[ por Ron Gerlitz * | Haaretz | 29/06/26 | edição em português: Amigos Brasileiros do PAZ AGORA ]
A distância entre dois marcos de Jerusalém, o Parlamento (Knesset) e o memorial do Holocausto de Yad Vashem, é de apenas três milhas; Apenas dez minutos de carro. No entanto, nos corredores do parlamento israelense, há deputados incitando ao genocídio, ignorando a lição mais dolorosa e importante da história do povo judeu. Para piorar, eles pertencem ao partido governante que lidera Israel na maior parte das últimas duas décadas.
Veja, por exemplo, Nissim Vaturi, vice-presidente do Knesset, pelo Likud. No ano passado, declarou que “as mulheres e crianças devem ser deixadas de lado, e os homens adultos em Gaza eliminados.” Em setembro de 2025, a ministra Gila Gamliel, também membra do Likud, anunciou: “Vamos transformar a Faixa de Gaza em um lugar impróprio para habitação humana até que a população saia, e o mesmo acontecerá na Cisjordânia.” Outro deputado do Likud, Moshe Sa’ada, falou no ano passado sobre “um momento decisivo, aniquilação e migração de Gaza“, enquanto Tally Gotliv, possivelmente o parlamentar mais provocador do partido, disse sobre certos bairros de Gaza que “todos lá estão marcados para a morte.”
A advogada israelense Kinneret Barashi não é membra do Knesset, pelo menos ainda não; mas o Likud a nomeou para o Conselho Oficial de Regulação de Televisão e Rádio de Israel. No início de 2025, ela escreveu nas redes sociais: “Todo vestígio das mutações assassinas em Gaza deve ser apagado, das salas de parto até a última pessoa idosa em Gaza. Cem por cento marcado para a morte em Gaza“. O Likud não deautorizou seu discurso literalmente genocida. Ela ainda ostenta o importante cargo…
Não há uma maneira fácil de dizer isso, mas a verdade ainda deve ser dita: no Estado de Israel, fundado por um povo que foi vítima do genocídio mais brutal da história, o partido governista legitimou a ideia de assassinatos em massa indiscriminados, enquanto membros proeminentes do Likud a apoiam abertamente.
A retórica genocida do partudo reflete e incita níveis extremos de percepções desumanizadoras entre seus eleitores e o público em geral. A mesma retórica desumanizadora contaminou partes do Exército, e os efeitos podem ser vistos no número impressionante de civis inocentes mortos em Gaza.
E não é só isso.
Nos últimos anos, forças kahanistas e antidemocráticas tomaram o controle do Likud, impulsionando seu ataque ao Sistema Judiciário, ao serviço público, ao aparato de segurança e à mídia. O objetivo deles é remover quaisquer obstáculos à anexação, limpeza étnica e coisas piores.
No entanto, à medida que a eleição de Israel em 2026 se aproxima, há vozes crescentes no público e na arena política pedindo para priorizar a chamada unidade nacional acima de tudo, argumentando que o caminho para curar a sociedade israelense passa pelo estabelecimento de um “amplo governo sionista” que inclua o Likud.
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Após anos de polarização política e emocional, há um profundo desejo entre os israelenses de reparar as fraturas. Essa é uma aspiração digna. Eu também acredito que curar as divisões em nossa sociedade deve ser uma das tarefas centrais do próximo governo. Mas isso exige manter o Likud longe do poder por muitos anos.
Algumas pessoas acreditam que um Likud sem Benjamin Netanyahu poderia ser um parceiro melhor e legítimo. Eles estão errados. Confiar o poder a esse partido no próximo governo significaria mais uma vez abandonar as Instituições do Estado e a própria Democracia para aqueles que buscam destruí-las. Tentar reconstruir as ruínas junto com quem trabalha para as continuar gerando é uma loucura.
Nenhum governo deve incluir um partido que normalizou os apelos pela aniquilação de uma população civil. Há momentos em que uma sociedade precisa traçar uma linha clara entre o que é legítimo e o que não é. Esta é uma questão dos nossos limites morais mais fundamentais. Mais do que qualquer outro povo, nós, judeus, experimentamos o que pode acontecer quando os apelos para aniquilar um determinado grupo são feitos pelos que estão no poder. Nós prometemos: Nunca Mais!
Isso não é um chamado a boicotar todos os partidos de direita.
O resultado desejável – e possível – das próximas eleições é um governo de unidade liberal-democrático – da direita de Naftali Bennett à esquerda deYair Golan – com a esperança de que um partido árabe também participe.
Também não é um chamado para dar as costas aos eleitores do Likud. O próximo governo deve liderar um processo profundo de reparação e reconciliação com os eleitores do Likud. Esse é um grande desafio que exigirá um diálogo livre de condescendência, que reconheça identidade, valores e os sentimentos de exclusão e desconfiança que se acumularam desde os primeiros dias de Israel. O processo também exigirá políticas que abordem a desigualdade social, questões de representação Sistema Judiciário, entre outras questões.
É totalmente absurdo que as vozes pedindo um novo governo com o Likud sejam justamente das mesmas pessoas que rejeitam a parceria com partidos árabes. Isso, apesar do fato de que cidadãos árabes e suas lideranças políticas, desde 7 de outubro, demonstraram repetidamente responsabilidade cívica, compromisso com as regras democráticas do jogo e disposição para se integrar ao Estado, à sociedade e ao sistema político de Israel. Enquanto isto, “buscadores de unidade” propõem conceder legitimidade política a um partido que normalizou a retórica genocida e age contra os fundamentos da democracia, enquanto desqualifica partidos árabes simplesmente por serem árabes.
Qualquer pessoa que busque reconstruir a democracia, honrar os valores da Declaração de Independência e garantir um futuro compartilhado para todos os cidadãos do Estado deve entender: o Likud não pode ser um parceiro legítimo no próximo governo. Somente sem esse partido o Estado de Israel poderá iniciar a longa e necessária jornada de cura e reparação de sua sociedade.
- Ron Gerlitz é CEO da aChord – Psicologia Social para a Mudança Social.
A aChord é uma ONG socioacadêmica singular que desenvolve e disponibiliza conhecimento acadêmico de ponta em psicologia social para promover relações igualitárias, tolerantes e respeitosas entre os diversos grupos sociais em Israel, bem como entre a sociedade israelense e as sociedades vizinhas da região. Utilizam expertise em pesquisa, consultoria, desenvolvimento e treinamento para auxiliar uma ampla gama de organizações a integrar conhecimentos e ferramentas da psicologia social.

APAGADO!
A brutal guerra dos colonos israelenses contra as comunidades palestinas na Cisjordânia.
Clique AQUI e ASSISTA à apresentação na íntegra
( texto Hagar Shezaf | Haaretz | junho de 2026 | edição PAZ AGORA|BR )
As imagens desta apresentação se repetem constantemente – vistas da terra, do ar e em mapas: dezenas de comunidades palestinas varridas do mapa, enquanto assentamentos ilegais israelenses continuam a se espalhar pela Cisjordânia.
Desde 7 de outubro de 2023, esse fenômeno se intensificou significativamente. Ao contrário da guerra em Gaza , não há qualquer discussão em Israel sobre o fim dessa campanha paralela de desapropriação. Pelo contrário: grandes quantidades de armas foram distribuídas aos colonos, que desde então têm realizado ataques contra comunidades palestinas indefesas enquanto as autoridades israelenses permanecem inertes. A violência dos colonos judeus continua impune. O mesmo ocorre com a construção ilegal de novos postos avançados. E até a construção de novos assentamentos ilegais. A Polícia Distrital da Judéia e Samária tornou-se irrelevante. Essa situação permitiu uma transformação drástica no terreno.
Um exemplo disso é Khirbet Zanuta , uma vila no sul da Cisjordânia que abrigava cerca de 250 pessoas. Em 2021, um novo assentamento, a Fazenda Meitarim, surgiu nas proximidades. Não demorou muito para que ameaças e ataques começassem. Os colonos deixaram suas intenções claras: a violência só cessaria se os moradores partissem.
Durante dois anos, os moradores resistiram, agarrando-se às suas casas e à sua comunidade. A polícia não oferecia ajuda, nem proteção. No final de outubro de 2023, apenas algumas semanas após o início da guerra em Gaza, não conseguiram mais resistir e partiram. O mesmo aconteceu com 35 moradores da comunidade vizinha de Anizan e dezenas de outras comunidades palestinas.
Após a partida dos colonos, estes demoliram as estruturas da aldeia e cercaram o terreno. Quando os moradores tentavam retornar, o Poder Ocupante os impedia de reconstruir suas casas.
Assim como Zanuta, mais vilarejos estão desaparecendo do mapa – lugares que antes existiam e agora não existem mais – enquanto novos assentamentos continuam surgindo. E agora, como resultado da guerra, os colonos têm acesso a um número crescente de drones e veículos todo-terreno; até mesmo os assentamentos agrícolas têm direito à proteção militar e, se solicitarem, podem receber novas estradas de acesso.
Cronologia da Expulsão
- Uma comunidade pastoril de palestinos vive e leva seu rebanho para pastar em áreas abertas ao redor de suas casas.
- Um posto avançado de colonos é estabelecido nas proximidades.
- O assédio à comunidade pastoril começa e se intensifica
- A comunidade é expulsa: Os colonos expulsam os moradores das pastagens e invadem repetidamente a aldeia; apoderam-se de terras agrícolas e recursos hídricos; com o tempo, a violência aumenta e os colonos começam a usar o exército e a polícia contra a população local.
- O atrito torna-se rotineiro; os colonos apresentam queixas contra os moradores locais, que levam às suas prisões (das vítimas).
- É estabelecido mais um posto avançado ilegal, este ainda mais perto das casas da comunidade.
Com o prolongamento da guerra em Gaza, colonos armados se multiplicaram ao redor das aldeias. Uma a uma, as comunidades locais começaram a partir. “Os colonos decidiam tudo por nós”, diz al-Malihat. “Eles nos perseguiam em nossas casas, nos pastos. Nossas ovelhas não podiam mais pastar. As pessoas só saíam de casa para trabalhar. A aldeia se tornou uma prisão.”
Durante dois anos, diz al-Malihat, a comunidade suportou apedrejamentos, bloqueio da entrada principal da aldeia e ameaças ao se aventurar nas próprias áreas de pastagem. Uma grande preocupação era o potencial roubo de suas ovelhas pelos colonos – uma ameaça real, visto que, no passado, os colonos haviam misturado rebanhos e, em seguida, apresentado queixas falsas à polícia, acusando os beduínos de roubo.
Então, em 18 de maio, um novo posto avançado de colonos foi instalado ao lado da aldeia. Os colonos que ocupavam o novo posto estavam armados e operavam com impunidade, confiantes de que as autoridades israelenses não interviriam. Quando o Haaretz visitou o local naquela semana, colonos foram vistos caminhando pela aldeia, tentando entrar nos quintais. Uma estrada recém-aberta ligava o posto antigo ao novo. O exército e a polícia, plenamente cientes da situação se recusaram a intervir. Um porta-voz das Forças de Defesa de Israel declarou oficialmente: “A área em questão não invade as terras onde vivem os beduínos.”
Percebendo que não tinham proteção e nem para onde ir, a comunidade decidiu partir. Mas até isso foi monitorado. Sob a vigilância dos colonos, eles evacuaram em etapas: primeiro as ovelhas, depois as mulheres e as crianças. Os homens permaneceram para desmontar as estruturas.
Foi então que os colonos intervieram, tentando impedi-los de continuar. Confrontos irromperam. Os moradores, juntamente com um ativista israelense pela paz, fugiram em direção ao íngreme wádi. Segundo seus relatos, foram apedrejados e alvejados durante a fuga.
Em certo momento, perceberam que não tinham mais para onde fugir. “Um colono chamado Amir atirou em nós entre as pernas”, lembrou Omar al-Malihat, de 14 anos. “Estávamos cercados. Eles atiravam pedras. Então Amir disse: ‘Venham, eu não vou machucá-los…’ Então nos aproximamos.”
Segundo Omar, assim que se aproximaram dos colonos, foram obrigados a se ajoelhar e espancados. “Eles nos bateram na cabeça, nos deram socos, tapas e nos bateram com cassetetes. Não nos deixavam mexer. Roubaram nossos celulares e dinheiro.”
O grupo acabou sendo evacuado para hospitais da Autoridade Palestina. Ibrahim al-Malihat não voltou para casa desde então. “Deixamos para trás currais, estruturas metálicas, árvores, painéis solares”, diz ele. “Depois do ataque, como poderíamos voltar?”
Os relatos de Ibrahim al-Malihat, de outros moradores da vila e do ativista israelense que estava com eles descrevem a mesma experiência: puro terror, o medo real de não sobreviverem. Esse medo, porém, deu lugar à tristeza e à dolorosa constatação de que a vida que conheciam havia desaparecido…
Dias depois, os colonos bloquearam a estrada que dava acesso à aldeia. Algumas casas ainda estão de pé; outras foram demolidas.
Uma visão da construção futura – exclusiva para judeus.
Paralelamente à expansão dos assentamentos, o governo tem usado a guerra em Gaza para impulsionar os planos para as próximas etapas. Essencialmente: mais moradias para judeus, mais demolições para palestinos. A atual onda de deslocamento e desapropriação parece ser apenas um prelúdio para o que está por vir.
Durante esse período, um número sem precedentes de unidades habitacionais além da Linha Verde (fronteira anterior a 1967) foi aprovado. Desde 7 de outubro de 2023, aproximadamente 30.000 unidades habitacionais foram encaminhadas para aprovação – algumas finalizadas, outras aguardando aprovação.
Mas o trabalho de base foi feito muito antes. Bem antes da guerra em Gaza e do dia 7 de outubro. Pelos acordos de coligação, o consentimento do ministro da Defesa deixou de ser necessário em cada etapa da aprovação de unidades habitacionais em assentamentos além da Linha Verde. Mais tarde, o ministro Bezalel Smotrich assumiu o controle da estrutura de governança na Cisjordânia e, desde então, obteve uma influência sem precedentes também sobre os órgãos de planejamento.
Com a atenção global voltada para Gaza, a Cisjordânia tornou-se ainda mais uma terra de ninguém. A eleição de Donald Trump impulsionou ainda mais o projeto de assentamentos. Em 2025, foram aprovados mais projetos habitacionais em assentamentos do que em qualquer ano desde pelo menos 2012 (quando a organização de monitoramento de assentamentos PAZ AGORA começou a coletar dados) – e provavelmente mais do que em qualquer ano anterior.
Os planos aprovados não se limitam a uma única região. Abrangem toda a Cisjordânia, incluindo muitas unidades habitacionais em áreas remotas. Um dos mais controversos é o corredor E1, perto de Ma’aleh Adumim, que, se implantado, separará o norte do sul da Cisjordânia e da Jerusalém Oriental. Isso terá implicações de longo alcance para a viabilidade de uma Solução de Dois Estados. Há muito tempo retido devido à pressão internacional, o plano está agora mais perto do que nunca de se concretizar.
Só em 2024, 24.000 dunams (quase 6.000 acres) foram declarados terras estatais – mais do que em qualquer ano desde o final da década de 1990. Embora as chamadas “terras estatais” se destinem ao uso da população local, na prática servem como reserva para assentamentos e como meio de bloquear o acesso palestino à terra.
O porta-voz das Forças de Defesa de Israel declara:
“As Forças de Defesa de Israel (IDF) e a Administração Civil operam na Judéia e Samária [nomes utilizados pelos colonos para designar a Cisjordânia Ocupada] para prevenir o terrorismo e manter a ordem pública, em conformidade com a lei e as diretrizes das autoridades governamentais. As IDF fornecem armas às forças de reserva, incluindo ‘unidades de defesa em comunidades locais’, para fins de defesa e preparação. O exército valoriza muito as contribuições de seus reservistas. Qualquer uso não autorizado de armas militares é investigado e tratado de acordo com as circunstâncias específicas.”
E acrescentou: “A Administração Civil trabalha para remover construções ilegais na Área C, em conformidade com a lei, sujeita a avaliações operacionais e aprovação das autoridades governamentais competentes. O setor de defesa está empenhado em manter um ambiente de vida estável e funcional para todos os moradores da área.”
A polícia israelense não se manifestou.
PUBLICADO NO HAARETZ | junho de 1926 | Editores Executivos: Roi Hadari e Yaron Kelner. Editor: Roy Schwartz. Programador: Asi Oren. Design: Idit Frenkel. Gerenciamento de Projeto Digital: Uri Talshir. Vídeo e Imagens de Drone: Tomer Appelbaum. Edição de Vídeo: Shira Shechter. Tradução do Árabe: Rawan Suleiman. Revisão de Texto: Adi Raveh. Filmagem e Design do Vídeo da Página Inicial: Nasser Nawaj’ah (B’Tselem), Aron Ehrlich. Produtora do Projeto em Inglês: Shira Philosof. Edição em português: Amigos Brasileiros do PAZ AGORA (www.pazagora.org).





