Jorge Drexler em Israel|Palestina: “Ocupação prejudica os dois lados”

Entrevista do cantor judeu uruguaio ao diário espanhol La Vanguardia

O cantor uruguaio Jorge Drexler, que toca amanhã em Tel Aviv, dialogou com a agência EFE, de coração aberto, sobre as contrariedades que lhe gera Israel, onde viveu em sua adolescência e ainda “se sente em casa”, mas do qual sente que sua ocupação da Palestina “deteriora sua essência”.

Drexler caminha por Tel Aviv como se fosse Madrid ou Montevidéu. Não estranha suas ruas, identifica-se com seus habitantes e até fala hebraico com notável fluidez.

“Falo pior do que as pessoas pensam, porque tenho a pronúncia quase intacta”, reconhece e, quase sem se dar conta, começa a despejar a complexa mistura de identidades e sentimentos que lhe gera o reencontro com este país, seis anos depois de sua última visita e quarenta depois daquele ano onde, com apenas 14, descobriu o que era viver longe de sua família e escreveu sua primeira canção.

Jorge Drexler com crianças palestinas

Jorge Drexler com crianças palestinas

Após ter passado o dia na aldeia palestina de Susiya e na cidade de Hebrón, também na Cisjordânia ocupada e com a particularidade de ser sagrada para as três religiões monoteístas, o artista, que cresceu no seio de uma família judia, se confessa “removido” e diz não ser objetivo frente a este lugar, que vê como uma “encruzilhada de mundos”.

Os longos segundos que toma antes de responder a cada pergunta não parecem apenas destinados a encontrar as palavras precisas, mas denotam um processo de auto-exploração e introspecção constante, onde sua identidade, suas emoções e suas convicções se batem em duelo, num exercício quase terapêutico.

“Não há nada mais importante para tentar estabelecer um território mínimo de compreensão do mundo e compreensão ética do que se passa, para começar uma autocrítica pessoal. E vir a Israel me remove tanto porque eu me sinto responsável pelas coisas que se passam aqui, porque creio no Estado de Israel, creio na necessidade de sua existência e então também me sinto responsável pelo que acontece do outro lado da “Linha Verde”, assinala, com referência aos territórios palestinos ocupados por Israel desde 1967.

Distanciar-se de sua própria identidade para analisar o conflito lhe parece tão difícil que até se posiciona no rol dos pais e estabelece uma analogia com Abraham, patriarca das três religiões e cuja tumba visitara em Hebrón, quando diz “se Abraham soubesse o que armou entre seus filhos e como eles tem que se dividir até para rezar em sua tumba, porque não conseguem nem sequer coexistir…”.

 

Ainda que esta visita não tenha sido sua primeira ao território palestino ocupado, Drexler menciona que sempre “fica muito impressionado ao estar ali”.

Diferente da pobreza na América Latina, aponta, a miséria que observa na Palestina não é unicamente material, mas “muito mais grave” e passa pela ausência de liberdade.

Posicionando-se agora não desde sua identidade judia ou israelense, mas da uruguaia, surgem paralelismos com o Uruguai sob ditadura, do qual emigrou quando em 1979 foi viver em Israel, e explica: Que os seres humanos tenham liberdade de movimento e que tenham as liberdades básicas cobertas, a liberdade para a educação, a liberdade de ter um teto, a pertencer a um local e que se respeite sua propriedade privada, estas são coisas que na ditadura do Uruguai não se respeitava. Não havia liberdade de agrupação, de movimento e, claro, não havia liberdade de opinião”.

Sua visão da ocupação, palavra que não pronuncia com leviandade, mas com um peso que denota dor e talvez até uma sensação de vergonha, é que “é um processo que, ainda de maneiras não comparáveis, deteriora ambos os lados. Um exército de ocupação vai deteriorando sua própria essência, sem falar do que sucede ao ocupado”.

“É impossível fazê-lo sem que se produza uma deterioração ética e moral no ocupante”, agrega.

Sobre o final da conversa, após se ter submergido nas profundidades de sua mescla de identidades para analisar um lugar que lhe é tão comovente, Drexler se refere ao que chama de uma “descarga positiva” através da qual reflexiona sobre seu próprio caminho e marca: “É muito importante entender o importante das raízes, saber do onde se vem, conhecer o mundo do qual vem, mas ao mesmo tempo saber que somos todos de nenhum lado do todo. E um pouco de todos os lados”.

Por último, consultado sobre possíveis novas canções sobre esta experiência e temática, explica por que lhe é muito difícil escrever sobre esse conflito:  “Alguém que se dedica a escrever canções, tem que ter muito cuidado quando passa um limite a partir do qual deixa de servir a uma causa e passa a se servir dela.

Esta instrumentalização de qualquer tragédia humana também tem que ser cuidada  e observada em si. É muito difícil para mim escrever sobre o que vi hoje. Me encantaria, mas é muito difícil. Irei tentar, porque além de tudo, tenho que atravessar este limite de sentir que não estou me beneficiando de uma tragédia humana”.

[ Entrevista de Jorge Drexler à Agência EFE – publicado no La Vanguardia em 12|12|2018 e traduzido pelo PAZ AGORA|BR – pazagora.org ]

Un Moro Judío Cantante

 

Clique AQUI para + Jorge Dexler

 

Comentários estão fechados.