá trazer como efeito
colateral positivo o fato de que a questão israelense-palestina deverá
conquistar, logo no início do seu mandato, uma grande prioridade na pauta de
preocupações da política exterior norte-americana.
Paradoxalmente, assim, esta guerra
poderá até acelerar a retomada do processo de paz no Oriente Médio, com o
reposicionamento do papel dos Estados Unidos. O governo Bush perdeu o poder de
mediação com os palestinos, uma vez que sempre tendeu a se alinhar com a direita
israelense. Obama, com Hillary Clinton como Secretária de Estado, traz uma
equipe experiente em negociações com israelenses e palestinos, com relações de
confiança sólidas de elementos do governo da Autoridade Palestina e do campo da
paz israelense.
Fórum - Quais as
conseqüências destes ataques para Israel? É possível uma ascensão do partido de
direita Likud nas próximas eleições após a ofensiva?
Moisés Storch -
Toda guerra acirra os ânimos e promove a demonização do inimigo. Isto levaria ao
fortalecimento do próprio Hamas e de partidos que, como o Likud, desvalorizam o
processo de paz e utilizam a plataforma de que “não existe com quem conversar”.
Os resultados da guerra também poderão
favorecer - ou prejudicar, conforme a visão do eleitorado – os membros do
governo que tiveram a iniciativa de promovê-la, Ehud Barak (Avodá) e Tzipi Livni
(Kadima).
Caso a população conclua que o conflito
não tem solução militar e se deve apostar mais em negociações para uma solução
de dois Estados com os palestinos, votará nos candidatos do Meretz, de
esquerda.
Fórum - Nem sempre uma vitória
militar significa uma vitória política ou midiática. Foi o que aconteceu com
Israel na guerra de 2006 contra o Líbano. É possível que Israel caia novamente
na mesma armadilha?
Moisés Storch -
A Faixa de Gaza é uma das regiões mais densamente povoadas do planeta, e as
forças do Hamas atuam em meio a bairros residenciais e instituições civis. É
praticamente impossível ataca-las sem causar vítimas inocentes. Nesse caso, a
batalha midiática já está perdida a priori.
Fórum - Quais as conseqüências
destes ataques para o povo palestino e sua luta por um Estado próprio?
Moisés Storch -
Os ataques, do Hamas e de Israel, são um desastre para ambas as populações que
os sofrem diretamente, mas têm um efeito contundente e duradouro para o processo
de paz palestino-israelense.
A paz entre duas nações - mais do que
por negociações e mediações diplomáticas - é feita entre pessoas.
Os acordos de Oslo, nos anos 1990,
assistiram a uma intensa e rápida aproximação entre os habitantes que habitavam
os dois lados da Linha Verde (antiga fronteira de 1967). Árabes palestinos e
judeus israelenses passaram a se ver e conhecer como seres humanos iguais e a
estabelecer relações de confiança, construindo ONGs que sobrevivem até hoje.
O Paz Agora de Israel tem um
relacionamento próximo com vários grupos palestinos organizados que têm em comum
uma solução pacífica de Dois Estados para Dois Povos. Na proporção em que
ocorrem atentados terroristas ou conflitos armados, diminui a adesão a essas
instituições, e há uma tendência geral ao ceticismo e à alienação.
Cada ato de violência, tanto de
israelenses quanto de palestinos, é contrário aos seus próprios interesses, e um
enorme passo atrás para o estabelecimento de um Estado Palestino.
Fórum - É raro um ano em que
Israel não troque bombas com vizinhos, quebrando cessar-fogo e resoluções de paz
da ONU. A ONU tem realmente potencial de interferência no conflito no Oriente
Médio?
Moisés Storch -
O povo israelense apenas quer ter uma vida normal, num país seguro. Tanto quanto
nós brasileiros e tanto quanto o povo palestino.
Quanto à ONU, sua importância tem que
ser preservada. No entanto, é visível a queda do seu potencial de interferência,
desde o fim da guerra-fria e a ascensão dos Estados Unidos como única grande
potência.
Talvez estejamos assistindo, com a atual
crise financeira mundial, a um reequacionamento do poder, com a ascensão da
Comunidade Européia, BRICs, e a organização de novos mecanismos
multilaterais.
Fórum - É necessária pressão
internacional para a resolução do conflito? Que medidas, em termos práticos, os
governos de todo o mundo deveriam adotar para o estabelecimento da paz entre
israelenses e palestinos?
Moisés Storch -
A atuação internacional é indispensável, primeiramente porque ambos os lados não
se reconhecem. O Hamas é uma organização que tem como objetivo explícito central
a destruição de Israel.
Os governos do mundo devem bloquear a
remessa de armamento ao Hamas e outros grupos terroristas, canalizar recursos
para o desenvolvimento econômico da Faixa de Gaza e da Cisjordânia. E pressionar
Israel a retirar seus assentamentos dos territórios ocupados, como passo
concreto para a criação de um Estado Palestino.
Fórum - Como o senhor avalia a
medida de Hugo Chávez em expulsar o embaixador israelense da Venezuela? É um
exemplo a ser seguido ou repudiado?
Moisés Storch -
Acredito que o Brasil está sendo muito mais sábio quando, ao mesmo tempo em que
censura os dois lados do conflito, oferece a tradição de resolução pacífica de
conflitos do Itamaraty para mediar entre as partes. Enquanto Chávez,
coerentemente com sua aliança a Ahmanidejad, fomenta o ódio, o Brasil certamente
contribuirá para a paz.
Fórum - Já surgem pelo mundo
ataques contra judeus ou palestinos fora da zona de conflito. Há perigo desse
conflito ser exportado?
Moisés Storch -
Acho que existe uma grande responsabilidade dos profissionais da imprensa.
As imagens e vozes de guerra são
altamente contagiantes e explosivas. Não tem sido raro encontrar nos noticiários
adjetivos e incitações ao ódio e ao racismo.
É muito fácil se curvar à sedução das
frases bombásticas e imagens pungentes. Mais difícil é se dar o trabalho de
analisar a notícia e passar ao leitor um entendimento amplo, sem
maniqueísmos.
Fórum - Após estes
ataques, há perspectivas para o estabelecimento da paz definitiva? O que deveria
ser feito nesse sentido?
Moisés Storch - O
mais urgente é acordar um cessar-fogo e atender à situação calamitosa da
população de Gaza. Para isto, as fronteiras da Faixa de Gaza com o Egito
deveriam ser abertas e guarnecidas por forças internacionais. Estas agilizariam
a entrada e saída de ajuda humanitária, produtos e pessoas, impedindo a entrada
de armamentos.
Restabelecida a calma, ficará novamente
provado, ao custo de perdas humanas irrecuperáveis, que não existe solução
militar para o conflito israelense-palestino.
O reinício de negociações entre a
Autoridade Palestina e Israel, para criação de um Estado Palestino, deverá
ocorrer o quanto antes, se possível aproveitando o momento da posse do novo
governo americano e da mobilização internacional em torno do conflito de Gaza.
A paz definitiva deverá ocorrer,
mediante negociações para o estabelecimento de um Estado Palestino, ao lado do
Estado de Israel, incluindo os territórios da Cisjordânia e Faixa de Gaza,
tendo Jerusalém Oriental como capital.
Existem já vários entendimentos entre
lideranças dos dois povos [como a Iniciativa de Genebra], que mapeiam soluções aceitáveis, para os dois lados, de pontos
críticos como fronteiras, refugiados, Jerusalém, lugares sagrados, etc.
A maioria dos dois povos já sabe como
será a paz. Faltam líderes decididos a trocar as bombas por canetas.
MOISÉS STORCH é
coordenador dos Amigos Brasileiros do PAZ AGORA.
© PAZ AGORA|BR
Reprodução
permitida com os devidos créditos às fontes, edição e tradução
dos
Amigos
Brasileiros do
PAZ AGORA - www.pazagora.org
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