Ecos do PAZ AGORA no RIO – 1982 | A Carta dos Oficiais – 1978

PELA PAZ VELHA DE GUERRA

Sou da geração de judeus sionistas cujo lema era
” No Oriente Médio só a Paz é Revolucionária “

[ por PAULO BLANK* | facebook 20/04/2025 ]
* psicanalista, escritor, membro dos Amigos Brasileiros do PAZ AGORA

Era o ano de 1982 e eu já estava de saco cheio de ver tanto manifesto rolando entre judeus protestando contra Israel. O manifesto na mão de um colega numa reunião profissional foi a palha que faltava para quebrar as costas do camelo, como se diz em hebraico. Sempre houve gente que jogava pra plateia: ‘olhem para mim, sou um bom judeu’. Jogo que no extremo patológico pode levar ao Selbsthass, o ódio a si mesmo como no caso do Altman aqui no Brasil de hoje. Não precisei virar psicanalista para conhecer o termo alemão. Malka, minha mãe, tinha me ensinado o seu significado desde garoto. Foi Theodor Lessing quem o criou em 1930.

Naquela tarde me levantei decidido do divã do meu psicanalista. Vou agitar – falei enquanto me despedia do Hélio Pellegrino ao fim de mais uma sessão da minha análise interminável. Tinha resolvido convocar uma reunião lá em casa. O Tempo era da guerra do Líbano. A ideia era apoiar os pacifistas israelenses encarnados na figura de Eli Gueva, comandante de um tanque que se recusou a continuar avançando em direção ao caos. Mais tarde Hélio diria que eu tinha sido o corneteiro. Fazer análise com poeta sempre tem suas vantagens.

Liguei para três amigas e pedi para espalhar que haveria um encontro na minha casa. Caia um toró no bairro do Jardim Botânico, a filha recém-nascida no quarto, minha casa ficou cheia de gente desconhecida. Um senhor apontou para mim – fui shifsbrider do teu pai – “irmão de navio” em Ydish. Fiquei emocionado. Era o Roiter Yossel – vermelho por ter sido ruivo e comunista – e que no Yom Kipur cantava no coral do Grande Templo. Vai entender os judeus.

Mais tarde convidamos o veterano jornalista Isaac Akcelrud (1914-1994) para aderir. A duras penas redigimos um manifesto com a humilde intenção de ter a chave para a paz no oriente médio com cinco princípios em meia página sem firulas.

Desde o início a ideia da manifestação tinha sido apoiar o movimento PAZ AGORA em Israel. Prestar solidariedade transatlântica aos pacifistas de lá já que, por aqui não faltavam partidários da guerra dispostos a morrer com o sangue alheio. Essa tem sido minha posição até os dias que nos ocorrem. Depois veio a correria para levantar fundos e publicar o documento no Jornal do Brasil convocando a comunidade judaica para uma reunião pública. Imaginem a reação institucional. Eu, por exemplo, estou esperando até hoje o dinheiro da OLP baixar na minha conta apesar do Bibi já ter recebido o dele do Qatar.

Por fim a manifestação aconteceu no auditório do Colégio Bennet, metodista, que nos acolheu. Lembro do Alfredo Sirkis do PV pedindo a palavra, de um senhor sobrevivente da segunda guerra debatendo com ele sobre o perigo para nós judeus de um ato como aquele. Enfim. A pluralidade típica entre judeus deu vida à noite. Não foram necessários discursos insuflados.

De repente me chamam da diretoria do colégio por causa de um telefonema anônimo. O “Comando Delta” de extrema direita ameaçava jogar uma bomba caso não parássemos. Não fazia sentido, mas, com toda a razão, o diretor já tinha chamado a PM. Fui até o palco e avisei o que tinha acontecido. Mais tarde, dentro da viatura a caminho de casa, Isaac Akcelrud, que usava um cavanhaque que lhe dava um ar de Leon Trotsky, experiente em prisões nos tempos do Partido Comunista e do jornal A Voz Operaria, comenta bem-humorado com o policial

“É a primeira vez na vida que vou pra casa de camburão pra me proteger”. Diga-se, e não de passagem, que ele chegou a tentar viver em Israel anos antes.

A CARTA DOS OFICIAIS

Documento Fundacional do Movimento
PAZ AGORA (SHALOM ACHSHAV) | março de 1978

( tradução: Amigos Brasileiros do PAZ AGORA– www.pazagora.org )

” Ao Primeiro-Ministro Menachem Begin

Caro Senhor,

Cidadãos que servem como soldados, e também oficiais das forças de reserva, estamos enviando-lhe esta carta.

As palavras que seguem não foram escritas com o coração leve. Entretanto, neste momento em que novos horizontes de paz e cooperação estão, pela primeira vez, sendo propostos para o Estado de Israel, sentimo-nos obrigados a instá-lo a evitar a tomada de quaisquer medidas que possam causar problemas intermináveis ao nosso povo e ao nosso país.

Escrevemos isto com profunda preocupação.

Seria difícil para nós aceitar um governo que preferisse a existência do Estado de Israel com as fronteiras do “Grande Israel” à sua existência em paz e boa vizinhança.

Um governo que prefira a existência de assentamentos além da Linha Verde à eliminação deste histórico conflito e à criação de relações normais em nossa região, evocaria questões sobre a justiça do rumo que estamos tomando.

Uma política de governo que acarrete a continuidade do domínio sobre milhões de árabes feriria o caráter judeu-democrático do Estado. E tornaria difícil nos identificarmos com os rumos do Estado de Israel.

Estamos cientes das necessidades de segurança do Estado de Israel, e das dificuldades que o caminho da paz deverá enfrentar.

Mas, sabemos que uma verdadeira segurança somente será alcançada com a chegada da paz.

A força do Exército da Defesa de Israel está na identificação de seus cidadãos-soldados com os rumos do seu país.

Nós o chamamos a optar pelo caminho da paz, fortalecendo assim a nossa confiança na justiça do nosso caminho”.

Israel, março de 1978

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