Os verdadeiros Inimigos do Hamas- BARRY RUBIN


Deve-se construir coalizões entre os Estados árabes relativamente  moderados que são ameaçados pelas forças islâmicas radicais e trabalhar para evitar que o Irã tenha armas nucleares

 
Os verdadeiros Inimigos do Hamas
 
BARRY RUBIN - Valor Econômico - 15|01|2009
 
 
No Irã, elementos de dentro do regime supostamente oferecem recompensa de US$ 1 milhão pelo assassinato do presidente do Egito, Hosni Mubarak, por sua oposição ao Hamas na Faixa de Gaza. No Líbano, o líder do Hezbollah, apoiado por Irã e Síria, defende simplesmente a derrubada do governo egípcio.

Como resposta a isso, Tariq Alhomayed, saudita, editor-chefe do jornal "Al-Sharq al-Awsat", descreve o Hamas como uma ferramenta do Irã e argumenta que o "Irã é uma ameaça real para a segurança árabe".

O ministro das Relações Exteriores do Egito, Ahmed Aboul Gheit, concorda - e não é o único. Quando Estados árabes se reuniram para discutir a crise em Gaza, a Arábia Saudita vetou qualquer ação. Até a Autoridade Palestina (AP) culpa o Hamas pelos combates. Ativistas do Fatah, rival nacionalista do Hamas, que comanda a AP, não escondem a esperança de que o Hamas perca a guerra.

Bem-vindos ao novo Oriente Médio, não mais caracterizado pelo conflito árabe-israelense, mas por um conflito árabe nacionalista-islâmico radical. Reconhecendo esta realidade, praticamente todos os Estados árabes - a não ser a Síria, aliada do Irã - e a AP querem ver o Hamas derrotado na Faixa de Gaza. Visto o forte interesse próprio em demover grupos revolucionários islâmicos, especialmente os alinhados com o Irã, eles não estão inclinados a ouvir aos gritos das ruas - que estão bem mais silenciosas do que em conflitos anteriores, como em 1991, na guerra no Kuait, no levante palestino de 2000 a 2004 ou na guerra entre Hezbollah e Israel, em 2006.

O Oriente Médio de hoje é muito diferente do antigo, sob vários aspectos significativos. Primeiro, a política interna de cada país árabe gira em torno da batalha entre governantes nacionalistas árabes e a oposição radical islâmica. Em outras palavras, os aliados do Hamas são os inimigos dos regimes. Um Estado radical islâmico na Faixa de Gaza encorajaria os que buscam entidades similares no Egito, Jordânia e em todos os outros países árabes.

Um tremendo preço já foi pago em vidas e riquezas por este conflito. A violência incluiu guerras civis entre palestinos e argelinos; derramamento de sangue no Iraque; e campanhas terroristas no Egito e Arábia Saudita. No caso palestino, depois de ganhar a eleição e chegar a um acordo com o Fatah para um governo de coalizão, o Hamas voltou-se contra seus rivais nacionalistas e os expulsou de Gaza à força. Por sua vez, a AP vem reprimindo o Hamas na Cisjordânia. No Líbano, o Hezbollah vem tentando submeter seus rivais mais moderados, os cristãos, muçulmanos sunitas e drusos.

Segundo, como os Estados árabes confrontam-se com uma aliança Irã-Síria que inclui o Hamas e o Hezbollah, além dos conflitos internos, também há uma batalha regional entre esses dois blocos. Um aspecto disso é que os Estados liderados amplamente por sunitas deparam-se com um concorrente amplamente xiita pela hegemonia regional.

Esses dois problemas representam perigos maiores para os Estados existentes do que qualquer ameaça israelense (em grande parte inventada) e os governantes da região sabem disso.

Do outro lado, o Irã e seus aliados elevaram os estandartes do jihad e "resistência". Sua plataforma inclui: revolução islâmica em todos os países; o Irã como Estado dominante da região, reforçado por armas nucleares; nenhuma paz com Israel e nenhum Estado Palestino até que possa haver um Estado islâmico abrangendo todo Israel (assim como a Cisjordânia e Faixa de Gaza); e a expulsão da influência ocidental da região.

Este é um programa muito ambicioso, provavelmente impossível de alcançar. No entanto, é uma receita para terrorismo e guerra intermináveis: os islâmicos revolucionários, tanto favoráveis como contrários ao Irã, acreditam que, como Deus está do lado deles e seus inimigos são covardes, vencerão; e eles estão bastante preparados para passar o próximo meio século tentando provar isso.

Embora esta pareça ser uma avaliação muito pessimista da situação regional, o lado islâmico radical possui muitas fraquezas. Lançar guerras perdidas pode fazê-los se sentir bem, mas serem derrotados é uma proposição custosa, já que sua arrogância e beligerância afastam muitos que de outra forma poderiam ser conquistados para sua causa.

Além disso, a situação representa uma boa oportunidade para as autoridades políticas ocidentais. A ênfase deveria ser construir coalizões entre os Estados relativamente moderados que são ameaçados pelas forças islâmicas radicais e trabalhar arduamente para evitar que o Irã tenha armas nucleares - um objetivo que está dentro dos interesses de muitos na região.

O pior erro seria seguir a política oposta - um esforço inevitavelmente fútil para pacificar os extremistas ou tentar moderá-los. Tal campanha, na verdade, desencorajaria os relativamente moderados que, sentindo-se traídos, tentarão conseguir seu próprio acordo com Teerã.

A atual crise em Gaza é apenas um aspecto de uma batalha muito mais ampla que sacode a região. Ajudar o Hamas daria poder ao islamismo radical e às ambições iranianas e enfraqueceria a AP e todos os demais, não apenas Israel. Os Estados árabes não querem ajudar seu pior inimigo. Por que qualquer outro deveria?

 
BARRY RUBIN é diretor do Global Research in International Affairs (Gloria) e editor do Middle East Review of International Affairs (Meria). Seus livros mais recentes são "The Israel-Arab Reader", "The Truth About Syria" e "The Long War for Freedom: The Arab Struggle for Democracy in the Middle East" (em inglês, respectivamente, "O leitor árabe-israelense"; "A verdade sobre a Síria"; "A longa guerra por liberdade": "A luta árabe por democracia no Oriente Médio"). © Project Syndicate/Europe´s World, 2009. www.project-syndicate.org
 

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