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Adeus a um imortal

Moacyr Scliar – vida, obra e a questão social

 

Moacyr Scliar (1937-2011) nasceu em Porto Alegre, no seio de uma família judaica “progressista” cujos expoentes eram o pintor Carlos Scliar, combatente da Força Expedicionária Brasileira, Esther Scliar, musicóloga da fase nacionalista da música clássica brasileira, ambos militantes do PCB, e seu tio Henrique Scliar, imigrante que fazia parte dos círculos de simpatizantes do PCB descritos por Leôncio Basbaum no livro Uma vida em seis tempos. Para estes judeus “progressistas” pertencentes aos estratos populares, a questão cultural era central na medida em que era considerada indispensável para orientar uma prática transformadora da realidade. Havia fome de cultura e se forjavam verdadeiros autodidatas eruditos, para os quais nada do que é humano era indiferente. Possuíam uma presença ativa e militante, adotando uma atitude de entrega às melhores aspirações populares. Num caminho de vai e vem, abraçavam todas as causas condutoras ao arraigamento à nova terra e, ao mesmo tempo, preservavam os valores político-sociais, humanistas e literários adquiridos em suas terras natais da Europa Oriental.

Moacyr Scliar bebeu ainda menino nestas fontes, mas, sob o impacto do Holocausto, como muitos jovens de sua geração, se dividia entre o nacional e o social. Isto é, construir o socialismo num “lar nacional judeu” ou fazer a revolução no Brasil. Acabou optando por uma militância no movimento juvenil da esquerda sionista que se considerava marxista, o Hashomer Hatzair (Guarda Jovem), sem nunca ter deixado seus vínculos muito afetivos com a esquerda não sionista.

Formado em Medicina, não por acaso escolheu a docência e o exercício da Saúde Pública como sanitarista. A solidariedade, o pensar no coletivo falaram mais alto que uma brilhante carreira de prestígio. Mas acabou se notabilizando como escritor e foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras. Moacyr Scliar foi um dos mais prolíficos escritores brasileiros contemporâneos e, aparentemente, escrevia a respeito de assuntos muito díspares. No entanto, pode-se vislumbrar um fio condutor em toda a sua obra. Dedicou uma parte expressiva de sua produção à literatura infanto-juvenil, o que se coaduna com seu interesse pela educação. Escreveu obras sobre Saúde Pública onde se destaca a biografia de Oswaldo Cruz. Mas as mais conhecidas são os seus romances, contos e crônicas. E neles, perpassa a busca pelas origens, reminiscências de infância, a questão ética e o ser político e social.

Não cabe fazer neste espaço um resumo de toda a sua obra e muito menos fazer análise literária mas apenas destacar as obras mais representativas desta busca definida acima.

Adeus a um imortal

Adeus, Moacyr

Seu romance de estréia, com cunho autobiográfico, A guerra no Bom Fim, (1972) relembra a vida de um menino que vivia com a família na Porto Alegre dos anos 1940, no bairro Bom Fim, como os imigrantes judeus vindos do Leste Europeu. Ao mesmo tempo em que ia aprendendo as coisas da vida nas ruas do bairro, também iam chegando as notícias angustiantes da 2ª Guerra Mundial, onde a maioria havia deixado parentes e amigos.

Os voluntários (1979) reúne como personagens um grupo quixotesco que busca o inatingível. E sua incrível armada está metida numa empreitada desastrada para levar um moribundo a Israel. O objetivo da viagem é permitir ao moribundo conhecer a cidade de Jerusalém antes de falecer. Mas no fundo a história reproduz o conflito do Oriente Médio sob a ótica da Rua Voluntários da Pátria, centro comercial de Porto Alegre.

Em A estranha nação de Rafael Mendes (1983),conta a tumultuada história dos cristãos-novos vindos ao Brasil através dos tempos, e n’O ciclo das águas (1975), Moacyr Scliar tem a coragem de abordar pela primeira vez um assunto tabu na comunidade judaica, até então: trata-se da história das “polacas”, meninas judias trazidas da Europa sob vários pretextos pela máfia judaica, Tzvi Migdal, para, na verdade, serem forçadas a se prostituir nos cabarés e nos bordéis da América, terra esta que constituía o sonho dourado das comunidades pobres do Leste Europeu.

O exército de um homem só (1973) é um preito ao tio Henrique, que na juventude fôra o único propagandista do projeto stalinista de transformar a região autônoma do Birobidjan (União Soviética), num lar nacional dos judeus. Mas, num belo texto publicado no Zero Hora de 2 de junho de 1990*, Moacyr Scliar afirma que entre os que fundaram o Clube de Cultura de Porto Alegre “se destacava a figura lendária de Henrique Scliar, meu tio. O tio Henrique, como todos o conheciam, construiu o clube com suas mãos. Literalmente: muitas vezes o vi no meio dos operários, carregando tábuas ou baldes de cimento. E o fazia, em primeiro lugar, pela fé que depositava no empreendimento; depois, pela veneração com que os velhos militantes encaravam o trabalho dos obreiros; e por último, porque cultura era sua vida. Cultura foi, numa época, a religião da esquerda. O Clube de Cultura representava um capítulo da longa e tormentosa história das relações entre esquerda e judaísmo.

Uma história que começou cheia de esperanças – a Revolução Russa prometia aos judeus uma completa emancipação – entrou num período sombrio com o stalinismo, e chega agora a uma fase indefinida, em que a tolerância da Perestroika convive com o velho antissemitismo eslavo.

A União Soviética emergia da 2ª Guerra como a força que havia derrotado os nazistas, e os crimes de Stalin não haviam sido divulgados. O fim do sonho comunista foi um golpe, mas o sonho que ela representava permanece vivo.

Em outro depoimento, Moacyr Scliar, mesmo que de forma generalizante, ao comentar o grupo progressista gaúcho do qual fazia parte seu tio Henrique, entende que a perspectiva de militância de grandes parcelas judaicas europeias dentro de ideais socialistas era feita “não da maneira maquiavélica que daria origem ao stalinismo, mas à luz de uma tradição ética que, vinda dos profetas bíblicos, pode ser ainda detectada na obra do jovem Marx”.

É bem provável que esta seja a fonte dos livros que o autor escreveu sobre ética judaica, entre os quais se destaca o premiado O centauro no jardim. Uma narrativa ao mesmo tempo realista e fantástica, onde o protagonista busca a verdadeira natureza do ser humano e sua luta contra a alienação.

Mas o autor não esquece a temática brasileira representada por Uma história farroupilha (2004), em que o mais longo conflito interno da nossa história serve de palco para a conquista e colonização de áreas ainda pouco exploradas do território gaúcho, com ênfase na decisiva contribuição dos povos imigrantes para a riqueza cultural e sócio-econômica do Brasil.

Em Mês de cães danados (1977) narra a saga de um estancieiro dos pampas cuja vida atribulada o leva à sarjeta de Porto Alegre. O pano de fundo são os dias tensos da renúncia do presidente Jânio Quadros, a crise institucional instalada e o papel de Leonel Brizola nos dias que antecedem a posse de João Goulart na presidência.

Os vendilhões do Templo (2006) tem início com a parábola cristã da Antiguidade que trata das relações entre crença e poder, interesses e ideais. Mas de forma emblemática a história culmina no Brasil dos primeiros anos do século 21. Embora seja denunciada a corrupção numa pequena cidade gaúcha, o livro vem à tona em tempos de “mensalão”.

A majestade do Xingu (1997) talvez seja a síntese de tudo que tocava mais de perto o coração de Scliar. É uma homenagem a Noel Nutels, imigrante judeu, grande sanitarista, vinculado ao PCB, que consagrou sua vida a cuidar dos indígenas brasileiros.

Mas a grande surpresa é seu último romance, de temática genuinamente brasileira, Eu vos abraço, milhões (2010). O texto envolve, direta e indiretamente, personagens e delírios da cultura política comunista no Brasil; um deles em especial: Astrojildo Pereira. Apesar disso, o livro é construído à maneira da maioria das obras de escritores judeus que se expressavam em ídish, constituídas de narrativas centradas num único personagem, na forma de monólogos, sendo Scholem Aleichem o grande mestre do gênero. Têvie, o leiteiro é composto por vários contos concebidos como monólogos, em que o personagem Têvie se dirige a Scholem Aleichem para lhe narrar todas as suas atribulações ao longo da vida, e se inicia com uma carta do personagem ao escritor. E o personagem de Scliar escreve uma carta para o neto relatando episódios de sua longa vida num monólogo.

Levando-se em conta que Scholem Aleichem escreveu um conto chamado Se eu fosse Rothschild e Scliar tem um conto com o mesmo nome, o humor no meio da desgraça dos seus personagens preferidos, os gauche da vida, vislumbra-se a tradição do conto judaico na literatura brasileira.

 

Dina Lida Kinoshita, professora doutora, é membro dos Amigos Brasileiros do PAZ AGORA e do Conselho da Cátedra UNESCO de Educação para a Paz, Direitos Humanos, Democracia e Tolerância – IEA USP.

[ Publicado no Boletim Asa nº 130 - mai-jun/2002 ]

 

Hagadá de Hamburgo em 1741 - as mesmas perguntas

Um seder para os nossos dias

 
HAGADÁ de MOACYR SCLIAR z”l
 
Esta mesa em torno à qual nos reunimos, esta mesa com as matzót e com as ervas amargas, esta mesa de Pessach com sua toalha imaculada, esta mesa não é uma mesa: é mágica embarcação com a qual navegamos pelas brumas do passado, em busca das memórias de nosso povo.

 A esta mesa sentemo-nos, pois.

Somos muitos, nesta noite.

Somos os que estão e os que já foram: somos os pais e os filhos, e somos também os nossos antepassados. Somos um povo inteiro, em torno a esta mesa. Aqui estamos, para celebrar, aqui estamos para dar testemunho.

Dar testemunho é a missão maior do judaísmo. Dar testemunho é distinguir entre a luz e as trevas, entre o justo e o injusto. É relembrar os tempos que passaram para que deles se extraia o presente a sua lição.

Hagadá Alemanha 1795

Hagadá Alemanha 1795

Olhemos, pois, a matzá que está sobre a mesa.
Este é o pão da pobreza que comeram
os nossos antepassados na terra do Egito.
Quem tiver fome – e muitos são os que têm fome,
neste mundo em que vivemos – que venha e coma.
Quem estiver necessitado –
e muitos são os que amargam necessidades,
neste mundo em que vivemos – que venha e celebre conosco o Pessach.

É o legado ético de nosso povo,
a mensagem contida neste simples alimento,
neste pão ázimo que sustentou no deserto,
e o que o vem sustentando ao longo das gerações.
É preciso ser justo e solidário,
é preciso amparar o fraco e ajudar o desvalido.

Deserto no Egito

Deserto no Egito

O deserto que hoje temos de atravessar
não é uma extensão de areia estéril,
calcinada pelo sol implacável.
É o deserto da desconfiança, da hostilidade,
da alienação de seres humanos.

Para esta travessia
temos de nos munir das reservas morais
que o judaísmo acumulou,
das poucas e simples verdades
que constituem a sabedoria do povo.
Ama teu próximo como a ti mesmo.
Reparte com ele teu pão.
Convida-o para tua mesa.
Ajuda-o a atravessar o deserto de sua existência.

Tu me perguntas, meu filho,
porque é diferente esta noite de todas as noites[1].
Porque todas as noites comemos chamets e matzá,
e esta noite somente matzá.
Porque todas as noites comemos verduras diversas,
e esta noite somente maror.
Porque molhamos os alimentos duas vezes.
Porque comemos reclinados.

Hagadá de Hamburgo em 1741 - as mesmas perguntas

Hagadá de Hamburgo em 1741 - as mesmas perguntas

Eu te agradeço, meu filho.
Agradeço-te por perguntares.
Porque, se me perguntas, não posso esquecer:
se indagas, não posso ficar calado.
Por tua voz inocente, meu filho, fala a nossa consciência.
Tua voz me conduz à verdade.

Por que esta noite é diferente de todas as noites, meu filhos?
Porque esta noite lembramos.
Lembramos os que foram escravos no Egito,
aqueles sobre cujo dorso estalava o látego do Faraó.

Lembramos a fome,
o cansaço, o suor, o sangue, as lágrimas.
Lembramos o desamparo dos oprimidos
diante da arrogância dos poderoso.

Lembramos com alívio: é o passado.
Lembramos com tristeza: é o presente.
Ainda existem Faraós.
Ainda existem escravos.

Os Faraós modernos já não constróem pirâmides,
mas sim estruturas de poder e impérios financeiros.
Os Faraós modernos já não usam apenas o látego:
submetem corações e mentes mediante técnicas sofisticadas.

Faraós modernos

Faraós modernos

Seus escravos se contam aos milhões, neste mundo em que vivemos.
São os negros privados de seus direitos, na África do Sul;
os poetas que, em Cuba, não podem publicar seus versos;
os imigrantes a quem, na Europa,
está reversado o trabalho pesa e a hostilidade dos grupos fascistas;
os refuseniks soviéticos que clamam por sua identidade;
as mulheres e os jovens fanatizados pelo regime do Aiatolá,
os prisioneiros políticos do Chile,
os famélicos do Sahel e do nordeste brasileiro,
as populações indígenas lentamente exterminadas em tantos lugares;
os operários explorados e os camponeses sem terra.

Para estes, ainda não chegou o dia da travessia.
Estes ainda não encontraram a sua Terra Prometida.
Para eles, a vida ainda é amarga como o maror.
É a eles também que lembramos nesta noite, meu filho.
Com eles repartirmos, em imaginação, o nosso pedaço de matzá.

Não sejas como o ingênuo, que ignora os dramas de seu mundo.
Não sejas como o perverso, que os conhece,
mas nada faz para mudar a situação.
Pergunta, meu filho, pergunta tudo o que queres saber
– a dúvida é o caminho para o conhecimento.

Hagadá de Bordeaux, 1813.

Hagadá de Bordeaux, 1813.

Mas quando te tornares sábio,
procura usar a tua sabedoria em benefício dos outros.
Reparte-a, como hoje repartirmos nossa matzá.

Segue o conselho de nossos sábios,
e lembra a saída do Egito,
não só na noite de Pessach,
mas todos os dias de tua vida.
Falemos deste povo, então.

Falemos dos judeus:
pequeno grupo humano que viria
a desempenhar um grande papel na história da humanidade.
Um povo inquieto.
Um povo que não buscava o repouso,
nem para si, nem para os outros povos.

Há cerca de 4000 anos a trajetória deste povo teve início
- quando Abraão deixou o seu lugar de origem,
na região entre o Tigre e o Eufrates, para ir a Canaan.
Pois disse-lhe o Senhor:
“Sai de tua terra, e da terra de tua gente, e da casa de teu pai,
e vem para a terra que eu te mostrarei;
Eu farei de ti uma grande nação,
e te abençoarei, e farei grande teu nome;e serás uma benção;
E eu abençoarei quem te abençoar,
e amaldiçoarei quem te amaldiçoar;
e em ti serão todos os povos da terra abençoados.” (Gênesis 12, 1-3)

Mas não cessou com a chegada a Cannan e peregrinação judaica.
Povo nômade, os hebreus deslocavam-se constantemente.
E por isso não construíram grandes cidades,
nem monumentos comparáveis às pirâmides.
O que os hebreus levavam consigo,
em suas migrações, era a sua tradição,
era a palavra do Senhor, da qual eram guardiães;
a palavra que deu origem ao livro sagrado, a Bíblia,
seu grande legado para a humanidade [2].

Torá - o Pentateuco

Torá - o Pentateuco

De Abraão nasceu Isaac, de Isaac Jacob, e de Jacob, José e seus irmãos.
José, o vidente; José, que se tornou vizir do Faraó.
Com José foram Ter seus ingratos irmãos,
quando a fome assaltou as terras de Canaan.
Na terra de Goshen foram viver,
e ali se multiplicaram como as estrelas no céu
e os grãos de areia das praias do mar.

Mas então nuvens negras surgem neste céu tranqüilo.
Um novo Faraó reina no Egito;
ele teme que os filhos de Israel,
agora numerosos, se rebelem contra ele.
E decreta: toda criança judia, de sexo masculino,
deve ser morta ao nascer.

Mas um menino escapa.
O destino poupa-o para ser o libertador de seu povo:
é Moisés, que a filha do Faraó
salva das águas para dele fazer um príncipe.
Moisés, Príncipe do Egito, Moisés,
poderoso entre os poderosos.

Há um instante na vida de cada homem
em que ele se vê diante de seu destino.
Um instante em que lhe é dado fazer a escolha transcendente,
a escolha que será o divisor de águas de sua existência.
Este instante chegou para Moisés.

Diante do feitor que espancava cruelmente o escravo judeu,
ele não hesitou:
tomou o lado do fraco contra o forte,
do oprimido contra o opressor.
Jogou sua sorte com a sorte pobre, desprotegido povo.
E então que D’us lhe fala.
Não antes do gesto de coragem, mas depois:
é como se a divindade só se pudesse revelar
depois que Moisés descobriu a si mesmo.

Este é o deus de Abraão, o Deus de Isaac, o deus de Jacob;
o D’us que fala da sarça ardente,
como a indicar que é preciso manter viva a chama da fé e da dignidade.
Este D’us estende Sua mão para Moisés,
e acena-lhe com a promessa que desde então tem animado a todos os povos: terra e liberdade, liberdade e terra.
A doce liberdade, a fértil terra da qual fluiria o leite e o mel.

Deixe Meu Povo Sair!

Deixe Meu Povo Sair!

E então, acompanhado de Arão, que por ele falava,
Moisés foi ter com o Faraó e disse:
Deixa meu povo sair.
Deixa meu povo sair.

Era a primeira vez que ecoava esta frase no reduto do poder,
mas não seria a última.
Nas masmorras dos romanos: deixa meu povo sair.
Nos guetos medievais: deixa meu povo sair.
Nas aldeias ameaçadas pelos pogroms: deixa meu povo sair.
Na Alemanha nazista: deixa meu povo sair.
Na Rússia, na Síria, na Etiópia: deixa meu povo sair.

Este apelo desesperado não encontra eco.
A insensibilidade dos poderosos torna-os surdos e cegos.
O sofrimento dos oprimidos clama aos céus.
E os céus respondem com fúria.
Mas a divindade poupa a seu povo o ódio.
Minha é a vingança, diz o Senhor.
Só Deus pode dosar o castigo do ímpio,
de maneira a não pagar ingustiça com injustiça
São as forças da natureza que Adonai mobiliza para punir os pecadores; como a sugerir a própria natureza se revolta contra a iniqüidade E vêm as pragas.

As 10 Pragas - Veneza, 1629

As 10 Pragas - Veneza, 1629

As águas se transformam em sangue.
Feras atacam os homens.
Gafanhotos devoram as colheitas.
Pestilências ceifam vidas.
O granizo cai sobre as plantações.
As trevas reinam sobre a Terra.

Castigos terríveis, mas que nos soam estranhamente familiares.
Pois hoje, como ontem,
seres humanos fazem da natureza palco de luta contra outros seres humanos.
A casa do homem é uma casa dividida.
Punhos se erguem ameaçadores, vozes bradam iradas.
A ganância e a especulação sobrepujam a solidariedade e a compensação.

E de novo as pragas nos ameaçam.
As águas já não se transformam em sangue,
mas nos rios poluídos e nos mares envenenados os peixes bóiam mortos.

As pragas que devoravam as colheitas foram repelidas,
mas ficam nos frutos da terra os resíduos dos venenos usados.
Indiscriminadamente.

As feras que os homens temiam hoje são pobres criaturas em extinção.
Mas o tigre com dentes atômicos faz ouvir o seu rugido,
os submarinos nucleares percorrem os mares como sinistros Leviatãs.

Enquanto enormes contingentes humanos vegetam na mais espantosa miséria,
há nas metrópoles uma minoria que busca no consumismo desenfreado,
no álcool e na droga, a satisfação que jamais encontra.

Nova York 11/09/2001

Nova York 11/09/2001

As trevas reinam sobre a Terra,
mas não são as trevas resultantes de um sol eclipsado;
são, isto sim, as trevas do obscurantismo,
que alimenta o fanatismo e arma o braço do terrorista.

As pestilências de outrora deram lugar às doenças da civilização,
igualmente mortíferas; e de outra parte,
se perpetuam entre aqueles que não têm acesso às conquistas da medicina.

Dir-se-ia que os homens não aprendem.
Que a escalada do erro – e do castigo – não tem fim.
A paciência do Senhor chega a seu término.
Decide dar ao faraó a prova definitiva de Seu poder:
os primogênitos serão exterminados.
Mas pelas portas das casas judaicas,
untadas com o sangue do animal sacrificado,
a ira do Senhor passará sem se deter
É a Páscoa: a passagem.

Mais uma vez Deus avoca a si o castigo.
Pois somente a um desígnio insondável tão espantosa punição pode ser
atribuída.
E o Faraó cede.
Por fim, o Faraó cede.
Podeis partir, ele diz a Moisés e Arão.
E os judeus partem.

Às pressas: o pão que levam sequer pode fermentar.
É da matzá que eles agora comerão.
E há razão para a pressa.
Os poderosos não costumam honrar compromissos.

O Mar Vermelho se abre...

O Mar Vermelho se abre...

Promessas são esquecidas, tratados são rasgados.
E os exércitos do Faraó vão no encalço dos fugitivos,
surpreendem-nos às margens do Mar Vermelho.
Mais uma vez Deus protege seu povo.
Mais uma vez um prodígio da natureza dá testemunho da aliança sagrada.
As águas do mar se abrem diante dos hebreus
e se fecham sobre as armadas do Faraó. É o castigo definitivo.

É um castigo, mas não é um ato de ódio.
Pois, conta o Talmud,
depois que os judeus atravessaram o Mar Vermelho,
entoaram um hino de agradecimento ao senhor -
que Ele recusou dizendo:
“Não cantareis enquanto meus outros filhos se afogam”.

A violência?
Sim, é permitida, como resposta à violência.
Mas não é permitido a ninguém alegrar-se na violência.
Ao fim e ao cabo, somos todos irmãos.
Mesmo quando um destino trágico nos coloca face a face, armas na mão.
Uma lição que vale para o Oriente Médio de nossos dias.

Esta é a narrativa do Êxodo.
Dela, o que é lenda? O que é História?
Impossível saber.
Na poeira do tempo confunde-se fantasia e realidade, fato e imaginação.
Não importa, porém.
Não é o fato histórico que conta, mas sim a lição que dele se extrai.

Hagadá Barcelona, Séc. XV

Hagadá Barcelona, Séc. XV

Como diz o Seder:
“Em toda geração deve o homem considerar como se tivesse saído do Egito”.
Neste, como está sintetizada toda a gama de possibilidades que a tradição,
mais que o frio relato dos acontecimentos, proporciona aos seres humanos.

A possibilidade de evocarmos, por uma noite que seja, o terror da
escravidão.
A possibilidade de vivermos, por uma noite que seja, a glória da libertação.

Como se é suficiente. Uma noite é suficiente.
Foi numa noite que Jacob lutou contra o anjo,
e, vencendo-o, tornou-se Israel, legando-nos esta lição:
que um povo tem de lutar por sua identidade,
ainda que desafiando os mensageiros do Senhor.
Foi numa noite que Daniel foi salvo da cova dos leões,
mostrando que o justo nada tem a temer, nem mesmo as feras selvagens.
Foi numa noite que o perverso Haman foi condenado e o povo judeu foi salvo.
Porque a justiça brilha na escuridão da noite como a luz do dia.

Sentem-nos, pois, em torno à mesa nesta noite,
e tomemos o vinho de Pessach, doce como a liberdade.
E falemos da doçura de ser livres; falemos principalmente aos jovens.
Sigamos o que diz o nosso Seder: “contarás a teu filho”.
Porque a mensagem de Pessach é dirigida sobretudo às crianças e aos jovens.
Como sentinelas na noite, temos de velar por eles,
velar para que recebam a mensagem de liberdade.
Pessach é a festa das gerações.
É a festa em que os pais falam a seus filhos.
E é por isso que a festa do Pessach é celebrada em família.
Não num templo, mas em casa.

Tradição de geração em geração

Tradição de geração em geração

Em torno a uma mesa, de modo que as pessoas se possam olhar,
de modo que o filho possa ouvir do pai o simples, eloqüente relato.
A saga de um pequeno povo de incultos nômades
que ensinou a um poderoso império uma lição de justiça e de dignidade.

Esta é a lição que os judeus vem repetindo ao longo de muitos e muitos séculos.
Nos dias esplendorosos do Templo de Jerusalém
e nos amargos tempos da dispersão.

No Galut e agora, em Israel.
Os prodígios da saída do Egito
ficaram reverberando pelos séculos afora.
Pois tantos foram, e tão notáveis,
que evocá-los leva-nos ao limite do suportável: daienu,
diz o Seder: bastar-nos-ia.

Se nos tirasse do Egito e não os justificasse, bastar-nos-ia.
Se não abrisse o mar, se não nos desse o maná,
se não nos desse o Sábado,se não nos desse a Torá – bastar-nos-ia.
O primeiro agradecimento ao Senhor é pela liberdade:
se nos tirasse do Egito, bastar-nos-ia.
Todo o resto é conseqüência.
O maná, a Lei, a Terra prometida, tudo é decorrência da libertação do povo.

Seder no Gueto

Seder no Gueto

Falemos da luta pela liberdade.
Falemos do gueto de Varsóvia.
No começo da Segunda Guerra,
Varsóvia era um centro judaico de primeira grandeza,
célebre por suas ieshivot, seu teatro ídiche,
seus centros culturais, seus artistas e escritores.
Mas então veio a invasão nazista,
e com ela a fria deliberação de transformar
a cidade num portal para o inferno.

Quase meio milhão de pessoas
foram confinadas na minúscula área do gueto, cercado e isolado.
Logo a fome, a falta de higiene,
as doenças começaram a fazer suas vítimas.

Destruição do Gueto de Varsóvia
Destruição do Gueto de Varsóvia

A um ritmo que não era satisfatório para os nazis:
em julho de 1942 começaram as deportações para os campos de Treblinka, Auschwitz, Maidanek e Belsen.

Foi então que as organizações juvenis adotaram uma decisão:
a de resistir até o fim.

Armas e munição começaram a ser contrabandeadas para o gueto…
Na madrugada de 19 de abril de 1943 um tiro ecoou na rua Nalewki.
Era o sinal para a rebelião,
que oporia 40.000 remanescentes da população judaica,
lutadores famintos e mal armados,
contra a poderosa máquina de guerra nazista.
Durante semanas os combatentes resistiram.
O comandante do levante, Mordechai Anielewicz
e seus companheiros, morreram lutando no quartel-general
da Rua Mila, 18. Ninguém se rendeu.

Warsaw Ghetto Uprising, Warsaw, Poland
Monumento aos Combatentes do Gueto – Varsóvia

Não podemos falar em liberdade sem falar no Gueto de Varsóvia.
Não podemos falar em liberdade enquanto outros guetos existirem em nosso mundo.

Agora, meu filho, vamos colocar vinho neste copo, e vamos abrir a porta.
Perguntas se estamos esperando alguém.
Sim, esperamos alguém.
Esperamos Eliahu Hanavi, o Profeta Elias, o precursor do Messias.
É um hóspede ilustre, aguardado há ‘séculos.
Até hoje não veio, e não é certo que nos visite esta noite.
Não tem importância.
O importante é que nossa porta esteja aberta.
Para o profeta ou para o nosso vizinho;
para o Messias ou para o pobre que nos vem pedir um pouco de comida.

Que espiem, os de fora, por estar a porta aberta.
Que vejam uma família reunida em torno à mesa, celebrando.
Que constatem: eles nada têm a esconder.
Eles não praticam rituais secretos, eles não são uma seita misteriosa.

Coexistência é Paz

Coexistência é Paz

São gente como a gente.
Os cristãos, os judeus, os muçulmanos, os budistas,
somos todos iguais.
Nossas festas têm nomes diferentes, ocorrem em datas diferentes,
mas no fundo, une-nos a alegria da celebração.

Eu sei, meu filho, que nem todos pensam assim.
E é por isso que a porta precisa ficar aberta.
Para que o profeta Elias venha,
anunciando a paz entre os povos.

A travessia do Mar Vermelho não pôs fim aos infortúnios do povo judeu.
Muito teriam eles de vagar, ainda, na desolação do deserto.
Foi uma dura prova, a que nem sempre resistiram.
Quando mais forte se tornou o assédio da fome e a sede,
foram queixar-se a Moisés: tu nos trouxeste ao deserto,
disseram, para que aqui morramos à míngua.
E em seu desespero,
chegavam a lembrar com saudade os tempos do Egito:
éramos escravos, mas tínhamos o que comer.

Como Esaú,
estavam dispostos a trocar sua dignidade por um prato de comida.
Deus não os castigou.
Ao contrário: deu-lhes o manjar do céu.
O Maná, e as tábuas da lei.
Nesta ordem: o alimento e depois o mandamento.
A nutrição para o corpo, seguida do dever espiritual.

E esta é mais uma lição que o judaísmo,
na sua sóbria e milenar sabedoria,
nos transmite: não se pode exigir deveres morais de quem tem fome.

Crianças do Gueto

Crianças do Gueto

Os direitos humanos começam pelo simples, e pelo elementar.
Os direitos do homem começam por um pedaço de pão, ázimo ou não.

Vejo, meu filho, que encontras o afikoman que escondi [3].
Muito bem, tens direito a uma recompensa.
O que queres? É uma história, que queres?
Muito bem.

Deixa que te conte então uma história muito curta.
É a história de um homem e de sua mala.
O homem já não vive; a mala, que eu saiba, já não existe.
Mas a mala estava com a família desse homem há muitas gerações.
Nesta mala ele colocou todas suas coisas quando, jovem ainda,
deixou sua casa, numa aldeia da Rússia czarista, e foi para a Polônia,
onde esperava viver.
Lá ficou alguns anos, até que teve de fugir de novo,
por causa da ameaça de bandos anti-semitas.
Pegou a mala e foi para a Alemanha, a civilizada Alemanha,
pensando encontrar a paz.
Mas o ano era 1939…

Passagem para a América

Passagem para a América

Conseguiu fugir para o Brasil, sempre com sua mala.
Trabalhou duro, no comércio;
conseguiu juntar alguma coisa e
já estava até esquecendo as privações que passara quando,
por ocasião dos distúrbios de rua
que se seguiram ao suicídio de Getúlio Vargas,
sua loja foi depredada.

Ficou tão assustado, que decidiu:
daí em diante, nunca mais desmanchou a mala.
Estava sempre pronto para partir,
a qualquer hora do dia e da noite.

Várias vezes pensou que o momento tinha chegado:
quando Jânio renunciou, em 1961;
quando houve o golpe militar, em 1964,
e os policiais prenderam os filhos de seu vizinho.
Não chegou a ser necessário.

Aparentemente, ele era considerado um homenzinho inofensivo;
ninguém se preocupava com ele.
No entanto, continuava preparado.
Para o Êxodo. Como seus antepassados no Egito,
que constantemente evocava.

Uma noite um ladrão entrou na casa e roubou-lhe a mala.
E de repente, ele se deu conta: já não podia mais fugir.
E assim ficou.
Até que uma noite o Anjo da Morte veio chamá-lo;
e as pessoas que estavam a seu lado,
no quarto do hospital,
ouviram-no murmurar baixinho:
Eu não fugi. Eu estou aqui.

Mesa do Seder

Mesa do Seder

Nós estamos aqui.
E podemos saborear em paz nosso manjar,
nosso afikoman.
Nós o merecemos, como tudo mereceste.

Tu, porque o encontraste;
nós, porque nos encontramos.

Chag Sameach [4] , meu filho.

 

Notas:

[1] O autor faz referência à música “ma nishtaná”, que o mais jovem presente deve cantar no jantar de pessach, na qual ela pergunta porque naquela noite não se come nada fermentado, se comem ervas amargas, se molha a comida em salmoura e se deve recostar as costas nas cadeiras.

 [2] Diz-se que o bem mais precioso para um judeu é o estudo, pois possivelmente não poderá levar nada além de sua própria cabeça consigo quando precisar fugir na próxima onda de antissemitismo.

[3] Espécie de gincana, para manter as crianças mais novas acordadas e atentas até o fim da cerimônia. São premiadas as crianças que, ao final da cerimônia, encontrarem um pedaço de matzá  (afikoman) que foi escondido pelo anfitrião.

[4] “Felizes Festas”.

 

 
 

Moacyr Scliar z'l

Moacyr Scliar z'l

 

 Moacyr Scliar z”L foi membro dos Amigos Brasileiros do PAZ AGORA e da Academia Brasileira de Letras. Faleceu em 2011, deixando-nos uma vasta obra, riquíssima em mensagens de brasilidade, judaísmo, liberdade e humanismo.

Esta Hagadá - narrativa da História do Êxodo para ser lida em família no Pessach - foi escrita por Moacyr Scliar em março de 1988, sob a atmosfera pesada da ditadura militar.

Foi publicada em março de 1988 pela antiga Revista Shalom dirigida por Patrícia Finzi.

É parte do legado humanista e imortal que Moacyr deixou para as futuras gerações.

  

Texto de:
Adeus a um imortal

Bibliografia de Moacyr Scliar

 

Conto

O carnaval dos animais. Porto Alegre, Movimento, 1968. Rio, Ediouro, 2001.
A balada do falso Messias. São Paulo, Ática, 1976.*
Histórias da terra trêmula. São Paulo, Escrita, 1976 *
O anão no televisor. Porto Alegre, Globo, 1979 *
Os melhores contos de Moacyr Scliar. São Paulo, Global, 1984.
Dez contos escolhidos. Brasília, Horizonte, 1984. *
O olho enigmático. Rio, Guanabara, 1986. *
Contos reunidos. São Paulo, Companhia das Letras, 1995.
O amante da Madonna. Porto Alegre, Mercado Aberto, 1997.
Os contistas. Rio, Ediouro, 1997.
Histórias para (quase) todos os gostos. Porto Alegre, L&PM, 1998.
Pai e filho, filho e pai. Porto Alegre, L&PM, 2002.
Mistérios de Porto Alegre. Porto Alegre, Artes & Ofícios, 2004.

* Esgotados

Romance

Moacyr Scliar - A Mulher que Escreveu a Bíblia

A guerra no Bom Fim. Rio, Expressão e Cultura, 1972. Porto Alegre, L&PM
O Exército de um homem só. Rio, Expressão e Cultura, 1973. Porto Alegre, L&PM
Os deuses de Raquel. Rio, Expressão e Cultura, 1975. Porto Alegre L&PM
O ciclo das águas. Porto Alegre, Globo, 1975; Porto Alegre, L&PM, 1996.
Mês de cães danados. Porto Alegre, L&PM, 1977.
Doutor Miragem. Porto Alegre, L&PM, 1979.
Os voluntários. Porto Alegre, L&PM, 1979.
O centauro no jardim. Rio, Nova Fronteira, 1980. Porto Alegre, L&PM
Max e os felinos. Porto Alefgre, L&PM, 1981.
A estranha nação de Rafael Mendes. Porto Alegre, L&PM, 1983.
Cenas da Vida Minúscula. Porto Alegre, L&PM, 1991.
Sonhos tropicais. São Paulo, Companhia das Letras, 1992.
A majestade do Xingu. São Paulo, Companhia das Letras, 1997.
A mulher que escreveu a Bíblia. São Paulo, Companhia das Letras, 1999.
Os leopardos de Kafka. São Paulo, Companhia das Letras, 2000.
Na noite do ventre, o diamante. Rio de Janeiro, Objetiva, 2005.

Ficção infanto-juvenil

Moacyr Scliar contando contos

Moacyr Scliar contando contos

Cavalos e obeliscos. Porto Alegre, Mercado Aberto, 1981;São Paulo, Ática, 2001
A festa no castelo. Porto Alegre, L&PM, 1982.
Memórias de um aprendiz de escritor. São Paulo, Cia.Editora Nacional, 1984*
No caminho dos sonhos. São Paulo, FTD, 1988.
O tio que flutuava. São Paulo, Ática, 1988.
Introdução à prática amorosa. São Paulo, Scipione, 1988.

(republicado como Aprendendo a amar e a curar. São Paulo, Scipione, 2003)
Os cavalos da República. São Paulo, FTD, 1989.
Prá você eu conto. São Paulo, Atual, 1991.
Uma história só pra mim. São Paulo, Atual, 1994.
Um sonho no caroço do abacate. São Paulo, Global, 1995.
O Rio Grande farroupilha. São Paulo, Ática, 1995.
Câmera na mão, o Guarani no coração. São Paulo, Ática, 1998
A colina dos suspiros. São Paulo, Moderna, 1999
Livro da medicina. São Paulo, Companhia das Letrinhas, 2000
O mistério da Casa Verde. São Paulo, Ática, 2000
O ataque do comando P.Q. São Paulo, Ática, 2001
O sertão vai virar mar, São Paulo, Ática, 2002
Aquele estranho colega, o meu pai. São Paulo, Atual, 2002
Éden-Brasil. São Paulo, Companhia das Letras, 2002
O irmão que veio de longe. Idem, idem
Nem uma coisa, nem outra. Rio, Rocco, 2003
O navio das cores. São Paulo, Berlendis&Vertecchia, 2003
Histórias de aprendiz. Rio de Janeiro, Mondrian, 2004
Um menino chamado Moisés. São Paulo, Ática, 2004.
O amigo de Castro Alves. São Paulo, Ática, 2005.
Respirando liberdade. Rio de Janeiro, Larousse, 2005.

Crônica

A massagista japonesa. Porto Alegre, L&PM, 1984.
Um país chamado infância. Porto Alegre, Sulina, 1989.
Dicionário do viajante insólito. Porto Alegre, L&PM, 1995.
Minha mãe não dorme enquanto eu não chegar. Porto Alegre, L&PM, 1996.
A língua de três pontas: crônicas e citações sobre a arte de falar mal. Porto Alegre, Artes e Ofícios, 2001.
O imaginário cotidiano. São Paulo, Global, 2001
As melhores crônicas de Moacyr Scliar. São Paulo, Ed.Global, 2004

Ensaio

A condição judaica. Porto Alegre, L&PM, 1987.
Do mágico ao social: a trajetória da saúde pública. Porto Alegre, L&PM, 1987; SP, Senac, 2002.
Cenas médicas. Porto Alegre, Editora da Ufrgs, 1988. Artes&Ofícios, 2002. .
Se eu fosse Rotschild. Porto Alegre, L&PM, 1993.
Judaísmo: dispersão e unidade. São Paulo, Ática, 1994.
Oswaldo Cruz. Rio, Relume-Dumará, 1996. .
A paixão transformada: história da medicina na literatura. São Paulo, Companhia das Letras, 1996.
Meu filho, o doutor: medicina e judaísmo na história, na literatura e no humor. Porto Alegre, Artes Médicas, 2000
Porto de histórias: mistérios e crepúsculos de Poa. Rio de Janeiro, Record, 2000 (reeditado como Histórias de P. Alegre, Poa, L&PM, 2004).
A face oculta:inusitadas e reveladoras histórias da medicina. Porto Alegre, Artes e Ofícios, 2000 .
A linguagem médica. São Paulo, Publifolha, 2002
Oswaldo Cruz & Carlos Chagas: o nascimento da ciência no Brasil. São Paulo, Odysseus, 2002.
Saturno nos trópicos: a melancolia européia chega ao Brasil. São Paulo, Companhia das Letras, 2003.
Judaísmo. São Paulo, Abril, 2003.
Um olhar sobre a saúde pública. São Paulo, Scipione, 2003.
O olhar médico. São Paulo, Ágora, 2005

Bibliography in English

Scliar: Max & The CatsThe Centaur in the Garden. New York, Ballantine Books, 1985. Pocket Edition, 1988; The University of Winscosin Press, 2003
The Gods of Raquel (novel). New York, Ballantine Books, 1986. Pocket Edition, 1988).
The Carnival of the Animals (short stories). New York, Ballantine Books, 1986.
The Ballad of the False Messiah (short stories). New York, Ballantine Books, 1987.
The Strange Nation of Rafael Mendes (novel). New York, Crown Books, 1988.
The Volunteers (novel). New York, Ballantine Books, 1988.
The Enigmatic Eye (short stories). New York, Ballantine Books, 1989.
Max and the Cats (novel). New York, Ballantine Books, 1990; New York, Plume, 2003; Toronto, Key Porter Books, 2003.
The Collected Stories of Moacyr Scliar. Albuquerque, New Mexico University Press, 1999

Bibliography in Spanish

Scliar: La mujer que escribió la BibliaEl Centauro en el Jardín (novela). Madrid , Editorial Swan, 1985; Barcelona, Círculo de Letras, 1986.
La Extraña Nación de Rafel Mendes (novela). Barcelona, Circe Ediciones, 1988.
El Ejercito de un Solo Hombre (novela). Buenos Aires, Contexto, 1987; Bogota, Tercer Mundo, 1988.
El ejército de un hombre solo. Tafalla (España, País Vasco), Txalaparta, 2004.
La Oreja de Van Gogh. La Habana, Casa de las Americas, 1989.
Las Plagas y Otros Relatos. Caracas, Editorial Memorias de Altagracia, 1996.
La Mujer que Escribió la Biblia.Mexico, Alfaguara, 2001.

Bibliography in French

Scliar: La Guerre de BonfimLe Centaure dans le Jardin (roman). Paris, Presses de la Renaissance, 1985.
L’Étrange Naissance de Rafael Mendes (roman). Paris, Presses de la Renaissance, 1986.
Le Carnaval des Animaux (contes). Paris, Presse de la Renaissance, 1987; Le Serpent à Plumes, 1998.
Max et les Chats (roman). Paris, Presses de la Renaissance, 1991.
Oswaldo Cruz le Magnifique (roman). Paris, belfond, 1994.
Sa Majesté des Indiens (roman). Paris, Albin Michel, 1998.
Max et les Félins (roman) Québec, Les Intouchables, 2003

Bibliography in German

Der Zentaur im Garten. Hamburg, Hoffman und Campe, 1985; Berlin (DDR), Verlages Volk und Welt, 1988; Hamburg, Rowolt, 1989.
Die Ein-Mann-Armee. Stuttgart, Edition Weitbrecht, 1987; Goldmann Verlag, 1989.
Das Seltsame Volk des Rafael Mendes. Stuttgat, Edition Weitbrecht, 1989.
(All books translated by Karin von Schweder-Schreiner)

Bibliography in Portuguese (Portugal)

O Centauro no Jardim (romance). Lisboa, Caminho Editorial, 1986.
A Orelha de Van Gogh (Contos). Lisboa, Pergaminho, 1994.
A Majestade do Xingu . Lisboa, Caminho Editorial, 2001

Bibliography in Dutch

De Centaur in de Tuin (Roman). Amsterdam, Werldsbibliothek, 1994.

Bibliography in Hebrew

Hakentaur ba Gan. Tel Aviv, Maariv Book Guild, 1988

Bibliography in Italian

L’Orecchio di Van Gogh. Roma, Voland, 2000
Il Centauro nel Giardino, Roma, Voland, 2002
La donna che schrisse la Bibbia. Roma, Voland, 2004

Bibliography in Czech

Leopardi Franze Kafky. Praha, Aurora, 2002

Bibliography in Russian

(The Centaur in the Garden, O Centauro no Jardim). Moscow, Amphora, 2002.

Participation in Anthologies (Foreign)

Opowidanic brazylijskie. Krakow, Widawinctwo Literackie, 1977.
Brazil – an Anthology of the Literary Review. New Jersey, Farleigh Dickinson University, 1978.
Unsere Freunde die Diktatoren. Munchen, Verlag Autoren Edition, 1980.
Humor and Satire. Varno, Bulgaria, Georgy Bakalov Publishing House, 1980.
Latin-America Forteller. Oslo, den Norske Booklusen, 1980.
Zitrongras. Köln, Kiepenheuser & Witsch, 1982.
Diser Tag Voller Vulkane. Bremen, Verlay Atelier, 1983.
Nouvelles bésiliennes. Montreal, Dérivés, 1983.
A posse da terra. Lisboa, Imprensa Nacional, 1985.
Contes et chroniques d’expression portugaise. Paris, Presses Pocket, 1986.
Ein neuer Name, ein Freundes fesicht. Sarmstad, Lunchterhand, 1987.
Cuentos judíos latinoamericanos. Buenos Aires, Raíces, 1989.
The Faber Book of Contemporary Latin American Short Stories. London, Faber and Faber, 1989.
Cuentos Brasileños Contemporáneos. La Habana, Editorial Arte y Literatura, 1991
Der Lauf der Sonne in den Gemässigten Zonen. Berlin, Edition Dia, 1991
A Hammock Beneath the Mangoes: Stories from Latin America.. New York, Dutton, ‘99’.
Fallen die Perlen von Mond. München, Piper, 1992
Nachdenken über Eine Reise Ohne Ende. Berlin, Babel Verlag, 1994
Lire en Portugais (Contes). Paris, Le Livre de Poche, 1994.

Brasilien Erzählt. Frankfurt am Main, Fischer, 1994
Nueva Antología del Cuento Brasileño Contemporaneo. Mexico, Unam, 1996
Brasil Littéraire. Paris, Liberté, 1996
Trettí Breh Reky. Praha, Dauphin, 1996
Contes de Noël Brésiliens. Paris, Albin Michel, 1997
The Picador Book of Latin American Stories (eds.: Carlos Fuentes & Julio Ortega). London, Picador, 1998.
Here I Am: Contemporary Jewish Stories from Around the World. Philadelphia and Jerusalem, The Jewish Publication Society, 1998.

Repercussão no exterior

“Scliar’s voice is a fresh onde, his artistic roots as firmly fixed in Jewish tradition and mythology as they are in Brazil’s literary history.”

(Alan Ryan: A Samba to the Music of Time: The Strange Nation of Rafael mendes, by Moacyr Scliar. The Washington Post, 21.2.98).

“Consider this an 800-word petition, urging upon readers the pleasures of a novel by a Brazilian master.” (Herbert Gold: Jonah was Claustrophobic: The Strange Nation of Rafael Mendes, by Moacyr Scliar. The New York Times Book Review, 21.2.88)

“Scliar’s originality makes a striking impression on the American reader.” (Duncan Robertson: Short Stories from a Brazilian Original: The Ballad of the False Messiah, by Moacyr Scliar. San Francisco Chronicle, 10.1.88).

“The Centaur in the Garden is a comedic novel, a regionalist novel, a bawdy erotic novel, a realistic novel of bourgeois alienation, a metaphoric novel, a fantastic phantasmagorical novel – a weaving of the common and the mythic, a mating of contrasts and opposites.” (Jack Dann: Straight from the Centaur’s Mouth: The Centaur in the Garden, by Moacyr Scliar. The Washington Post, 12.5.85)

“One of Brazil’s finest fabulists.” (Alberto Manguel, Ghostwriting for God: Moacyr Scliar’s Divine Fables. Village Voice, 16.12.1986

“A outra influência é a sua formação de médico de saúde pública, que lhe oportunizou uma vivência com a doença, o sofrimento e a morte, bem como uma conhecimento da realidade brasileira. O que é perceptível em obras ficcionais, como “A Majestade do Xingu” e não-ficcionais, como “A Paixão Transformada: História da Medicina na Literatura.”
Scliar dedica especial atenção à literatura infanto-juvenil, na qual tem várias obras publicadas, a maioria classificada como “Altamente Recomendável” pela Biblioteca Nacional. “Escrevendo para os jovens eu reencontro o jovem leitor que fui”, afirma.

Opiniões

“Moacyr Scliar é um realista mágico, um criador de atmosferas e um domador do fantástico.” Wilson Martins, O Estado de São Paulo, 1968

“As narrativas de Scliar produzem um estranhamento que continua reverberando, como se fosse uma revolução em surdina.” Manuel da Costa Pinto, “Literatura Brasileira Hoje”, SP, Publifolha, 2004

“A ficção de Moacyr Scliar renova profundamente a linhagem dos narradores urbanos na ficção brasileira”. Flavio Loureito Chaves, “Matéria e Invenção”, Porto Alegre, Ed.Ufrgs, 1994

“Um dos contistas mais destacados que a nossa literatura revelou nos últimos decênios.” Massaud Moisés, “A literatura brasileira através dos textos”. São Paulo, Cultrix, 1999, 19ª Ed.

Prêmio Jaboty 2009

“Moacyr Scliar mergulhou profundamente no drama do desencontro paradoxal do homem.” Fabio Lucas, “O caráter social da literatura brasileira”, Rio, Paz e Terra, 1970

“A ênfase maior dos textos de Moacyr Scliar situa-se na representação literária da vida humana, decifrando os laços que a unem tanto a uma determinada ordem social como a um tipo de trajetória que se estende da busca de ideais à frustração.” Regina Zilberman, “A literatura no Rio Grande do Sul”, Porto Alegre, Mercado Aberto, 1992, 3ª Ed.

“Não só a paródia e a ironia são os traços característicos de Scliar; com elas convive, de modo estranhamente exuberante, um toque poético capaz de se manifestar até mesmo diante dos momentos mais terríveis da miséria humana.” Carlos Vogt., “A solidão dos símbolos.” In: “Ficção em debate e outros temas”. Campinas, Unicamp, 1979

“Moacyr Scliar desafia as noções de coerência cultural e faz da alteridade um privilegiado ponto de observação para o entedimento da diversidade.” Nelson H.Vieira, “Jewish Voices in Brazilian Literature”. Gainsville, Florida, University Press of Florida, 2000.

“Amálgama do fato histórico e da quimérica invenção.” Robert DiAntonio, St.Louis Post Dispatch, 7 fev 1988

“A obra de Scliar é original, fascinante, poderosa, absorvente – merecedora de todos os bons qualificativos que se possa aplicar à ficção.” Alan Ryan, The Washington Post, 21 fev.1988

“Um mestre brasileiro”. Herbert Gold, The New York Times, 31 jan. 1988

“Fabulosa visão de ficcionista”. Alberto Manguel, The Village Voice, 16 dez 1986

“As cenas desfilam, saborosas, levadas com humor delicioso pela mão de um mestre.” J.Coli & A.Seel, Le Monde, 19 abr 1985

“Scliar desenvolve uma narrativa fértil, alegre e fantasiosa.” Pierre Rivas, La Quinzaine Littéraire, 16 out 1986

“O estilo é seco e preciso. Nenhuma descrição supérflua, nenhuma metáfora inútil.” Jacobo Machover, Libération, 5 mai 1990

“Quem percorreu as obras de ficção de Moacyr Scliar já se habituou à sua competência apurada e experiente, á imaginação fértil, assentada em ricos matizes da fala cotidiana.” Bella Jozef, O Globo, 14 mai 2005

“Moacyr Scliar é um realista mágico, um criador de atmosferas e um domador do fantástico.” Wilson Martins, O Estado de São Paulo, 1968

Reações após o falecimento

Adeus a um imortal Marcos Vilaça – presidente da ABL: ‘Foi um acadêmico múltiplo. Trabalhador incansável da cultura, produziu uma obra respeitável e de grande poder de comunicação com o leitor. Vai nos fazer muita falta.’

Cristovão Tezza – escritor: ‘Foi o grande narrador brasileiro dos anos 80. A leitura de O Centauro… foi um choque para mim, pela novidade temática, pelo poder da fantasia.Foi um clássico contador de histórias.’

Fabrício Carpinejar – escritor: ‘Ele estava sempre ao nosso lado, disposto a entender e a investigar a alma das coisas. Como nos quadros de Chagall, seus textos encontravam alegria e cor nas desventuras.’

Dilma Rousseff – presidente da República: ‘Ele representou nossa sociedade em diversos gêneros, sem perder de vista sua condição de filho de imigrantes e médico. É com tristeza que nos despedimos de um mestre.’

Luiz Schwarcz – escritor e editor: ‘Sua imaginação trabalhava sem parar. Moacyr Scliar tinha um olhar único, com ele criava um mundo fantástico no qual o humano estava sempre a serviço da literatura.’

Daniel Galera – escritor: ‘Ele sempre foi muito generoso comigo e com os autores da minha geração. Um cara de uma energia admirável. Sentirei falta dele, mas foi um grande autor e sua obra está aí’

[ fontes: http://www.scliar.org/moacyr/ e www.observatoriodaimprensa.com.br ]

Texto de:

Moacyr Scliar e a medicina na cultura judaica

CONHECIDO POR sua destacada produção literária, o médico gaúcho Moacyr Scliar, falecido domingo passado, dia 27, deixa também a sua contribuição na área médica.

Da mesma forma que na literatura ele aborda temas relacionados à sua origem, em sua tese de doutorado, aprovada na Escola Nacional de Saúde Pública, mostra a visão da saúde, da doença e da medicina dentro da cultura judaica.

Destaca Scliar que o conceito de raça não se aplica aos judeus. Suas características variam, como a cor da pele, exemplifica. Ela vai do branco europeu até o negro dos judeus “falashas” provenientes da Etiópia.

ALIMENTAÇÃO

Além de relacionar a influência da formação judaica em Sigmund Freud, entre vários outros médicos judeus, Scliar também analisa as várias interpretações para a proibição de consumir alguns alimentos.

Para a carne de porco, de aves de rapina e de répteis, como exemplo, a proibição não é pelo risco de enfermidades, mas pela impureza desses alimentos.

Ainda na área da alimentação, ele cita aforismos do Rabi Moisés bem Maimon (nascido na Espanha no ano de 1135), mais conhecido como Maimônides: a maioria das pessoas não morre por falta de alimentos, mas por comer demais.
Para uma vida mais sadia, o sábio Maimônides recomenda levantar cedo, fazer ginástica, leitura leve, conversação agradável e sesta após o banho.


[ O Dr. Júlio Abramczik escreve a coluna 'plantão médico' na Folha de São Paulo, onde foi publicado este texto ]

Texto de:

Elogio a Moacyr Scliar

SOUBE DA morte de Moacyr Scliar quando lia Moacyr Scliar. Haverá coisa mais irônica? Talvez não. Nem mais apropriada à leitura em causa: a editora portuguesa Cotovia resolveu publicar alguns livros fundamentais sobre o judaísmo. E um deles é “Judaísmo – Dispersão e Unidade”, uma interpretação pessoal de Scliar sobre a matéria, originalmente lançada no Brasil em 2001.

E, nessa interpretação, o que abunda é a ironia: não apenas no estilo de Scliar, que sempre tive como um dos melhores escritores brasileiros contemporâneos. Mas em atribuir ao humor um dos traços fundamentais da condição judaica.

O que não deixa de ser bizarro: os judeus, explica Scliar, estão longe de ser os únicos perseguidos na história. Como lembrava Churchill, a história da humanidade é a história dos seus recorrentes massacres.

Mas o que distingue os judeus não é a perseguição “per se”. É a continuidade milenar dela. Como explicar essa continuidade?

Não existem respostas definitivas. Mas a melhor tentativa é de George Steiner, para quem a humanidade nunca perdoou os judeus pela suprema ousadia de terem criado um deus vigilante e castigador. A humanidade nunca perdoou os judeus por eles terem oferecido uma consciência moral aos homens.

Moacyr Scliar ocupa-se dessa “consciência moral” e, recuando até os tempos bíblicos de Canaã, desenha com palavras a monotonia do deserto e o Deus único que dele só poderia emergir. É fácil ser politeísta quando a natureza em volta reflete riqueza e diversidade. Mas, no deserto, monotonia é monoteísmo.

O monoteísmo teve consequências. Scliar não se ocupa das consequências científicas dessa verdadeira revolução intelectual: a existência de um único Deus criador, capaz de dotar o mundo de leis que podem ser racionalmente descobertas, é a base do pensamento crítico.

Scliar prefere as consequências filosóficas e, uma vez mais, humorísticas. Falar com um Deus só é diferente de falar com vários. Uma questão de “intimidade”. Um Deus só, sobretudo um Deus que gosta de testar as suas criaturas com provas e provações, é mais do que um patriarca; é um companheiro de estrada, com quem vamos conversando, debatendo, por vezes provocando.

Um dos casos notáveis desse espírito encontra-se em Tevie, personagem de “Um Violinista no Telhado”, que vai polvilhando a sua submissão a Deus com críticas e remoques. Inevitável: quando a vida terrena não é fácil, o cliente tem toda razão para protestar com a chefia.

E a vida não foi fácil para os judeus da diáspora. O humor é o produto dessas privações. Mas, na era moderna, o humor não foi a única saída para a condição precária dos judeus dispersos.

Muitos judeus preferiram pegar em armas, seguir o camarada Karl Marx e construir o socialismo, sobretudo na Rússia de 1917. Iniciavam um processo que, sobretudo com Stálin, acabaria por destruir a eles também.

Outros, depois do vergonhoso caso Dreyfus, que mostrou à Europa o caráter inapelável do antissemitismo mesmo na mais cosmopolita das cidades modernas, entenderam que a solução para a precariedade residia num lar nacional judaico. A criação de Israel, já depois da Segunda Guerra e do Holocausto, foi a resposta a essas aspirações.

E os restantes optaram pela emigração. Para os Estados Unidos. Para a América Latina. Para o Brasil. Será possível pensar na vitalidade cultural e científica de Nova York ou de São Paulo sem a impressão digital judaica? Sei do que falo: a perseguição e a expulsão dos judeus da península Ibérica no século 16 foi uma contribuição determinante para o atraso econômico e mental de Portugal e Espanha.

O livro de Moacyr Scliar é uma introdução brilhante para a história do judaísmo: cruzando fontes bíblicas com documentos históricos, sem esquecer a tradição oral e o sr. Woody Allen, meu único lamento é não poder continuar uma conversa epistolar com Scliar, que começou anos atrás, quando publiquei na Folha um texto crítico sobre sua santidade Simone Weil.

Minha derradeira esperança é poder continuar a conversa lá em cima, quando minha hora chegar. Só espero que, nas portas do paraíso, Scliar possa dizer a mim o que ele esperava que Deus lhe dissesse: “Já não era sem tempo”.

[ publicado na Folha de São Paulo em 08|03|2011 ]

Moacyr Scliar

Moacyr Scliar, uma vida entre a literatura e a medicina

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Moacyr ScliarMédico que dedicou uma vida inteira à saúde pública, Moacyr Scliar é também um dos mais prolíficos escritores brasileiros. Entre romances, contos, ensaios, crônicas, ficção infanto-juvenil, além da produção relacionada à medicina, são 80 livros, muitos deles premiados com o Jabuti, o APCA, além do Casa de las Américas, prêmio concedido pela respeita instituição cubana. Gaúcho de Porto Alegre, sua família tem origem judaica, o que o liga a respeitável tradição do povo que deixou e deixa seu legado, história e memória através dos textos, a começar pelo Antigo Testamento. “Me fascina essa capacidade que têm estes autores anônimos de narrar uma historia com o poder máximo de síntese, uma economia verbal incrível. E, ao mesmo tempo, retratando os grandes dramas da condição humana”, afirma Scliar nesta entrevista exclusiva ao SaraivaContéudo. Além disso, é um profundo admirador de escritores como Philip Roth, Saul Bellow, Bernard Malamud, Isaac Babel, e aqui no Brasil de uma escritora como Clarice Lispector.

Na entrevista a seguir, além de abordar esta tradição, Moacyr Scliar comenta a relação constante e frequente que teve desde sempre com a leitura e a escrita, de como se deu a opção pela medicina e a literatura, como as duas dialogam e se ajudam mutuamente e como é fazer parte da Academia Brasileira de Letras (ABL).

Assista à entrevista exclusiva com Moacyr Scliar para o SaraivaConteúdo


 

Quais as primeiras lembranças da leitura. O senhor foi alfabetizado em casa pela mãe, certo? Como era esse universo do livro na infância? 

Moacyr Scliar. Realmente, cresci no meio de livros e obcecado pela palavra escrita. Isso exatamente pelo fato de ter tido uma mãe que, apesar de migrante, era uma mulher extremamente culta, que cursou a escola, era professa e uma grande leitora. E deu para o filho dela o nome de um personagem de José de Alencar. Quer dizer, já cresci com esse recado de que era para ler e, se possível, escrever. Então desde muito cedo estava lendo, naturalmente os autores que a minha geração lia. Monteiro Lobato é um exemplo, Erico Verissimo, Mario Quintana, autores lá do Rio Grande do Sul – sou de Porto Alegre. E porque eu lia, comecei a escrever. Foram coisas que tiveram início quase simultâneo. Apenas alfabetizado, eu já estava escrevendo histórias. 

E o que o senhor escrevia nesta época, do que recorda? 

Scliar. Basicamente, histórias de crianças, baseadas nas minhas experiências, aventuras ocorridas no colégio, a ida para a praia, que era para nós, de Porto Alegre, uma aventura, histórias às vezes imaginárias. Em termos de gênero, seriam crônicas e contos. 

E a opção pela medicina, como se deu? 

Scliar. Essa surgiu posteriormente e de uma maneira até certo ponto curiosa. Fui para a medicina porque eu tinha medo de doença. Não é que eu fosse hipocondríaco, isso eu não era, até gostava de ficar doente, porque daí não precisava ir ao colégio. Mas quando meus pais ou meus irmãos ficavam doentes eu entrava em pânico. E essa sensação desconfortável e angustiante me levou a ler sobre medicina, a conversar com médicos. Nasceu daí um fascínio pela doença e pelo corpo humano, que acabou me levando à medicina. A par disso, havia a inquietude de um jovem estudante e militante, que também queria ter uma profissão caracterizada pela generosidade, pela doação pessoal. Isso fez com que, tendo terminado medicina, eu optasse pela saúde pública, a minha especialidade na qual trabalhei muitos anos. 

O senhor também foi professor universitário? 

Scliar. Fui professor universitário de saúde pública. Comecei trabalhando, primeiro como clínico, e trabalhava em um hospital de tuberculose. Como a tuberculose é um problema de saúde pública, daí a entrar na saúde pública propriamente dita foi um passo. Trabalhei toda a minha vida em saúde pública, em vários lugares: Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul, Ministério da Saúde, Organização Panamericana de Saúde. E nos últimos anos me tornei professor da Faculdade Federal de Ciências Médicas, ensinava saúde pública, uma coisa que fazia com muito prazer. E nesta área, foi minha última atividade sistemática, continuo ligado à ela, participo de grupos de trabalho, mas agora a maior parte da minha atividade se direciona para a literatura. 

Como é esse diálogo, o que se leva, transparece da medicina para a escrita e vice-versa? 

Scliar. Muita coisa. É uma interface fértil, porque são duas atividades que têm em comum o interesse pela condição humana. É claro que, do ponto de vista da medicina, é um interesse mais pragmático, de resolver problemas. No caso da literatura, existe um componente estético, de criação literária, mas, realmente, a experiência médica dá muito para a atividade literária. E esta desenvolve uma sensibilidade que a medicina tende a perder devido ao seu aspecto tecnológico. Acho que esta situação foi muito bem resolvida por um médico escritor famoso, que foi Anton Tchecov, que dizia o seguinte: “A medicina é minha esposa, a literatura, minha amante. Mas eu dou um jeito de satisfazer as duas”. E eu acrescentaria: “E as duas satisfazem também a pessoa em dose dupla”. 

O senhor é de família judaica, isso transparece bastante em suas obras. E a tradição judaica, o senhor foi criado lendo estes escritores, que datam desde os profetas, digamos assim? 

Scliar. A tradição judaica, que é milenar, tem uma característica importante: não é, do ponto de vista cultural e artístico, uma tradição que se caracterize por obras de arte – ao contrário, a Bíblia até proibia a reprodução de figuras humanas –, grandes edificações do ponto de vista arquitetônico, monumentos, nada disso. Esse grupo humano legou para a humanidade basicamente um texto, que é o Antigo Testamento. E partir daí nasce uma tradição de veneração pela palavra escrita, que condicionou os rumos do judaísmo e explica porque tantos membros da comunidade judaica escreveram e escrevem. Inclusive, o número de vencedores do Prêmio Nobel é muito grande. Esse é aspecto, mas a outro: no Brasil, as pessoas de origem judaica frequentemente eram imigrantes, meus pais vieram da Rússia. Então eles tinham essa experiência da imigração, uma experiência importante, porque o imigrante é uma pessoa que olha a realidade brasileira de outra maneira. Ele vê coisas que as pessoas que nasceram e se criaram aqui muitas vezes não percebem. Esse olhar original para um ficcionista é muito interessante. Ver o Brasil através da experiência de quem vem de fora, de quem está descobrindo um novo mundo é uma fonte de inspiração. 

O senhor tem dezenas de livros publicados, em torno de 80, entre romances, contos, ensaios, novelas, novelas juvenis. Como é na hora escrever estes diferentes tipos de textos? 

Scliar. Olha, não é uma decisão difícil, entre ficção e não-ficção. Alguns temas, como o livro sobre a história da melancolia [Saturno nos trópicos (Companhia das Letras, 2003)], claro, tem que ser um ensaio. Quando escrevo sobre temas médicos ou de saúde pública, também tem que ser ensaios. Para o jornal, são crônicas. Quando escrevo para o público juvenil, uso os princípios da ficção juvenil. E quando se trata de conto ou romance, às vezes é possível que um conto se transforme em romance, mas em geral o conto já nasce pronto na minha cabeça. Eles são muito curtos e, em geral, escrevo de uma vez. Quando sento, escrevo o conto. Nunca volto, não começo um conto para continuar no dia seguinte. Quando eu escrevo, escrevo. Romance não, claro, é um projeto de longo prazo, e é bom que seja assim, pois ele é mais complexo, do ponto de vista literário, do que o conto. O que não implica em nenhum juízo de valor, o conto é um notável gênero. Diria que é o mais literário dos gêneros ficcionais.

Por quê? 

Scliar. Porque no conto, em primeiro lugar, se manifesta uma tendência arcaica do ser humano de contar histórias. Faz parte da nossa maneira de ser, da nossa humanidade, contar e ouvir histórias. Estas histórias que são contadas ou ouvidas inevitavelmente são curtas. O conto é um gênero curto e como tal, diferente do romance, não admite partes que podem ser mais fracas. No romance pode haver coisas que até certo ponto poderia se cortar. No conto, não. Nele, tudo é essencial. E o conto também, finalmente – este é o grande argumento, na minha experiência ao menos –, ou ele nasce bom ou nasce ruim. E quando ele nasce ruim, não há outra maneira senão acionar a tecla de deletar e acabar com ele. 

O senhor mencionou Tchecov, ele parece ser uma influência importante. Que outras coisas o influenciaram e marcaram quando o senhor leu? 

Scliar. Em matéria de influência judaica, vários textos, vários autores, a começar pela própria Bíblia. Sou um leitor da Bíblia, mas não um leitor religioso e, sim, um leitor literário, me fascina essa capacidade que têm estes autores anônimos de narrar uma historia com o poder máximo de síntese, uma economia verbal incrível. E, ao mesmo tempo, retratando os grandes dramas da condição humana. E vários escritores, desde aqueles que escreveram em língua iídiche, hoje um idioma praticamente instinto, mas literariamente belíssimo, até escritores como Philip Roth, Saul Bellow, Bernard Malamud, Isaac Babel, e aqui no Brasil uma escritora como Clarice Lispector. Porque é uma coisa curiosa, embora Clarice não aborde a temática judaica, o judaísmo está nas entrelinhas dos textos dela. Estes escritores foram importantes na minha formação. 

E o senhor faz parte da Academia Brasileira de Letras (ABL). Como é estar numa casa que carrega o peso de tantos escritores que por ali passaram?

Scliar. Como não moro no Rio de Janeiro, só vou às reuniões e naquelas que eu posso, evidentemente. Mas ao entrar na Academia, passo pela estátua do Machado de Assis. Está ele sentado, com aquele olhar severo, como quem diz: “Trata de escrever bem, porque estou cuidando”. A Academia é, em primeiro lugar, uma instituição muito antiga no Brasil, um país novo, tem mais de 110 anos, passaram grandes nomes por lá. Agora, claro, tem aqueles aspectos que a gente sabe, aquelas tradições da Academia, moldadas muito na Academia Francesa, o fardão e essas coisas todas que fazem parte de um sistema ritualístico, que tem pouco a ver com literatura. E também tem as vinculações extraliterárias da Academia, que as pessoas criticam muito, às vezes com razão. Mas eu diria que a Academia retrata o Brasil, naquilo que ele tem de grandioso, mas também naquilo que tem de menos grandioso.

[ publicado pela SaraivaConteúdo ]

Texto de:

O legado do doutor escritor

MOACYR SCLIAR (1937-2011)

Moacyr Scliar, médico e escritor de larga presença na mídia, faleceu à 1h da madrugada de domingo (27/2). As edições dominicais dos jornais em que ele escrevia, Zero Hora e Folha de S.Paulo, estavam nas bancas desde o dia anterior. Isso não impediu que as edições eletrônicas dos dois e diversos portais de outros periódicos se ocupassem do legado do escritor, que, aos 73 anos, deixou 74 livros, entre contos, crônicas, romances e ensaios.

Vários de seus livros estão publicados em diversos países e o escritor, detentor de muitos prêmios literários, entre os quais o Prêmio Internacional Casa de las Americas (1989), era membro da Academia Brasileira de Letras desde 2003. Sua eleição para a Casa de Machado de Assis, onde foi saudado pelo também gaúcho Carlos Nejar, pode ter sido também uma prestação de contas da ABL ao público leitor e à sociedade brasileira, em especial ao Rio Grande do Sul, uma vez que recusara por três vezes a entrada a Mario Quintana.

Desde janeiro, quando, após uma cirurgia para extirpação de pólipos no intestino, ele sofrera um acidente vascular, seu estado de saúde vinha sendo motivo de preocupação. Foram quase dois meses de muita apreensão.

Ana de Hollanda, ministra da Cultura, e a presidente Dilma Rousseff emitiram notas lamentando a morte do escritor. Foi um domingo trágico para nossas letras. Na mesma manhã partiu, aos 81 anos, o crítico e professor universitário paraense Benedito Nunes, que recebera da ABL no ano passado o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto da obra. Era professor emérito da Universidade Federal do Pará e tinha sido agraciado em 1998 com o Prêmio Multicultural Estadão, importantíssimo por resultar de ampla consulta aos leitores de todo o Brasil.

 

Obra caudalosa


Moacyr Scliar era escritor de meu terrum, o Brasil meridional, e com ele convivi quando eu morava no Rio Grande do Sul, na década de 1970. Depois, naturalmente, passei a vê-lo com menos frequência.

Soube de sua importância desde meus verdes anos. Quem me apresentou a ele na Rua da Praia, como é conhecida a Rua dos Andradas, em Porto Alegre, foi Josué Guimarães, de quem eu era mais próximo. Foi em 1975. Ambos estavam na calçada, em frente à Livraria Globo, autografando os respectivos romances com os quais arrebataram, empatados em primeiro lugar, o primeiro Prêmio Érico Veríssimo. Josué Guimarães vencera com Os tambores silenciosos. E Moacyr Scliar, com O ciclo das águas.

O romance O centauro no jardim fez com que ele entrasse para a lista dos autores das cem melhores obras de temática judaica em todo o mundo, ao lado de Franz Kafka, Isaac Babel, Saul Bellow, Isaac Bashev Singer, Elias Canetti e Elie Wiesel, entre outros. Cito esses para que se possa avaliar o valor dessa relação.

Moacyr Scliar deixou como principal legado de sua obra a fidelidade à temática do imigrante judeu, à qual deu expressão literária de cores muito peculiares.

Entre tantos destaques que sua caudalosa obra faz por merecer, cito também os romances O exército de um homem só, A estranha nação de Rafael Mendes, O centauro no jardim, A majestade do Xingu, os contos de O carnaval dos animais e de A balada do falso messias, e as ficções curtíssimas reunidas em Histórias que os jornais não contam, que ele, baseando-se em fatos verídicos, publicou originalmente na Folha de S.Paulo.

 

Presença afável


Num certo dia de abril de 1977, ele, a professora Regina Zilberman e eu viajamos a Brasília, sem que pudéssemos confidenciar o que íamos lá fazer: cada um receberia o Prêmio Brasília de Literatura, concedido pelo MEC e a Fundação Cultural do Distrito Federal. Para todos os efeitos, íamos a um congresso de escritores. Ele vencera como romancista, Regina como ensaísta e, como contista, este que lhes escreve aqui, tantos anos depois, lamentando muito a morte do companheiro de ofício, mestre de nossas letras, ético, gentil, solidário e justo.

Sua presença afável vai fazer muita falta, mas seus livros estão aí como seu principal legado. A obra literária é a verdadeira imortalidade do escritor.


Deonísio da Silva é escritor, doutor em Letras pela Universidade de São Paulo, professor, pró-reitor de Cultura e Extensão da Universidade Estácio de Sá, do Rio de Janeiro, autor de A Placenta e o Caixão, Avante, Soldados: Para Trás e Contos Reunidos (Editora LeYa)

[ publicado no Observatório da Imprensa ]

Texto de:

Biblioteca Moacyr Scliar

Alguns dos livros de Moacyr Scliar

“A Guerra no Bom Fim” (1972)

“O Exército de um Homem Só” (1973)

“Os Voluntários” (1979)

 

“O Centauro no Jardim” (1980; Prêmio APCA)

“A Estranha Nação de Rafael Mendes” (1983)

“Cenas da Vida Minúscula” (1991)

“Sonhos Tropicais” (1992; Prêmio Jabuti na categoria romance)

“Dicionário do Viajante Insólito” (1995)

“A Majestade do Xingu” (1997)

“Os Contistas” (1997)

“Histórias para (Quase) Todos os Gostos” (1998)

“A Mulher que Escreveu a Bíblia” (1999; Prêmio Jabuti)

“Os Leopardos de Kafka” (2000)

“Pai e Filho, Filho e Pai” (2002)

“Na Noite do Ventre, o Diamante” (2005)

“Manual da Paixão Solitária” (2008; Prêmio Jabuti de Livro do Ano de Ficção)


[ publicado na 'Folha Ilustrada' em 28|02|2011 ]

Texto de:

Moacyr Scliar – Tradição judaica aparece desde o seu primeiro romance


Com a morte de Scliar, desaparece um dos maiores contadores de história da literatura brasileira.

A tradição judaica (e seus traumas) se faz presente desde o primeiro romance, “A Guerra do Bom Fim” (1972), em que as brincadeiras de crianças são perturbadas por notícias da Segunda Guerra.

A história se fará presente também nos livros em que, como médico, Scliar parte de personagens reais como o sanitarista Oswaldo Cruz (“Sonhos Tropicais”).

Comentando a relação entre medicina e literatura, que o inscreve numa linhagem de médicos-escritores, Scliar costumava dizer que a medicina proporciona a experiência de conviver com pessoas que, fragilizadas pela doença, se despem das máscaras sociais, revelando angústias.

E boa parte de seus romances consiste em inocular em cenas cotidianas um acontecimento fantástico, que desestrutura a normalidade.

Herdeiro confesso de Kafka, de quem emulou as parábolas sobre o absurdo vazadas em linguagem aparentemente neutra e também o humor judaico, Scliar fez do escritor a personagem de “Os Leopardos de Kafka” e parodiou relatos bíblicos.
Em seu último romance, “Eu Vos Abraço, Milhões”, narra trajetória de militante da época da Revolução de 30.
Essa envolvente ficção histórica é uma feliz metáfora da obra de Scliar: um escritor que descobriu na arte de narrar uma chave para compreender as fraquezas e complexidades do homem concreto, escondidas sob o véu de costumes e ideologias.

[ Manuel da Costa Pinto é colunista da Folha de S. Paulo, onde este texto foi  publicado ]

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Moacyr Scliar. Solidário, fiel. Este era o homem que se foi.

Moacyr Sliar e eu estivemos juntos duas vezes em tempos recentes. A primeira foi na Flipiri, Festa Literária de Pirenopólis, Goiás, que no ano passado, ao homenagear a atriz Eliane Lage, teve como tema Cinema e Literatura. A fala de Moacyr foi a usual, firme, serena, cheia de informações. Homem de cultura, contador de causos, sabia fazer ilações e prender a plateia. Dificil era falar depois dele, tinha que ter muito carisma, convencer, seduzir.

O outro encontro foi mais recente, foi aqui em São Paulo, no palácio do Governo, quando ele, eu e algumas outras pessoas receberam a Comenda do Ipiranga, a mais alta do Estado de São Paulo. Sentou-se ao meu lado, impecável do seu terno escuro, gravata. Poucas vezes vi Scliar sem gravata. Mesmo no calor de Goiás ele desembarcou de terno e gravata e sentia-se á vontade. Lembro-me que ao abraçar Marcia, minha mulher, disse a ela: “Este homem e eu somamos 50 anos de amizade”. Meio século foi rompido na madrugada deste domingo. Anos atrás, descobrimos que Judith, mulher dele, e Marcia eram muito parecidas bonitas, ambas têm um sorriso gostoso. Alem da literatura, isto nos unia um pouco mais.

Naquela noite no Palácio do Governo em São Paulo, terminada a cerimônia, fomos para o coquetel. Mesa farta, bebida generosa. O garçom passou com uísque Black Label e pró seco. Perguntei a ele o que tomava, ele respondeu: Nada! Estranhei, um escritor que nâo bebe! Achei que fosse por religião, saúde, até Judith me dizer que não, era porque não gostava. No Rio Grande e não gostando de vinho? 

Algumas vezes estivemos juntos em Passo Fundo na Jornada de Literatura, da qual ele foi um dos fundadores, ao lado de Josué Guimarães e outros. Josué e ele já partiram. Vamos diminuindo, perdas para a literatura, vamos ficando cada vez mais sós.

Adeus a um imortal

Adeus, Moacyr

No dia 20 de janeiro deste ano, estive em Porto Alegre para o lançamento oficial da próxima Jornada que comemora 30 anos. Abri um espaço, corri ao Hospital de Clínicas, estive duas horas com Judith. Scliar já na UTI, sedado, sedação da qual não retornou. Uma imagem me veio: quando em 1996, descobri um aneurisma cerebral e fui internado no Einstein para uma cirurgia, Marcia recebeu uma mensagem dele, como amigo e médico: se me disser sim, daqui a duas horas estarei em São Paulo para acompanhar tudo. Solidário, fiel. Este era o homem que se foi, deixando um vácuo. Certa vez, numa das viagens, falando da Academia Brasileira de Letras, das eleições e campanhas, perguntei:

- Algum já foi eleito por unanimidade? Acho que nunca ninguém foi.

Ele virou-se, orgulhoso:

- Eu fui.

Neste momento releio O Centauro no Jardim, para mim um de seus mais belos livros, digno de Kafka, Borges, Cortazar. A chuva que arrasa São Paulo me impediu de chegar ao aeroporto e já são quatro da tarde.

[ Reproduzido do Estado de S.Paulo, 28/02/2011]