A Opção de Israel - AKIVA ELDAR


A chave para devolver o controle do território, incluida Gaza, à Al Fatah, é a mesa de negociações. Todas as pesquisas de opinião realizadas entre os palestinos nos últimos anos mostram um apoio constante (65%-70%) à solução de dois Estados oferecida por Al Fatah.
 
Israel deve decidir, de uma vez por todas, qual caminho vai escolher: encontrar uma solução valente ao conflito, ou prolongá-lo indefinidamente. Se escolhe a primeira alternativa, encontrará a Iniciativa de Paz Árabe de março de 2002

 

A Opção de Israel

AKIVA ELDAR - Haaretz 15|01|09

 - traduzido por BRUNO KAMPEL para o PAZ AGORA|BR -

 

O mantra repetido pelas autoridades israelenses nestes dias, até o cansaço - desde o primeiro ministro Ehud Olmert até o último porta-voz - é: “Que alguém nos mostre um Estado capaz de se conter quando estão disparando continuamente mísseis contra a população civil do seu território soberano”.

 

A "hasbará" israelense (em hebraico, “explicação” ou “informação”, um termo eufemístico para “propaganda”) produziu, para os espectadores provincianos e nossos amigos nos Estados Unidos, um filme que compara a fronteira sul de Israel com a dos Estados Unidos. A pergunta que faz o narrador é: “Os Estados Unidos ignorariam foguetes disparados desde o México contra San Diego?”.

A resposta de praxe, ainda que simplista, é "de jeito nenhum", logicamente. Nem sequer um esquerdista incurável como eu seria capaz de permanecer apático enquanto caissem mísseis egípcios ou jordanianos sobre as cidades israelenses. Entretanto, a resposta correta, ainda que mais complexa, é que a fronteira entre Israel e a Faixa de Gaza (e entre Israel e a Cisjordânia e os altos do Golã) é diferente de qualquer outra fronteira no mundo, incluidas as existentes entre Israel e o Egito e Israel e a Jordânia.

O fato de que Israel tenha retirado o seu exército de Gaza e também os 8.000 colonos em 2005 não altera a realidade de que Gaza continua sendo, na prática e conforme as leis internacionais, um território ocupado. Israel controla as entradas e saídas, assim como o acesso aos serviços essenciais, como a eletricidade e a água. O México não passou os últimos três anos ou mais sob bloqueio aéreo e marítimo dos norteamericanos. Fora isso, a impressionante vitória de Israel na Guerra dos Seis Dias converteu a Cisjordânia e Gaza numa unidade étnica. No acordo de paz firmado pelo Egito e por Israel em 1979, a Faixa de Gaza ficou em mãos israelenses. Os acordos de Oslo entre Israel e os palestinos, assinados em setembro de 1993, estabeleceram que a Faixa de Gaza e a Cisjordânia constituiam uma entidade política. Isso significa que, enquanto a margem ocidental do Jordão esteja sob ocupação israelense, também o está Gaza.

Estes argumentos não pretendem justificar a conduta de Hamas, nem defender seus interesses. O Hamas é um inimigo que se recusa a reconhecer o meu direito nacional, como judeu, de viver no meu país. Ninguém gostaria mais do que eu que eles perdessem a sua posição de poder.

Como escrevi oportunamente, creio que o presidente Bush fez muito dano quando insistiu para que o Governo Sharon permitisse ao Hamas participar nas eleições de Janeiro de 2006, a despeito de que a organização não cumpria os requisitos eleitorais estipulados no segundo Acordo de Oslo. Entristeceu-me profundamente ver que a Al Fatah, o parceiro de Israel num acordo de paz baseado no estabelecimento de um Estado Palestino junto ao Estado de Israel, não perdia nenhuma oportunidade para cometer erros: a corrupção e a má gestão afastaram os eleitores da chamada linha de Túnis (“herdeiros” de Arafat). Zanguei-me com os meus amigos de Ramala, que foram os que prepararam o terreno para que a organização extremista  conquistasse o poder. Como diz o meu presidente, Shimon Peres, ao quebrar ovos, pode-se fazer um omelete, mas com um omelete não é possível fazer um ovo. A situação não tem caminho de retorno. O Hamas não planeja suicidar-se nem levantar a bandeira branca.

O Hamas é parte intrínseca do sistema democrático na Palestina, e a única forma de afastá-lo do poder é pela mesma via com que o conquistou: as urnas. Não as balas. O presidente da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas (Abu Mazen), deve saber como a sua gente olharia para ele e qual seria a sua sorte, caso tivesse a tentação de voltar a Gaza sobre os escombros deixados pelos carros de combate e aviões israelenses.

A chave para devolver o controle do território, incluida Gaza, à Al Fatah, é a mesa de negociações. Todas as pesquisas de opinião realizadas entre os palestinos nos últimos anos mostram um apoio constante (65%-70%) à solução de dois Estados oferecida por Al Fatah. Entretanto, quanto mais se afasta essa solução, seja por atrasos nas negociações ou pela expansão dos assentamentos israelenses, mais irrelevante se torna Al Fatah. Sem perspectivas política, não é estranho que a população, especialmente a massa de jovens sem emprego, procure um pouco de esperança e uma forma de vida nas mesquitas e nos campos de treinamento do Hamas.

Israel deve decidir, de uma vez por todas, qual caminho vai escolher: encontrar uma solução valente ao conflito, ou prolongá-lo indefinidamente. Se escolhe a primeira alternativa, encontrará a Iniciativa de Paz Árabe de março de 2002, que obteve o entusiástico apoio de Arafat e veementes críticas do Hamas.

É improvável que Israel possa conseguir um acordo mais favorável do que o oferecido nesta iniciativa: o pleno reconhecimento e relações normalizadas com todos os Estados árabes, em troca de uma retirada quase total dos territórios, incluida Jerusalém Oriental, com intercâmbios recíprocos de terras caso Israel desejar conservar alguma zona da Margem Ocidental ou Jerusalém, além de uma solução justa para o problema dos refugiados. É de se supor que, nesse caso, a comunidade internacional, com o novo presidente dos Estados Unidos já no poder, ofereceria às partes um amplo colchão econômico e de segurança.

Se Israel se recusar a pagar o preço – que não mudou nos últimos 20 anos nem mudará com certeza nos próximos 20 - e se estiver disposto a perder o seu caráter judeu e democrático, descobrirá que, ao invés de lutar contra o Hamas, terá pontos em comum com dita organização: o Hamas também rejeita a idéia de dois Estados baseados nas fronteiras de 4 de junho de 1967.

Seus líderes estão pedindo uma trégua a longo prazo e demonstraram que podem impô-la. Sabem que não têm capacidade de derrotar o poderoso exército israelense. Mas também sabem que, enquanto Israel se negue a delimitar uma fronteira permanente com Gaza e a Margem Ocidental, o relógio demográfico – que muito cedo produzirá uma maioria palestina em Israel e os territórios – fará que o sonho da “grande Palestina” pareça cada vez mais real.

 

AKIVA ELDAR, colunista político e editorialista do jornal israelense Ha'aretz, é co-autor, com Idith Zertal, de Lords of the Land: The War Over Israel's Settlements in the Occupied Territories, 1967-2007.

 

  

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