EUA salvam Netaniahu dele mesmo. De novo.

Quando quer fazer algo, ele pode. Na quinta-feira, o Primeiro-ministro Benjamin Netaniahu obteve uma conquista diplomática significativa na forma do acordo de normalização entre Israel e os EAU – Emirados Árabes Unidos.

A saída mútua do armário, depois de vários anos nos quais as relações políticas e de segurança entre os países desenvolveu-se em segredo, não se compara aos tratados de paz assinados com o Egito e a Jordânia, cujos exércitos lutaram em Israel e derramaram sangue israelense. Mas o acordo abre uma brecha no anel de isolamento árabe em torno de Israel.

Ele também decidiu, a favor de Netaniahu, um desentendimento teimoso entre ele e seus oponentes na esquerda (e administrações americanas anteriores). Eis que as relações com os países muçulmanos sunitas podem ser melhoradas significativamente, sem primeiro resolver o conflito israelo-palestino.

Ao longo do caminho, como bônus, Netaniahu tirou da mesa a perigosa acrobacia política que vinha executando no último ano, a anexação de algumas colônias na Cisjordânia, sob o disfarce do plano de paz da administração Trump.

Entre as várias versões contraditórias divulgadas desde que o acordo foi anunciado, as observações do conselheiro e genro presidencial Jared Kushner – e até mesmo, numa estranha reviravolta, as do próprio Presidente Trump – merecem atenção. Netaniahu abandonou a anexação. Ele não a adiou até alguma data futura indefinida. Ele não teria conseguido fechar o acordo com os Emirados se não abandonasse seu plano.

Essa é a segunda vez que Kushner salvou Netaniahu dele mesmo. A primeira foi em janeiro, quando Netaniahu e Trump se encontraram em Washington para a apresentação do plano de paz de Trump. Os conselheiros do primeiro-ministro – inebriados pelas promessas do embaixador dos EUA e das colônias de Israel, David Friedman – prometeram “aplicar soberania no domingo”.

Muitos mais domingos passarão antes que isso possa acontecer. Netaniahu foi forçado a ceder a Trump, depois de tudo que o presidente lhe deu (abandonando o acordo nuclear com o Irã, relocando a embaixada americana para Jerusalém e reconhecendo a soberania israelense nas Colinas de Golan).

Também parece que o primeiro-ministro, no fundo do seu coração, entende a ordem de prioridades estratégicas genuínas. A aliança com os países sunitas, contra o Irã e sob a égide dos americanos, é infinitamente mais importante do que a aplicação da lei israelense nas colônias, que poderia colocá-lo em dificuldades com a comunidade internacional e talvez reanimar a resistência palestina.

O desapontamento da direita ideológica é compreensível. Netaniahu prometeu anexação e recuou, como fez com muitas das suas promessas. E agora, como no passado, está tentando encobrir isso com promessas vazias as quais não tem intenção de cumprir. Entretanto, os críticos de Netaniahu na direita só podem culpar a eles mesmos.

Primeiro, não tinham motivo para acreditar nele, com base no seu desempenho passado. Segundo, até há poucos dias atrás, a maioria dos líderes dos colonos dizia que a anexação era uma receita para o desastre, não porque poderia levar a um regime de apartheid, mas sim porque não inclui toda a Cisjordânia.

A resposta furiosa dos palestinos, colocada de lado por pouco tempo por causa da surpresa de Ramallah com a publicação do desenvolvimento secreto, é exagerada. Claramente, o presidente palestino Mahmud Abbas não pode se alegrar com aquilo que vê como traição aos palestinos por parte dos países do Golfo.

Mas Abbas está ignorando a oportunidade que o acordo Israel-EAU lhe dá. Ele está envolto em um sentimento de afronta por mais de dois anos, desde que lhe ficou claro que Trump e seu time da paz adotaram a maioria das posições israelenses no conflito com os palestinos. Primeiro Abbas cortou quase toda a comunicação com os americanos. Quando Netaniahu entrou em cena com a anexação, Abbas cortou a coordenação civil e de segurança da Autoridade Palestina com Israel.

O Conselho de Segurança Nacional de Israel concluiu recentemente que para retomar a cooperação, a Autoridade Palestina necessita de uma prova pública de que Netaniahu não está mais buscando a anexação. Essa prova foi dada na quinta-feira, por Trump e Kushner, mas o octogenário líder palestino preferiu continuar fazendo birra. Desde então, os palestinos só aumentaram sua retórica.

Não há dúvida de que o envolvimento do arqui-inimigo de Abbas, Muhammad Dahlan, uma ex-autoridade do Fatah, com fortes laços com os governantes dos EAU, tem algo a ver com isso. Abbas ainda o culpa pela tomada do poder pelo Hamas em Gaza em 2007 e suspeita – com razão – de várias tentativas dele de minar seu governo.

Outros países poderão em breve se juntar aos acordos de normalização com Israel. Nos últimos dias, fala-se sobre Bahrain, Omã e até o Sudão. Kushner deu pistas sobre um possível aquecimento público das relações israelo-sauditas. O que Israel pode dar em troca? Apesar da inversão da ordem (normalização, pelo menos com os EAU, vindo antes do fim do conflito), é duvidoso que os países do Golfo tenham desistido da parte central da Iniciativa Árabe de Paz de 2002: reconhecimento de Israel e relações diplomáticas plenas em troca do estabelecimento de um estado palestino. Os EAU não são apenas mais um país rico. São uma potência regional ambiciosa que quer deixar sua marca no Oriente Médio.

A possibilidade de que isso aconteça não é alta. As eleições americanas estão a apenas 11 semanas de distância e Trump está atrás nas pesquisas. A espetacular má gestão da crise do coronavírus por parte de sua administração erodiu o apoio a ele por dois dígitos. É difícil imaginá-lo, no tempo que resta, conseguindo uma vitória no Oriente Médio, num esforço liderado por Kushner (que após fracassar na coordenação da resposta americana à pandemia, simplesmente caiu fora).

Mas Netaniahu está de olho. Sua tendência de ziguezaguear à esquerda e à direita, mais de acordo com suas necessidades políticas do que por qualquer crença ideológica, começou no seu primeiro mandato como primeiro-ministro, durante o qual ele inicialmente aceitou os acordos de Oslo e manteve encontros joviais com Yasser Arafat. Mas agora, considerações ainda mais exigentes entraram em cena. O principal – se não o único – objetivo de Netaniahu é evitar sua condenação por acusações de suborno, fraude e quebra de confiança.

Semana passada, quase ao mesmo tempo do anúncio do acordo com os EAU, outra pesquisa de opinião foi publicada mostrando a continuação do acentuado declínio no apoio ao Likud. Ao mesmo tempo, membros do círculo íntimo de Netaniahu vazaram para a imprensa sobre um possível acordo com o Kachol Lavan que pode previnir eleições antecipadas em novembro. Na conferência de imprensa de quinta-feira, o tom do primeiro-ministro foi relativamente conciliador, sem as habituais acusações contra seus rivais na coalizão e na oposição. Um ouvinte atento pode inclusive ter percebido um quase cumprimento a Yitzhak Rabin.

Tudo isso provavelmente passará, é claro, depois de um fim de semana de bons momentos com a família na Rua Balfour. Mas se Netaniahu vislumbrar que Trump espera que ele faça gestos diplomáticos adicionais e levar em consideração a possibilidade de que em janeiro pode ser Joe Biden quem o esperará na Casa Branca, Jerusalém pode em breve mudar de tom. Nesse caso, os colonos já poderão divulgar suas velhas acusações sobre a profundidade da erradicação ser de acordo com a profundidade dos problemas legais.

Nos bastidores, vale salientar que, também desta vez, Netaniahu tirou da cartola a surpresa diplomática por conta própria. Na tarde de quinta-feira, ele até abandonou a reunião do gabinete do coronavírus, insinuando um evento de importância nacional que os outros participantes em breve conheceriam.

O primeiro-ministro não se preocupou em manter seus parceiros do Kachol Lavan informados sobre as negociações ou seus resultados. O ministro da defesa e o ministro do exterior souberam da novidade estratégica só momentos antes do resto de Israel.

Os membros likudistas do gabinete não mereceram nem mesmo uma menção. Eles são um rebanho de ovelhas obedientes, cujo único papel é amplificar as mensagens do governante contra o sistema legal, a esquerda e a imprensa.

O anúncio foi seguido por vazamentos e declarações do escritório do primeiro-ministro e por fontes dos establishments político e de defesa sobre a abrangência do envolvimento de umas poucas autoridades nos passos que levaram ao acordo. Não foi feito um trabalho administrativo preliminar. Foi somente neste final de semana que Netaniahu anunciou que instruiu o conselheiro de segurança nacional Meir Ben Shabat “a se preparar para as conversações com os EAU em razão do acordo de paz, em coordenação com as partes relevantes”.

A mensagem foi clara: o show é de Netaniahu. Todos os demais são pequenos atores que são informados somente quando o primeiro-ministro acha adequado.

[ por Amos Harel | publicado no Haaretz | 16|08|2020 | traduzido por José Manasseh Zagury


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