É Hora de Viver Como Merecemos

 A cerimônia anual em memória a Yitzchak Rabin é o momento no qual paramos um pouco para recordar Rabin, o homem, o líder. E também olhamos para nós mesmos, para a sociedade israelense, sua liderança, o estado de espírito da nação, a situação do processo de paz. E para nós como indivíduos, frente aos acontecimentos no país.

Não está fácil olhar para nós mesmos neste ano. Houve uma guerra, e Israel mostrou sua potente força militar. Mas também ficou exposta sua fragilidade. Descobrimos que nosso exército não pode ser a única garantia para nossa existência.

Essencialmente, descobrimos que a crise que Israel está vivendo é muito mais profunda do que temíamos, em quase todos os aspectos.

12 anos sem Rabin

150.000 israelenses pela paz em Tel Aviv

Estou falando aqui, nesta noite, como uma pessoa que tem por esta terra um amor arrebatador, complexo e inequívoco. Como alguém cuja arraigada aliança com esta terra transformou sua tragédia pessoal num pacto de sangue.

Sou uma pessoa totalmente secular. Mas, aos meus olhos, o estabelecimento, e a própria existência do Estado de Israel é um milagre, por tudo que nos aconteceu como nação – um milagre político, nacional e humano.

Não esqueço disto nem por um único momento. Mesmo quando muitas coisas na realidade das nossas vidas me enraivecem ou deprimem, mesmo quando o milagre é manchado pela rotina e pela miséria, pela corrupção e o cinismo, mesmo quando a realidade parece não ser nada além de uma pobre paródia deste milagre, eu sempre lembro disto. É com estes sentimentos que falo a vocês nesta noite.


O Que Foi Feito do Milagre?

 Veja, terra, como te desperdiçamos“, escreveu o poeta Saul Tchernikovsky na Tel Aviv de 1938.

Ele lamentava os sucessivos enterros de nossos jovens no solo da Terra de Israel. A morte de jovens rapazes é um desperdício horrível, que grita. Mas não menos terrível é a sensação de que, por muitos anos, o Estado de Israel vem desperdiçando não apenas a vida dos seus filhos, mas também o seu próprio milagre.

Aquela grandiosa e rara oportunidade que a História lhe ofereceu, a oportunidade de estabelecer aqui um país eficiente, democrático, fiel aos valores judaicos e universais. Um Estado que fosse um lar nacional e um refúgio. Mas não apenas um refúgio, como também um lugar que oferecesse um novo sentido para a existência judaica. Um Estado que guardasse, como parte integral e essencial de sua identidade judaica e do seu ethos judaico, a observância de uma total igualdade e respeito pelos seus cidadãos não-judeus.

Vejam o que se abateu sobre nós. Vejam o que aconteceu com o jovem, vigoroso e apaixonante país que tínhamos aqui. Israel, como se tivesse sofrido um processo acelerado de envelhecimento, passou da infância e juventude para um estado perpétuo de doença, fraqueza e amargura.

Como isso aconteceu? Onde foi que deixamos até a esperança de que finalmente seríamos capazes de viver uma vida diferente, melhor? Mais ainda, como é que continuamos a observar de lado, como se estivéssemos hipnotizados pela insanidade, brutalidade, violência e racismo que tomou conta de nosso lar?

E eu pergunto a vocês: Como foi possível que um povo com tais recursos de criatividade, renovação e vitalidade como o nosso, um povo que soube tantas vezes como renascer das cinzas, encontrar-se hoje, a despeito de seu grande poderio militar, em tal estado de lassidão e vazio? Nesta situação onde é de novo uma vítima, porém desta vez de si próprio, de suas ansiedades, de sua falta de visão?

 Um dos resultados mais difíceis da recente guerra é a pesada percepção de que, nestes tempos, Israel não tem um rei, que a nossa liderança é oca. Nossas lideranças militar e política são vazias. Nem estou falando das óbvias asneiras na condução da guerra, do colapso do front interno. Nem da corrupção em larga escala e no varejo.

Estou falando sobre o fato de as pessoas que hoje governam Israel serem incapazes de colocar os israelenses em contato com sua realidade. Certamente não com as áreas saudáveis, revitalizadoras e produtivas desta identidade, com aquelas áreas da identidade, da memória e dos valores fundamentais que nos dariam esperança e força, que seriam o antídoto para a corrosão da confiança mútua, para o desaparecimento dos vínculos com a terra, e que dariam algum significado para a nossa desesperadora e exaustiva luta pela existência.

As características fundamentais do poder que resta para a atual liderança israelense são essencialmente a ansiedade e a intimidação, a charada do poder, a piscadela do negócio sujo, a traição do que temos de mais valioso. Nesse sentido, eles não são verdadeiros líderes. Certamente não são os líderes de um povo numa posição tão complicada que perdeu o rumo do qual tão desesperadamente necessita.

Às vezes parece que toda a visão deles, tudo o que lhes importa, todas as suas memórias da História, cabe dentro do minúsculo espaço entre duas manchetes de um jornal, ou entre dois inquéritos do procurador geral da nação.


Contemplem aqueles que nos dirigem. Não todos, claro, mas os muitos entre eles que agem em pânico, como suspeitos medrosos. Vejam suas maneiras de agir, litigiosas e pérfidas. Como é ridículo esperar que alguma sabedoria, uma visão ou mesmo apenas uma idéia original e criativa, corajosa e franca, possa deles emanar.

Quando foi a última vez que um primeiro-ministro formulou ou deu um passo que pudesse abrir para os israelenses um horizonte novo, um futuro melhor? Quando foi que um deles introduziu uma mudança social, ou cultural, ou ideológica, em vez de meramente reagir precipitadamente a iniciativas tomadas por outros?

Sr. Primeiro-Ministro, não estou dizendo estas coisas por um sentimento de raiva ou vingança. Esperei o tempo suficiente para evitar responder por impulso. Você não poderá ignorar minhas palavras nesta noite dizendo que um homem em luto não pode ser julgado. Certamente estou enlutado, porém me move mais a dor do que a raiva. Me causam dor este país e o que você e seus amigos estão fazendo dele.

Acredite, seu sucesso é importante para mim, porque o futuro de todos nós depende da nossa capacidade de agir.


Quando Yitzchak Rabin tomou a estrada da paz com os palestinos, não foi por amor a eles ou pelos seus líderes. Naqueles tempos também, recorde-se, a crença comum era de que não tínhamos interlocutor e que não se poderia discutir com eles.

Rabin decidiu agir, porque discerniu, com muita sabedoria, que a sociedade israelense não seria capaz de se sustentar a longo prazo numa situação de conflito não resolvido. Ele percebeu, bem antes que muitos outros, que a vida num clima de violência, ocupação, terror, angústia e desesperança, cobra um preço que Israel não é capaz de pagar. Tudo isto é ainda mais relevante hoje.

Logo falaremos sobre o parceiro, que temos ou não, mas antes disso olhemos para nós mesmos.


Nascidos e Educados na Guerra

Há mais de cem anos vivemos nesta luta. Nós, os cidadãos deste conflito, nascemos na guerra e crescemos dentro dela. E de certa forma fomos doutrinados por ela. Talvez seja por isso que às vezes pensamos que esta loucura em que vivemos por cem anos é a única coisa real, a única vida possível, e que não temos opção, nem mesmo o direito de aspirar a uma vida melhor.

Por nossa espada viveremos e por nossa espada morreremos. E a espada irá nos devorar para sempre. Talvez isto explique a indiferença com que aceitamos o absoluto debacle do processo de paz, um fracasso que tem durado anos e ceifa mais e mais vítimas.

Isto poderia também explicar a falta de reação, pela maior parte de nós, ao contundente golpe na democracia causado pela nomeação de Avigdor Lieberman como ministro, com o apoio do partido trabalhista. Um piromaníaco compulsivo escolhido para chefiar os bombeiros da nação.

E isto é parte da causa para o rápido declínio de Israel em direção ao tratamento insensível e brutal dos seus pobres e sofredores. Para esta indiferença ao destino dos que têm fome, dos idosos, dos doentes e deficientes, e de todos os que são fracos.

Para esta apatia do Estado de Israel frente ao tráfico de seres humanos e às insuportáveis condições de emprego de seus trabalhadores estrangeiros, que beiram a escravidão; ao racismo profundamente entranhado e institucionalizado contra a minoria árabe.

Quando isto se passa aqui tão naturalmente, sem choques nem protestos, como se fosse óbvio, como se fôssemos totalmente incapazes de recolocar a roda no eixo; quando tudo isto acontece, começo a temer que mesmo que a paz fosse chegar amanhã, e mesmo que algum dia recuperássemos alguma normalidade, poderíamos ter perdido a nossa chance de nos recuperar completamente.

A tragédia que dilacerou a minha família e a mim com a perda de nosso filho, Uri, não me concede qualquer direito especial no discurso público. Mas acredito que a experiência de enfrentar a morte e a perda traz consigo uma sobriedade e lucidez, ao menos para distinguir entre o que é importante e que não tem importância, entre o atingível e o que não se pode alcançar.


Quem São os Parceiros

 Qualquer pessoa sensata em Israel, e diria também na Palestina, sabe exatamente qual o contorno de uma solução possível para o conflito entre nossos dois povos. Qualquer pessoa sensata, tanto aqui como lá, sabe no fundo de seu coração a diferença entre sonhos, desejos do coração e o que é possível conseguir pela negociação. Qualquer um que não o saiba, que se recuse a reconhecer isto, não pode ser um interlocutor, seja judeu ou árabe. Está preso num fanatismo hermético e, portanto, não é um parceiro.

Lancemos um olhar para aqueles que são destinados a serem nossos parceiros. Os palestinos elegeram o Hamas para governá-los. O Hamas que se recusa a negociar conosco, que se recusa até a nos reconhecer. O que pode ser feito em tal situação? Estrangulá-los mais e mais, continuando a ceifar centenas de palestinos em Gaza, muitos dos quais civis inocentes como nós? Matá-los e sermos mortos por eles por toda a eternidade?

Volte-se para os palestinos, Sr. Olmert, fale com eles por cima do Hamas, aos seus moderados, àqueles que como você e eu se opõem ao Hamas e aos seus métodos. Vire-se para a população palestina, fale do pesar e das feridas deles, reconheça o sofrimento que estão passando.

Isso não enfraquecerá a sua posição, nem a de Israel, em futuras negociações. Nossos corações apenas se abririam ligeiramente um para o outro, e isto tem uma força tremenda. O poder da simples compaixão humana, particularmente nesta situação na qual vivemos, de horror e impasse.

Só uma vez, olhe para eles sem ser através da mira de um fuzil, sem ser por trás de um checkpoint. Você verá um povo que não é menos torturado que nós. Um povo oprimido e ocupado, roubado de sua esperança.


Certamente os palestinos também são culpados pelo impasse. Certamente tiveram seu papel no fracasso do processo de paz. Mas olhe para eles de uma perspectiva diferente, não apenas para os radicais em seu meio, não apenas para aqueles que compartilham interesses com os nossos próprios extremistas. Olhe para a imensa maioria deste povo infeliz, cujo destino é emaranhado com o nosso, gostemos ou não.

Vá para os palestinos, Sr. Olmert. Não fique o tempo todo procurando razões para não falar com eles. Você voltou atrás no seu plano de “convergência” – retirada unilateral, o que é bom. Mas não deixe um vácuo, pois ele será instantâneamente ocupado por violência e destruição.

Fale com eles. Faça uma oferta que seus moderados possam aceitar. Eles são bem mais abertos do que nos mostram na mídia. Faça-lhes uma oferta que os force a optar entre ela ou permanecer reféns do islamismo fanático.

Aproxime-se deles com o plano mais corajoso e mais sério que Israel possa oferecer. Com uma oferta que qualquer palestino ou israelense sensato saiba ser o limite entre sua recusa e nossa concessão.

Não há tempo. Se você demorar, logo sentiremos saudades do amadorismo do terror palestino. Nós israelenses bateremos nossas cabeças na parede, lamentando não ter usado toda a flexibilidade, toda a nossa sinceridade para retirar nossos inimigos da armadilha que eles próprios se fizeram.

Nem eles nem nós temos alternativa. E aqueles que acreditam que temos outra opção, ou que o tempo joga a nosso favor, não compreendem os profundos perigos do processo que já está em marcha.

Fale com Quem Quiser Conversar

Talvez, senhor Ministro, precise ser lembrado que se um líder árabe envia um sinal de paz, seja o mais leve e hesitante, deve-se testar imediatamente sua sinceridade e seriedade. Você não tem o direito moral de não responder.

Você deve isto àqueles dos quais pediria o sacrifício das próprias vidas caso outra guerra irrompesse. Portanto, se o presidente Assad diz que a Síria quer paz, mesmo que você não acredite nele, mesmo que todos nós desconfiemos dele, você deve propor-lhe um encontro no mesmo dia.

Não espere, nem um único dia. Quando você lançou a última guerra, você não esperou nem uma hora. Descarregou toda a força, o arsenal completo, toda força de destruição. Por que, quando aparece um vislumbre de paz, você deve imediatamente rejeitá-lo? O que tem a perder? Desconfia dele? Vá e ofereça-lhe termos tais que exponham suas artimanhas. Ofereça-lhe um processo de paz que se estenda por vários anos, onde apenas ao final, desde que respeitasse todas as condições e restrições, sairíamos do Golan.

Comprometa-o com um processo longo, aja de forma que seu povo também se conscientize desta possibilidade. Ajude os moderados, que ali também devem existir. Procure mudar a realidade. Não seja apenas um serviçal dela. É para isto que você foi eleito.

Certamente nem tudo depende dos seus atos. Grandes forças atuam em nossa região e no mundo. Algumas, como o Irã e o islamismo radical, querem a nossa destruição. Apesar disso, muito depende do que fazemos, do que nos tornamos.


Os desacordos entre direita e esquerda não são hoje tão significativos. A vasta maioria dos cidadãos de Israel já entende isto, e sabe como parecerá a solução do conflito. A maioria de nós entende, portanto, que a terra deve ser dividida, que um Estado Palestino deve ser criado.

Por que, então, continuarmos nos exaurindo em brigas internas que já duram 40 anos?  Por que a nossa liderança política continua a refletir a posição dos extremistas e não a da maioria da população?

É melhor alcançarmos um consenso nacional antes que circunstâncias ou, Deus nos livre, outra guerra nos force a chegar a ele. Se o fizermos, nos salvaremos de anos de declínio e erro, anos em que lamentaremos mais e mais vezes: “Veja terra, como te desperdiçamos”.


De onde estou agora, lanço um apelo. Apelo a todos que me escutam, aos jovens que voltaram da guerra, e sabem que são eles que serão chamados a pagar o preço da próxima guerra. Aos cidadãos, judeus e árabes, da direita e da esquerda, seculares e religiosos. Parem por um momento. Olhem para dentro do abismo.

Pensem em quão próximos estamos de perder tudo o que criamos aqui.

Perguntem-se: Não será este o momento de se mexer, de tomar seu futuro nas mãos, de se libertar desta paralisia?

Não é hora de finalmente reivindicarmos as vidas que merecemos viver?



O autor, David Grossman, premiado escritor israelense, é veterano ativista do PAZ AGORA. Este histórico pronunciamento foi feito para 100.000 israelenses reunidos para homenagear Yitzchak Rabin, primeiro-ministro israelense assassinado naquela mesma praça, 11 anos antes, após participar de uma grande manifestação pela paz..

[ publicado pelo PAZ  AGORA e traduzido por Moisés Storch para o PAZ AGORA|BR. ]

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