Confessei a ele o que sabia sobre meus amigos de
Israel: "Sabe o que os israelenses enxergam ao ler uma proposta de paz no
jornal?", perguntei. "Eles pulam o texto sobre paz, reconhecimento e
segurança e procuram uma palavra: 'refugiados'. O resto é trivial; se a
palavra está associada a 'direito de retorno' ou 'uma solução justa'
ou 'Resolução 194' ou qualquer frase que possa ameaçar a face
demográfica de Israel, a proposta é automaticamente
descartada".
"O que a proposta saudita diz sobre o problema dos
refugiados?, perguntou ele. "Como você, não me lembro da linguagem
precisa", respondi, "mas, como a maioria dos israelenses, recordo das
palavras 'solução justa', que poderia responder à sua questão".
"Interessante!" disse meu colega árabe. "Sempre considerei
que se construírmos a confiança e resolvermos o problema territorial,
alguma solução acabará sendo encontrada para o problema dos
refugiados".
"Sim, muitos israelenses partiram desta hipótese no
período de Oslo", falei. "Agora eles querem que a solução seja definida
com antecedência".
Fui lembrado desta conversa na semana passada, quando
li o livro do ex-presidente Jimmy Carter, "Palestina: Paz Não Apartheid" e
achei o seguinte trecho na página 211:
"O enunciado délfico desta declaração [a proposta
saudita] foi deliberado em árabe, assim como em hebraico e inglês, mas
os árabes o defendem dizendo que ele está ali para ser explorado pelos
israelenses e outros e que, em qualquer caso, é um compromisso mais
positivo e claro com a lei internacional do que qualquer coisa que venha
hoje de Israel."
Recordei como o enunciado délfico do acordo de
Oslo também foi deliberado, e como - após o colapso de Oslo, líderes
do estilhaçado campo da paz israelense confessaram em público que haviam
sido enganados e traídos por seus camaradas palestinos. Especificamente,
eles sentiram que as promessas de preparar a população palestina para
algumas concessões no problema dos refugiados jamais foram cumpridas (Haim
Shur - Maariv, junho de 2001) e que esta inação foi a principal
razão para a eclosão da segunda intifada; Arafat simplesmente não podia
encarar seu povo com "um fim do conflito" após décadas prometendo a eles
um retorno para Haifa e Jaffa.
Mais de seis anos passaram desde a ruptura do processo de Oslo, e
a memória é curta. As pessoas tendem a esquecer as amarguras do passado.
No mês passado ouvimos apelos de israelenses e palestinos para revitalizar
a proposta saudita (Collette Avital, Jerusalem Post, 23/01/2007) e muitos
ficaram observando para ver se o campo da paz israelense iria endossar o
plano saudita sem um maior esclarecimento sobre a natureza da "solução
justa" para o problema dos refugiados.
A resposta chegou na semana passada como parte de
um troca de correspondências inéditamente cândida entre dois dos mais
respeitados jornalistas do Oriente Médio, Salameh Nematt, árabe, e Akiva
Eldar, israelense, publicadas simultâneamente em árabe, hebraico e inglês.
No terceiro round de artigos, Eldar, pacifista ativo,
escreveu:
"...Nós, israelenses, precisamos ser convencidos
de que existe uma solução para o problema dos refugiados. Nada é mais
capaz de desestimular os israelenses do que a expressão 'direito de
retorno'. Aos seus olhos, estas palavras são um sinônimo para a
destruição de um Estado judeu. Os políticos nos dois lados sabem que é
inconcebível despir um Estado soberano, como Israel, de sua autoridade
para decidir quem aceitar como seus cidadãos. Cidades novas foram
construídas sobre as aldeias nas quais os refugiados viveram. Filhos e
netos de refugiados judeus da Europa nasceram em casas que restaram.
Qualquer um em seu juízo perfeito sabe que a solução para o problema dos
refugiados palestinos não é a de criar um problema de refugiados judeus.
A solução pode ser encontrada num processo de paz que seja baseado em
dois Estados e a absorção da maior parte os refugiados palestinos em seu
novo Estado" (Common Ground News 02/02/2007)
Na verdade, esta posição é esposada por qualquer
israelense que eu conheça, incluindo os maiores defensores de um Estado
palestino, e coloca dois problemas à frente do plano de paz saudita.
Primeiro, estariam os palestinos dispostos a assinar um acordo de paz com
a disposição de que a maioria dos refugiados será absorvida no seu novo
Estado?
Em segundo lugar, pressupondo que se disponham a
isto, estaria Israel disposto a fazer concessões irreversíveis em terra e
segurança, em troca de uma promessa reversível pelos palestinos de
assentar os refugiados em vez de mantê-los como uma reserva de militância
contra Israel?
Aqui vai minha modesta sugestão, confiando novamente
na sabedoria e boa-vontade saudita. Em vez de esperar que comecem
negociações e sejam assinados acordos de paz - que será de toda maneira um
processo longo, tedioso e precário - os sauditas, juntos com outros ricos
produtores de petróleo, poderiam lançar um "Plano Marshall Palestino" para
construção de moradias permanentes para refugiados palestinos, na
Cisjordânia e Gaza.
Tal plano, se iniciado imediatamente, criaria as
condições necessárias para negociações, um acordo e um Estado Palestino
viável. Israel o receberia como um sinal da intenções pacíficas árabes, e
os palestinos o iriam aplaudir como um autêntico investimento em seu
futuro.
E a Mãe História certamente agradeceria este passo
como uma significativa, eficaz e há muito esperada atitude em direção à
paz e reconciliação. Deveria começar hoje!
(*) JUDEA PEARL é professor na
Universidade de California, Los Angeles, e presidente da
Daniel
Pearl Foundation (
www.danielpearl.org). Publicado pela Saudi
Gazette
www.saudigazette.com.sa e
distribuído pelo Common Ground News Service (CGNews -
www.commongroundnews.org).
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