PAZ AGORA SIM – TERROR NÃO! – um diálogo

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Nota do autor:

O que segue é uma resposta a crítica recebida “de estar veiculando mensagens que estariam unilateralmente enviesadas em favor de palestinos e contra Israel”, críticas estas que também se referiram a posições e atitudes do movimento israelense PAZ AGORA.

O meu texto é seguido de alguns comentários de terceiros (cujo nome aqui omito em respeito às suas privacidades), que podem enriquecer um debate construtivo.

 

Primeiramente, devo esclarecer que não falo em nome do Movimento PAZ AGORA (SHALOM ACHSHAV), que tem porta-vozes bem qualificados, e cujo posicionamento – se pode ser sintetizado nesta tentativa de resposta – está em boa parte refletido na Declaração-Conjunta Israelense-Palestina pela Paz, que considero como um farol de lucidez em meio à interminável espiral de ódio que vem ceifando milhares de vítimas inocentes. Talvez você a possa enxergar como uma luz ao final deste insustentável túnel, e que ela possa merecer seu endosso, assim como o de vários co-listados que ainda não a conhecem.

Amigos Brasileiros do PAZ AGORAO PAZ AGORA, que apoiamos, tem através de suas lideranças e de dezenas de milhares de ativistas em Israel, corajosamente se manifestado em praças públicas contra o terror e a violência de ambos os lados do conflito, e aglutinado parcela crescente da população israelense em prol de um caminho que reconhece que uma paz justa – que assegure a existência de um estado árabe-palestino ao lado do estado de Israel – é o único para assegurar a sobrivivência de um estado judeu e democrático para as futuras gerações.

O SHALOM ACHSHAV, como movimento israelense supra-partidário, além de estar na linha de frente do campo pacifista israelense, se tem obstinadamente colocado como interlocutor de representantes do campo pacifista árabe-palestino, que existem e também tem crescido em influência, apesar dos assédios e ameaças que o campo pacifista, dos dois lados, sofre por parte das lideranças radicais, as quais infelizmente dominam – hoje, mas certamente não para sempre – o cenário político da região, à custa de muito sangue inocente, árabe ou judeu.

Como participante dos Amigos Brasileiros do Paz Agora posso, sim, dizer-lhe que, ao contrário de outros judeus que também amam e defendem o Estado Judeu, não confundimos Israel com seu atual governo (assim como não confundiríamos o Brasil com o governo Collor, por exemplo, que também foi eleito democraticamente). E não confundimos a essência humanista do sionismo, que vemos como a  expressão do legítimo movimento de libertação nacional do povo judeu, com a suicida política de ocupação da Cisjordânia e Gaza, a qual vem minando moralmente a sociedade israelense e sabotando a necessária integração harmônica de Israel na geopolítica do Oriente Médio.


Terror

Sempre nos opusemos à matança de inocentes, e temos uma postura de perseverante defesa dos direitos da pessoa humana, e de condenação intransigente e inequívoca do terrorismo, que é sempre injustificável, parta de quem partir.

O terror, seja qual bandeira empunhe, é execrável. Sua banalização no mundo atual não pode ser tolerada. Atitudes que visem combatê-lo, porém, que envolvam a morte de pessoas inocentes ou castigos coletivos a vastas populações, podem até ensejar irresponsáveis comemorações, mas acabam, ao invés de diminuir o terrorismo, reforçando a desesperança e a espiral de ódio que formam o caldo de cultura que o realimenta e multiplica.

Este fenômeno se aplica a qualquer lado do conflito. Porisso condenamos a violência contra inocentes, parta de quem partir.

Se sofremos e nos enlutamos por cada vida perdida de nossos amigos, parentes e correligionários que vivem em Israel, nossa melhor homenagem a eles, como nos deixou como legado o insubstituível Izchak Rabin Z”L, ele mesmo vítima dos aversos ao diálogo e à convivência com os adversários, é perseverar na busca do diálogo construtivo rumo a uma paz justa. Como ele, não nos deixaremos ser reféns dos terroristas e dos propagadores do ódio, seja qual for sua bandeira.

 

Coragem

Caro X, se você tem acompanhado as atividades do Paz Agora através dos reportes que lhe temos trazido neste democrático forum de opiniões, verificará que, ao contrário do que você afirma, o Shalom Achshav, como entidade supra-partidária tem, sim, atuado, e de maneira cristalina, no diálogo com autoridades governamentais israelenses, seja na esfera parlamentar, executiva ou judiciária, discutindo e propondo soluções políticas para reverter o insano e sangrento conflito.

Não é tão fácil, como você diz, defender a paz. Militantes do Movimento Paz Agora tem saído às ruas de Israel, regularmente, na defesa de seus ideais, e condenando a violência e terror, judeu ou árabe, de mãos dadas, muitas vezes, com pacifistas árabes que compartilham de ideais similares, sofrendo ameaças concretas por parte de extremistas judeus e árabes. 

Emil Grunweig z'l

Emil Grunweig z'l

Um de seus militantes, Emil Grunzweig Z”L, numa das manifestações de massa que culminaram com o fim da inglória invasão do Líbano, foi assassinado, vítima de uma granada arremessada por um fanático israelense.

Várias vítimas da violência, no lado palestino ou israelense tem sido, paradoxalmente, militantes pacifistas.

Os números são significativos, conquanto pensemos que cada vida humana tem valor inestimável. Gostaria apenas de citar o brasileiro Jorge Balasz Z”L, uma das muitas vítimas inocentes do atentado terrorista à pizzaria “Sbarro” em Jerusalém que, por toda vida, acreditou na convivência pacífica de israelenses e palestinos. Sus filha, a museóloga brasileira Deborah Brando Balasz da Costa Faria, após sobreviver ao mesmo horroroso atentado, veio a endossar, ao lado de centenas de ilustres brasileiros, a Declaração-Conjunta Israelense-Palestina pela Paz, cujo texto (que tivemos a iniciativa de divulgar aqui no Brasil, colhendo centenas de apoios)  teve em sua elaboração líderes do SHALOM ACHSHAV, ao lado de outras importantes lideranças israelenses e palestinas.

Outro exemplo da coragem dos ativistas do SHALOM ACHSHAV tem sido o fato de nunca terem deixado de se manifestar nas ruas em função das ameaças terroristas, que tem forçado milhões de israelenses a evitar comparecer a locais de aglomeração humana, e que já tem evitado até ir a cinemas e restaurantes por justo receio de ser vítimas de ataques terroristas. Em suas manifestações tem se destacado o simbolismo do repúdio à violência cega e suicida, indistintamente árabe ou judia, mediante um enorme conjunto de caixões (em número dolorosamente crescente), cada um dos quais coberto pela bandeira palestina ou israelense e homenageando cada uma das respectivas vítimas inocentes do conflito.


Estado e governo

X, creio que ambos defendemos, talvez com igual dedicação, o Estado de Israel. A diferença entre nós provavelmente se situe em você acreditar que Sharon se confunde com o Estado, e eu acreditar que a sua “política”, ou melhor, sua truculência, está levando à desintegração de Israel, pela corrosão dos ideais que motivaram sua criação e que assegurarão sua sobrevivência.

Não poupo críticas aos que alimentam o ódio de qualquer lado. E, mais do que isso, não poupo estímulos e elogios aos que, a favor da sobrevivência do estado judeu de Israel, ou defendendo a criação de um estado árabe-palestino, trilham através do diálogo, e da resistência à violência, o caminho da única solução viável e justa para o conflito: o estabelecimento e reconhecimento mútuo de dois estados livres e soberanos, com fronteiras mútua e internacionalmente aceitas, negociadas por ambas as partes com base na Linha Verde (fronteira pré-1967).


Propaganda de guerra

Não estamos engajados na guerra de propaganda que procura manipular os meios de comunicação pública, e que é travada entre aqueles que atribuem sempre AO OUTRO todas as responsabilidades e culpas pelo conflito. Nossa oposição não é unilateral, e porisso mesmo é muito menos fácil do que o alinhamento automático a eventuais lideranças de Israel ou do povo palestino.

Recusamo-nos a participar em qualquer lado desta guerra suja de propaganda, pois temos a consciência de que ela, de fato, tem o poder de alimentar o ódio, a desesperança e a incompreensão, a idéia de que não há com quem dialogar que está levando para um sangrento beco sem saída milhares de vítimas inocentes.

Shalom,

Ainda não perdemos a esperança….

PAZ, VAMOS BUSCÁ-LA, AGORA !

São Paulo, 27/07/2002

Moisés Storch é membro dos AMIGOS BRASILEIROS DO PAZ AGORA

Data: Fri, 26 Jul 2002 16:18:30 -0300

De: X  Assunto: Re: [Paz Agora] Governo Sharon Joga com o Futuro de Israel

Caro Moises,

O Movimento Paz Agora faz manifestações contra o governo de Israel pelas mortes de inocentes filhos / parentes / vizinhos de um dos maiores líderes assassinos do Hamas, que não mereciam morrer. O próprio consulado divulgou nota que você reproduziu aqui dizendo que lamenta essas mortes.

O Movimento Paz Agora não faz manifestações protestando quando morrem judeus civis nos atentados nas cidades de Israel. Não ficam divulgando quantas crianças judias ou quantos idosos já morreram nos atentados palestinos. Não se vê uma manifestação do Paz Agora pela paz contra as mortes judias em frente a uma representação diplomática palestina ou em frente da residência de uma autoridade palestina.

É mais fácil e menos arriscado fazer manifestações pela paz protestanto apenas quando morrem palestinos. Protestando contra judeus além de não correrem risco de vida vocês têm a simpatia do mundo inteiro de bandeja. Assumir a defesa de Israel é bem mais complicado em termos de “public relations”.

O nome não faz jus à coerência. Em vez de Movimento Paz Agora podia se chamar Movimento pela Paz Anti-Sharon ou Movimento pela Paz Pró Palestinos. Seria mais coerente com as posturas que têm adotado.

Um movimento cujo objetivo é a paz também deveria denunciar o engajamento na violência das autoridades palestinas e deveria estar lutando pela paz junto ao governo de Israel, abrindo caminhos, dialogando e dando sugestões para o governo. Mais eficaz do que fazer oposição unilateral.

Abraços, X

Sent: Friday, July 26, 2002 6:24 PM   Subject: Paz Agora
De: Y

Caro X:,

Você tem que falar onde tem chances de ser ouvido.

Quem tem que protestar contra os atentados Palestinos são os Palestinos.

Quem tem que protestar contra os atentados Israelenses são os Israelenses.

O Paz Agora tem marcado posição desde o inicio dos anos 80 e sua voz causou profundas modificações na postura Israelense.

Um de seus militantes foi assassinado por um israelense intolerante com a voz do outro.

Não se configura a tua afirmação de comodidade, muito ao contrário.

O Paz Agora vai continuar vivo (espero) muito depois que o Sharon deixar o governo.

Ele não é anti Sharon, é pró paz. Esteve ativo durante os governos trabalhistas e os de direita.

Não há dúvida que se houvesse um Paz Agora Palestino a situação hoje seria outra.

Mas creio que você concorda que a minha ética e o meu comportamento moral não devem ser ditados por meu vizinho. Temos que manter nossa postura independente da postura do vizinho e/ou do inimigo, claro que sem renunciar à nossa defesa.

O atentado de Gaza foi estúpido. Li um artigo israelense hoje que diz mais ou menos assim: “antigamente Israel conseguia matar elefantes com alfinetes , hoje usa elefantes para caçar os alfinetes”. Uma menção às ações do Mossad do passado quando, por exemplo, todos os reponsáveis pelo atentado das Olimpíadas de Munich foram eliminados sem causar danos colaterais a ninguém, inclusive os familiares dos criminosos, e as ações do governo Sharon, onde se joga uma bomba de uma tonelada em cima de uma área povoada, para matar uma pessoa.

Tudo tem limites. Creio que Israel irá seguramente perder a guerra se passar a adotar as práticas podres Palestinas e/ou Iraquianas, Sírias, etc. O Paz Agora tenta evitar que esse caminho se consagre.

Shabat Shalom

Y

                            Data: Sat, 27 Jul 2002 19:12:59 -0300   De:  Z  Assunto: Re: [Paz Agora] Governo Sharon Joga com o Futuro de Israel

X, Moisés, Y e demais amigos,

O que mais me causou estranheza nessa ação de Israel foi que ela se deu exatamente um dia após a notícia de que o Hamas estava disposto a cessar os ataques suicidas se Israel se retirasse dos territórios. Se o Hamas dá um pequeno passo em direção ao diálogo – e nesse caso, foi um passo largo, tratando-se do movimento extremista que é – qual seria a reação de um governo israelense que quisesse realmente o diálogo, a paz? Poderia ser algo assim: – OK, se num prazo de 2 meses não ocorrer nenhum novo atentado em Israel, retiramo-nos dos territórios. Mas não Sharon. A sua resposta ao pequeno mas significativo passo dado pelo Hamas, foi esse ataque sangrento. Causa-me vergonha e tristeza perceber que temos essa figura triste à frente do Estado de Israel.

Por mais que o governo de Israel tente justificar, parece-me que ficou clara a intenção de impedir que qualquer iniciativa de diálogo brote.

Shalom.

Z

[ Publicado na Lista PAZ AGORA/BR em 27/07/2002 ]

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