Do cessar fogo à paz

Discurso  do escritor israelense David Grossman, veterano ativista do Movimento PAZ AGORA e principal orador na manifestação popular pacifista realizada em Tel Aviv, 16/08/2014 

Do cessar fogo à paz

 

Estive nesta mesma praça há dois dias, na manifestação em apoio aos moradores do Sul. Quis estar com eles, ouvir sobre suas vidas duras. Havia muitos oradores por aqui e a maioria dizia palavras fortes e comoventes. Todos diziam algo como: “As coisas não podem continuar assim!”

Eu os escutava enquanto outros diziam coisas como “Deixe o Exército vencer!” e “Deixe o Exército acabar com eles!” e “Chegou a hora de eliminar o Hamas!”

Pensava que essas seriam pessoas experientes e sofisticadas, do tipo que sabe que nas atuais circunstâncias tal desejo não é verossímil – o que é comprovável por tudo o que aconteceu nesta guerra. Mas, ninguém lhes está mostrando outro caminho ou oferecendo esperança por um futuro melhor. Não restara nada a eles a não ser gritar numa desesperança crescente: “Deixe o Exército vencer!”

 

Praça Rabin - Tel Aviv, 16/08/2014

Pacifistas de Israel se manifestam na Praça Rabin – Tel Aviv, 16/08/2014

 

 

 

Não existem imagens de vitória nesta guerra. Em nenhum dos lados. Não há imagens de vitória, apenas visões de destruição, de morte e de sofrimento indescritível. Cada imagem deste campo de batalha miserável é a da profunda derrota de dois povos, que pouco aprenderam a falar um com o outro, mesmo após um século de conflito, em alguma linguagem fora da violência.

Nas atuais circunstâncias, sob os limites existentes – os limites da força, da moralidade, da pressão internacional – não há solução militar para o conflito entre Israel e Hamas!

 

Não existe solução militar que traga fim ao sofrimento dos moradores do Sul, ao terrível medo em que vivem. Não há solução militar para a angústia dos palestinos em Gaza.

Em resumo: até que não se solucione o sufocamento do povo de Gaza, nós em Israel tampouco seremos capazes de respirar livremente.

 

Não mais um cessar-fogo limitado, local e restrito, mas um esquema para uma mudança nas relações entre as partes – um plano grande e generoso, de visão ampla, contendo propostas para uma melhoria genuína nas vidas dos moradores de Gaza, para reviver suas esperanças por um futuro melhor e oferecer um sentimento de auto respeito e dignidade humana.

Claro que é possível barganhar sobre cada pequeno parágrafo, sobre dez caminhões a mais ou a menos atravessando a passagem, sobre um quilometro a mais no espaço autorizado para a pesca em Gaza.  Mas o que precisa mudar, após esta guerra, é a forma de encarar as coisas.

Para mim, esta é uma das principais razões pela qual estamos reunidos aqui nesta Praça Rabin. Para recordar aos que negociam em nosso nome com os palestinos no Cairo que, mesmo que as pessoas de Gaza sejam inimigas hoje, serão sempre nossos vizinhos.

Nós sempre viveremos lado-a-lado e isto tem significado especial, pois a derrota de meu vizinho não é necessariamente a minha vitória. E o bem-estar do meu vizinho não implica no fim do meu bem-estar.

Mas, acima de tudo, reunimo-nos aqui nesta noite para demandar que o principal dispositivo, no acordo ora discutido no Cairo, seja o seguinte: que após a estabilização do cessar-fogo, Israel e a Autoridade Palestina, representada pelo governo de unidade palestino, abrirão conversações diretas com o objetivo de trazer a paz entre os dois povos.

É como tem que ser, sem hesitação, sem gaguejar, sem pesares. Porque se, após uma guerra como esta, após seus terrores e seus resultados, Israel não promover tal passo, existirá apenas uma explicação: que Israel prefere a certeza de repetidas guerras aos riscos envolvidos nos compromissos que possam trazer a paz. E saberemos que o atual líder de Israel não está disposto, não arrisca entrar na trilha da paz porque teme pagar o preço, especialmente o da retirada da Cisjordânia e de evacuar os assentamentos.

Amigos, este momento de decisão pode chegar amanhã ou talvez no dia seguinte, ou daqui a um mês. Mas, de repente, talvez descubramos que está muito próximo. Será um tipo de teste que nos mostrará, da forma mais cristalina, se Israel está, com toda vontade, tentando chegar à paz ou se procura uma nova guerra.

 

82 mil soldados de reserva participaram da guerra. Alguns deles talvez estejam aqui hoje como civis. Inúmeras vezes nós os ouvimos dizer às câmeras e microfones: “voltaremos a nos ver em um ou dois anos…”

Tais declarações são muito tristes. É claro para esses jovens, com uma horrível certeza, que cedo ou tarde serão sugados novamente para este inferno. É terrível, terrível escutar jovens com toda a vida pela frente, gente com coragem para entrar em casas e túneis minados, ouvir que estão dispostos a aceitar, como um mandamento divino, que sua própria vida só lhes está emprestada até a próxima data de vencimento.

Não é menos terrível ver como tantos israelenses permanecem passivos, com um governo que por anos não fez praticamente nada para solucionar o conflito. Como é, diga-me, como é que nós, os filhos e cidadãos de um Estado que em todas outras áreas de sua vida é empreendedor, criativo e inovador…. Como é que concordamos, nesta área mais fatídica de nossa existência, em ser colaboradores da desesperança e do fracasso?

David Grossman 16/10/2014

David Grossman – 16/10/2014

Caros amigos, chegou a hora de acordar. Esta guerra expôs, talvez mais claramente do que nunca, os processos perigosos que estão caindo sobre Israel por causa da desesperança, por causa do medo, por causa de sentimento de que não haja saída.

O tempo chegou para que despertemos e entendamos que, enquanto nós dormíamos, coisas estiveram acontecendo aqui. Irromperam o chauvinismo, o fanatismo e o racismo. Sem vergonha. De uma vez.  Eles conseguiram impor uma ditadura do medo sobre amplas faixas do público.

Nenhuma palavra de condenação veio da boca do primeiro-ministro nem de qualquer outro ministro de destaque… Será muito difícil dominar essas forças da escuridão. Elas já estão aqui.

Estas forças fascistas são acompanhadas por outras que as nutrem e se nutrem delas. Grandes diferenças sociais, pobreza, anos de discriminação e corrupção.

Amigos, todas estas coisas criam uma atmosfera de desintegração dos laços que devem manter uma sociedade saudável. São túneis que minam a frágil democracia de Israel.

São precisamente os fenômenos e processos que possivelmente muito em breve, mais breve do que pensamos, podem transformar Israel de um Estado progressista, com a face voltada para o futuro, em um lugar extremista, militante, xenofóbico num país pária.

Quero dizer aqui algo para os que passaram o último mês exaltando a “força interior de nossa nação”. A força interior da nossa nação significa, entre outras coisas, entender que os cidadãos árabes de Israel estão sofrendo atualmente uma severa e intolerável aflição. Eles veem sua gente – às vezes seus próprios familiares – ser morta e ferida aos milhares. Às vezes, a pessoa que atira no seu parente é o filho do seu próprio patrão ou algum trabalhador ao lado.

E aquele que se gaba de que nós judeus israelenses somos a nação mais humana, os mais sensíveis aos problemas dos outros humanos, por favor explique como é que negamos a cidadãos árabes de Israel, médicos e enfermeiras que cuidam de nós em nossos hospitais, trabalhadores, mecânicos e estudantes, cozinheiros, artistas e trabalhadores de construção, que conosco vivem e com os quais viveremos, como recusamos permitir-lhes, ao menos, o direito de protestar? Nossa nação está tão fragilizada que não tem espaço para essas expressões humanas de ódio e pesar?

Amigos, vocês que vieram em grande número a esta praça, e que estão em número ainda maior em casa. Vocês, com todos seus pontos de vista, todos os partidos, todas orientações religiosas. Suas vidas estão coladas e entrelaçadas com a vida do Estado de Israel.   Aos seus olhos – como aos meus – este é o lugar mais significativo para viver e para criar nossos filhos!

A vocês que talvez pertençam à maioria política hoje dominante, mas que sentem que um grande equívoco está tomando forma aqui, numa escala  histórica –  todos vocês que percebem como, pelas nossas próprias mãos, estamos perdendo o nosso lar para o fanatismo e o ódio que nos deixou paralisados, num impasse de 55 anos que impede de nos salvarmos –  eu lhes digo:

Os alarmes que soaram em nossos ouvidos nesta última guerra nos impelem a forjarmos novas parcerias para quebrar o impasse, superando os interesses estreitos de nossos campos.

Eu acredito que ainda existe uma massa crítica de gente aqui, pessoas da ampla maioria israelense, pessoas da esquerda e da direita, religiosos e seculares, judeus e árabes, de todas comunidades e classes, gente que não suporta mais violência e extremismo, com sabedoria e compromisso com a vida, moradores de Tel Aviv e Ofra e Ashkelon e Jerusalém e Sakhnin e Be’er Sheva, que ainda são capazes de se unir – com inteligência e sem ilusões – em torno de três ou quatro pontos de acordo.

Por exemplo, que Israel é o Lar Nacional do Povo Judeu e um Estado Democrático, onde todos os seus cidadãos têm direitos absolutamente iguais. E que fará todos os esforços para resolver o conflito com os seus vizinhos.

Três ou quarto pontos que são o coração do assunto, um tipo de teste que todo cidadão israelense pode responder para si mesmo quando define onde está e a qual campo pertence.

Se esta noite produzir tal chamado, que este seja recebido por ouvidos atentos, junte forças e mobilize cada vez mais pessoas.

Esta é a nossa opção!

Esta é a nossa esperança!

 

 

Discurso  do escritor israelense David Grossman, veterano ativista do Movimento PAZ AGORA e principal orador na manifestação popular realizada em Tel Aviv, 16/08/2014 – tradução livre de Moisés Storch para o PAZ AGORA|BR.

Veja a íntegra em hebraico

Somos muitos mais do que pensamos, mais do que acreditamos

 

fonte: http://www.ynet.co.il/articles/0,7340,L-4559271,00.html

Texto de:
ISRAEL DIZ "SIM" PARA UM ESTADO PALESTINO

Desliguem o Gerador da Violência

 

Um Israel sem Ilusões

Israelenses e palestinos estão aprisionados no que parece cada vez mais com uma bolha, selada hermeticamente. Ao longo dos anos, dentro dessa bolha, cada lado tem desenvolvido justificativas sofisticados para todos os atos cometidos.

Israel pode alardear que nenhum país no mundo se absteria de responder a incessantes ataques como os realizados pelo Hamas, ou à ameaça representada pelos túneis escavados a partir da Faixa de Gaza para dentro de Israel. O Hamas, por outro lado, justifica seus ataques contra Israel, argumentando que os palestinos ainda estão sob ocupação e que os moradores de Gaza estão definhando sob o bloqueio imposto por Israel.

Dentro da bolha, quem pode criticar os Israelenses por esperararem que seu governo faça tudo o que puder para salvar as crianças do kibutz Nahal Oz, ou qualquer uma das outras comunidades adjacentes à Faixa de Gaza, do ataque de uma unidade do Hamas que possa emergir de um buraco na terra? E qual é a resposta aos habitantes de Gaza que dizem que os túneis e foguetes são as suas armas que restaram contra um poderoso Israel? Nesta bolha cruel e desesperada, ambos os lados estão certos. Ambos obedecem à “lei da bolha” – a lei da violência e da guerra, da vingança e do ódio.

Mas a grande questão, à medida que se intensificam, não é sobre os horrores que ocorrem todos os dias dentro da bolha. É a seguinte: Como ainda estamos juntos sufocados dentro desta bolha há mais de um século? Esta questão, para mim, é o ponto crucial deste último ciclo sangrento.

Como não posso pedir ao Hamas, nem pretendo compreender a sua linha de pensamento, peço aos líderes do meu próprio país, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e seus predecessores: Como vocês podem ter desperdiçado tantos anos desde o último conflito sem iniciar o diálogo, sem mesmo fazer o menor gesto em direção ao diálogo com o Hamas, sem tentar mudar a nossa realidade explosiva?

Por que, ao longo destes últimos anos, Israel tem evitado negociações sensatas com os setores moderados e mais conversáveis do povo palestino – o que também poderia ter servido para pressionar o Hamas? Por que vocês ignoraram, por 12 anos, a iniciativa da Liga Árabe que poderia ter recrutado estados árabes moderados com o poder de impor, talvez, um acordo com o Hamas? Em outras palavras: Por que é que os governos israelenses têm sido incapazes, por décadas, de pensar fora da bolha?

A rodada atual entre Israel e Gaza é de alguma maneira diferente. Por trás da belicosidade de uns poucos políticos que alimentam as chamas da guerra, atrás do grande show de “unidade nacional” –  em parte autêntico, mas na maior parte manipulador quanto à condução desta guerra, direcionando a atenção de muitos israelenses para os mecanismos que mentem com base no “patriotismo” e repetição mortal da “situação”.

Muitos israelenses que se recusaram a reconhecer o estado real das coisas, estão agora vendo o ciclo de violência fútil, vingança e contra-vingança. E estão vendo o nosso reflexo: uma imagem clara e sem adornos de Israel, como um Estado brilhantemente criativo, inventivo e audacioso que por mais de um século foi movendo o Gerador de um conflito que poderia ter sido resolvido anos atrás.

Se colocarmos de lado, por um momento, as lógicas que usamos para nos apoiar contra a simples compaixão humana pela a multidão de palestinos cujas vidas foram destruídas nesta guerra, talvez sejamos capazes de ver como eles, também, movem o Gerador de Violência bem do nosso lado, em conjunto, em infinitos círculos cegos, num desespero anestesiante.

Eu não sei o que os palestinos, incluindo os moradores de Gaza, pensam realmente neste momento. Mas tenho a sensação que Israel está crescendo. De modo infeliz, doloroso, rangendo seus dentes, e mesmo assim amadurecendo – ou, melhor, sendo forçado a isso. Apesar das declarações beligerantes de políticos exaltados e especialistas, além da investida violenta de bandidos da direita contra qualquer pessoa com opiniões diferentes, a opinião dominante do público Israelense está ganhando sobriedade.

A esquerda está cada vez mais consciente do potente ódio contra Israel – um ódio que não surge apenas a partir da ocupação – e do vulcão fundamentalista islâmico que ameaça o país. Também reconhece a fragilidade de qualquer acordo que possa ser alcançado aqui. Mais pessoas de esquerda entendem agora que os medos da direita não são mera paranóia, que eles precisam lidar com uma ameaça real e crucial.

Espero que, à direita, também, exista agora um reconhecimento maior – mesmo se for acompanhado por raiva e frustração – dos limites da força; do fato de que, mesmo um país poderoso como o nosso, não pode simplesmente agir como quiser; e que na época em que vivemos não há vitórias inequívocas, apenas uma “ilusão de vitória”, na qual podemos facilmente ver a verdade: que na guerra há apenas perdedores. Não há solução militar para a angústia real do povo palestino e, enquanto a asfixia sentida em Gaza não for aliviada, nós em Israel tampouco seremos capazes de respirar livremente.

Os israelenses sabem disso há décadas, e por décadas temos nos recusado a realmente compreendê-lo. Mas, talvez, nesta vez entendamos um pouco melhor. Talvez tenhamos um vislumbre da realidade de nossas vidas a partir de um ângulo ligeiramente diferente. É um entendimento dolorido e ameaçador, mas há que poderia ser o início de uma mudança. Pode despertar para os Israelenses o quanto é crítica e urgente a paz com os palestinos, e como esta também pode servir de base para estabelecer a paz com os outros Estados Árabes.

 

Bibi e Lieberman não nos representam

Bibi e Lieberman não nos representam

Pode-se trazer de volta a paz –um conceito tão desacreditado aqui nos dias de hoje – como a melhor opção, a mais segura, disponível para Israel.

Será que uma compreensão semelhante emergirá do outro lado, no Hamas? Não tenho como saber. Mas a maioria palestina, representada por Mahmoud Abbas, já decidiu a favor da negociação e contra o terrorismo. Será que o governo de Israel, depois desta guerra sangrenta, depois de perder tantos jovens e pessoas queridas, continuará a evitar e ao menos tentar essa opção? Será que continuará a ignorar o Sr. Abbas como elemento essencial para qualquer resolução? Será que continuará descartando a possibilidade de um acordo com palestinos da Cisjordânia, que poderia gradualmente conduzir a um relacionamento melhor com os 1,8 milhões de moradores de Gaza?

Aqui em Israel, assim que a guerra acabar, devemos começar o processo de criação de uma nova parceria, uma aliança interna que deverá alterar o conjunto de grupos de interesses estreitos que nos controla. Uma aliança daqueles que compreendem o risco fatal de continuar a alimentar o Gerador de Violência.  Aqueles que compreendem que nossas fronteiras não mais separam judeus de árabes, mas as pessoas que anseiam por viver em paz daqueles que se alimentam, ideologicamente e emocionalmente, da continua violência.

Acredito que Israel ainda tenha uma massa crítica de pessoas, tanto de esquerda como de direita, religiosos e seculares, judeus e árabes, capaz de se unir – com sobriedade e sem ilusões – em torno de alguns pontos de concordância para resolver o conflito com nossos vizinhos.

Há muitos que ainda “lembram do futuro” (uma frase estranha mas precisa neste contexto) – o futuro que desejam para Israel e para a Palestina. Há ainda – mas quem sabe por quanto tempo – pessoas em Israel que entendem que se afundarmos na apatia de novo, estaremos deixando a arena para aqueles que nos arrastarão, febrilmente, para a próxima guerra, incendiando qualquer ponto de conflito na sociedade.
Se não fizermos isso, iremos todos – Israelenses e palestinos, com os olhos vendados, as cabeças curvdas em estupor, colaborar com a desesperança – continuando a alimentar o Gerador de Violência –  que esmaga e corrói nossas vidas, nossas esperanças e a nossa humanidade.

DAVID GROSSMAN – veterano ativista do Movimento PAZ AGORA - é o autor, mais recentemente, de “Falling Out of Time” (Caindo fora do Tempo”). Seus outros livros incluem “Até o fim da Terra”, (“To the end of the Land”), “Morte como um modo de vida” (“Death as a Way of Life”) e “O Vento Amarelo (“The Yellow Wind”).

 

[ Publicado originalmente em 27 de julho de 2014 no  The New York Times e traduzido por Moisés Storch para o PAZ AGORA|BR (www.pazagora.org) ]

 

 

Texto de:
David Grossman em manifestação pró-paz

Novo livro de David Grossman: "Fora do Tempo"

 

Entrevista a Morris Kachani:
‘Há cada vez menos humor em Israel’

 

Em entrevista à Folha, o escritor israelense David Grossman, 58, tenta explicar do que é feito seu novo livro, “Fora do Tempo“, lançado pela Companhia das Letras.

Em agosto de 2006, a dois dias de um cessar-fogo que encerraria a guerra com o Líbano, um foguete lançado pelo braço armado do Hezbollah atingiu o tanque em que Uri, 20, filho caçula de Grossman, então sargento do Exército israelense, estava com outros companheiros.

Todos morreram.

Leia os principais trechos da entrevista.

David Grossman em manifestação pró-paz

David Grossman em manifestação pró-paz

Folha – O sr. ficou satisfeito com o livro?

David Grossman - Lembro que uma das primeiras sensações após a perda do Uri foi de exílio. Você não se reconhece mais. Ao menos eu tentei contar com minhas palavras, não fiquei totalmente paralisado. Foi um ato de vontade.

 

E por que os cinco anos de silêncio do protagonista em “Fora do Tempo”?

As palavras são superficiais. Após a morte de Uri, em vez de querer escrever, eu sentia o desejo de correr quilômetros e quilômetros até que ficasse exausto.

Mas chega um momento em que você percebe que tem algo a falar. Somos humanos, e humanos precisam de palavras para tocar a realidade interna e externa.

 

O que mudou na sua vida?

É muito profunda a dor. Não quero comparar com outras, mas talvez a diferença neste caso seja que ela não é algo que apenas acontece. Ela vira parte de você.

Mas este não é um livro apenas sobre perdas e mortes, é também sobre a intensidade da vida.

 

Por que a ficção, e não o jornalismo?

Artigos e ensaios são mais objetivos, vão diretamente ao ponto. Mas o enfoque literário é mais profundo, não oferece respostas ou dicotomias fáceis.

 

O que o sr. pensa do Exército israelense?

Israel precisa de um Exército forte, pois esta é uma região violenta e imprevisível. Mas o Exército sozinho não resolve nada, a paz é o melhor caminho.

 

E como o sr. avalia a sociedade israelense?

Devido à tensão política, cada vez há menos humor em Israel. As pessoas acabam agindo de maneira extrema, com mais agressividade e menos senso de humor ou autoironia.

Não gosto disso. A autoironia sempre fez parte da cultura judaica.

 

E a religião?

Em termos culturais, eu sou muito judeu. Já tive a oportunidade de viver fora de Israel mais confortavelmente. Mas recusei, porque Israel é o lugar mais relevante para um judeu viver. É onde o antigo e o moderno convivem de maneira
mais dramática.

 

O sr. é religioso?

Estudo a Bíblia semanalmente com três pessoas, em sessões de quatro horas, há 22 anos. Lemos como antigamente, com lupa. De quatro ou cinco semanas para cá, estamos estudando os três primeiros versos sobre a criação.

 

Mas o sr. acredita em Deus?

Não, ao mesmo tempo sou absolutamente secular. Sagrada para mim é a existência humana.

 

……………………………….

Crítica de Noemi Jaffe

“Fora do Tempo” parte da ausência para falar da vida

Quando um sentimento é tão forte que se torna impossível falar sobre ele, porque nenhuma palavra da língua é capaz de expressá-lo, talvez o melhor que o humano possa fazer é deixá-lo falar.

É assim em “Fora do Tempo”, de David Grossman. Aqui, é a ausência que fala; os habitantes de uma cidade, todos eles órfãos de um filho, são não mais do que porta-vozes da língua da morte.

Não é um “homem”, mas a própria morte quem diz: “Cortarão minha língua/ os cacos de vidro/ do nome dele/ em sua boca”.

Ao buscarem, em procissão, um lugar chamado “lá”, vários moradores de uma cidade se reúnem e, tentando encontrar as palavras que possam dizer sua perda, acabam sendo ditos por elas.

O homem, o duque, a mulher, o caminhante, o anotador dos anais da cidade, um centauro, uma parteira, um sapateiro, uma mulher muda, um velho professor e a mulher do anotador dos anais da cidade, alegóricos e individuais, carregam o fardo comum de terem perdido um filho, enquanto buscam esse lugar que não conhecem.

Nesse processo, descobrem, paradoxalmente, que o luto é aquilo que eles guardam de mais vivo.

O centauro ironiza o anotador dos anais da cidade dizendo que ele tem a sorte de “espiar quanto quiser dentro do inferno dos outros, sem precisar meter nem a ponta de (seu) dedinho branquelo”.

Trata-se, certamente, de uma ironia ao próprio ofício do escritor, que, ao falar sobre o sofrimento dos personagens, acomoda-se num papel de mero observador.

Acontece que, como o autor, o anotador dos anais da cidade também perdeu um filho e, nesse caso, todos os contornos se perdem.

A morte cessa todos os juízos fáceis. Ao final, estranhamente, o livro lembra “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto.

Como Severino, que em meio a tanta morte acaba encontrando um nascimento, os personagens perceberão que o luto também pode morrer, para dar finalmente voz à palavra da vida.
NOEMI JAFFE  é doutora em literatura brasileira pela USP e autora de “Quando Nada Está Acontecendo” (Martins)

Livro

FORA DO TEMPO
AUTOR David Grossman
EDITORA Companhia das Letras
TRADUÇÃO Paulo Geiger
QUANTO R$ 34,50 (176 págs.)
AVALIAÇÃO ótimo 

[ artigos publicados na Folha de São Paulo em 24/08/2012 ]

+ DAVID GROSSMAN AQUI

assinaturas Amós Oz e David Grossman

PAZ AGORA – Lutando pelo futuro de Israel


Caro amigo de Israel e da Paz,

De onde estamos, como veteranos ativistas na luta de Israel para se definir, este ultimo verão foi um tempo surpreendente. O que começou como um simples protesto contra o preço do queijo cottage evoluiu para manifestações de massas, por todo Israel, contra o aumento do custo de vida e a deterioração do nosso sistema de bem-estar social.

As centenas de milhares de jovens israelenses que tomaram as ruas e moraram em barracas para exigir um futuro melhor para o seu país compartilharam um profundo descontentamento com a inépcia de nossos governantes e seu desprezo pelo bem comum.

Amós Oz - escritor e ativista do PAZ AGORA

Amós Oz - escritor e ativista do PAZ AGORA

Como líderes do SHALOM ACHSHAV, o movimento israelense PAZ AGORA, temos esperança no sucesso sem precedentes das manifestações sócio-econômicas do “verão israelense”. Recebemos uma enorme inspiração da energia e força demonstrada por esses israelenses motivados, que exigiram mudanças no país que amam.

Este é o modelo que o PAZ AGORA sempre trabalhou - pela mudança do país que amamos. O PAZ AGORA é a voz racional que clama pelas mudanças que nos trarão um acordo de paz, negociado com os  palestinos.

Defendemos a Solução de Dois Estados – Israel e Palestina – porque esta é a melhor esperança para que Israel se mantenha, como Estado Judeu e como democracia. Por outro lado, insistimos em garantias de segurança para Israel, porque nenhum israelense deixaria o futuro do país em risco.

O PAZ AGORA já se manifestava por mudanças em Israel muito antes dos protestos desse verão e de as “cidades de barracas” terem sido erguidas em Jerusalém, Tel Aviv e Haifa. Agora que o verão acabou e as tendas (que esperamos rever em breve) se foram, o PAZ AGORA ainda está lá. E lá ficaremos – até que nosso país consiga a paz.

David Grossman - escritor e ativista do PAZ AGORA

David Grossman - escritor e ativista do PAZ AGORA

Amigo do PAZ AGORA,

As manifestações sócio-econômicas do “verão israelense” trouxeram à tona que as dificuldades do país são em parte um sintoma da atitude do governo Netanyahu de boicotar o caminho da  paz.

O PAZ AGORA demonstrou o absurdo de o governo gastar bilhões de dólares construindo assentamentos, em terras que no final terão que ser evacuadas para dar lugar   a um Estado Palestino.

O primeiro-ministro Netanyahu chegou a concordar que um Estado Palestino é necessário para a paz. Mesmo assim, a construção de assentamentos continua.

Ainda que muitos israelenses prefiram fechar os olhos e mudar de assunto, o PAZ AGORA empenha tempo e recursos para registrar a expansão da colonização por Israel. O Projeto de Monitoramento de Assentamentos do PAZ AGORA documenta e publica informações sobre os assentamentos, dados acurados a ponto de diplomatas, jornalistas, pesquisadores – e até mesmo autoridades do governo de Israel – basearem-se neles.

Isto torna o PAZ AGORA o inimigo aos olhos dos colonos

Então eles nos incluíram na sua campanha de Price Tag.

Price Tag” é o nome que jovens colonos extremistas dos territórios ocupados deram aos seus atos violentos para impedir as autoridades legais israelenses de remover edificações construídas ilegalmente, em assentamentos e postos avançados na Cisjordânia.

Usando o argumento de que, caso essas construções ilegais sejam demolidas, alguém no outro lado terá que pagar o preço, os colonos têm atacado palestinos e suas propriedades, incendiado mesquitas e enfrentado com violência soldados e policiais israelenses.

Recentemente, a ofensiva de price tag atravessou a Linha Verde para dentro de Israel. Durante as grandes festas, uma mesquita em Tuba Zangariya, aldeia beduína na Galiléia – na qual muitos dos moradores servem no Exército de Israel – foi queimada. Lá perto, foram encontradas pixações com as palavras “Price Tag”.  O próprio ministro da segurança interna de Israel chamou isto de “ato terrorista”.

Em meados de setembro, a casa de Hagit Ofran, ativista do PAZ AGORA foi pixada. Entre as palavras grafitadas: “Price Tag” e “PAZ AGORA – O Fim Está Próximo”.

No início de outubro, um soldado de 19 anos foi detido por ter feito seguidos telefonemas a Yariv Oppenheimer, secretário-geral do PAZ AGORA, ameaçando matá-lo.

Nossos oponentes têm uma visão muito diferente da nossa sobre o futuro de Israel. Para realizar seu sonho de ‘Grande Israel’ estão dispostos a sacrificar o caráter judeu e democrático do nosso país.

Não perder a esperança!

Mas, apesar de todos os esforços dos nossos oponentes, ainda existe esperança numa solução viável de Dois Estados. E essa esperança – em grande parte – é devida ao PAZ AGORA.

Israel precisa da permanente liderança do PAZ AGORA para pressionar o governo a retornar a negociações diretas com os palestinos agora.

É necessária a liderança consciente do PAZ AGORA para apontar as injustiças da ocupação.

A voz do PAZ AGORA é necessária para que os israelenses entendam que o tempo se está esgotando para uma solução de Dois Estados.

O Movimento PAZ AGORA é necessário para nos lembrar de que o nosso crescente isolamento internacional é resultado direto da recusa dos nossos governantes em acabar com a ocupação sobre os palestinos.

Sinceramente,

assinaturas Amós Oz e David Grossman 

LUTANDO PELO FUTURO DE ISRAEL
LUTANDO PELO FUTURO DE ISRAEL

 

 

A PAZ AINDA É POSSÍVEL!

 

O PAZ AGORA e os Amigos Brasileiros do PAZ AGORA  precisam do seu apoio para propagar o ideal de  uma paz justa e duradoura no Oriente Médio com a coexistência de árabes e  judeus em dois Estados Soberanos – Palestina e Israel.

 

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[ Publicado pelo APN - Americans for Peace Now em (09/12/2011) e traduzido pelo PAZ AGORA|BR ]

Jerusalém 24/07/2011

Uma janela para um futuro diferente – חלון לעתיד חדש

Na tarde do sábado de 30 de julho, enquanto nos manifestávamos em Jerusalém, olhei ao meu redor e vi um rio de gente que percorria as ruas. Havia milhares de pessoas que levaram anos sem fazer ouvir suas vozes, que haviam abandonado toda esperança de mudança, que se haviam fechado em seus problemas e sua desesperança.

” Pela primeira vez em décadas, há um programa comum humano e cívico ”…” A ocupação é o que mais ajuda o fracasso do sistema de alerta social “…” Faz tempo que não falamos entre nós e, mais anda, que não escutamos ”.

Não lhes foi fácil unir-se aos jovens ruidosos providos de alto-falantes. Quem sabe pela timidez própria de pessoas pouco acostumadas a levantar a voz, sobretudo em meio a um coro de gritos. Às vezes, tinha a impressão de que nos olhávamos assombrados e incrédulos, sem crermos em tudo o que saída de nossas bocas.

Éramos de fato aquela turba, aquela multidão indignada, que levantava o punho como havíamos visto fazer em Tunis, Egito, Síria e Grécia? Queríamos se-lo?  Falávamos sério quando gritávamos ” revolução! “?  O que ocorreria se o conseguíssemos e os laços que mantinham unida nossa frágil nação se desfizessem? E se os protestos e as paixões se transformassem em anarquia?

David Grossman

David Grossman

E então, depois que começamos desfilar, algo começou a percorrer nossas veias: o ritmo, a energia, o sentimento de unidade. Não uma unidade que nos intimidasse ou nos esmagasse. Era uma unidade heterogênea, diversificada, familiar e individual ao mesmo tempo, uma unidade que nos proporcionava um forte sentimento: aqui estamos, fazendo o que é devido. Finalmente.

Mas aí chegou a desolação: onde estivemos até agora? Como permitimos tudo isto? Como nos pudemos resignar a que o governo, eleito por nós, tenha convertido nossos sistemas de educação e saúde em um luxo? Por que não gritamos e protestamos, quando o Ministério de Economia esmagou os trabalhadores sociais em greve e, antes deles os incapacitados, os sobreviventes do Holocausto, os anciãos e os aposentados? Como é possível que, durante anos empurramos os pobres e os famintos para uma vida de humilhações sem fim, em refeitórios sociais e outras instituições de beneficência?

Como é possível termos abandonado os trabalhadores estrangeiros à mercê de pessoas que os perseguiam e os vendiam como escravos de todo tipo, inclusive sexuais? Por que nos acostumamos à rapina das privatizações, que provocou a perda da solidariedade, da responsabilidade, ajuda mútua, o sentimento de pertencer a uma mesma nação?

Certamente, semelhante apatia se deveu a muitos motivos, mas, na minha opinião, a ocupação é o fator que mais contribuiu para o fracasso dos sistemas de controle e alerta na sociedade israelense.

Os setores mais doentes e perversos da nossa sociedade saíram à superfície, enquanto nós, talvez por temor de enfrentar a realidade das nossas vidas, dedicávamo-nos com grande prazer a todo tipo de coisas concebidas para embrutecer nossos sentidos e ocultar esta realidade. De vez em quando, ao se olhar no espelho, alguns se sentiam satisfeitos pelo que viam. Outros estremeciam. Mas, mesmo estes últimos, diziam: bem, o que vai se fazer. Suspiravam e punham a culpa na “ situação ” [o conflito árabe-israelense], como se fosse o nosso destino ou um decreto das alturas.

Mais ainda, deixamos a TV comercial preencher o vazio da nossa consciência coletiva e passamos a nos definir em função de lutas pela sobrevivência e comportamentos depredadores.   A atacarmos uns aos outros sem piedade e a depreciar qualquer um que fosse mais fraco, o diferente, o menos belo, menos rico ou menos preparado.

Havia anos que não falávamos entre nós, e mais tempo ainda que não escutávamos. Ao fim e ao cabo, numa atmosfera de ganância e egoísmo, como não iríamos atacar os demais e pulverizá-los, se isto é precisamente o que nos ensinam a cada momento. Salve-se quem puder!

Quanto mais nos esgotávamos negando sem cessar a realidade, mais convidávamos a opressão, a manipulação e o embrutecimento de nossos sentidos. E nos fomos convertendo em vítimas de uma política secreta – e eficaz – de dividir para vencer.

De modo que uma coisa levou a outra, e nossas reflexões honradas sobre o destino o a fatalidade diminuíram até ficar em pelejar por “ quem ama o Estado de Israel e quem o odeia “,…  “ quem é leal e quem é traidor “,… ” quem é um bom judeu ”,   em vez de ” quem se esqueceu de que é judeu ”;  Qualquer discussão racional está hoje coberta por uma capa de sentimentalismo, o sentimentalismo patriótico e nacionalista do farisaísmo e o vitimismo. A possibilidade de fazer uma crítica inteligente da situação foi se reduzindo e Israel, que hoje  atua e se comporta com seus cidadãos de maneira totalmente contrária aos valores e ideais que, em outro tempo, davam-lhe seu caráter extraordinário e o oxigênio que respirava.

Jerusalém 24/07/2011

Jerusalém 24/07/2011

Não obstante, de repente, e contra todas as predições, algo se despertou. A gente esfrega os olhos e começa a se abrir a este algo, ainda indefinível e imprevisível, até indescritível, mas que está adquirindo forma através de slogans resgatados, como “o povo exige justiça social! ” e “ queremos justiça, não caridade ” , e outros sentimentos recuperados de épocas anteriores.

Existem no ar indícios de uma provável processo de cura, um ‘tikkun’ e, pela primeira vez em muito tempo, voltamos a nos respeitar, como cidadãos individuais e como povo de Israel.

Este despertar está cheio de força, mas também de ingenuidade, e nos pode embriagar. É tentador deixar-se levar pela euforia, ante tudo o que inspirou esta virada dos acontecimentos, nos iludirmos de que, uma vez mais, estamos derrubando uma velha ordem até seus pés. Mas não é exatamente isto: a velha ordem não estava tão mal. Teve suas grandes conquistas que, entre outras coisas, permitem que o movimento de protesto expresse suas aspirações e que pelo menos algumas delas se façam realidade.

Por isto é imperativo que esta luta utilize uma linguagem distinta da de outras lutas anteriores que este país já teve. Acima de tudo, a luta deve se basear no diálogo, para que sejamos sócios, e não agentes de interesses estreitos e egoístas; pessoas de princípios, e não oportunistas sectários. Para não vivermos segundo o versículo ” cada um em sua tenda, Israel “.

Esta é a única maneira para que este movimento siga tendo o imenso apoio da população com o qual tem contado até agora. O caráter ligeiramente confuso do movimento é precisamente o que faz possível que os distintos grupos reunidos conservem suas próprias opiniões políticas diferentes ao mesmo tempo que compartem – pela primeira vez em decênios- um programa comum humano e cívico, que nos torna orgulhosos de pertencer a esta comunidade. Quem, em Israel, pode permitir-se o luxo de renunciar a bens tão escassos?

Este movimento de protesto e seus ecos nos oferecem uma oportunidade de aproximação entre distintos elementos da sociedade que não se comunicavam há gerações: religiosos e laicos; árabes e judeus; membros de classes sociais distintas e distantes.

Neste processo de identificar o que tem em comum e o que podem conseguir, inclusive a direita e a esquerda podem empreender um diálogo mais realista e abrangente: por exemplo, sobre a apatia da esquerda ante os que tiveram que se realocar após a retirada de Gaza, uma ferida aberta entre os colonos. Tal diálogo talvez possa ainda salvar o que for possível do conceito de solidariedade, que um país em nossa situação não pode deixar desaparecer.

300.000 nas ruas de Tel Aviv

300.000 nas ruas de Tel Aviv

Em outras palavras, podemos encontrar este movimento de protesto nas palavras do poeta Amir Gilboa -” Um día, um homem desperta pela manhã e sente que é uma nação,  e começa a caminhar ” , e continuando como o poema: ” E a todos os que encontra pelo caminho, diz: “ Que a paz esteja contigo! ”.

É fácil criticar a evolução deste movimento recém-nascido e lançar dúvidas sobre ele. Sempre é mais simples encontrar motivos para não fazer algo audacioso e definitivo. Mas quem escutar as batidas dos corações dos manifestantes – não só no boulevard Rothschild e Tel Aviv, mas também nos bairros pobres do sul da cidade, e nos de Jerusalém, Ashdod, Haifa e Beit Shean- perceberá que se abriu uma janela para um futuro diferente.

Este é o momento propício para que aconteça algo assim e, para grande surpresa de todo o mundo, a gente, por fim, está verdadeiramente aderindo à causa. Talvez seja isto o que queria dizer a jovem que se aproximou de mim na manifestação de Jerusalém e me disse: “ Olhe. Ainda faltam líderes, mas o povo já está aqui “.

 [ Publicado no Yediot Achronot em 05/08/2011 e traduzido por Moisés Storch para o PAZ AGORA|BR ]

Texto de:
Liberdade à Síria!

Salvem os Sírios!

Intelectuais pedem à ONU ajuda ao povo sírio

Sete dos mais prestigiados escritores do mundo enviaram carta ao Conselho de Segurança, instando-o a aprovar uma resolução condenando a Síria pela violenta repressão aos seus cidadãos.

Salman Rushdie - Humberto Eco - Bernard Henry Lvy

« Salvem os Sírios ! »

 

Caros Embaixadores,

Estamos chamando a sua atenção para a dramática situação na Síria e para a proposta Resolução do Conselho de Segurança com respeito àquele país.

Estamos bem a par da situação na Síria, que foi submetida à sua atenção.

Cidades inteiras como Deraa, Homs, Lattaquié, Kamchli, Banyas, cujos nomes se tornaram familiares para todos nós, foram cortadas do mundo, privadas de eletricidade e comunicações telefônicas. Estas cidades são patrulhadas por tanques nas ruas e por helicópteros no ar, que atiram nas multidões, alvejam pessoas desde os telhados. Milícias irrompem em lares, um a um, sequestrando homens de quinze a oitenta anos.

Os Senhores certamente sabem os nomes dessas prisões, onde eles estão sendo detidos: Tadmor (Palmira) ; Palestina, Adra, Douma (Damasco) ; Sied Naya :o inferno na Síria. Os Senhores devem saber das torturas que esses milhares de homens sofrem. Os Senhores quase certamente sabem, e estão chocado ao saber, de como estudantes, democratas e cidadãos comuns são tratados, por todo o país. Pessoas que pedem pacificamente a dignidade e liberdade que jamais tiveram, ao preço de milhares de prisões e centenas de mortes.

A Síria do clã El-Assad é uma ditadura passada de pai para filho por mais de quarenta anos e que, com total impunidade, instilou medo no próprio coração de cada cidadão, usando meios bárbaros e pisoteando toda e qualquer lei humana. Milhões de cidadãos indefesos foram forçados à rebelião. Esta gente amigável e hospitaleira foi empurrada até seu limite e, com mãos nuas enfrentaram uma máquina de guerra, sabendo do alto preço que pagaria.

Nos últimos meses, as manifestações em Deraa, Homs, Kamchli, Banyas e Lattaquié acabaram em massacres pelo exército, milícias e serviço secreto. Entretanto, desconsiderando o terror e com grande coragem, os manifestantes, após enterrar seus mortos, recomeçariam no dia seguinte. Isto é admirável. Isto é monstruoso. Isto acontece por trás de portas fechadas, dentro de fronteiras seladas. Organizações humanitárias e imprensa internacional são banidas: « Silêncio ! Estamos atirando ! »

Liberdade à Síria!

Os Senhores e Senhoras Embaixadores conhecem, mais do que ninguém, a situação. E, neste mesmo momento, precisam tomar decisões. Na verdade, a comunidade internacional já começou a agir.

Alemanha, Reino Unido, França e Portugal propuseram uma Resolução condenando esta repressão, a qual deve ser submetida ao Conselho de Segurança das Nações Unidas, da qual suas quinze nações são atuais membros.

O resultado desta Resolução está nas suas mãos. Ela qualifica a repressão na Síria como ‘Crime Contra a Humanidade’. Não propõe sanções contra a Síria nem intervenção militar. Limita-se a condenar a repressão, abrindo caminho para investigações. Embora limitada, esta Resolução é necessária.

Senhores e Senhoras Embaixadores, pelo povo maltratado da Síria e pela sua luta pacífica pela liberdade, é essencial que aprovem esta Resolução.

Com a presente e unânime pressão internacional e o apoio do Conselho de Segurança, o governo sírio pode acabar cessando os massacres que impõe diariamente sobre seu povo, por todo o país, com total impunidade.

A opinião pública internacional, acima e além de sua diversidade, finalmente seria ouvida. Enviando uma mensagem ao mundo todo, proporcionando imenso conforto ao povo sírio, confirmando a influência moral do Conselho de Segurança e de cada um de seus países membros, todos tornando-se defensores da consciência universal !

Esperamos, fortemente, que a Resolução proposta seja submetida a exame e voto pelo Conselho de Segurança.  É sumamente imperativo obter, desde já, o maiso esforço pelos Senhores e Senhoras Embaixadores no Conselho de Segurança.

Seria trágico – e moralmente inaceitável – que, em função da ameaça de um eventual veto ou ocasional , esta proposta de Resolução abstenção não fosse examinada pela sua consciência e acabasse na gaveta do abandono.

Mui sinceramente,

Assinam :

Umberto Eco
David Grossman
Bernard-Henri Lévy
Amos Oz
Orhan Pamuk
Salman Rushdie
Wole Soyinka 

Enviado para :

Peter Wittig (Alemanha)
Hardeep Singh Puri (India)
Nestor Osorio (Colômbia)
Jose Filipe Moraes Cabral (Portugal)
Baso Sangpu (África do Sul)
Ivan Barbalic (Bosnia e Herzegovina)
Maria Luiza Ribeiro Viotti (Brasil)
Denis Dangue Rewaka (Gabão)
Nawaf Salam (Líbano)
Joy Ogwu (Nigéria)
Baodong Li (China)
Susan Rice (Estados Unidos da América)
Gérard Araud (França)
Mark Lyall Grant (Grã Bretanha)
Vitaly Churkin (Rússia)

(Com cópia para o Ban Ki-moon, Secretário-Geral das Nações Unidos)

[ informações da Reuters e http://laregledujeu.org  |  apoio e tradução dos Amigos Brasileiros do PAZ AGORA  ]

 

Veja: Manifestação pela libertação de prisioneiros e contra o governo Assad.

Doma, Síria, 14|07|11 – fonte Al Jazeera

To The End of Land

Grossman entre os 'Best Books of 2010’


To The End of Land

To The End of Land

O livro do autor israelense David Grossman `To the End of the Land (Para os Confins da Terra, em tradução livre)` traduzido para o inglês por Jessica Cohen, foi classificado na oitava posição no `Best Books of 2010`, lista publicada pelo site da Amazon.

Na opinião editorial da Amazon sobre o livro de Grossman publicado em setembro passado, Tom Nissley escreveu: `O ‘To The End of the Land’ é um livro de luto por aqueles que não estão mortos, é o lamento de uma mãe para a vida durante uma guerra cujo fim não era possível prever. Ao mesmo tempo, é alegre e quase dolorosamente vivo, cheio ao ponto de ruptura de emoções e detalhes de um cotidiano interminável de algumas vidas profundamente imaginadas.

Grossman constrói um retrato impressionante, como expressa nas palavras de uma das personagens, de ‘milhares de momentos, horas e dias que fazem parte de uma pessoa no mundo, e do poder de guerra para a destruição de uma pessoa, quando – ou principalmente – quando sobrevivem a suas cruéis demandas’.

No site os leitores também deram feedbacks positivos sobre o livro, classificando-o com uma média de quatro estrelas.

Texto de:
p5rn7vb
David Grossman

Feira do Livro de Frankfurt premia David Grossman


Editores alemães premiam David Grossman por seus esforços de paz

 http://www.ynetnews.com/PicServer2/20122005/1002271/grosmean_a.jpg

http://www.ynetnews.com/articles/0,7340,L-3967252,00.html

 O escritor israelense David Grossman ganhou neste domingo o Prêmio da Paz da Feira Alemã do Livro por seu compromisso em construir pontes entre Israel e os palestinos, conforme a Associação Alemã de Editores e Livreiros. for his commitment to building bridges between Israel and the Palestinians

“Nos seus romances, ensaios e histórias, Grossman consistentemente buscou entender e descrever não apenas a sua própria posição, mas também as opiniões dos que pensam diferentemente”, divulgou a Associação. “David Grossman dá uma voz literária – ouvida em todo o mundo – para esta difícil coexistência ”.

Num discurso em homenagem ao escritor, Joachim Gauck, pastor protestante e ativista em direitos humanos da antiga Alemanha Oriental, chamou Grossman de “símbolo do movimento pacifista” em Israel.

O prêmio de 25.000 euros é tradicionalmente anunciado no último dia da Feira de Livros de Frankfurt, a maior do mundo, para “indivíduos que tenham contribuído para a tolerância internacional através de suas atividades excepcionais, especialmente nos campos da literatura, ciência e arte”.

Em agradecimento, Grossman disse que Israel deve aprender de suas tragédias e recomeçar: ‘”Só posso esperar que o meu país, Israel, encontre a força e a coragem para reescrever a sua História”.

David GrossmanGrossman, nascido em 1954, escreveu romances, histórias, ensaios e livros infantis que muitas vezes tratam da identidade do seu país e do conflito israelense-palestino. Publicou seu primeiro romance, “The Smile of the Lamb“, em 1983.

Ativista politico, sempre instou por uma solução pacífica para o conflito do Oriente Médio e por contenção da violência. Seu filho Uri foi morto durante o conflito israelense-libanês em 2006 por um míssil do Hizbolá poucos dias após Grossman e outros escritores terem demandado um cessar-fogo entre os dois lados.

Ele escreveu sobre experiência similar no livro “Até o Fim da Terra” (“To the End of the Land”), publicado em  2008, romance que conta a história dos esforços desesperados de uma mulher para se proteger e a sua família de uma realidade dura e violenta.

“Sinto especial prazer por seus esforços pela paz e por um futuro para o seu país na região estarem sendo homenageados pela Alemanha”, declarou o ministro alemão do exterior Guido Westerwelle. “Eu o tenho em alta consideração e tenho muito respeito pelo seu trabalho incansável pelo entendimento entre israelenses e palestinos”.

Os ganhadores anteriores do prestigioso prêmio, iniciado em 1950, incluem o prêmio Nobel de literatura turco Orhan Pamuk, a escritora norte-americana Susan Sontag e o ex-presidente tcheco Vaclav Havel. O prêmio do ano passado foi recebido pelo escritor italiano Claudio Magris.


[ fonte: Reuters | Ynet, JTA  - traduzido pelo PAZ AGORA|BR

http://www.earthtimes.org/articles/news/348017,peace-prize-summary.html

Israel, he said, had not yet succeeded in providing its citizens with the sense of serenity derived from being firmly rooted.


“Tragically, Israel has not yet succeeded in healing a fundamental wound in the Jewish soul – the bitter sense of never feeling fully at home in the world,” Grossman said.


Former East German dissident and presidential candidate Joachim Gauck said in his laudatory speech that Grossman had “refused to don the ragged uniform of hatred.”


Grossman, whose books mirror the complex and conflicting reality of life in modern-day Israel, has continued to write since his son Uri was killed in the 2006 war with Lebanese Hezbollah guerillas.


“He is receiving the peace prize for having steadfastly refused to become part of the machinery of retribution,” Gauck added.


He said the Israeli author set an example to all, by showing that “people are not condemned to be victims of their circumstances. People have a choice.”


“You stand your ground before your Goliath, before everyday hatred – but not once have you done this with a slingshot, as it was before. But you are still David,” Gauck told the author.


German President Christian Wulff also attended the award ceremony. The 25,000-euro (35,000-dollar) prize is presented annually at the end of the Frankurt Book Fair.


German Foreign Minister Guido Westerwelle congratulated Grossman and said Germany would help Israel reach peace with its Palestinian neighbours.


“Israel’s security cannot be assured without a peace agreement with the Palestinians. Israelis and Palestinians must be able to live in dignity. This conviction allies you with many people in Germany,” Westerwelle wrote to Grossman.


This year’s panel chose Grossman for the prize to award “a work that speaks of hope, which refuses to allow the war in his country, the war in all the world and the war within us to have the final say.”

Copyright DPA



Tuesday, October 12, 2010

Frankfurt book fair ends as Grossman is awarded peace prize

Frankfurt – David Grossman, one of Israel’s most prominent writers, was awarded the German Book Trade’s Peace Prize for 2010 on Sunday as the Frankfurt book fair drew to an end.

Auhtor photo – Ahikam Seri – Panos Picture – The Observer
‘He is receiving the peace prize for the fact that he assiduously refuses to be part of a retribution mechanism,’ said civil rights activist Joachim Gauck, a former East German dissident.

Gauck, who held the award speech for Grossman, said the Israeli author set an example to all, by showing that ‘humans are not condemned to be victims of their circumstances. People have a choice.’

Grossman, whose books mirror the complex and conflicting reality of life in modern-day Israel, has continued to write after his son Uri was killed in the 2006 war with Lebanese Hezbollah guerillas.
‘You are facing your own Goliath of daily hate, and are not even armed with a slingshot. But you are David,’ Gauck told the author.

German President Christian Wulff also attended the award ceremony. The 25,000-euro (35,000-dollar) prize is presented annually at the end of the Frankurt Book Fair.
This year’s panel chose Grossman for the prize to award ‘a work that speaks of hope, which refuses to allow the war in his country, the war in all the world and the war within us to have the final say.
M&C News

Tuesday, October 12, 2010

Frankfurt book fair ends as Grossman is awarded peace prize

Frankfurt – David Grossman, one of Israel’s most prominent writers, was awarded the German Book Trade’s Peace Prize for 2010 on Sunday as the Frankfurt book fair drew to an end.

Auhtor photo – Ahikam Seri – Panos Picture – The Observer
‘He is receiving the peace prize for the fact that he assiduously refuses to be part of a retribution mechanism,’ said civil rights activist Joachim Gauck, a former East German dissident.

Gauck, who held the award speech for Grossman, said the Israeli author set an example to all, by showing that ‘humans are not condemned to be victims of their circumstances. People have a choice.’

Grossman, whose books mirror the complex and conflicting reality of life in modern-day Israel, has continued to write after his son Uri was killed in the 2006 war with Lebanese Hezbollah guerillas.
‘You are facing your own Goliath of daily hate, and are not even armed with a slingshot. But you are David,’ Gauck told the author.

German President Christian Wulff also attended the award ceremony. The 25,000-euro (35,000-dollar) prize is presented annually at the end of the Frankurt Book Fair.
This year’s panel chose Grossman for the prize to award ‘a work that speaks of hope, which refuses to allow the war in his country, the war in all the world and the war within us to have the final say.
M&C News

Posted by Bookman Beattie

Israeli winner of German book prize urges peace

David Grossman’s son was killed in the 2006 Israel-Lebanon conflict

Last Updated: Sunday, October 10, 2010 | 4:02 PM ET Comments11Recommend14

CBC News
Israeli author and journalist David Grossman smiles after receiving the German book industry's peace prize in Frankfurt, Germany, on Sunday.Israeli author and journalist David Grossman smiles after receiving the German book industry’s peace prize in Frankfurt, Germany, on Sunday. (Thomas Lohnes/dapd/AP)

Israeli author David Grossman pleaded for peace as he was handed the prestigious German Book Trade Peace Prize on Sunday at the Frankfurt Book Fair.

In his acceptance speech, the 56-year-old writer expressed hope that “Israel, will find the strength to rewrite its history again, that it learns to grasp its past and its tragedies in a new way and to reinvent itself in a new way because of that.”

The prize, worth more than $35,000 Cdn, has been awarded since 1950 to international authors and artists who promote understanding among peoples. Past winners have included Turkish author Orham Pamuk, Hungarian Peter Esterhazy and Czech writer and former president Vaclav Havel.

“In his novels, essays and stories, Grossman has consistently sought to understand and describe not only his own position, but also the opinions of those who think differently,” the German Publishers’ and Booksellers’ Association said in a statement.

Though the award was announced in June, the actual ceremony didn’t happen until Sunday, during the annual fair.

Grossman is known for works that explore the relationship between Israelis and Palestinians.

“Only peace will allow us Israelis to feel something that has been totally unknown to us so far: the feeling of a stable existence,” he said in his speech.

Some of his best-known works include See Under: Love, stories of children of Holocaust survivors, and The Yellow Wind, observations on Arab-Israeli relations.

Often urges restraint by Israel

The son of a bus driver, Grossman studied philosophy and theatre before embarking on a career in radio, working on children’s program while also publishing children’s books.

His first published novel was The Smile of the Lamb in 1983.

‘I write [novels] as though no one would read them.’— David Grossman

Grossman, though shy, has been politically active, often calling for restraint from the Israeli government.

He joined other writers in 2006 to demand a ceasefire in the Israeli-Lebanon conflict. Days later his son Uri was killed by a Hezbollah missile.

The experience was worked out in his 2008 novel To the End of the Land, which concerns a woman who decides to leave her home so that if her soldier son is killed in war, she won’t hear about it.

Grossman recalled the tragedy on Sunday.

“I learned that there are some situations where the only freedom left us is to describe … describe with the right words the fate that hits us. Sometimes, that can also be a way to escape being a victim.”

Grossman said that when he works on a book, he’s unconcerned about readers’ reactions.

“When I write novels, I write them as though no one would read them. That’s a very, very intimate act.”

Read more: http://www.cbc.ca/arts/books/story/2010/10/10/german-prize-grossman.html?ref=rss#ixzz12ILnVNeB

Texto de:
To the end of the land - David Grossman

'To the end of the land' – um guia para os perplexos

Um Guia para os Perplexos

Crítica de Carlos Strenger ao livro  ‘To the End of the Land’ [ 'Até o fim da terra'']


A tradução para o inglês de ‘To the End of the Land’ será lançada dentro de alguns dias. Sua publicação já foi ofuscada pelas homenagens antecipadas dadas por dois escritores famosos. Paul Auster coloca o livro diretamente na tradição dos maiores romances europeus, ao comparar sua heroína Ora à Anna Karenina de Tolstoy e à Emma Bovary de Flaubert. Os elogios de Nicole Krauss têm a qualidade de um hino, e foram criticados como exagerados por alguns críticos.

‘To the End of the Land’ tornou-se um evento literário antes ainda de ter sido lido. E isto é uma pena. Espera-se que o livro não partilhe do destino do ‘Versos Satânicos’ de Salman Rushdie. Como Milan Kundera observou, todos já tinham suas opiniões sobre o ‘Versos Satânicos’, tivessem-no lido ou não, por causa da fatwa de Khomeini contra o livro. Os anos que Rushdie viveu em clandestinidade, o assassinato de alguns dos seus editores e tradutores fizeram do livro um evento político

Isto não será fácil, porque o pano de fundo da história de ‘To the End of the Land’ é do tipo de material de que são feitas as “histórias de interesse humano” – como a mídia gosta de chamar a combinação entre fofoca e melodrama emocional.

Grossman começou a escrever o livro quando seu filho caçula, Uri, foi convocado para o exército. Escrever o livro tornou-se algo como um ato mágico pelo qual David Grossman tentou proteger o seu filho. E a história do romance é sobre uma mulher, Ora, que tenta magicamente proteger seu filho, que servia no exército israelense.

Durante a Segunda Guerra do Líbano, em 2006, Grossman, junto a  A.B Yehoshua e Amos Oz, pediu ao então primeiro-ministro Ehud Olmert o cessar dos combates que, na visão dos escritores, havia cruzado a fronteira do aceitável. No último dia da guerra, Uri Grossman foi morto tentando salvar camaradas de outro tanque.

Até os maiores cínicos não podem deixar de se emocionar pela tragédia, e pela crueldade do destino no qual um pai não consegui proteger seu filho com a mais pacífica das armas – escrevendo ficções. Mas Grossman, consistentemente, recusou-se a capitalizar esta tragédia, política ou pessoalmente. Ele não se transformou numa vítima cuja perda demanda que todos respeitem suas idéias. Ele continuou tão emocionalmente preciso e sem sentimentalismos como sempre fora.

To the end of the land - David GrossmanEm ‘To the End of the Land’ ele trabalha com um dos aspectos mais pesados em Israel: o medo e a dor dos pais que mandam seus filhos para o exército e o trauma da guerra para os que retornam.

‘To the End of the Land’ é um dos retratos mais precisos já escritos sobre a psique israelense. Através de Ora, que foge para o norte do país num esforço desesperado para evitar os mensageiros que poderiam trazer a ela a notícia da morte do seu filho. Através do seu antigo amante Avram, que foi ferido para sempre pelas suas terríveis experiências como prisioneiro de guerra na Guerra do Yom Kipur de 1973, o leitor pode começar a entender o quão fundo as sombras da guerra e da morte penetram nas almas dos israelenses.

E ainda assim, como de costume, Grossman não sucumbe à tentação de ser dono da verdade ou de uma ideologia bombástica. Em nenhum momento deste grande romance. Ele nunca sai da realidade humana como ela é, e não a distorce para propósitos políticos.

Grossman não é um autor fácil. Nunca dá ao leitor satisfações fáceis de catarses emocionais, do tipo de moralidade que os participantes e os observadores do conflito do Oriente Médio gostam.  Ele é cru ao máximo em sua demanda por sinceridade, o tempo todo evitando o tipo de pseudo-autenticidade açucarada que tanto os auto-intitulados ‘verdadeiros patriotas’ de Israel como seus críticos pseudo-morais gostam de mostrar.

O romance de Grossman, ainda mais do que sua prosa, tem um efeito purificador. O leitor que se dispuser a ficar com ele precisa atravessar um processo árduo para separar as emoções verdadeiras das auto-dramatizações bombásticas.

David Grossman (e), com seus colegas escritores A.B. Yehoshua (c) e Amós Oz (d) antes de uma coletiva de imprensa em Tel Aviv, onde instaram publicamente o governo a acabar com a guerra contra o Hizbolá - 10|08|2006. Três dias depois, o filho de Grossman, Uri, 20 anos, foi morto no Líbano.

É por isto que ele não mudou o final do romance depois da sua tragédia pessoal. Ele se manteve fiel à ética do seu chamado e não tocou na lógica interna dos personagems do livro, particularmente da sua heroína e sua narrativa. E isto, na verdade, é a marca de um grande escritor.

O livro é bom demais para ficar à sombra da história da sua criação. E a voz de David Grossman é importante demais para ser tragada pela cacofonia dos esforços para ser usada politicamente, e frequentemente com abusos de tragédia, Porque a grandeza de Grossman, por décadas, tem sido a recusa a aderir a clichês que dominam o discurso político sobre Israel, os palestinos e o conflito do Oriente Médio.

Israel é um lugar que gera declarações ideológicas pretensiosas, temores paranóicos exagerados e ódio desmedido, por defensores e detratores. Há os que acreditam que Israel precisa ser defendido por constantes alertas ao mundo de que o próximo Holocausto está logo na esquina. E existem aqueles que acham que a negação do Holocausto serve ao objetivo de deslegitimar a existência de Israel. Aqueles que insistem, com intenso farisaísmo, que Israel está sempre com a razão, não importando suas ações, e há aqueles que explicam com conceitos do que Israel é o centro moral do mundo.

Israel, em suma, é capaz de expor pornografia política em quase todos os campos.

As ficções e não-ficções de Grossman são um bastião contra a pornografia política. Ele não escapou dos tópicos mais difíceis, incluindo o Holocausto, e numa sucumbiu a reflexões ideológicas exageradas ou exageros emocionais.

Para os que querem ficar tão próximos quanto possível da difícil verdade de Israel e da sua complexidade moral. Para evitar uma competição política pela vitimização e pela eterna pretensão de ser sempre o certo, e para ter em seus corações tanto o triunfo quanto a tragédia que é Israel, Grossman é um guia indispensável.