Bernie Sanders – por um futuro de justiça social e paz

Discurso de Bernie Sanders,  senador e ex-candidato à presidência dos Estados Unidos 

Conferência Anual do J Street – Washington | 27|02|2017

 

J Street

Agradeço lhes pelo convite para falar hoje a vocês. É um prazer estar aqui com o J Street, que tem sido uma voz forte para as ideias mais progressistas de política externa. Estou feliz em estar na companhia de amigos do Oriente Médio e de todo o mundo, que sei que irão continuar a luta pela paz mundial, pela justiça e por um meio-ambiente saudável.

Permitam-me começar notando que nas últimas semanas, desde a vitória de Donald Trump na corrida presidencial, houve um significativo surto de antissemitismo aqui no nosso país. Estou muito alarmado pela violação de cemitérios judeus, com centros comunitários judeus ameaçados em todo o país, sendo que a sede da Liga Anti-Difamação recebeu uma ameaça a bomba na semana passada.

Quando vemos ataques racistas, violentos e verbais, contra minorias – sejam afro americanos, judeus ou muçulmanos, imigrantes neste país ou da comunidade LGBT, tais atentados precisam ser condenados pelos níveis mais altos do nosso governo.

Foi extraordinário que na declaração da Casa Branca no Dia em Memória do Holocausto, o governo Trump não tenha mencionado o assassinato de 6 milhões de judeus.

Espero muito que o presidente e seu assessor político Sr. Bannon entendam o que o mundo espera: é imperativo que suas vozes sejam altas e claras na condenação ao antissemitismo e aos ataques violentos contra imigrantes deste país, incluindo o assassinato de dois jovens indianos e todas formas de intolerância aqui e pelo mundo. Esta nação lutou muito contra racismo, sexismo, xenofobia e homofobia. Não retrocederemos. Iremos avante e lutaremos  contra a discriminação em todas as suas formas.

< assista na íntegra >

Bernie Sanders na Conferência Anual do J Street - 27|02|2017

 

Devo dizer que também achei muito problemático que, numa recente conferência com a imprensa, quando o presidente Trump teve a oportunidade de condenar a intolerância e o antissemitismo que surgiram após sua eleição, mas ele optou por responder gabando – incorretamente, aliás – falando do tamanho de sua vitória no Colégio Eleitoral. Nossa sociedade ainda está rasgada pelas tensões da campanha. Os americanos precisam de um presidente que procure manter-nos unidos. Em vez de se vangloriar por sua vitória política.

 

IRÃ

Permitam aproveitar esta oportunidade para agradecer ao J Street pela voz forte que tem proporcionado no apoio às lideranças americanas no Oriente Médio e nos esforços rumo à paz entre israelenses e palestinos. Entendo que, dado o clima político nesta Capital, isto não tem sido fácil. Também os aplaudo por fazerem parte de uma ampla coalizão de grupos que, com sucesso, lutou pelo acordo nuclear histórico entre os Estados Unidos, seus parceiros e o Irã.

Esse acordo demonstrou a autêntica liderança americana, o real poder americano não se mostra em nossa capacidade de explodir coisas, mas na nossa capacidade de unir as partes, de forjar consensos internacionais sobre problemas comuns, e então mobilizar esses consensos na solução desses problemas.

Por muitos anos, líderes pelo mundo, especialmente o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, acionaram o alarme sobre a possibilidade de uma arma nuclear iraniana. O que o governo Obama foi capaz de fazer, com o apoio de grupos como o J Street e outros, foi obter um acordo que congelou e desmantelou grande parte do programa nuclear, o submeteu ao mais intensivo regime de inspeções da História e removeu a perspectiva de uma arma nuclear iraniana da lista de ameaças globais.

 

IRAQUE

Como membro do Senado dos Estados Unidos, escuto um bocado de retórica. Ouço de muitos colegas sobre quão “duros” os Estados Unidos devem ser, pois, no final das contas, é a força militar o que importa.

Digo a esses colegas: – É fácil fazer discursos na segurança do piso do Senado ou do parlamento. É um pouco mais difícil experienciar a guerra e viver em meio à sua devastação. Lembro-me, vividamente de toda a retórica que veio do governo Bush, dos meus colegas republicanos e mesmo de alguns democratas, sobre ser ir à guerra no Iraque a coisa certa a fazer. Bem, não foi! Ao contrário tornou-se uma das grandes tragédias da História Moderna do mundo.

Hoje é amplamente reconhecido que a Guerra no Iraque, à qual me opus, foi um erro na política externa, de imensa magnitude. A guerra no Iraque levou à morte cerca de 4.400 soldados americanos e dezenas de milhares de feridos físicos e emocionais, para não mencionar a dor infligida a viúvas, crianças e parentes.  A guerra no Iraque levou a vida, em números conservadores, de mais que 100.000 civis iraquianos e ao ferimento e deslocamento de muitos outros. Gerou uma cascata de instabilidade na região que ainda afeta hoje a Síria e outros países, e que durará ainda muitos anos. Aliás, a Guerra no Iraque custa trilhões de dólares – dinheiro que deveria ser gasto em saúde pública, educação, infraestrutura e proteção do meio-ambiente.

A Guerra no Iraque, como muitos outros conflitos armados, teve efeitos indesejados. E acabou nos tornando menos seguros.

Em contraste, o acordo nuclear com o Irã ajudou na segurança dos Estados Unidos e seus parceiros. Sim! Ele ajudou na segurança de Israel, como muitos especialistas israelenses em segurança reconheceram – e o fez com uma pequena fração do custo em sangue e dinheiro do que foi gasto no Iraque.

Este é o poder da diplomacia. Esta é a autêntica liderança.

Alguns dos adversários a esse acordo nuclear atacaram seus apoiadores, incluindo o J Street, porque fariam parte da assim chamada “câmara de eco”.  A verdade é que Washington teve , por muitos anos, uma potente e forte câmara de eco favorável à guerra. Já estava na hora de termos uma câmara de eco para a paz. Agradeço a vocês do J Street.

 

ISRAEL E PALESTINA

Agora, como muitos de vocês sabem, tenho uma conexão ao Estado de Israel há muitos anos. Em 1963, morei num kibutz perto de Haifa. Foi ali que eu vi e experienciei diretamente muitos dos valores progressistas sobre os quais foi fundado o Estado de Israel. Penso ser muito importante para todos – e particularmente para os progressistas – conhecer a enorme conquista que foi estabelecer um Lar democrático para o povo judeu, após séculos de dispersão e perseguição, principalmente após o horror do Holocausto.

Mas, como vocês todos sabem, houve um outro lado para a História da criação de Israel, um lado mais doloroso. Assim como no nosso próprio país, a fundação de Israel envolveu o desterro de centenas de milhares de pessoas que já viviam ali, o povo palestino. Mais de 700.000 pessoas foram feitas refugiados.

Reconhecer este doloroso fato histórico não “deslegitima” Israel, assim como reconhecer a “Trilha das Lágrimas” não deslegitima os Estados Unidos da América.

Mas não estou hoje aqui simplesmente para rever a História, ou para dizer que uma narrativa histórica é certa e a outra é errada. Minha pergunta, aqui e agora, é: ‘Tudo bem, o que fazer agora?´

Para onde israelenses e palestinos irão daqui? Qual deve ser a política dos Estados Unidos para terminar esse conflito, acabar com essa ocupação de 50 anos e permitir um futuro melhor, mais seguro e próspero para judeus e árabes, tanto israelenses quanto palestinos?

Este conflito de décadas já tirou muito de muita gente. Ninguém ganha quando Israel gasta uma enorme parte do seu orçamento com as forças armadas. Ninguém ganha quando Gaza é arrasada e milhares são mortos, feridos, perdem suas casas.

Ninguém ganha quando crianças são treinadas para serem terroristas suicidas. Ninguém ganha quando, ano após ano, década após década, a conversa é sobre guerra e ódio em vez de paz e desenvolvimento. Pense no incrível potencial desperdiçado, enquanto israelenses e palestinos não se encontram para efetivamente falar sobre os desafios econômicos e para o meio-ambiente da região.

Nossa visão, que nunca podemos perder de vista, é criar um Oriente Médio onde pessoas se unem em paz e democracia para criar uma região na qual todos tenham uma vida decente; Entendo que, dadas as realidades atuais, esta visão possa parecer distante e mesmo extravagante. Mas é uma visão da qual não podemos desistir.

Então o que, como progressistas – americanos, israelenses e globais – devemos exigir dos nossos governos?

 

VALORES PROGRESSISTAS

Falemos um pouco sobre valores.

É dito frequentemente que o relacionamento entre EUA e Israel é baseado em “valores compartilhados”. Concordo, mas também devemos perguntar: ‘Qual o significado disto? De que valores estamos falando’?

Como progressistas, eis os valores que compartilhamos: Acreditamos na democracia. Acreditamos na igualdade. Acreditamos no pluralismo. Opomo-nos firmemente à xenofobia. Respeitamos e protegeremos os direitos das minorias.

Estes são valores compartilhados por progressistas deste país e pelo mundo. São valores baseados sobre a noção muito simples de que compartilhamos uma Humanidade comum. Sejamos israelenses, palestinos ou americanos, sejamos judeus, cristãos, muçulmanos ou de outra religião, todos nós queremos que nossos filhos cresçam com saúde, boa educação, empregos decentes, bebam água limpa e respirem ar puro. Que vivam em paz.

Isto é ser humano. E nossa tarefa é fazer tudo o que possamos para nos apor  a todas as forças políticas, seja de que lado estiverem, que tentam nos separar.


DOIS ESTADOS – ISRAEL E PALESTINA

No início deste mês, numa coletiva de imprensa na Casa Branca, com o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, o presidente Trump foi perguntado se apoiava uma solução de Dois Estados. Sua resposta foi, “eu olho para dois Estados e para um Estado, e gosto da que ambas as partes gostam”. Como se alguém lhe tivesse perguntado se ele preferia Coca ou Pepsi.

Devemos ser claros – A solução de Dois Estados, que envolve a criação de um Estado Palestino nos territórios ocupados em 1967, tem sido uma política bipartidária [defendida pelos governos republicanos e democratas] dos Estados Unidos, por muitos anos.

Também é apoiada por um amplo consenso internacional, como reafirmado em dezembro pela Resolução do Conselho de Segurança da ONU n º 2334.

Entendendo a maneira casual com que o Presidente Trump pareceu abandonar aquela política como profundamente preocupante. Inclusive pela forma tipicamente descuidada com que ele vem tratando a política externa americana.

O presidente disse que apoia um acordo de paz, mas isto não significa muito. A verdadeira questão é: paz em que termos e sob qual acordo? Será que “paz” significa que os palestinos serão forçados a viver sob perpétuo domínio israelenses, numa série de comunidades desconectadas na Cisjordânia e em Gaza? Isto não é tolerável. Isto não é paz.

Se aos palestinos dos territórios ocupados for negada a autodeterminação num Estado que seja seu, receberão eles cidadania total e direitos iguais num Estado único, que potencialmente significará o fim de um Estado de maioria judaica?  Estas são questões muito sérias, com significativas implicações para uma parceria regional mais ampla para os americanos e seus objetivos.

Amigos, os Estados Unidos e o Estado de Israel têm ligações fortes, que remontam ao momento da fundação de Israel. Está fora de questão que devemos ser o amigo e aliado mais forte de Israel nos dias que virão.  Ao mesmo tempo, devemos reconhecer que a continuada ocupação de Israel sobre os territórios palestinos e as restrições diária sobre as liberdades civis e políticas do povo palestino contrariam valores fundamentais americanos.

Como o ex-Secretário de Estado John Kerry disse, corretamente, no seu discurso em dezembro, “amigos precisam dizer entre si as verdades duras”. E a dura verdade é que a ocupação continuada – e o crescimento dos assentamentos israelenses que sustentam a ocupação – minam a possibilidade da paz. Eles contribuem para o sofrimento e a violência.

Conforme o Conselho de Segurança da ONU reafirmou em 23|12, os assentamentos constituem também uma violação flagrante da lei internacional. Aplaudo a decisão do governo Obama de se abster de vetar a Resolução nº 2334 do Conselho de Segurança. Aqueles de nós que de fato apoiam Israel têm que dizer a verdade sobre as políticas que estão prejudicando as chances de se chegar a uma solução pacífica.

Reconheço que o conflito israelense-palestino é uma das questões mais carregadas de emoções na política americana Envolvendo reivindicações históricas legítimas, identidades e a segurança de dois povos na mesma região.

Então, permitam-me ser muito claro: opor-se às políticas de um governo direitista em Israel não torna alguém anti-israelense nem antissemita. Podemos nos opor às políticas do presidente Trump sem sermos antiamericanos. Podemos nos opor às políticas de Netanyahu sem sermos anti-israelenses.  Podemos ser contra as políticas do extremismo islâmico, sem sermos anti-muçulmanos.

 

A PAZ AGORA

Como falei durante minha campanha presidencial, a paz significa segurança não só para todos os israelenses, mas também para cada palestino. Significa o apoio à autodeterminação, direitos civis e bem-estar econômico para ambos os povos.

Estas ideias são baseadas nos mesmos valores que nos impelem a condenar a intolerância antissemita, a intolerância anti-muçulmana e a tornar melhor a nossa própria sociedade. São estas as ideias que nos devem guiar. Os valores da inclusão, segurança, democracia e justiça devem informar não apenas o engajamento americano com Israel e Palestina, mas com toda a região e o mundo.

Os Estados Unidos continuarão em seu compromisso inquebrantável com a segurança do Estado de Israel, mas também devemos ter claro que a solução pacífica deste conflito é a melhor forma de assegurar a segurança a longo prazo, para ambos os povos. E para tornar a América mais segura.

Aos meus amigos israelenses que estão hoje conosco: nós compartilhamos muitos desafios. Nos nossos países assistimos a ascensão de uma política de intolerância. Intolerância e ressentimentos. Devemos enfrentar juntos estes desafios. À medida em que vocês lutam para tornar melhor a sua sociedade, mais justa e mais igualitária, eu lhes digo:

‘A luta de vocês é a nossa luta’.

 

J STREET [jstreet.org] é o lar político dos americanos pró-Israel e pró-paz, que desejam que Israel seja o lar nacional democrático para o povo judeu. Defende os valores judeus e democráticos, que conduzem a uma solução de Dois Estados para o conflito israelense-palestino

[ publicado no Haaretz em 28|02|2017 e traduzido pelo PAZ AGORA|BR ]


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