
Os esforços do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva para proteger a Amazônia estão dando à Humanidade uma chance de lutar contra a crise climática. Sob Bolsonaro, o destino da floresta amazônica parecia selado.
( por Nir Hasson | Haaretz 29/10/26 – tradução PAZ AGORA|BR )
Esta semana, a campanha eleitoral mais importante para as gerações futuras de Israel terminou em vitória.
Foi uma vitória surpreendente, contrária às previsões, e que abre a perspectiva de um futuro em que não viveremos de um desastre para o outro. Um futuro em que não teremos de contabilizar as vítimas de decisões imprudentes. Um futuro de reabilitação e reconstrução – um futuro em que os acordos têm valor e os políticos ouvem os especialistas. Um futuro em que as medidas necessárias são tomadas, mesmo que sejam impopulares.
Mas estas não são as eleições que você pensa. Estas linhas estão sendo escritas nesta segunda-feira, um dia antes do início da votação em Israel, e se referem às eleições no Brasil , onde o candidato que nos oferece uma chance de salvação venceu: Luiz Inácio Lula da Silva (Lula), o atual presidente do Brasil. Lula superou seu oponente, Flávio Bolsonaro, por uma margem de 3,5%. Foi no segundo turno, após Bolsonaro ter vencido o primeiro sem ter alcançado o limite necessário de 50% dos votos.
Flavio é filho de um ex-presidente, Jair Bolsonaro, que foi derrotado por Lula nas últimas eleições, em janeiro de 2023, e posteriormente condenado por tentativa de golpe de Estado após se recusar a reconhecer o resultado das eleições. Jair foi sentenciado a 27 anos de prisão, que cumpre em regime domiciliar devido a problemas de saúde.
Em Israel, o confronto entre a família Bolsonaro e Lula foi percebido como uma luta entre pai e filho que amam Israel e um presidente antissemita. Na realidade, essa é uma batalha que vai muito além da questão da postura do Brasil em relação a Israel. Bolsonaro, pai, negava as mudanças climáticas e causou imensos danos às florestas tropicais de seu país. Lula é sua antítese: trabalhou incansavelmente para proteger a bacia amazônica e deu à humanidade uma chance de lutar contra a crise climática. Isso talvez não seja intuitivo, mas a vitória de Lula é tão relevante para o futuro de nossos filhos quanto a queda do governo Netanyahu.
Para entender isso, é necessário compreender a importância de ultrapassar pontos de inflexão climáticos críticos. Em 2022, a revista Science publicou um artigo de renomados climatologistas que mapeou 16 desses pontos dentro do sistema climático global. Ultrapassar esses chamados pontos de inflexão, precipitaria uma deterioração irreversível desse sistema.
Um exemplo disso é a vasta camada de gelo que cobre a Groenlândia. O acúmulo de gases de efeito estufa na atmosfera causa um aquecimento que a está derretendo. Isso, por sua vez, gera dois fatores que aceleram todo o processo: a altura do próprio iceberg diminui e quanto menor a altitude, maior a temperatura. Além disso, quanto maior a temperatura, mais a extensão do gelo encolhe.
Em segundo lugar, quanto menos gelo houver, maior será a redução da luz refletida das superfícies brancas no espaço, resultando em maior absorção de radiação térmica e acelerando ainda mais o processo de derretimento. O ponto de inflexão da Groenlândia é o momento em que a conclusão do processo de derretimento se tornará inevitável – mesmo em um cenário de fim das emissões de gases de efeito estufa.
Outros pontos de inflexão importantes são criados pela penetração de água do mar sob as geleiras em derretimento na Antártica Ocidental, pelo enfraquecimento do sistema de correntes no Oceano Atlântico (ou seja, a Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico, ou AMOC) e pela liberação de uma grande quantidade de metano devido ao aquecimento do solo congelado na Sibéria. Como Avigdor Lieberman gosta de dizer: “Nada de bom nos ameaça.”
Um dos aspectos mais preocupantes dos pontos de inflexão é que nada de drástico acontece quando eles são ultrapassados. Os danos continuam de um ano para o outro, e somente em retrospectiva é possível fazer os cálculos e identificar o ponto exato em que ainda era possível detê-los. Os cientistas acreditam que devemos fazer um esforço massivo e intransigente para que não descubramos tarde demais que alguns desses pontos de inflexão já foram ultrapassados.
Artigos relacionados
- NIR HASSON: A maioria dos israelenses não acredita em mudanças climáticas
- ALUF BENN: Nem o dia 7 de outubro, nem a guerra com o Irã: nada pode influenciar os eleitores israelenses
Se Bolsonaro Jr. tivesse vencido as eleições e o ritmo de devastação das florestas tivesse permanecido o mesmo que durante o governo de seu pai, cerca de 50.000 quilômetros quadrados seriam destruídos em quatro anos – um cenário que, segundo cientistas, poderia levar a floresta a um ponto crítico.
Isso significa que devemos parar de sobrecarregar a atmosfera com gases de efeito estufa adicionais, para o que devemos substituir nossas fontes de energia, mudar a forma como cultivamos alimentos, reabilitar os sistemas naturais que absorvem dióxido de carbono da atmosfera, mudar a forma como nos deslocamos de um lugar para outro, consumir menos e assim por diante.
O desmatamento da floresta amazônica é um dos 16 pontos de inflexão citados, mas um fator o diferencia dos demais: neste caso, a humanidade está no controle, mais do que em outros. Somente na Amazônia podemos tomar medidas práticas para evitar ultrapassar o perigoso limiar – e não apenas por meio da redução das emissões de gases de efeito estufa.
O ponto de inflexão definitivo na Amazônia é definido como a situação em que a densa floresta tropical se transformará, secará e se tornará uma espécie de savana aberta. Caso isso aconteça, as vastas quantidades de CO2 armazenadas na vegetação da floresta serão liberadas na atmosfera; a Amazônia passará, assim, por uma transição de aliada que absorve carbono para inimiga que emite carbono e agrava o problema.
A Amazônia, assim como outros pontos críticos, é fortemente influenciada pelo aquecimento global. O aquecimento afeta todo o regime de chuvas, prolonga os períodos de seca e provoca grandes incêndios que destroem partes da floresta. E é aqui que entra em cena a situação peculiar da Amazônia: os seres humanos estão acelerando seu colapso por meio do desmatamento desenfreado, e podem retardá-lo se cessarem a derrubada massiva de árvores.
O desmatamento para a criação de gado e o cultivo de soja é um dos maiores perigos que ameaçam o futuro da Amazônia. Até o momento, 18% da área da floresta já foi desmatada. Segundo os estudos mais recentes, quando esse percentual chegar a 20% ou 25%, a floresta ultrapassará o ponto de inflexão e sua deterioração se tornará irreversível.
Este não é um cenário teórico. Uma pesquisa publicada na revista Nature em 2021, baseada em centenas de voos investigativos, constatou que no sudeste da Amazônia, a área de desmatamento mais intenso, a floresta já emite mais carbono do que absorve. Se isso ocorrer em toda a Amazônia, a humanidade perderá uma de suas ferramentas mais importantes na luta para conter a crise climática.
Sob o governo de Bolsonaro pai, o destino da Amazônia parecia estar selado. O desmatamento ilegal se intensificou e atingiu uma área de mais de 13.000 quilômetros quadrados em 2021. Se Bolsonaro filho tivesse vencido as eleições e o ritmo de devastação florestal tivesse permanecido o mesmo do governo do pai, cerca de 50.000 quilômetros quadrados seriam destruídos em quatro anos – um cenário que, segundo cientistas, poderia levar a floresta a um ponto de inflexão.
Lula provou nos últimos quatro anos que é possível deter a destruição da floresta amazônica e até mesmo começa a falar sobre sua recuperação. Proteger a Amazônia é uma tarefa complexa, tanto do ponto de vista jurídico quanto econômico. A luta foi liderada por Marina Silva, ministra do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas, e seu vice, João Paulo Capobianco. Lula agradeceu a ambos pessoalmente em seu discurso de vitória no domingo.
O método que eles têm utilizado baseia-se em satélites que detectam novos casos de desmatamento. Quando identificados, o governo decreta a expropriação das terras em questão, proíbe a comercialização de seus produtos e impede a concessão de crédito bancário para investimentos nessas áreas. Ao mesmo tempo, o governo recompensa as autoridades locais que protegem a floresta e fortaleceram a situação jurídica dos povos indígenas.
Esses esforços jáderam frutos. Lula afirmou que 2026 seria o quarto ano consecutivo em que se registraria uma diminuição na escala do desmatamento. De fato, a quantidade de árvores derrubadas caiu para o nível mais baixo desde o início do monitoramento oficial da floresta tropical, em 1988. Ao todo, 3.335 quilômetros quadrados de terra foram desmatados este ano – um quarto da quantidade anual atingida no pico durante o governo Bolsonaro. Além disso, Lula se comprometeu não apenas a acabar com o desmatamento até 2030, mas também anunciou um plano de reflorestamento de grandes áreas: 120.000 quilômetros quadrados até 2030 e 180.000 quilômetros quadrados até 2050.
A vitória de Lula tem uma importância adicional para os nossos filhos: pode impulsionar a diplomacia climática – um campo em declínio desde a ascensão de Donald Trump, que nega a própria existência de uma crise climática e retirou os Estados Unidos de acordos internacionais destinados a combatê-la. O ano passado marcou o 10º aniversário do Acordo de Paris, que deveria ter sido o primeiro passo rumo a uma política coerente para limitar o aumento da temperatura média global a 1,5 graus Celsius.
Entre as conquistas do Acordo, destacava-se a redução da taxa de emissões. No entanto, o décimo aniversário do acordo foi um momento preocupante, quando se constatou que a meta de 1,5 graus já tinha sido ultrapassada. Mesmo no cenário mais otimista, o aquecimento atingirá o pico de 1,7 graus. As consequências para a Humanidade e para os ecossistemas do planeta são simplesmente terríveis.
No entanto, a vitória de Lula traz motivos para esperança. “Vamos ensinar ao mundo como se faz política climática”, afirmou no seu discurso de vitória. Suas conquistas impulsionam uma revolução energética que está ocorrendo não apenas no Norte Global, mas também no Nepal, na Etiópia e em outros países, juntamente com novas iniciativas para fortalecer o compromisso com uma política que combata a crise climática.
Nada disso nos salvará dos desastres que se avizinham. Mas, por um instante, é possível ter esperança de que chegará o dia em que a curva de emissões começará a declinar, as florestas tropicais voltarão a prosperar e a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera começará a diminuir, pela primeira vez desde o início da Revolução Industrial, há 250 anos.



