( por LONNY BASKIN | Substack 24/4/26 | tradução Amigos Brasileiros do PAZ AGORA )
Depois de 43 anos vivendo em Israel e votando em todas as eleições, nunca senti que um voto tivesse o peso que tem hoje. Os últimos quatro anos foram os mais tumultuados da nossa história, e a próxima eleição pode determinar se Israel continua sendo o Estado judeu democrático com que tantos de nós sonhávamos. Isso não é uma reclamação partidária; é um aviso, escrito por alguém que escolheu fazer de Israel seu lar há tantos anos, e que tem motivos comprovados demais para temer o que outro governo Netanyahu traria.
A Derrubada do Judiciário e Suas Consequências
A turbulência à qual o país esteve profundamente exposta nesses últimos anos na verdade começou com o plano do governo para enfraquecer o sistema judiciário e se tornar mais poderoso que os tribunais.
Buscou-se o direito legal de reverter decisões judiciais em favor do governo e de neutralizar o Procurador-Geral bem como os assessores jurídicos de todos os ministérios.
Segundo esse plano, as decisões judiciais seriam, na melhor das hipóteses, recomendações, e não mandatos vinculativos. Esses cargos perderiam completamente sua independência e se tornariam nomeações políticas subordinadas aos políticos que os nomearam.
O plano produziu na Sociedade um resultado muito inesperado: nasceu o maior e mais duradouro movimento de protesto da história de Israel. Todo sábado à noite, centenas de milhares de manifestantes se reuniam por todo o país. Muitos reconheceram que essa derrubada judicial teria enorme alcance e seria um pregos fatal no caixão da democracia israelense.
Soldados da reserva começaram a assinar declarações dizendo que deixariam de servir se a derrubada avançasse, porque não podiam servir moralmente a um país antidemocrático. Muitos pilotos da Força Aérea também assinaram.
Políticos e o primeiro-ministro afirmaram que esses reservistas e voluntários deveriam ser expulsos do exército e não fariam falta.
Chefes de todas as organizações de segurança alertaram Netanyahu de que continuar a reforma judicial, junto com as crescentes e dolorosas divisões na população, muitas delas alimentadas pelo próprio Netanyahu, estavam criando uma situação perigosa.
O exército, o Shin Bet, o Mossad e chefes de inteligência emitiam alerta após advertência, e todos foram ignorados. Eles alertaram que nossos inimigos estavam observando de perto e nos viam como estando no ponto mais fraco em décadas, o mais fraco desde a Guerra do Yom Kippur.
Até mesmo o autoproclamado ministro da Defesa do Likud de Netanyahu, Yoav Gallant, ex-general, emitiu alertas. Quando sentiu que estavam caindo em ouvidos moucos, fez um anúncio público na televisão pedindo que Netanyahu e o governo impedir e congelar imediatamente a derrubada judicial. A reação de Netanyahu? Demita Gallant como ministro da Defesa (a primeira vez; a segunda foi durante a guerra).
Para piorar, avisos graves também vieram do chefe da Inteligência egípcia e do Emir dos Emirados Árabes Unidos, diretamente para Netanyahu e seus conselheiros mais próximos. Ambos autoridades estrangeiras são aliados e parceiros de paz de Israel. Nenhum dos avisos foi atendido, e então veio o 7 de outubro: o pior ataque a Israel em nossa história e o pior dia para o povo judeu desde o Holocausto.
Os três anos seguintes nos trouxeram a guerra mais longa da nossa história: mais de dois mil mortos, incluindo em 7 de outubro, com 251 reféns, milhares de soldados feridos e um número interminável de soldados e civis sofrendo de pós-trauma, inclusive eu.
O Verdadeiro Legado de Netanyahu
Nunca fui fã de Netanyahu, desde seu tempo como embaixador de Israel nos EUA. Não concordei com sua política em nenhum momento de sua carreira. Em seus primeiros anos, no entanto, não o via como uma ameaça ao bem-estar do Estado. Isso mudou muito antes de 7 de outubro. Anos antes da guerra, uma fonte impecável me disse que o seu mentor, Moshe Arens (falecido em 2019), a pessoa diretamente responsável por trazer Netanyahu de volta a Israel de sua vida permanente como empresário nos EUA, ficou tão envergonhado com o que Netanyahu havia se tornado que nem sequer falava sobre ele.
Como já disse muitas vezes, Netanyahu nunca apresentou um plano estratégico para nada relacionado ao país. Todo o seu pensamento estratégico e planejamento se concentraram exclusivamente em sua carreira política e em seu legado. Ele construiu essa carreira sobre divisão, ódio e medo, inserindo divisão em seus discursos e reuniões.
Essa divisão foi estruturada em torno do ódio a qualquer um que não fosse seu apoiador. Netanyahu doutrinou seus seguidores com o mantra de que qualquer um à esquerda era mau e inimigo do Estado, transformando a palavra “esquerda” em um palavrão para seus apoiadores usarem sempre. Ninguém pode esquecer o famoso momento de microfone aberto pré-eleitoral com o rabino Ovadia Yosef, quando Netanyahu disse: “A esquerda esqueceu o que é ser judeu!”
Ele nunca perdeu uma oportunidade de dividir e semear ódio, mas isso não foi suficiente. Ele estudou e sabia que os autocratas mais bem-sucedidos e líderes mundiais poderosos e não democráticos sempre criam um ‘inimigo do povo’ para dar à população um grupo para culpar por qualquer coisa errada e uma vítima para odiar. Mas como fazer com que eles odeiem?
Criando medo. Convencendo seus apoiadores de que ‘o outro’, qualquer um que não fosse apoiador, é mau e perigoso, e que se o povo permitisse que a esquerda voltasse ao poder, a esquerda entregaria o país em bandeja de prata aos nossos inimigos. Que pensamento absurdo: convencer seguidores inquestionáveis de que aqueles da esquerda não poderiam amar seu país e estar dispostos a lutar por ele.
Netanyahu literalmente os lavou cerebralmente para acreditar que apenas seus apoiadores poderiam amar o país. Para montar esse novo governo, com sua necessidade incessante de permanecer como Primeiro-Ministro, ele fez o impensável, aquilo que ele mesmo havia afirmado repetidamente que nunca faria. Ele trouxe as extremas mais extremas da sociedade para seu governo para criar uma coalizão e permanecer como Primeiro-Ministro.
Normalizou o racismo radical e a tendência à violência deles: violência contra palestinos e qualquer um que os proteja, soldados, ativistas pela paz, clérigos, jornalistas, políticos estrangeiros e outros. E quando os ataques violentos ocorrem, Netanyahu permanece em silêncio, dando assim luz verde para mais e piores violências. Divisão, ódio e medo: esse é o verdadeiro legado de Netanyahu.
Isolamento Internacional e Perigo Econômico
Tanto a destruição massiva de Gaza quanto o aumento exponencial da violência sancionada pelo governo na Cisjordânia, por terroristas judeus, estão provocando reações de governos estrangeiros e tribunais internacionais.
O próprio Netanyahu já enfrenta um mandado internacional de prisão. Muitos países europeus aprovaram leis sancionando bens, serviços e colonos da Cisjordânia, e isso é apenas o começo.
Em uma entrevista para um canal financeiro na semana passada, Netanyahu alertou o público que as sanções econômicas provavelmente vão piorar e se expandir, e que os EUA também podem começar a aprovar leis contra Israel, e sanções bancárias virão em seguida. Sanções bancárias podem incluir a prevenção do acesso de Israel ao sistema bancário internacional.
Ele está olhando para uma economia cripto, que contorne o sistema bancário. Seus alertas são, em essência, presságios de um colapso econômico completo para Israel e da devastação de qualquer qualidade de vida para a maioria de nós. Netanyahu já sente essas sanções se aproximando, e deu instruções para preparar esses planos para uma economia cripto, independentemente das implicações.
Isso é apenas mais uma indicação do dano que ele pessoalmente causou a Israel. Em vez de planos para reparar qualquer uma delas, que deveria ser a primeira prioridade de um primeiro-ministro e governo responsáveis, Netanyahu busca nos puxar ainda mais para o atoleiro de uma Nação Pária. Ele não oferece esperança, nem reparo à alma quebrada da nação que começou em 7 de outubro, nem responsabilidade por nada. Ele apenas promete curativos para amputações. Esse homem e seu governo são diretamente responsáveis por tanta devastação, mas se recusam a assumir qualquer responsabilidade e carecem de qualquer visão ou estratégia para reparar.
A Fuga de Cérebros
Antes da guerra, o número de israelenses que saíam do país por seis meses ou mais era inferior a 40.000 por ano. Desde a guerra, os números aumentaram anualmente e estão caminhando para 90.000 em 2026. Em 2025, pela primeira vez na história de Israel, mais israelenses deixaram o país do que chegaram (israelenses retornando e imigrantes), e a tendência negativa está caminhando para se tornar o padrão. Esses números refletem uma realidade muito diferente da que conhecemos. A esmagadora maioria dos que estão saindo não são soldados recém-libertados buscando explorar o mundo ou ganhar milhões. A maioria são médicos, profissionais de alta tecnologia e outras pessoas qualificadas.
A fuga de cérebros em Israel está acontecendo e deve piorar e atingir proporções economicamente devastadoras. Há estimativas reais de que até um milhão de pessoas podem deixar Israel no futuro imediato, caso Netanyahu seja eleito novamente. Para mim, isso é mais pessoal do que eu jamais poderia imaginar. Entre esse milhão há pessoas muito próximas e queridas para mim, pessoas que sonharam em viver em Israel desde a infância, pessoas que nunca quiseram viver em qualquer outro lugar do mundo. Mas elas reconhecem que, se Netanyahu for eleito novamente, a esperança deste país de ser o Estado judeu democrático com ideais de igualdade e responsabilidade por todos acabará. É o começo do fim para o Israel que sempre sonhamos que poderíamos ser.
Netanyahu, com sua necessidade insaciável de poder e posição, colocou-se mais uma vez muito acima e distante das necessidades do Estado e do Povo, até o ponto da devastação e da destruição da esperança.
É assim que mais um mandato de um governo Netanyahu realmente parece. Esta eleição é tão fatídica porque os últimos quatro anos mostraram o que este governo faz quando não está restrito: ataca os tribunais e o sistema jurídico, a imprensa e os não apoiadores, ignora os alertas de seu próprio estabelecimento de segurança, convida os extremistas ao poder e isola Israel internacionalmente a um custo diplomático e econômico enorme.
O resultado já foi o pior ataque da nossa História, a guerra mais longa da História e uma fuga de cérebros crescente que em breve pode alcançar um milhão de pessoas. O legado de Netanyahu é divisão, ódio e medo, e seu único plano para o futuro é aprofundar os danos.
Para aqueles de nós que construíram nossas vidas aqui, a escolha diante de nós é se Israel continuará sendo o Estado judeu democrático em que acreditávamos ou se tornará algo que não podemos mais reconhecer.
24/10/2026 |
| Querid@ amig@ do PAZ AGORA, |
| O 31º aniversário do assassinato de Yitzhak Rabin caiu poucos dias antes da eleição israelense de 27 de outubro. Os tiros que o mataram foram tiros na luta entre um Israel democrático e um Israel fascista. Trinta e um anos depois, aqueles que incitaram contra ele estão governando o país. O fascismo judaico está no centro do atualgoverno, buscando moldar Israel à sua imagem: racista, messiânico e antidemocrático. Lembrar Rabin significa seguir o seu caminho — pela paz e por um Israel democrático. Israel, nestas eleições, deve derrotar o fascismo! |
| CNN Relata sobre a Mudança na Cisjordânia Um lembrete do que está em jogo: o relatório iterativo da CNN, que se baseia extensivamente em nossa pesquisa, destaca o impacto das políticas governamentais recentes na Cisjordânia. > Assista AQUI o Relatório Iterativo da CNN |
| Lior Amichai fala com AP PAZ AGORA: Diretor Lior Amihai falou sobre israelenses ao lado dos palestinos em uma entrevista à AP. Vídeo: AP / Moshe Edri. As mulheres apresentadas no início são da Women Wage Peace. > Assista ao vídeo |
| Após a Eleição, Participe de Uma Conversa com Lior Amichai Quinta-feira, 5 de novembro | Reserve a Data! Junte-se ao Diretor Executivo do PAZ AGORA, Lior Amichai, para uma discussão aprofundada sobre os resultados das eleições israelenses, a evolução do cenário político e as prioridades do PAZ AGORA, incluindo a luta contra a expansão dos assentamentos e o avanço de uma Solução de Dois Estados para uma paz definitiva com o povo palestino. Organizado pelo Canadian Friends of Peace Now. Em breve daremos detalhes para a inscrição. |
| Os judeus em tempos de cólera. ( por Paulo Blank* – face 23/10/2026 ) |
‘Rony’ – Um Judeu que Odeia Judeus
Na manhã de sexta-feira, 23 de outubro, recebi um texto assinado por um tal Rony, que me condenava a ser Kapo – um judeu que, para escapar da morte, se apresenta para policiar outros judeus a serviço dos nazistas.
Rony, sabe-se lá em nome daquela instância transcendental, resolveu que os judeus que votarem em Luiz Inácio Lula da Silva seriam Kapo até o final de seus dias.
Rony age como se fosse a reserva dos valores do povo judeu, dando a impressão de fazer parte do mesmo grupo que usou assinaturas de um manifesto de judeus apoiando Lula, para convocar todos os que o lessem, a excluir seus signatários do convívio social e profissional, como se fossem os leprosos da antiguidade.
Talvez Rony não saiba, mas considerarmos os judeus como um povo de leprosos, símbolo originário dos excluídos, é a forma mais antiga de antissemitismo, como nos conta Flávio Josefo em “A Guerra dos Judeus”.
Desumanizar os judeus para destruir-los sem culpas, também acabou sendo uma estratégia do nazifascismo alemão.Será assim que se mata por amor?
Para explicar, quem sabe, seu auto ódio, uma manifestação patológica bastante comum entre judeus que pregam a destruição do Estado de Israel em nome da justiça para o povo Palestino, Rony ataca raivosamente uma parte do povo do qual é parte.
Rony se esconde atrás do “carinho” que abre sua declaração pública. Começando por deixar claro que é com “todo o carinho do mundo”, ele vem a público, e logo em seguida nos condena a ser Kapos.
Como muitas pessoas que se julgam bondosas e justas, Rony necessita de uma permissão para expressar o mal que o habita. Por isso começa amando “com todo o carinho”, para poder odiar sem ficar constrangido.
Um inquisidor medieval não condenava ninguém à fogueira em seu próprio nome. Havia a Igreja e a palavra de Deus que o autorizavam a perseguir e matar os hereges judeus.Qual a diferença simbólica entre o desejo de matar por conta própria e o ato de condenar irmãos do próprio povo a morrerem de fome, na pobreza do abandono?
Não seria esta a fantasia inconsciente do que aconteceria caso todos aderissem ao decreto do “Herem”, a cassação de contato com judeus transgressores, que foi declarada através de uma lista que continua circulando na Internet? – “Lista de judias e judeus para não se fazerem negócios ou contratá-los”.
Que vejam ruir seus negócios, seus consultórios, suas atividades profissionais e, portanto, definhem até não ter mais sustento para si e sua família. Parafraseando Primo Levi: É isso um judeu?
O intelectual judeu italiano Carlo Ginzburg, criador da micro história, considera que “o país a que se pertence não é, como se costuma considerar, aquele que ama, mas, sim, aquele do qual sente vergonha”.
Um “vínculo de vergonha” que, no meu entender, pode me ligar a pessoas que pertencem à minha própria cultura e não apenas a um país específico. Vergonha, portanto, que tenho por pessoas como Rony.
Amor que tenho pelo judaísmo, por ser um modo de pensar o mundo muito além das práticas religiosas.
Pelo orgulho que sinto da inscrição num caco de barro com três mil anos, onde leio: “lutarás a luta da viúva, do órfão do frágil”.
Por considerar o judaísmo a origem do humanismo, é que sinto tanta vergonha pelos judeus que se deixaram envolver pelas ondas de ódio entre as quais vivemos, vergonha dos que nos condenam ao exílio e à fome, como se fossemos nós os Amalequitas, nós os Capitães do Mato dos nossos irmãos, e não eles suas sombras, enclausurados em pensamentos antijudaicos sem contradições e sem dúvidas.
Por tudo isso, considere o meu voto, mais do que um ato partidário ou ideológico, um ato judaico de fazer justiça pelos frágeis, a viúva, o órfão, todos estes metáforas do que nos circunda e que recusamos ver.
(*) PAULO BLANK é psicanalista carioca, escritor e membro dos Amigos Brasileiros do PAZ AGORA

24/10/2026