[ por Paulo Blank (*) | 28/09/2026 | do Facebook ]
para Maria Clara Bingemer
Do retorno
Kol Nidrei – todas as promessas e sua abolição – foi uma prática criada na Alemanha do século XIII pelo rabino Meir de Rotenberg. Certo preceito talmúdico adverte que: “o jejum de purificação do qual estão ausentes malfeitores não é válido como jejum”. Preceito, que, não só inspirou o mestre medieval a permitir a presença dos malfeitores, quanto o incentivou a procurá-los pelas ruas. Sem eles a comunidade corria o risco de se considerar pura. Esforço que faz pensar numa tentativa de questionar a pretensa unidade e retidão moral do grupo, pela incorporação dos excluídos como representação da parte negada de cada um.
O que contrasta com a experiência contemporânea do cancelamento dos que pensam diferente do considerado certo, logo, puro.
O que era unidade espiritual se transformou em pureza do pensamento único. A nostalgia do absoluto permanece viva apesar de tudo que sabemos sobre a natureza da mente humana.
Com o preceito talmúdico, a expiação pretendida no Yom Kipur deixa de ser um ato místico e abstrato desde seu momento de abertura. Transforma-se numa empreitada dentro daquilo que o filósofo Emanuel Levinas chamou de “religião para adultos” que, segundo ele, viveria sob “permanente risco de ateísmo” ao colocar, até mesmo o perdão do Yom Kipur, no rol das responsabilidades humanas.
No caminho
Na medida em que põe em movimento afetos paralisados, o perdão liberta aquele que perdoa da mágoa que o prende a quem o ofendeu, modificando o passado.
Sem este esforço, as emoções e suas lembranças continuariam congeladas num eterno presente. Enquanto isso, aquele que ao saber que foi perdoado tem a oportunidade de transformar suas culpas em responsabilidade.
Quanto às promessas, a função da prece seria liberar a comunidade de um tempo já determinado de antemão pelas obrigações assumidas. Considerando a realidade em que viviam os judeus europeus, as conversões forçadas ao cristianismo ficariam anuladas de antemão. Ao menos no segredo de cada um.
No estudo sobre o tratado talmúdico referente ao Yom Kipur, Emanuel Lévinas cita o seguinte trecho: “Se um homem comete uma falta com relação a outro homem e o apazigua, Deus perdoará; mas se a falta se refere a Deus, quem poderá interceder por ele a não ser o arrependimento e as boas ações?”. O autor grifa este final de frase, que, na tradição são ações divididas em: Retorno, Preces e Caridade. No hebraico a palavra Tzdaká, caridade sob forma de ajuda monetária, remete a Tzedek, justiça. A caridade, portanto, não seria mais do que um ato de justiça?
O texto talmúdico é claro. Sem garantias de um perdão antecipado, o homem se percebe solitário em sua responsabilidade frente ao outro. Responsabilidade que não se restringe somente aos judeus, na medida em que ela se estende também ao estrangeiro – o guer – que reside “junto à tua porta“. Amos Oz, o saudoso escritor e fundador do PAZ AGORA, afirma no livro “Os Judeus e As Palavras”, o seu orgulho de pertencer a um povo que nos legou a seguinte mensagem encontrada num fragmento de barro datado século XI A.C., anterior, portanto, à Grécia e à Roma: “… respeitarás Deus-Adonai, lutarás a luta da viúva e do escravo, do órfão e do estrangeiro, do frágil”.
O respeito a Deus-Adonai passaria, portanto, pela luta pelos mais frágeis entre os membros da sociedade humana? Seria este o sentido contemporâneo do ato eleitoral ao considerá-lo uma Tzdaká-Justiça? Voto pensando nos interesses dos mesmos terceiros mencionados na mensagem milenar encontrada num achado arqueológico.
O descompromisso
“Podem-se perdoar muitos alemães, mas alguns alemães são difíceis de perdoar. É difícil perdoar Heidegger…de liberá-lo de sua responsabilidade”.
No Encontro dos Intelectuais Judeus Franceses dedicado ao tema do perdão, Lévinas relembra Heidegger, com quem estudou na Alemanha em 1932, e que, segundo ele, “seria o maior filosofo desde Platão.”
Categórico, Lévinas afirma que é impossível perdoar o grande filósofo alemão por sua adesão ao nazismo. Afinal, “o maior filósofo desde Platão” sabia muito bem o que estava fazendo. A questão de fundo que Lévinas repete ao longo de sua obra, é a crítica ao “perdão garantido”, que o mundo ocidental teria incorporado a partir da tradição ocidental cristã.
Seria, então, possível perdoar os líderes que permitem a fome, as guerras e a desigualdade, que levam à morte silenciada milhões de pessoas pelo planeta? Seria possível perdoar os que manipulam corações e mentes em nome de ideologias e religiões, para enriquecerem no poder? E quanto a perdoar quem, diante da morte de centenas de milhares de pessoas, responde com um “e eu com isso?” que nos remete a nossa dimensão “caímica”? Caim, que, em seu desinteresse heideggueriano respondeu “sou acaso guardião do meu irmão?”, assim que Deus lhe perguntou se tinha visto Abel?
Aliás, será que tais pessoas têm algum interesse real pelo perdão?
Kafka e o rabino
Ao invés de excluir o saber ocidental, como faz a ortodoxia judaica, o rabino igualmente ortodoxo, Shimon Guershom Rozemberg, nascido em Israel, preferiu mergulhar na filosofia, na literatura e na psicanálise para criar um diálogo entre a tradição e aqueles saberes considerados “impuros”. Rav Shagar, acróstico das iniciais do seu nome, encontrou na obra “Diante da Lei”, de Franz Kafka, a explicação que buscava para o tema do julgamento que, iniciado no Rosh Hashaná, o ano novo, se estenderia até o final do Yom Kipur, quando, finalmente, cada um seria inscrito no Livro da Vida ou no Livro da Morte. No Rosh Hashaná, segundo o Talmud, toda a criação passaria por uma espécie de censo diante de Deus, “como um rebanho” a ser contado e, uma vez julgado por suas ações, inscrito no livro apropriado.
Através de Kafka, Rav Shagar pode compreender melhor a expressão hebraica “temi a partir da minha alegria, me alegrei a partir do meu temor”, atribuída ao Dia da Expiação. Ela o intrigava por atribuir a um dia atravessado pela aura do julgamento, tanto características festivas e alegres, quanto sentimento de temor.
Em “Diante da Lei”, ele identificou na persistência do “homem do campo” em “entrar na Lei”, a razão do aparente paradoxo. Para o rabino, a insistência do personagem em ser julgado, equivaleria a ser percebido em sua singularidade num mundo em que ele tende ao desparecimento.
A ausência do portão da lei, que o “homem do campo” tanto se esforça para encontrar, teria como correlato o desdém crescente pela existência individual que, deixou de fazer diferença no mundo regido pelo neoliberalismo: “ninguém nos julga e, de qualquer forma, ninguém nos contabiliza, vive-se ao acaso, e no mundo do acaso, não existe nem crime e nem transgressão que por ela sejamos julgados. Vive-se no à toa, ao acaso, entre as impurezas do acaso”. Por isso, apesar da sua procura desesperada pelo portão de entrada na “Lei” ( a Torá?), o homem do campo não consegue enxergá-la.
Segundo Shagar, trata-se do mesmo portão mencionado no final das orações do Yom Kipur: “Abra-nos um portão na hora do fechamento do portão, eis que o dia termina”, eis a súplica de cada um dos presentes no longo dia que vai terminando. Esforço final para que não se fique de fora, atirado ao mundo do acaso, um ser à toa, sem importância. Ao relento num mundo impessoal em que deixamos de fazer diferença.
Tanto a Lei quanto o julgamento, no judaísmo, configurariam o sentido da vida vivida em uma comunidade, que ora em conjunto enquanto busca o reconhecimento do criador – “pois somos tua esposa e tu és o nosso amado” proclama a comunidade.
Franz Rosenzweig, autor judeu alemão, na década de vinte do século passado, em vésperas de se converter ao protestantismo, entra numa sinagoga de judeus poloneses em Berlim no dia do Kipur, onde percebe que ali, através da intensidade do dia, já se vivia a experiencia do tempo messiânico. O que torna desnecessária a conversão. Mais tarde, ao escrever o celebre “A estrela da redenção”, afirma que “as pessoas não cantam juntas a oração por conta de determinado conteúdo, elas buscam um conteúdo comum para que possam cantar juntas”.
Leonard Cohen: Who by Fire?
“Quem pelo fogo? Quem pela água? Quem à luz do dia? Quem na noite? Quem por ordens superiores? Quem por delito comum? Quem na alegria do mês de maio? Quem por lenta decadência? E quem anunciarei que chama?
Quem viverá? Quem morrerá? Quem a seu tempo, e quem antes da hora? Quem por água? Quem pelo fogo? Quem pela fome? Quem por sede? Quem descansará? Quem errará? Quem terá paz? Quem sofrerá? Quem pela espada? Quem por fera? Quem por barbitúricos? Quem por gume cego? quem por avalanche? quem por pólvora? Quem por sua ambição? E a quem anunciarei que chama?”
Judeu e membro da casta dos Sacerdotes (Cohanim), Cohen, o bardo canadense, se inspirou na tradição judaica em muitas poesias e canções: “Minhas canções são sempre judaicas. Não poderiam ser outra coisa a não ser judias”. A canção “Quem pelo Fogo…” poderia facilmente ser considerada uma versão contemporânea da prece Unetanê Tokef, que marca profundamente o clima do Yom Kipur.
Proclamemos, pois, a santidade do dia, é assim que este antiquíssimo cântico convoca a todos os participantes a repetirem em conjunto a longa lista de possíveis fins da vida humana. Dia temível, no qual Elohim, sentado em sua cadeira inscreve o nome de cada um no livro do seu destino. Nada mais adequado que um livro, em se tratando de judeus. Na segunda parte atravessei acima o texto original datado do século VI da era comum com o texto de Cohen.
Narciso dobra o pescoço
O dia do Yom Kipur poderia ser entendido como uma experiência destinada a trabalhar o narcisismo de cada um? O branco dos trajes lembrando as vestes do morto, o jejum prolongado desconectando cada um de trocas com o mundo, ensaiando várias vezes ao dia a confissão do moribundo, na intenção de fazer tomar consciência da altivez e do orgulho materializados no seu “pescoço duro”.
Ao invés do Narciso deitado a beira do espelho d’água, embevecido sem perceber que se trata do próprio rosto, no Yom Kipur cada um vai ao chão depois de declarar que jamais diria “diante do Senhor Deus dos nossos antepassados que somos Justos, seres perfeitos e sem transgressões”. Assim, cada um dobra o pescoço, curva o corpo, se ajoelha e, finalmente, se prostra frente ao Outro de quem nada se sabe além da certeza da sua radical transcendência inominável.
O eu que se confunde com o próprio corpo. A altivez do olhar. A forma sustentada na postura do tronco, se desconstrói passo a passo. Pó e cinzas como disse Abraão. É o Eu cheio de si que se dobra. E aproveita para descansar de si mesmo.
Rio, 28/10/2026
(*) PAULO BLANK é psicanalista, escritor e membro dos Amigos Brasileiros do PAZ AGORA.
