É Preciso Deter o Desmoronamento Moral de Israel:
As Próximas Eleições Serão Decisivas !
( por Moshe Maoz * | IHCR – Instituto para a Resolução Humanitária de Conflitos | 08/06/2026 )
tradução: Amigos Brasileiros do PAZ AGORA – www.pazagora.org
A posição internacional de Israel passa por uma transformação profunda e, talvez, irreversível.
Antes considerado, apesar das críticas, como uma democracia falha enfrentando ameaças complexas à segurança, Israel é cada vez mais visto como um Estado Pária – isolado não apenas por seus adversários, mas por sua conduta sustentada em Gaza e na Cisjordânia.
Essa mudança não é resultado de um único evento, mas de um padrão acumulado de políticas e ações que corroeu sua legitimidade moral aos olhos de grande parte do mundo.
Contexto Histórico
Os ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023 – brutais, indiscriminados e amplamente condenados – geraram inicialmente uma onda de simpatia por Israel.
Muitos governos, incluindo Estados árabes e muçulmanos, denunciaram as ações do Hamas e afirmaram o direito de Israel à autodefesa.
No entanto, essa simpatia inicial se dissipou à medida que a resposta militar de Israel escalava para uma campanha prolongada, marcada por níveis extraordinários de destruição e baixas civis em Gaza.
Em meados de 2026, com dezenas de milhares de palestinos mortos e vastas áreas urbanas reduzidas a escombros, as ações de Israel passaram a ser vistas não como defensivas, mas como desproporcionais e, aos olhos de muitos observadores, genocidas. Em muitas capitais, a narrativa mudou de Israel como Estado sitiado para um Israel que persiste em violador das normas humanitárias.
Essa percepção só se aprofundou à medida que as operações israelenses continuaram apesar dos marcos de cessar-fogo, incluindo o imposto em outubro de 2025. Cada nova rodada de ataques aéreos e incursões terrestres, resulta em ainda mais mortes de civis – especialmente entre mulheres e crianças – reforçou a crença de que Israel não está disposto ou não consegue aderir ao Direito internacional humanitário.
A opinião internacional foi ainda mais inflamada por episódios simbólicos visíveis, como a prisão e humilhação pública de ativistas estrangeiros que tentavam entregar ajuda humanitária a Gaza por meio de flotilhas. Quando tais incidentes envolvem cidadãos de Estados aliados, eles destacam não apenas o desafio de Israel à opinião pública global, mas também sua disposição para constranger e alienar governos aliados.
Desenvolvimentos paralelos na Cisjordânia agravaram essa deterioração. A expansão constante dos assentamentos judaicos – muitos construídos em terras privadas de palestinos – junto com o deslocamento das comunidades palestinas, consolidou o que numerosos observadores internacionais descrevem como um sistema de apartheid de fato. Organizações israelenses de direitos humanos, diplomatas estrangeiros e autoridades da ONU documentaram repetidamente padrões de confisco de terras, restrições de circulação e dualismo legal entre colonos e palestinos.
A violência de colonos extremistas, muitas vezes realizada com impunidade e às vezes sob a proteção ou indiferença das forças de segurança israelenses, intensificou-se. O envolvimento ou endosso tácito dessas ações por altos cargos do governo, incluindo ministros responsáveis pela segurança interna e administração da Cisjordânia, apagou a linha entre política estatal e vigilantismo, transformando abusos localizados em uma acusação mais ampla de cumplicidade estatal.
O Custo Humano Resultante da Política Mortal de Netanyahu
É difícil expressar em palavras a tragédia infligida aos palestinos em Gaza e na Cisjordânia.
Em Gaza, bairros inteiros foram pulverizados em terras cinzentas onde blocos de apartamentos ficam esmagados uns sobre os outros, aprisionando famílias sob camadas de concreto e aço retorcido.
Hospitais – sobrecarregados, com pouca potência e, às vezes, diretamente atingidos – operaram sem anestesia, onde médicos amputam membros com lanterna e pais assistem crianças sangrando até morrer por falta de suprimentos básicos. Ataques aéreos e artilharia destruíram abrigos lotados e campos de refugiados, deixando para trás cenas de corpos incinerados e valas comuns cavadas às pressas nos pátios das escolas.
Na Cisjordânia, a violência se desenrola mais lentamente, mas com crueldade implacável.
Colonos armados, muitas vezes protegidos ou ignorados pelas forças de segurança, atacaram vilarejos palestinos, incendiaram casas, arrancaram pomares e expulsaram famílias de terras onde viviam há gerações. Os postos de controle sufocam a vida cotidiana, transformando viagens curtas em provações de horas, enquanto ataques noturnos aterrorizam as casas, com crianças sendo retiradas de suas camas enquanto soldados detêm parentes sem acusação.
Em ambos os territórios, o efeito cumulativo é um cenário de medo e desumanização generalizados – onde civis israelenses e palestinos são reduzidos a vítimas de políticas e represálias que cobram seu preço não apenas em vidas perdidas, mas em dignidade sistematicamente apagada.
Crianças palestinas crescem aprendendo a linguagem das sirenes antes do alfabeto, distinguindo o ruído de bombas e drones e desconhecendo o som dos pássaros. Desenham casas que não existem mais, pais que nunca voltaram para casa, irmãos enterrados em túmulos cavados às pressas.
Pesadelos os acompanham durante o dia – escolas transformadas em valas comuns, playgrounds em crateras, ruas em cidades fantasmas. A infância deles é roubada em câmera lenta, substituída por um terror implacável que lhes ensina que o mundo os abandonou.
As Implicações da Conduta Insana de Israel
Regionalmente, a conduta de Israel também contribuiu para seu crescente isolamento e para sua imagem de pária. Seus confrontos com o Hizbollah no Líbano (ainda em andamento até o momento desta redação) e seu envolvimento mais amplo em um conflito de múltiplas frentes envolvendo o Irã e seus aliados resultaram em baixas civis significativas além de suas fronteiras. Ataques israelenses no Líbano, muitas vezes em áreas densamente povoadas, mataram e deslocaram milhares de pessoas, enquanto operações conjuntas com os Estados Unidos contra alvos iranianos e iemenitas reforçaram a percepção de Israel como ator principal em uma guerra regional crescente, e não como um relutante participante, forçado a uma ação defensiva.
Embora esses conflitos sejam complexos e recíprocos – foguetes do Hezbollah e mísseis iranianos também causaram baixas e destruição em Israel – o efeito cumulativo tem sido associar Israel a um arco crescente de devastação que se estende de Gaza e Cisjordânia até Líbano, Síria e além.
No Front Interno
A trajetória política de Israel minou ainda mais sua posição internacional, alimentando a percepção de que seu status de pária não é uma aberração, mas o produto de escolhas estruturais profundas. Desde a formação do governo de extrema-direita em dezembro de 2022, críticos dentro e fora de Israel argumentam que as Instituições democráticas – especialmente a independência do Judiciário – foram sistematicamente enfraquecidas.
O plano de reforma judiciária do governo, que buscava restringir os poderes da Suprema Corte, desencadeou os maiores protestos da história de Israel e recebeu alertas de aliados de que o país estava se afastando das normas democráticas liberais. Embora partes da reforma tenham sido adiadas ou modificadas sob pressão, a trajetória geral levou muitos observadores a descrever Israel como uma democracia cada vez mais iliberal, senão um regime quase autoritário em que os freios e contrapesos estão se desgastando.
Políticas percebidas como discriminatórias contra cidadãos árabes e permissivas em relação à violência de colonos agravaram divisões internas, ao mesmo tempo em que geraram condenação tanto de aliados tradicionais quanto de comunidades judaicas da Diáspora. Organizações judaicas que antes defendiam Israel automaticamente tornaram-se mais abertamente críticas, expressando alarme tanto com a erosão das normas democráticas quanto com a escala da violência em Gaza. A imagem de Israel como democracia liberal, por mais contestada que fosse, foi gradualmente substituída pela de um Estado em que as prioridades etno-nacionalistas prevalecem sobre direitos universais e o Estado de Direito.
O clima político interno em Israel consolida ainda mais essa trajetória. Dados de opinião pública mostram que uma grande maioria dos israelenses judeus não acredita mais que um acordo de paz com os palestinos seja possível no futuro previsível.
O apoio a uma Solução de Dois Estados caiu para níveis históricos sem precedentes entre os judeus israelenses, permanecendo apenas como posição minoritária entre os israelenses em geral. Mesmo aqueles que defendem alguma forma de “separação” dos palestinos frequentemente a enquadram principalmente em termos de segurança – reduzindo atritos e riscos demográficos – em vez de ser parte de uma resolução política genuína. O resultado é um ambiente político no qual muitos israelenses, em grande parte do espectro político, efetivamente se resignaram a um conflito perpétuo.
Como Israel está se tornando um Estado Pária
A designação de “Estado Pária” não é meramente retórica; reflete uma mudança estrutural na forma como Estados e Sociedades interagem com Israel. O atrito diplomático aumentou à medida que mais países reconhecem um Estado Palestino ou rebaixam as relações com Israel, e a opinião pública nos principais países aliados tornou-se fortemente crítica. Pesquisas mostram que, nos Estados Unidos e na Europa, a simpatia por Israel diminuiu, enquanto o apoio à autodeterminação palestina aumentou, com muitos entrevistados vendo as ações de Israel em Gaza como genocidas.
Os pedidos por sanções, embargos de armas, responsabilização legal em tribunais internacionais e intervenção internacional tornaram-se mais altos. Ao contrário de crises passadas, que Israel conseguiu superar mantendo alianças centrais, a trajetória atual sugere uma ruptura reputacional mais duradoura, que molda não apenas a diplomacia de elite, mas também as percepções cotidianas dos públicos globais.
O que torna esse status particularmente difícil de reverter é a natureza contínua das políticas que o produziram.
O status de pária, uma vez consolidado por meio de ações repetidas e visíveis, não poderá ser apagado por gestos retóricos, pausas temporárias nos combates ou concessões humanitárias limitadas. Ele exige uma reorientação fundamental do comportamento do Estado e um compromisso crível de cumprir as normas internacionais.
Enquanto as operações militares continuarem a causar danos em grande escala a civis, a expansão dos assentamentos persistirem e a responsabilização por violações permanecer ausente, o isolamento de Israel provavelmente se aprofundará, em vez de diminuir. Cada novo incidente – mais um atentado a um campo de refugiados, outro ataque por colonos semelhante a um pogrom, mais uma medida legal que enfraquece a fiscalização e repressão da violência – adiciona uma camada à acusação e dificulta a sua reversão.
A Inaptidão dos Partidos de Oposição
Os partidos de oposição de Israel, embora fortemente críticos da governança, corrupção e ao ataque do judiciário por Netanyahu, têm sido marcadamente cautelosos na questão palestina. Suas principais questões de mobilização têm sido internas – defender a democracia, proteger os tribunais e restaurar a competência governamental – e não avançam uma visão concreta para acabar com a Ocupação ou alcançar uma Paz negociada.
Mesmo partidos considerados centristas ou de centro-esquerda frequentemente evitam articular um caminho claro e detalhado para a criação do Estado Palestino, por medo de alienar um público profundamente cético em relação às intenções palestinas e traumatizado por anos de violência – especialmente após o ataque de 7 de outubro.
O paradoxo é que uma grande parte do público expressa preocupações sobre o futuro da democracia e da sociedade israelenses, mas permanece relutante em confrontar o papel central que a ocupação permanente e a guerra recorrente desempenham em minar essa própria democracia.Essa resignação a um conflito duradouro é reforçada por um sentimento generalizado de fatalismo e desumanização mútua de ambos os lados. Pesquisas mostram que a maioria tanto de israelenses quanto de palestinos duvida que uma paz permanente algum dia será alcançada, e cada lado nutre profundos medos de ameaça existencial vinda do outro.
A ausência de um campo de paz crível, a marginalização das vozes que defendem um acordo negociado e a normalização do controle indefinido sobre outras pessoas reforçam a impressão de que Israel fez uma escolha estratégica em favor do conflito perpétuo e pela desigualdade estrutural.
A perspectiva sombria do futuro de Israel
Este cenário político e psicológico tem profundas implicações para o status de pária de Israel.
Um Estado que continuamente projeta ao mundo que está envolvido em uma guerra sem horizonte político claro, em que sua própria população e liderança abandonaram esforços sérios para acabar com a guerra.
Israel não é visto como um combatente relutante preso à História, mas como um arquiteto ativo de dominação permanente.
Somente uma transformação política decisiva – marcada por um compromisso com a renovação democrática, a adesão ao direito internacional e um esforço genuíno para resolver a questão palestina – poderia começar a alterar essa trajetória. Isso exigiria não apenas uma mudança de governo, mas uma profunda reavaliação dentro da sociedade israelense dos custos e consequências de guerras intermináveis, Ocupação e isolamento internacional.
Mesmo assim, reconstruir a credibilidade levará anos, senão décadas, porque a confiança, uma vez quebrada em tal escala, não poderá ser restaurada rapidamente. Até que tal mudança ocorra, Israel corre o risco de permanecer definido não mais por seus ideais fundadores, mas por um consenso global crescente que o vê cada vez mais como um Estado que cruzou um limiar moral e legal em muitas frentes.
Isso faz com que Israel seja visto como um Estado pária em que o retorno ao apoio internacional é extremamente difícil – e, se as tendências atuais persistirem, talvez impossível.
Dito isso, as novas eleições que serão realizadas em Israel em setembro poderão resultar num governo de coalizão mais moderado, mais aberto a traçar um novo caminho que eventualmente leve a negociações substanciais de paz entre Israel e Palestina. De qualquer forma, ainda será uma batalha difícil com resultados incertos, dada a complexidade do conflito, a profundidade da desconfiança mútua e a falta de apoio popular israelense a uma Solução de Dois Estados.
- Moshe Maoz é professor emérito de estudos islâmicos e do Oriente Médio na Universidade Hebraica de Jerusalém e atuou como conselheiro em assuntos árabes para Yitzchak Rabin, Shimon Peres e Ezer Weizman.


