Israel – de Ben Gurion a Netanyahu

 

Logo após a Segunda Guerra Mundial, participei de numerosas manifestações contra o Mandato Britânico que governava a então Palestina.

Em todos esses protestos gritávamos os slogans: «Livre imigração!»  «Estado Hebreu!»

Não consigo recordar uma única manifestação em que a gente reclamava um «Estado judeu».

Naquela época, a expressão «Estado judeu» nos soava paradoxal. Tudo o que pertencia aos judeus que vivíamos em Israel era «hebreu» e todo relacionado aos judeus da Diáspora era «judeu». Tínhamos uma agricultura hebraica, uma resistência ao Mandato hebraica. Tel Aviv foi a primeira cidade hebraica. Por outro lado, existia uma religião judia, uma Diáspora judia e uma imigração judia.

Pode-se folhear qualquer jornal diário publicado em Israel antes do estabelecimento do Estado. A palavra «judeu», como referente a qualquer criação que tinha lugar nestas terras era, virtualmente, inexistente.

A linguagem cotidiana havia adotado esta decisão, muito antes que um grupo de escritores e artistas a levassem ao extremo. Esse grupo, que ironicamente o escritor Abraham Slonski chamava de «cananeus», proclamava que não existia a menor conexão entre nós e os judeus. Segundo eles, éramos uma nação velha-nova que renascia após um intervalo de dois mil anos na História da Diáspora judaica.

Se é assim, por que ao se proclamar o Estado em 1948 se falou de um «Estado judeu»?

Para entendê-lo, devemos retornar àqueles dias. Aos olhos dos britânicos, dois povos ocupavam a Palestina: árabes e judeus. E a Resolução [da Partilha] das Nações Unidas estabelecia, em 1947, a criação de dois Estados, um árabe e um judeu. A Declaração da Independência de Israel se baseou diretamente nesta Resolução, pelo que anunciaria a criação de «um Estado judeu, o Estado de Israel».

Naqueles dias, recordemos, a religião viva sua degradação mais absoluta, seu maior ocaso. Quando criança, vivi por um tempo no pequeno povoado de Nahalal. Seus fundadores habitaram, por anos, em choças miseráveis com teto de palha. Quando puderam edificar casas de material mais sólido, começaram em primeiro lugar pelos estábulos e, apenas depois, construíram para eles habitações melhores, ainda que modestas.

Depois, construíram uma pequena instalação comunitária para ordenha de leite. Então, fizeram com orgulho um Beit Am (Casa do Povo), um centro social comunitário. Não longe desse centro, uma modesta choça servia como sinagoga, onde só os anciãos do lugar se reuniam para rezar.

O sentimento generalizado era que a religião judia em Israel estava agonizando, e que morreria quando os anciãos e as anciãs que ainda a praticavam falecessem. O sionismo, assim se pensava, havia tomado o lugar da religião.

David Ben Gurion, o grande líder do movimento que fundou o Estado, pensava exatamente assim. De outra forma, teria sido inconcebível que aceitasse que os estudantes das yeshivot (seminários rabínicos) fossem dispensados do serviço militar, que ele considerava sagrado. Pois eles eram tão poucos, apenas algumas centenas. Por outro lado, isso lhe permitia resolver alguns problemas de sua coalizão e das relações com certos judeus dos Estados Unidos.

O Estado de Israel - do "pequeno grande Homem" (Ben Gurion) ao "grande pequeno homem" (Netanyahu)

O Estado de Israel
do “Pequeno Grande Homem” (Ben Gurion) ao “grande pequeno homem” (Netanyahu)

Foi pela mesma razão que «o velho» permitiu o estabelecimento do sistema estatal de escolas religiosas para quem optasse por elas, enquanto destruía aquelas dependentes dos movimentos de esquerda sionista, já que as percebia como ameaça à soberania do Estado. Como pensava que a religião em Israel estava morrendo, os colégios religiosos não representavam nenhuma ameaça.

O movimento religioso no kibutz [Bnei Akiva] era, então, algo agradável, uma espécie de filho adotivo do grande movimento kibutziano. E os ultraortodoxos, fora dos limites do Estado – que não reconheciam, já que o Messias ainda não tinha chegado –  eram vistos basicamente com uma mescla de curiosidade e diversão. Na realidade, só inspiravam lástima e eram vistos como uma amostra viva do judaísmo diaspórico.

Este panorama começou a mudar no final dos anos ’50, devido a vários processos independentes, mas que tiveram um efeito cumulativo muito impactante.

Em primeiro lugar, os aspectos horríveis da Shoá começaram gradualmente a se revelar e, em paralelo, a comunidade em Israel sofreu grandes remorsos, Apesar de tudo, vivíamos aqui em relativa felicidade, enquanto milhões de judeus eram exterminados.  Pouco depois, o julgamento de Eichmann revolucionou as consciências dos israelenses.

Outro acontecimento foi a  massiva imigração de judeus orientais. Os que chegavam eram majoritariamente religiosos ou moderados tradicionalistas. Mas, os rabinos que chegaram de país do Oriente Médio e do norte da África foram rapidamente capturados pela ideologia dos rabinos fanáticos ashkenazis da seita «lituana», não hassídica.

Até adotaram as mesma vestimentas e, com o tempo, tornaram-se mais fanáticos do que seus mestres.

As altas taxas de natalidade nas comunidades religiosas e ultraortodoxas começaram a alterar gradualmente o mapa demográfico. Em lugar de se reduzir, como Ben Gurion estava convencido, o sistema escolar religioso e o ultraortodoxo avançaram a passos gigantes.

Mas o ponto de ruptura foi a Guerra dos Seis Días, em 1967. A assombrosa vitória do Tsaha’l (Forças de Defesa de Israel) foi transformada em uma «vitória religiosa».

«O Monte do Templo e o Muro das Lamentações estão em nossas mãos», tornou-se o grito de batalha dos religiosos fanáticos, no lugar de uma celebração patriótica de uma História recuperada.

Os religiosos em Israel, até aquele momento humildes e diminuídos, tornaram-se subitamente agressivos e exigentes. O Partido Nacional Religioso, até então um movimento essencialmente moderado, até mesmo progressista, mudou sua visão completamente e caiu em um nacionalismo radical e extremista. Foi a sua juventude, educada nas escolas religiosas, que constituiu a grande maioria dos colonos nos assentamentos da Judéia e Samária [Cisjordânia ocupada em 1967].

Mas hoje estamos presenciando um novo fenômeno. No passado, uma espécie de fenda – que beirava o ódio – separava a juventude nacional religiosa dos ultraortodoxos, que não reconheciam o Estado de Israel. Mas, agora, a juventude nacionalista vai se tornando cada vez mais ultraortodoxa, enquanto os ultraortodoxos estão ficando nacionalistas cada vez mais fanáticos.

As recentes atrocidades perpetradas por ultraortodoxos de ambas as facções, obra das juventudes dos assentamentos e de alienados que «retornaram à religião», demonstram que estão imbuídos de um fanatismo e de uma capacidade de passar à ação muito superior às massas laicas de Israel que vivem na «bolha» de Tel Aviv.

A História tem demasiados exemplos de grupos periféricos que tomaram o poder quando o centro se tornou débil e impotente. Tais extremistas estão preparados para lutar, ao mesmo tempo em que o centro se ocupa em criar cultura e refinamentos.

A Prússia, remota e tosca região na Alemanha, se fez com o poder e abriu caminho para os futuros conflitos mundiais e para o Genocídio. O remoto Piemonte tomou o controle da Itália. Há dois milênios, os judeus da Galiléia, no geral extremistas recém-convertidos, tomaram o poder em Jerusalém, neutralizaram outros judeus que se lhes opuseram, e se imolaram numa luta sem nenhuma possibilidade de êxito contra os romanos. Os manchús tomaram o poder na China, os japoneses o controle da Ásia Oriental durante a Segunda Guerra Mundial. Sobram exemplos.
Existe hoje um imenso perigo em Israel. Os colonos dos assentamentos não são lobos solitários, nem jovens marginais. Constituem uma ameaça extrema e imediata a tudo o que se construiu neste país nas últimas gerações.

O Estado hebreu está desaparecendo. No seu lugar,  o está substituindo um Estado judeu estranho. E não é precisamente com o judaísmo que se forjou durante os dois mil anos de exílio, aquele judaísmo de uma comunidade dispersa que odiava a violência e a sofria.

O que estamos vendo é uma mutação terrível. Um judaísmo novo, arrogante, fanático, violento e agora assassino, sem piedade. Um judaísmo que pode enterrar o Estado, do mesmo modo como o fizeram os fanáticos com o Segundo Templo.

Ainda é tempo de salvar o Estado Hebreu.

Mas, para isto, o Israel verdadeiro – o secular, o nacional – deve reagir.

É necessário ter a coragem para deter esta situação, antes que soframos outro desastre.

 

[ artigo publicado em 14|12|2015 no Mensuario Identidad (Uruguay) e traduzido pelo PAZ AGORA|BR ]
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