Somente a crença e a força da grande maioria dos dois povos, trarão a revolução da paz.
A verdadeira literatura de paz não é escrita a partir de uma distância acadêmica ou através das memórias de diplomatas, mas sim a partir de feridas abertas e profundas.
Ela chega ao mundo raramente.
“The Future Is Peace” (O Futuro É A Paz)
de Maoz Inon e Aziz Abu Sarah – é um desses raros livros.
O irmão de Abu Sarah morreu devido a ferimentos sofridos sob custódia israelense, e os pais de Inon foram mortos
por militantes liderados pelo Hamas em 7 de outubro de 2023.
| por Avraham (Avrum) Burg ** | substack 07/05/2026 |
tradução e edição de Moisés Storch para o PAZ AGORA|BR | www.pazagora.org
Propriedades destruídas no Kibutz Netiv HaAsara, perto da fronteira com Gaza em 07/10/23.
Os pais de Maoz Inon foram mortos junto com a maioria das pessoas do kibutz.
Em Tel Aviv, nesta primavera de 2026, milhares de ativistas pela paz – israelenses e palestinos – se reuniram, pessoas que sabem que é chegada a hora. Todos os dias do ano, eles e nós vivemos em uma espécie de isolamento solitário. Neste encontro, o terceiro de muitos outros que virão, somos a maioria. A verdadeira visão deste lugar, e o destino de nossas duas nações miseráveis, repousam inteiramente sobre os nossos ombros. Somente nossa crença e a força dentro de nós trarão a revolução da paz. Ela não virá de cima.
Uma parte significativa dessa força vem do destino e da fé de duas pessoas: Maoz Inon e Aziz Abu Sarah, pacificadores determinados e co-CEOs da InterAct International, uma organização dedicada a construir a paz no Oriente Médio. Eles percorreram toda a gama da experiência humana, do desespero à esperança, e do luto à ação. Agora colocaram tudo no papel.
O livro deles é leitura essencial para quem ainda acredita na possibilidade do bem.
“The Future Is Peace” (O Futuro É a Paz), de Maoz e Aziz, não só revela fatos que a população do outro lado desconhecia. Ele muda a forma como organizamos esses fatos em nossa consciência. Esse tipo de reformulação é quase sempre a coisa mais difícil de se fazer.
O argumento central do livro aparece em suas primeiras páginas, e parecerá para muitos leitores deliberadamente provocativo: os pacificadores não são os ingênuos. A ingenuidade pertence à crença de que a violência resolverá o que a própria violência produz.
Cem anos de conflito, dezenas de guerras, milhares de toneladas de explosivos, dezenas de milhares de mortos e milhões feridos, e cada vez a mesma promessa: dê-nos apenas mais uma rodada, mais uma escalada, mais uma morte seletiva, e a vitória estará quase ao alcance.
Abu Sarah e Inon se recusam a aceitar isso como uma definição de realismo. O verdadeiro realismo, argumentam, não aceita a violência como um fato da natureza do qual não há escapatória. Reconhece a violência como uma política fracassada – e a teimosa insistência nela não como sinal de maturidade, mas como uma falha de imaginação. “O que é verdadeiramente ingênuo”, escrevem, “é imaginar que o medo e o trauma multigeracional levarão à segurança”. Esta frase não é um chamado ao idealismo. É uma observação empírica.
Mas este argumento, por mais poderoso que seja, não é o movimento mais profundo do livro. Isso acontece na estrutura que o livro constrói e então, pela própria existência, se quebra. Quase toda conversa sobre o conflito israelo-palestino começa assumindo uma divisão entre coletivos. Judeus contra palestinos, israelenses contra árabes. Identidades que ditam posições quase automaticamente.
Maoz e Aziz se recusam a entrar nesse jogo de tipificação letal. E essa recusa é justamente o que os torna tão comoventes, inspiradores e capazes de emocionar multidões. Seu livro oferece uma divisão totalmente diferente: não entre povos, mas entre princípios. Não de identidade contra identidade, mas de visão de mundo contra visão de mundo. Amantes da paz versus amantes da guerra.
De um lado, seres humanos, judeus e palestinos igualmente, que acreditam que outro modo de vida é possível. Do outro lado, seres humanos, igualmente judeus e palestinos, definidos por seu ódio, extremismo religioso e pela convicção de que só vale a força. A linha divisória não passa entre os povos, mas através deles. E assim, a natureza do próprio conflito muda: não se trata de uma guerra entre israelenses e palestinos, mas de uma luta sobre o que fazer com a energia do luto. Deixá-la continuar destruindo tudo, ou aproveitá-la para um reparo enorme e necessário.
Inon e Abu Sarah chegam a essa escolha de lugares radicalmente diferentes, e o livro não suaviza essa diferença, mas a coloca no centro.
Inon cresceu nas comunidades do ‘Envelope de Gaza’, entre o Kibutz Nir Am e Netiv HaAsara, em um lugar onde a fronteira não é uma ideia geográfica, mas uma presença diária. Na manhã de 7 de outubro de 2023, ele acordou com uma mensagem no WhatsApp do seu pai: “Bom dia. Sentado na sala segura. Não sei o que está acontecendo”. Houve uma ligação, quase rotineira, e depois silêncio. Seus pais foram mortos em sua casa, que foi queimada até o chão. O corpo de seu pai foi identificado apenas após quatorze dias. Da sua mãe, nada restava. E dentro dessa realidade, quase imediatamente, a sua escolha foi feita. Algo que ninguém poderia esperar dele. Maoz, o filho enlutado e quebrado, declarou que não buscava vingança. Chorou pelos pais, mas também por todos que morreriam do outro lado na escalada que se seguiria. Não porque negasse a dor, mas porque se recusava a deixar que ela definisse o seu ser.
Aziz chega de uma experiência não menos pesada em sua dor, mas mais antiga. Quando tinha dez anos, seu irmão mais velho, Tayseer, foi preso no meio da noite por soldados israelenses. Eles o arrastaram da cama de pijama e descalço. Ficou detido por quase dez meses, torturado e liberado com o corpo arrebentado. Algumas semanas após sua alta, vomitou sangue, levado às pressas para a cirurgia e morreu. Morto por tortura. “Eu me sentia completamente sozinho. Ninguém iria substituir Tayseer, e ninguém me defenderia”. A energia nascida dessa perda foi de início canalizada para a raiva. Por vários anos, também o levou a atividades moldadas pela dor e pela fúria. O caminho para longe dela não foi uma revelação, mas um processo. Quando aprendeu hebraico por razões puramente práticas e conheceu pela primeira vez um israelense que não era soldado em um posto de controle, algo mudou. Não porque a dor tenha sido curada, mas porque um ser humano real e específico havia minado a categoria de inimigo.
Destruição indiscriminada da Faixa de Gaza após o 07 de outubro de 2023.
Essas duas histórias não são simétricas, e vale a pena dizê-lo claramente. Não são a mesma coisa, não são equivalentes e não se anulam. A perda dos pais em 7 de outubro e a perda de um irmão sob uma política oficial de tortura são catástrofes diferentes que surgiram de histórias distintas. E o livro honra essa diferença.
O que conecta as duas figuras não é uma competição de sofrimento, mas a escolha feita depois dele: não deixar a lava derretida do luto fluir em direção à destruição. Essa escolha, escreve Abu Sarah, não é o cancelamento da dor. “A raiva é como energia nuclear. Você pode usá-la para criar luz ou para semear destruição. Você pode permitir que a sua dor se transforme em amargura, ou ela pode se tornar combustível para empatia e conexão humana”. A metáfora nuclear não é incidental. Destruição nuclear é a disseminação da bomba. A energia nuclear num uso pacífico é a mesma energia, mas aproveitada para benefícios. Ambos os caminhos são possíveis. A questão é quem controla quem: o ser humano pela bomba ou a energia pelo ser humano.
O livro é estruturado como uma jornada física de oito dias que os dois realizaram em setembro de 2024, onze meses após o 7 de outubro. Cada um escreve por sua vez sobre suas experiências em cada parada, e ao final de cada capítulo eles escrevem juntos um texto que cresce a partir da jornada compartilhada.
Essa escolha literária não é acidental. É a demonstração do próprio princípio: duas pessoas que não concordam em tudo, não fingem que suas narrativas são idênticas e, mesmo assim, esgotam tudo o que pode ser dito juntas, sem abrir mão da sua lealdade e empatia pela verdade da própria comunidade.
Inon escreve sobre o sionismo como um movimento que salvou vidas. Abu Sarah escreve sobre a Nakba como uma catástrofe nacional. Ambas as coisas são verdadeiras, ambas são dolorosas, e ambas só podem ser mantidas simultaneamente se alguém quebrar a óptica do “quem está certo”. Os frameworks antigos são binários – apenas um deles pode estar correto. Mas dentro do quadro que eles oferecem, ambos podem estar certos ao mesmo tempo e podem assim escolher uma vida digna e compartilhada.
Cada parada da jornada funciona como um espelho duplo, refletindo tanto a história quanto as escolhas que nela podem ser feitas. Em Jaffa, estão diante das ruínas da estação de trem otomana que um dia conectou a maior cidade árabe do país ao resto do mundo. E encontram um guia turístico palestino cujo avô se recusou por décadas a falar sobre 1948 e chorava quando alguém o pressionava. “Vamos falar dos tempos anteriores”, sugeriu alguém, e ele respondeu: “Você deve apagar 1948 da sua mente. Esquecer é uma bênção de Deus. Mas eu não esqueço e considero isso uma maldição”. Inon ouve a história e não responde defensivamente. Ele escuta. E fica em silêncio, silenciosamente triste.
Na Cidade Velha de Jerusalém surge um momento para o qual o livro vinha se movendo sem que o leitor percebesse. Abu Sarah relata sua visita a Yad Vashem aos dezoito anos, quando ainda suspeitava que o Holocausto era um mero instrumento político. Ele entrou no salão das crianças, viu os rostos e nomes de um milhão e meio de crianças assassinadas e não conseguiu conter as lágrimas. “Esqueci que eles eram judeus, esqueci que eram meus chamados inimigos. Eu vi crianças”. O significado daquele momento não era o de que tudo tinha sido resolvido. É que a identidade, quando precede a resposta humana direta, pode bloquear reações que, de outra forma, seriam totalmente naturais. Quando Inon ouve essa história, entende que foi exatamente isso que ele pediu ao mundo sobre 7 de outubro: não esquecer, não conceder perdão barato, mas ver as crianças antes de ver as afiliações tribais e ser cegado por uma falha da Humanidade.
Na Cisjordânia, o enquadramento se torna mais físico e palpável. Abu Sarah descreve como, aos dezesseis anos, sua família recebeu uma ordem para deixar a sua casa em al-Eizariya, que havia sido separada dos limites municipais de Jerusalém devido aos Acordos de Oslo – apesar de estar a menos de dois quilômetros de seu centro. A estrada para a escola passava por postos de controle que às vezes eram fechados, e quando ele tentava contorná-los, soldados disparavam tiros de advertência em sua direção.
Inon, sentado ao lado dele no veículo, descobriu durante essa mesma conversa que, exatamente nesses dias havia servido em uma base militar israelense próxima. Eles se olham e não dizem nada. Não porque não haja nada a dizer, mas porque o que há para dizer é maior do que as palavras poderiam expressar em um momento assim.
Na Galileia, a jornada chega a um momento que reúne ambas as possibilidades. Eles conhecem um casal israelense que cultivou azeitonas em terras que tinham sido uma vila palestina. Abu Sarah pergunta calmamente, sem cortesia: “Quando você veio aqui e comprou a terra, sabia que havia uma vila árabe aqui?” Micha responde honestamente. E então Rachel conta que Ali, um trabalhador palestino que trabalhou com eles por vinte anos, se tornou parceiro pleno em todas as decisões. “O que foi, já foi. Aqui onde estamos é agora, e precisamos construir nossos relacionamentos”. Isto não é uma solução. Não é uma negação das histórias. É uma escolha pela vida. Uma escolha feita no presente, dentro de condições que estão longe do ideal. Em relação a um ser humano real e não a categorias absolutas que tornaram a vida aqui tão extrema e quase impossível.
O livro não esconde que a outra direção – a direção da destruição – é para onde a maioria dos membros de ambos os povos está caminhando atualmente . Aziz escreve sobre a liderança palestina que fala de não-violência, mas não marcha em protestos. E sobre o terrível vazio que o Hamas preenche. Inon diz diretamente: “O governo israelense e o Hamas são duas faces da mesma moeda. Ambos são responsáveis pela morte dos meus pais“. Essas não são alegações de falsa simetria. Eles são um reconhecimento honesto de que o fracasso não é étnico, mas político, moral e cívico. A liderança que alimenta a violência cresce em ambos os lados.
E a liderança que a recusa deve também crescer nos dois lados.
Quando Inon foi questionado sobre a “vitória total” que o líder do seu governo promete, Abu Sarah respondeu com um sorriso: “Maoz, você simplesmente não entende o que é vitória total. Esse é o seu problema…”.
O humor aqui não é decorativo. Faz parte do argumento: aqueles que são capazes de rir juntos do absurdo da situação já ultrapassaram algo importante.
O Papa Francisco os recebeu no estádio de Verona em maio de 2024. Abraçou-os diante dos olhos de treze mil pessoas aplaudindo. E, chorando, disse à multidão: “Diante do sofrimento destes dois irmãos, do sofrimento destas duas nações, não tenho palavras. Eles tiveram a coragem de se abraçar. Vamos orar pela paz e para que esses dois irmãos tragam aos seus povos a vontade de trabalhar pela paz”.
As palavras “Eu não tenho palavras” são exatamente as palavras certas. Não porque não haja nada a dizer, mas porque, antes de qualquer formulação política, antes de qualquer plano, há algo que precede a linguagem: dois seres humanos que escolheram canalizar sua energia para uma direção diferente.
O livro termina nas margens do Mar da Galileia. Maoz sugere a Aziz que ambos caminhem sobre a água. E seu amigo – sim, ao final do livro eles são amigos – responde: “Não sei se consigo andar sobre a água, mas consigo andar na água”. Eles tiram os sapatos e entram naquele lago cheio de simbolismo. Esse momento não é uma metáfora barata, nem um parágrafo final no estilo de Hollywood. É uma afirmação precisa: não há promessa de vitória aqui, e não há inocência no longo caminho que ainda resta. Há apenas a recusa em aceitar a realidade como ela é, como o limite final do possível. É o pequeno passo real dado na água fria. Mesmo sabendo que você não pode andar sobre ela, pelo menos pode andar nela.
Não exite uma obrigação nacional de se afogar nos lagos de sangue que já tiraram desnecessáriamente tantas vidas .
Uma Nota Marginal
Al-Aziz, em árabe, é um dos nomes de Allah. Um dos seus significados é pessoa de coragem, forte, aquela que possui poder.
Maoz, em hebraico, é o homem de fortaleza, força e segurança. E através das gerações, Deus foi o Maoz. Como no hino “Maoz Tsur Yeshuati” (Rocha dos Séculos, a Minha Salvação).
Dois homens, com o mesmo nome, a mesma experiência de vida e a mesma visão. Talvez não seja coincidência, pois a vocação deles é trazer a todos nós a verdadeira força. “Adonai e Allah darão força ao seu povo. Adonai e Allah abençoarão seus povos com paz”.
– leia a resenha do livro no New York Times.
– adquira o livro na Amazon: The Future Is Peace: A Shared Journey Across the Holy Land
Sarah e Inon levam os leitores a uma jornada transformativa, através de uma terra sagrada mas coberta de sangue. Enfrentando narrativas conflitantes, encontram o anseio comum pela paz.
– assista no Youtube: Jon Stewart entrevista os autores no ‘Daily Show’
– leia: Após perderem entes queridos, israelense e palestino unem forças pela paz (NPR)
** AVRAHAM (AVRUM) BURG, o autor deste artigo, pertenceu ao núcleo fundador do Movimento PAZ AGORA.
Nasceu em 1955. Seu pai, Yossef Burg, nasceu na Alemanha e foi ministro do governo israelense por muitos anos, como líder do Partido Nacional Religioso. Sua mãe, Rivka, nasceu em Hebron onde sobreviveu ao histórico massacre de 1929.
Ingressando no Partido Trabalhista ‘Avodá‘, teve uma carreira política meteórica, chegando ao posto de presidente do Knesset (Parlamento), o primeiro nascido em Israel. Presidiu também a Agência Judaica para Israel, uma das principais instituições sionistas no mundo.
Em 2003, em artigo no Yedioth Ahronot declarou: “Israel, tendo deixado de se importar com os filhos dos palestinos, não deve se surpreender quando eles vierem, banhados em ódio, se explodirem nos centros de escapismo israelenses…”.
No final de 2003, participou da negociação e redação do ‘Acordo de Genebra’, documento firmado por importantes lideranças israelenses e palestinas, que detalhava soluções viáveis para os principais fatores do conflito.
Em 2007, Burg publicou o polêmico livro “Derrotando Hitler“, no qual afirmava ser a sociedade israelense fascista e violenta, em consequência da instrumentalização do trauma do Holocausto.
– leia ‘Israel tem de superar o trauma do Holocausto‘ (04/03/2009)
– leia ‘Pessach – Festa da Independência‘ (30/03/2010)
– leia ‘Netanyahu está se rendendo?‘ (10/06/2010)
Em 2015, filiou-se ao Partido Chadash (aliança política árabe-judaica de esquerda com raízes no Partido Comunista de Israel), que propunha uma “frente ampla de todas as forças amantes da paz e da democracia”.
– leia ‘Avraham Burg – Um Judeu Protestante’ (08/11/2015)
Em 2018, participou da criação do movimento solidário judaico-árabe contra a Ocupação “Standing Together“, que é hoje um dos maiores movimentos populares de ação conjunta de judeus e árabes israelenses.
É um crítico veemente do governo de extrema-direita de Netanyahu e da Ocupação dos Territórios Palestinos.





