Sobre a Iniciativa Saudita de Paz - JUDEA PEARL


Qualquer um em seu juízo perfeito sabe que a solução para o problema dos refugiados palestinos não é a de criar um problema de refugiados judeus.
 
A solução pode ser encontrada num processo de paz que seja baseado em dois Estados e a absorção da maior parte os refugiados palestinos em seu novo Estado.

 
Sobre a Iniciativa Saudita de Paz
JUDEA PEARL - Saudi Gazette  13/02/2007
 
- traduzido pelo PAZ AGORA|BR -
 
Quanto participei de uma conferência muçulmano-americana em Doha, Qatar, em 2005, um líder árabe perguntou-me ao jantar: "Diga-me, por que os israelenses não aceitaram a proposta saudita de paz de 2000? Na verdade, eles nem responderam a ela. Por acaso ela não oferece a eles tudo o que sempre desejaram - paz, reconhecimento, segurança?

Confessei a ele o que sabia sobre meus amigos de Israel: "Sabe o que os israelenses enxergam ao ler uma proposta de paz no jornal?", perguntei. "Eles pulam o texto sobre paz, reconhecimento e segurança e procuram uma palavra: 'refugiados'. O resto é trivial; se a palavra está associada a 'direito de retorno' ou 'uma solução justa' ou  'Resolução 194' ou qualquer frase que possa ameaçar a face demográfica de Israel,  a proposta é automaticamente descartada".
 
"O que a proposta saudita diz sobre o problema dos refugiados?, perguntou ele. "Como você, não me lembro da linguagem precisa", respondi, "mas, como a maioria dos israelenses, recordo das palavras 'solução justa', que poderia responder à sua questão".
 
"Interessante!" disse meu colega árabe. "Sempre considerei que se construírmos a confiança e resolvermos o problema territorial, alguma solução acabará sendo encontrada para o problema dos refugiados".
 
"Sim, muitos israelenses partiram desta hipótese no período de Oslo", falei. "Agora eles querem que a solução seja definida com antecedência".

Fui lembrado desta conversa na semana passada, quando li o livro do ex-presidente Jimmy Carter, "Palestina: Paz Não Apartheid" e achei o seguinte trecho na página 211:
"O enunciado délfico desta declaração [a proposta saudita] foi deliberado em árabe, assim como em hebraico e inglês, mas os árabes o defendem dizendo que ele está ali para ser explorado pelos israelenses e outros e que, em qualquer caso, é um compromisso mais positivo e claro com a lei internacional do que qualquer coisa que venha hoje de Israel."
Recordei como o enunciado délfico do acordo de Oslo também foi deliberado, e como - após o colapso de Oslo, líderes do estilhaçado campo da paz israelense confessaram em público que haviam sido enganados e traídos por seus camaradas palestinos. Especificamente, eles sentiram que as promessas de preparar a população palestina para algumas concessões no problema dos refugiados jamais foram cumpridas (Haim Shur - Maariv, junho de 2001) e que esta inação foi a principal razão para a eclosão da segunda intifada; Arafat simplesmente não podia encarar seu povo com "um fim do conflito" após décadas prometendo a eles um retorno para Haifa e Jaffa.

Mais de seis anos passaram desde a ruptura do processo de Oslo, e a memória é curta. As pessoas tendem a esquecer as amarguras do passado. No mês passado ouvimos apelos de israelenses e palestinos para revitalizar a proposta saudita (Collette Avital, Jerusalem Post, 23/01/2007) e muitos ficaram observando para ver se o campo da paz israelense iria endossar o plano saudita sem um maior esclarecimento sobre a natureza da "solução justa" para o problema dos refugiados.
 
A resposta chegou na semana passada como parte de um troca de correspondências inéditamente cândida entre dois dos mais respeitados jornalistas do Oriente Médio, Salameh Nematt, árabe, e Akiva Eldar, israelense, publicadas simultâneamente em árabe, hebraico e inglês. No terceiro round de artigos, Eldar, pacifista ativo, escreveu:
"...Nós, israelenses, precisamos ser convencidos de que existe uma solução para o problema dos refugiados. Nada é mais capaz de desestimular os israelenses do que a expressão 'direito de retorno'. Aos seus olhos, estas palavras são um sinônimo para a destruição de um Estado judeu. Os políticos nos dois lados sabem que é inconcebível despir um Estado soberano, como Israel, de sua autoridade para decidir quem aceitar como seus cidadãos. Cidades novas foram construídas sobre as aldeias nas quais os refugiados viveram. Filhos e netos de refugiados judeus da Europa nasceram em casas que restaram. Qualquer um em seu juízo perfeito sabe que a solução para o problema dos refugiados palestinos não é a de criar um problema de refugiados judeus. A solução pode ser encontrada num processo de paz que seja baseado em dois Estados e a absorção da maior parte os refugiados palestinos em seu novo Estado" (Common Ground News 02/02/2007)
Na verdade, esta posição é esposada por qualquer israelense que eu conheça, incluindo os maiores defensores de um Estado palestino, e coloca dois problemas à frente do plano de paz saudita. Primeiro, estariam os palestinos dispostos a assinar um acordo de paz com a disposição de que a maioria dos refugiados será absorvida no seu novo Estado?
 
Em segundo lugar, pressupondo que se disponham a isto, estaria Israel disposto a fazer concessões irreversíveis em terra e segurança, em troca de uma promessa reversível pelos palestinos de assentar os refugiados em vez de mantê-los como uma reserva de militância contra Israel?

Aqui vai minha modesta sugestão, confiando novamente na sabedoria e boa-vontade saudita. Em vez de esperar que comecem negociações e sejam assinados acordos de paz - que será de toda maneira um processo longo, tedioso e precário - os sauditas, juntos com outros ricos produtores de petróleo, poderiam lançar um "Plano Marshall Palestino" para construção de moradias permanentes para refugiados palestinos, na Cisjordânia e Gaza.
 
Tal plano, se iniciado imediatamente, criaria as condições necessárias para negociações, um acordo e um Estado Palestino viável. Israel o receberia como um sinal da intenções pacíficas árabes, e os palestinos o iriam aplaudir como um autêntico investimento em seu futuro.
 
E a Mãe História certamente agradeceria este passo como uma significativa, eficaz e há muito esperada atitude em direção à paz e reconciliação. Deveria começar hoje!


(*) JUDEA PEARL é professor na Universidade de California, Los Angeles, e presidente da Daniel Pearl Foundation (www.danielpearl.org). Publicado pela Saudi Gazette  www.saudigazette.com.sa e distribuído pelo Common Ground News Service (CGNews - www.commongroundnews.org).
 

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